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Esposas de Viseu

por Naçao Valente, em 20.04.13

O site tem uma mensagem curta e directa: «Saiba quem são os homens porcos de Viseu que enganam as nossas conterrâneas!».

E após uma breve explicação, surge a lista de matrículas e modelos automóveis dos clientes destas prostitutas. «Para que as nossas conterrâneas não continuem a ser enganadas por homens porcos que as enganam e tiram da mesa para andarem nas prostitutas da Quinta do Grilo e do Galo, em Viseu. Saiba aqui quem eles são». O site pode ser visitado aqui: http://esposasdeviseu.wordpress.com/

Transcrito do site do Jornal Sol

 

Chamam-lhe a mais velha profissão do mundo. Mulheres de todas as cores exercem-na em todos os continentes. Decerto por variadas razões, mas isso agora não vem ao caso. O que vem mesmo a talhe de foice é a criação do movimento Esposas de Viseu  que um pouco à semelhança do movimento Mães de Bragança, há uns anos, vem a terreiro defender a moral e os bons costumes. De forma curta e grossa chamam aos eventuais frequentadores d porcos e enganadores. Mas pasme-se, ainda foram mais além: criaram uma espécie de index, onde pespegam as matriculas dos carros que por ali andam e que diga-se de passagem, vão deste modestos fiates a poderosos mercedes, o que comprova a transversalidade da coisa.

 

 A prostituição é uma realidade nas nossas sociedades. E tirando o facto de ser exercida de forma coerciva, é uma opção de vida, por razões discutíveis, de algumas mulheres. Existe enquanto existirem homens ou mulheres ( também existe prostituição masculina) que procurem  estes serviços. O que me parece mais discutível neste tipo de movimentos, é o julgamento moral que fazem dos utilizadores dos locais de sexo pago. Dos de Viseu especificamente e generalizando de todos, pretéritos, presentes e futuros. Com todo o respeito pelas "esposas" esta não é certamente a melhor forma de combater a prostituição ou até o incómodo que o folclore que lhe está associado pode causar. Há outros processos, seguramente mais eficazes. Perdoem-me mas não consigo levar isto muito a sério, por mais razões que tenham as queixosas.  Olhem, se as matrículas dos vossos consortes estiveram no Index, tirem-lhes a chave. Se não tiverem tirem por precaução. Se quiserem ir que vão a pé, fazem exercício e poupam no combustível. Deveras importante no tempos que vivemos.

 

MG

 

PS Afirmo por minha honra que a matrícula do meu carro não está lista. Que alívio. Já me basta ser designado de pig pelas agências de rating.

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publicado às 21:35

Literatura de cordel - fascículo V

por Naçao Valente, em 28.07.11

iconacional.blogspot.com

 

António Simplesmente

 

Tempo de corvos

 

Dias depois de completar doze anos, António ia partir para Viseu. Enquanto esperava pelo comboio na companhia da sua mãe, lembrou-se do primeiro dia em que frequentara a escola primária e do ar curioso e assustado dos meninos que com ele ocupavam a mesma trincheira da pobreza. Nascer pobre numa aldeia de um país periférico e atrasado significava, no final conturbado do século XIX, ter como destino a vida dura e austera de gerações de camponeses cujos horizontes se perdiam nas faldas da serras adamastóricas que aprisionavam vidas e sonhos. A fuga consentida para os jovens, com pacto secular com a miséria passava pela missão de servir nos caminhos do Senhor. Esse passo maior que as suas débeis pernas ia António dá-lo naquela manhã submersa a caminho do Seminário menor. Quando a máquina que se arrastava envolta numa nuvem de fumo, assomou da última curva e se aproximou da estação, pouca terra, pouca terra, António menino que queria ser forte,  sentiu as pernas fraquejar e não conseguiu segurar uma lágrima que teimosamente lhe acarinhou o magro rosto. Um apito estridente, logo abafado por um longo silvo que escorregou pelas profundezas do vale do Dão, pôs aquela engrenagem de ferro e fogo em marcha cada vez mais acelerada. António encostado ao ombro da mãe, viu no cais os braços das irmãs a afastar-se como se resolvessem viajar para outras paragens. Mas para além da ilusão óptica, quem se afastava para um mundo povoado de sotainas pretas era ele.

 

Por detrás daquele muros rigorosamente vigiados, onde se produziam os discípulos de Pedro, os dias passavam sempre iguais: aulas, rezas, missas, tudo muito condimentado com muita disciplina castigos divinos e terrenos para quem não respeitasse as regras. Deitado na sua cama, nas longas noites de Inverno, António saltava todas as barreiras e voava para Oliveira do Dão e para a liberdade de correria, tanto quanto lho permitia o seu pé defeituoso, pelos campos abertos, agitando os milheirais, espantando a passarada do fim do dia, mergulhando nu nos pegos da ribeira (com os poucos moços que com ele se identificavam), nos  dias quentes de estio ouolhando a menina dos olhos verdes que à tardinha o espreitava da janela e com quem se via a passear de braço dado depois da missa domingueira. Mas quando regressava do devaneio entristecia profundamente. Como seria possível se ia ser padre? Que raio de vida a do pobre! 

 

António bem recomendado pela mãe e pela madrinha D. Efigénia, que lhe destinou a carreira eclesiástica , cumpria religiosamente as tarefas de seminarista. Habitou-se a sobreviver naquele meio hostil à sua natureza rural. Estabeleceu com os companheiros Américo e Marcelo uma cumplicidade que permitia amenizar  o ambiente soturno e escuro do seminário. Depois da missa de domingo davam uma volta pela cidade. As suas sotainas pretas distinguiam-se no meio do colorido que animava as ruas do centro. Donzelas provocadoras, olhavam-nos com malícia como tentações saídas do inferno. Pares de namorados circulavam em amena cavaqueira como se pertencessem a outro mundo. Regressavam ao Seminário esquecidos do cinzentismo que ajudavam a compor, mas com grandes interrogações próprias da adolescência. Desafiando o pecado não conseguiam tirar da mente a imagem daqueles corpos femininos que observavam nos seus passeios e na solidão das retretes não conseguiam fugir à sua natureza humana pecaminosa aliviando os seus impulsos sexuais. Anos antes quando esses desejos começaram a perturbá-los viram-se inocentemente a praticá-los em conjunto, chegando a fazer campeonatos de produtividade.

 

Um dia, ao abrir a sua Bíblia, António encontrou uma estranha mensagem. Com a  ajuda dos amigos procurarou descobrir o seu autor. Pela caligrafia associaram-na a Salomão um jovem estranho e portador de um olhar triste. "Se quiseres podemos ajudar-nos. Desabotoa dois botões da batina como sinal". Américo e Marcelo pensaram, pensaram e disseram a António:

-Não podemos entrar nos quartos dos outros, mas como as portas ficam abertas vamos espreitar o Salomão. Deslizaram como sombras ao longo do corredor e colados às paredes cinzentas foram-se aproximando do quarto suspeito. O silêncio do recolher pesava como chumbo. Os seus pés procuravam levitar para não despertarem nenhum demónio. Junto da porta olharam para o interior do quarto e os seus olhos não conseguiram enxergar no escuro denso, mas sons estranhos escapavam para o corredor. Um chiar de molas cansadas misturados com gemidos abafados desafiavam o silêncio obrigatório. Ao longe começaram a ouvir-se passos arrastados de pelo peso dos anos. A figura colossal do Director começou a vislumbrar-se na penumbra. Os três mosqueteiros da sobrevivência afastaram-se a tempo de um castigo exemplar.

 

Quando voltou para o ùltimo ano no Seminário menor António já não encontrou Salomão, tinha sido expulso. O grupo de António não sentiu a sua falta e este comentou para os outros:

-Ao menos livrou-se desta cruz. E nós conseguiremos? 

 

 

 

 

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publicado às 19:30

Meninas de Bragança

por Naçao Valente, em 18.09.10

Há anos houve as mães de Bragança por causa de umas meninas atrevidas que punham em risco os bons costumes e a unidade familiar. Segundo os relatos da época, essas senhoras de mau porte estariam a desviar os pais e também maridos da sua tradicional missão de exemplos de bom comportamento para as gerações vindouras.

 

Essa, pelos vistos, justa luta das abnegadas mães, parece ter dado bons frutos. Alguns anos depois, salva a moral  numa terra de gente pacata e trabalhadora os resultados estão à vista. Bragança volta aos ecrãs televisivos por razões bem mais nobres. Seis meninas de uma turma do 12.º ano entraram no Curso de Medicina com médias superiores a dezanove, fruto sem dúvida, segundo os testemunhos, de muito empenho, dedicação, esforço, entreajuda e solidariedade, para além das capacidades intrínsecas

.

 Estas meninas, que serão daqui a uns anos médicas tão necessárias ao depauperado serviço nacional de saúde, são o exemplo de que no interior deste rectângulo europeu existem mais- valias e massa critica como costumam dizer os entendidos. É  a melhor prova de que não é fechando escolas nos meios rurais ou criando mega agrupamentos que se aproveitam as sinergias existentes. Não é pondo toda a população à beira mar que se constrói um pais equilibrado. Esta básica capacidade de percepção parece não residir infelizmente na mente da classe política que nos governa. Tenhamos esperança que estas meninas de Bragança ou de Viseu ou de outros locais perdidos, consigam mudar este país e renovar as mentalidades, para que haja igualdade entre todas as meninas, estas e as outras escorraçadas em tempos pelas suas mães. Todas são necessárias. E ressalvando a exploração imanente, sempre condenável, a liberdade tem de ser um valor universal.

 

MG

 

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publicado às 19:37




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