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Tempo de comboios

por Naçao Valente, em 15.02.18

No comboio dos atrasos vai gente que a gente esquece
Vai quem nunca chega a horas e às vezes nem aparece
Devagar devagarinho eu conheço tantos casos
De quem passa a vida inteira não comboios dos atrasos

                       Sebastião Antunes

No tempo, quase mítico, em que os comboios chegavam até a sitos recônditos de Portugal, eu fazia viagens com minha avó. Para ela, eram viagens de saudade para rever os filhos e os outros netos, que as distâncias, hoje curtas, tornavam difícil. Para mim, ainda não cota, nem diano, ia pelo prazer de sair daquele horizonte limitado, por serras que nos encerravam num microcosmos, só quebrado pelas ondas hertzianas, que moravam na taberna (chamada venda) do Armandinho, digo senhor Armandinho. (dobra a língua dizia a avó)
Saíamos, na velha camioneta, quando a luz jorrava por detrás dos montes, onde fora repousar das agruras de um dia duro. Depois de horas de sobe e desce, onde parecia que os serros é que se deslocavam, chegávamos à antiga Pax Júlia romana, hoje dita Beja. Aí repousávamos numa pensão familiar, onde os hóspedes transitórios seroavam contando histórias de vida, algumas mirabolantes, que muito me encantavam.
Ao romper de mais um dia íamos até à estação ferroviária, onde as locomotivas, expelindo fumo, como fumador viciado, se preparavam para rebocar carruagens cheias de vidas em movimento. Anciãos com os seus fatos de serrobeco, velhas senhoras com os seus longos vestidos de chita, e o inseparável lenço na cabeça, algumas damas de ouro e alguns valetes aperaltados, dividiam-se no cais para tomarem o seu lugar. Nós íamos na carruagem de terceira, com bancos de pau envernizado. Outros iam em segunda ou em primeira de acordo com as suas posses, mas todos partíamos e chegávamos à mesma hora.
Quando o chefe da estação levantava a bandeira e soprava um apito estridente para dar a partida, aquela geringonça, gemia num som de ferros que se afagavam, e arrancava aos solavancos como se tivesse pouca vontade de ir a algum sítio. Depois, a pouco e pouco, “pouca terra, pouca terra”, ganhava confiança e velocidade, deixando espantada a passarada, que pousava sem pagar bilhete no seu telhado. O fumo saído da chaminé da máquina, escorria ao lado das janelas, sobre as quais era proibido debruçarmo-nos. Um vendedor de tecidos, muito viajado, entretinha os outros passageiros, com as suas aventuras ferroviárias. Uma delas deixava-me, na minha ingenuidade verdadeiramente  assustado. Dizia o fulano, que um dia o comboio se incendiou, e que teve de saltar pela janela, mas acentuava, só depois de atirar o fardo de fazendas, a sua riqueza e porque isso sim tinha que se salvar.
Na nossa viagem tínhamos de mudar pelo menos duas vezes de comboio, informação que a minha avó, semianalfabeta, mas muito desenrascada, conhecia a preceito. Nunca se enganou, num transbordo. A técnica dela era simples: quando chegava a uma estação de mudança, perguntava a um funcionário, a que horas e em que linha parava o nosso comboio. Recebida a resposta, voltava a fazer a mesma pergunta a outros ferroviários. Não haja dúvidas, método científico infalível. Só depois de testar a informação, várias vezes, com o mesma  resposta estava garantido o resultado.

Neste comboio, ronceiro, não havia muitos atrasos, nem gente que andava sempre atrasada. E se em cada estação mudavam as pessoas continuava a mesma convivência simples e despretensiosa. Era um país sem pressas, que ali viajava, mas que chegava sempre a qualquer lugar. Não havia cotas e muito menos dianos. Havia velhos, moços, de todos os géneros e feitios , bias, tós, chicos, manéis, zés, como este escriba, com pouco ou nenhum tempo,  para estados d`alma depressivos. Palavra de escuteiro do
Cota-diano
E para quem gosta de uma canção tradicional, aqui vai o link: o comboio da Beira Baixa:

 

 

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publicado às 21:47





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