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Viajar no tempo

por Naçao Valente, em 19.08.14

 

Viajar, é,  nos tempos que correm, não apenas uma necessidade, mas um acto lúdico. As viagens tornaram-se uma indústria, com peso significativo na economia da sociedade de consumo. O desenvolvimento do sector de transportes permite que se façam deslocações rápidas e fáceis entre países e continentes. Contudo, as grandes viagens são ainda um privilégio das bolsas mais recheadas. A maioria das populações viaja apenas virtualmente através dos media. A democratização política não passa de uma utopia no que diz respeito à distribuição da riqueza.

 

Há, no entanto, coisas que o dinheiro não pode comprar. Uma delas é o anseio, milenar, de viajar no tempo. As ditas máquinas que o permitem  fazem parte do mundo da ficção. No rompimento das barreiras temporais, a recriação de certos aspectos do passado, é o que mais se aproxima da realidade. De há anos a esta parte começaram a surgir as chamadas feiras medievais. Hoje proliferam por diversas localidades do nosso país. O facto é que são um acontecimento que tem forte adesão popular. Viajar ao passado tornou-se um hábito simbólico que casa ancestralidade com modernidade.

 

Santa Maria da Feira foi pioneira na realização destes eventos. Pela persistência e pela experiência é, hoje, a maior recriação da Idade Média, que se faz em Portugal. Este ano encantou durante dez dias cerca de meio milhão de visitantes. Quem ruma a terras de Santa Maria, sabe que pode contar com um espectáculo de qualidade, pautado pelo rigor histórico. E a participação do visitante está cada vez mais inserido no próprio espectáculo. No evento de 2014 dissecou-se o reinado conturbado de D. Sancho II. Uma lição de história viva, feita com profissionalismo. Uma viagem da qual saímos a pensar naquela que virá a seguir.

 

MG 

 

 

 

 

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publicado às 21:04

À saída espero por si

por Naçao Valente, em 16.08.13

 

Imagine que está numa terra que se assume, convictamente, medieval. Imagine que viajou para o reinado de Afonso II. Imagine-se numa luta contra os infiéis. Imagine-se a comer uma ementa das classes populares do século XII, obrigatoriamente sem colesterol. Imagine-se no solar das fogaças travestido de estalagem servido por atraentes estalajadeiras. Imagine que diz uma qualquer laracha dirigida aos acompanhantes quando está a ser servido por uma moça "medievalmente"  disfarçada. Imagine que após ouvir os seus comentários, ela lhe dirige a palavra dizendo: "quando eu saír volte a dizer-me isso." Imagine que está acompanhado por uma cara metade. Imagine tudo isto em Santa Maria da Feira, num tempo que sendo actual consegue ser simultaneamente passado.

 

Na realidade, por muito que imagine, não consigo ter o dom da ibiquidade e mandar metade de mim de regresso ao hotel com a dama de companhia oficial e ficar com a outra metade à espera que a moça acabasse o serviço que desempenhava, para voltar a dizer-lhe aquilo que, honestamente, não lhe disse. Porque o que disse não lhe era destinado, nem era nada que não pudesse ser dito publicamente. E se o que disse não foi o que ouviu, tinha interesse em saber o que queria, realmente, que lhe dissesse. Presumo que sendo ela na altura "medieval" e eu um turista de outro tempo não falássemos a mesma linguagem verbal.

 

Se estivesse estado na sua saída para lhe dizer "isso" e não estive por razões óbvias, talvez nos tivéssemos entendido na linguagem universal. Assim fica a persistente dúvida a atazanar-me o sossego. Assim fica a consciência pesada de ter deixado a moça pendurada, na saída, à espera que lhe dissesse o que não sabia que lhe havia de dizer. O que não tem remédio, remediado está, pelo menos até ao regresso da idade das trevas a Santa Maria da Feira. E aí espero voltar e estar atento à saída da estalajadeira, que quer que lhe repita a frase que nunca lhe disse, na esperança que o que lhe disser só faz sentido dito à saída.

 

MG  

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publicado às 22:10

A formiga no carreiro ia em sentido contrário

por Naçao Valente, em 13.08.13

O direito ao gozo de férias é uma conquista recente. Vem na sequências das lutas laborais e da ascensão ao poder de partidos de índole socialista. São um direito universal expresso na Declaração dos Direitos do Homem. Em Portugal, generalizam-se após o 25 de Abril de 1974. O conceito de férias  inicialmente associado ao direito ao lazer, acabou por dar azo a uma revolução na economia mundial, com a criação da indústria do turismo. Ironia das ironias é a classe empresarial, são os donos de dinheiro, que acabam por beneficiar deste direito popular, descobrindo uma nova forma de multiplicar o seu capital.

 

Durante longos meses de trabalho, os cidadãos sonham com a chegada desses dias de paragem na actividade profissional.  Paralelamente ao gozo de férias surgiu a moda dos banhos de mar. As longas praias da costa portuguesa, adormecidas durante séculos pelo embalo das ondas marítimas, foram acordadas por gente ruidosa e sequiosa de sol e mar no período estival. Quando chega o Verão o país entorna-se para o litoral, especialmente para o Sul na procura de calor e águas mais tépidas. A maioria dos que podem dar-se a esse pequeno luxo partem de armas e bagagens para as praias mais procuradas. Aterram na confusão das urbes marítimas, disputam milímetro a milímetro um lugar no areal. Embebedam-se de sal, torram-se de raios uv. Mais escaldão menos escaldão, sentem-se felizes e durante breves momentos alheiam-se das agruras da puta da vida.

 

Ao contrário da maioria dos que podem fazer férias fora de casa, não rumo, nesta época  ao Sul. Como a formiga no carreiro vou em sentido contrário. Longe do burburinho cosmopolita da área marítima rumo a Norte. Perco-me nas paisagens verdes das beiras e do Minho. Calcorreio as ruas de pequenas vilas, com alguns visitantes, mas onde se sente o genuíno pulsar dos autótones. Procuro saborear as gastronomias locais, com moderação, que a vida não está para luxos. Integro-me nas suas festas seculares e sinto-me no Portugal tradicional, embora modificado pela modernidade. Feirense em Santa Maria da Feira onde a sua viagem medieval é já uma instituição nacional, tripeiro na Invicta, ponte-limense em Ponte de Lima com a sua ponte romana e a sua arquitectura de belos solares, cerveirense em Vila Nova de Cerveira com a sua bienal. E muitas outras poderia referenciar. Descobrir este Portugal, mesmo se já descoberto, tem sempre um encanto renovado. E sem pôr em causa as virtualidades do litoral marítimo, acentuo, que mesmo para férias, existe outro país.

 

MG


   

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publicado às 21:19

A visita do povoador

por Naçao Valente, em 13.08.12

 

 

Apresento-vos Sancho Afonso, rei de um reino inventado por graça de Deus e do seu pai Afonso Henriques. Nos finais do século XII andou a espadeirar mourama em defesa da Fé católica e da construção de um reino. Consciente que um reino não sobrevive sem riqueza, mais que um conquistador foi um povoador. Nas terras menos povoadas do Sul estabeleceu colonos, criou concelhos, deu forais e isenções nas zonas fronteiriças. Para além da função reinante ainda teve tempo para fazer onze filhos legítimos e nove bastardos. E entre os que não vingaram e os que sobreviveram deixou vasta prole, dando importante contributo pessoal para o povoamento. Para a segurança da prole do sexo feminino D. Sancho reservou o castelo de Santa Maria da Feira.  

 

Oitocentos anos depois de ter partido deste mundo Sancho voltou a terras de Santa Maria. Ali veio veranear por dez dias e recordar tempos passados na companhia da sua mulher Dulce de Barcelona e de Maria Pais Ribeira conhecida como Ribeirinha com quem coabitou após a morte da legítima. Dias cansativos de governação. Noites intensas de amor e poesia na alcova ora fria ora quente do desconfortável castelo.

 

Certamente se espantou com o castelo renovado e mais acolhedor. Certamente foi invadido pela perplexidade do crescimento da velha urbe e pelo vasto povoamento de que foi um ideólogo e precursor. Certamente se sentiu actor de uma realidade desaparecida e espectador de uma realidade que nunca imaginou. Certamente invejou a vida daquela plebe alegre, despreocupada, bem vestida, limpa que o olhava com um misto de respeito e curiosidade. Certamente se lembrou, em contraponto, do seu povo miserável sujo e sofredor, toscamente vestido, que já era velho aos quarenta anos e que que tinha como única esperança a vida no paraíso do além. Certamente descobriu que o inferno eram aqueles tempos de má nutrição, de desconforto, de casebres insalubres, de ruas apertadas e malcheirosas. Certamente terá tristeza por voltar a esse passado. Certamente preferiria fugir da sua pele majestática e ficar por ali como mais um cidadão dos milhares que circulam anónimos e buliçosos por um tempo de faz de conta. Certamente.

 

Santa Maria da Feira, a rainha de todas as recriações do passado medieval, regressa, dez dias depois, ao seu presente de desenvolvimento e progresso. Terras de Santa Maria voltará daqui a um ano a mergulhar no seu passado cheio de acontecimentos. Sobretudo para que não se perca a sua memória nos livros poeirentos enclausurados nas estantes esquecidas das bibliotecas. Porque esta é a mais procurada lição de história.

 

MG

 

 

 

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publicado às 21:50




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