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Verão, qual verão

por Naçao Valente, em 26.07.18

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 Este verão é um incumpridor. Não cumpre o calendário. Ou sofre de amnésia, ou ainda dorme a sono solto. Quem ganha com esta displicência estival é a primavera. Lá vai ocupando o espaço do seu sucessor, que não aparece para mudar o turno. E os adoradores do calor, os que gostam de torrar nos areais que bordam o mar, e por aí andam deprimidos, a controlar o vício, que tenham um pouco de paciência.

Dizem que o verão foi para norte, dar um lamirezinho, aqueles deslavados da Escandinávia. Não sei quanto tempo  vai ficar por lá,  talvez não se demore muito e venha cumprir o contrato que tem connosco. Dizem que para a semana o tempo vai mesmo aquecer, e já vamos poder lagostar. Mas.ver para crer Como São Tomé. Cautela e caldos de galinha.

Eu não ando assim tão incomodado. Não sou muito exigente e até me contento, com este arremedo primaveril. Daquele calor de fritar ovos no capô do carro não tenho saudades. Se o verão genuíno quiser ficar mais um tempo lá para norte que fique. Para mim está bem assim. 

 

 

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publicado às 21:43

A formiga no carreiro ia em sentido contrário

por Naçao Valente, em 30.08.16

 

O direito ao gozo de férias é uma conquista recente. Vem na sequências das lutas laborais e da ascensão ao poder de partidos de índole socialista. São um direito universal expresso na Declaração dos Direitos do Homem. Em Portugal, generalizam-se após o 25 de Abril de 1974. O conceito de férias inicialmente associado ao direito ao lazer, acabou por dar azo a uma revolução na economia mundial, com a criação da indústria do turismo. Ironia das ironias é a classe empresarial, são os donos de dinheiro, que acabam por beneficiar deste direito popular, descobrindo uma nova forma de multiplicar o seu capital.

 

Durante longos meses de trabalho, os cidadãos sonham com a chegada desses dias de paragem na actividade profissional. Paralelamente ao gozo de férias surgiu a moda dos banhos de mar. As longas praias da costa portuguesa, adormecidas durante séculos pelo embalo das ondas marítimas, foram acordadas por gente ruidosa e sequiosa de sol e mar no período estival. Quando chega o Verão o país entorna-se para o litoral, especialmente para o Sul na procura de calor e águas mais tépidas. A maioria dos que podem dar-se a esse pequeno luxo partem de armas e bagagens para as praias mais procuradas. Aterram na confusão das urbes marítimas, disputam milímetro a milímetro um lugar no areal. Embebedam-se de sal, torram-se de raios uv. Mais escaldão menos escaldão, sentem-se felizes e durante breves momentos alheiam-se das agruras da puta da vida.

 

Ao contrário da maioria dos que podem fazer férias fora de casa, não rumo, nesta época ao Sul. Como a formiga no carreiro vou em sentido contrário. Longe do burburinho cosmopolita da área marítima rumo a Norte. Perco-me nas paisagens verdes das beiras e do Minho. Calcorreio as ruas de pequenas vilas, com alguns visitantes, mas onde se sente o genuíno pulsar dos autótones. Procuro saborear as gastronomias locais, com moderação, que a vida não está para luxos. Integro-me nas suas festas seculares e sinto-me no Portugal tradicional, embora modificado pela modernidade. Feirense em Santa Maria da Feira onde a sua viagem medieval é já uma instituição nacional, tripeiro na Invicta, ponte-limense em Ponte de Lima com a sua ponte romana e a sua arquitectura de belos solares, cerveirense em Vila Nova de Cerveira com a sua bienal. E muitas outras poderia referenciar. Descobrir este Portugal, mesmo se já descoberto, tem sempre um encanto renovado. E sem pôr em causa as virtualidades do litoral marítimo, acentuo, que mesmo para férias, existe outro país.

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publicado às 23:16

Porra, o moço já partiu os cornos

por Naçao Valente, em 18.07.15

Nas últimas décadas do século XX, no verão, as nossas estradas, de má qualidade, animavam-se com a invasão de carros de grande cilindrada e matrícula estrangeira. Eram os emigrantes portugueses vindos da Europa desenvolvida e que vinham de "vacances" à terra mais madrasta que mãe. Para além do carro, portador de estatuto social, usavam a língua do país de acolhimento para o mesmo efeito. Ainda hoje se utiliza, com carácter anedótico, a expressão:

- Jean Pierre, faire attention, tu va tomber!

...porra... o moço já partiu os cornos!

 

A entrada na comunidade europeia trouxe fundos e mais fundos. Uns perdidos, outros aplicados, com alguma utilidade. Está neste caso a melhoria de infra-estruturas, nomeadamente as estradas. A prosperidade pouco consistente, trazida pelos dinheiros europeus, permitiu que Portugal, no início do século XXI, passasse de país de emigração a país de imigração. Fomos inundados por emigrantes de leste e do Brasil. Os carros dos emigrantes tugas foram diminuindo nas modernas auto estradas.

 

Durante este verão, nos meus percursos por esse Portugal, de norte a sul, pareceu-me ter regressado ao passado.Os automóveis de matrícula estrangeira voltaram em força. Com uma pequena diferença: a cilindrada não me parece tão elevada. Sinal dos tempos. Contudo, o que merece ser assinalado é que bastaram quatro anos para recuarmos ao tempo de um país de emigração, como uma sina traçada na palma da mão. E esse é um destino, que nos é proporcionado por uma elite de gente medíocre, a quem temos entregado, de mão beijada, a direcção desta nação secular. Mas se já saímos doutras situações obscuras, também, sairemos desta. E apenas ouviremos dizer às nossas crianças:

 Tem orgulho, João Pedro, nasceste na mais antiga nação da Europa.

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publicado às 22:28

Delim delão

por Naçao Valente, em 12.07.15

toca o sino

pra procissão

corre o emigra

no seu carrão

estala o foguete

na festa de verão

 

O rosmaninho

rasteja no chão

milhares de rodas

comem alcatrão

baratas tontas

em diversão

felicidade

em poluição

 

À romaria

chega o ladrão

com  muitos sorrisos

semeia ilusão

parte confortado

por grande ovação

o sino repica

pra corrupção

 

Roubam a seara

pra tirar-lhe o pão

espremem o suor

como um limão

esquece-se a injustiça

e a aflição

pára a caravana

e passa o cão

 

Morra o otário

viva o ladrão

mais o vigário

e o patrão

da nação

delim delão

toca o sino

para a extorsão

 

 

Prenhes as praias

de multidão

tostam  os corpos

rolando no chão

cantam hossanas

ao bendito verão

nas águas mergulha

uma ficção

 

Soam as trombetas

e nasce a canção

jovens imberbes

dormindo no chão

juntam os corpos

em comunhão

incham os ventres

porque é o verão 

 

Velho reformado

conta a pensão

leva o andor

vai na procissão

pede a Deus

só mais um tostão

que estes daqui

Já não lh`o dão.

 

O poeta triste

faz uma canção

poema sem rima

exprime a emoção

ninguém o entende

que desilusão

entre ladainhas

passa a frustração

 

Faz-se sementeira

de mais ilusão

a chuva do medo

raio! apaga o verão

já não toca o sino

para a procissão

Delim delim

Delão delão

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publicado às 19:25

Jean Pierre, tu va tomber

por Naçao Valente, em 30.08.14

Nas últimas décadas do século XX, no verão, as nossas estradas, de má qualidade, animavam-se com a invasão de carros de grande cilindrada e matrícula estrangeira. Eram os emigrantes portugueses vindos da Europa desenvolvida e que vinham de "vacances" à terra mais madrasta que mãe. Para além do carro, portador de estatuto social, usavam a língua do país de acolhimento para o mesmo efeito. Ainda hoje se utiliza, com carácter anedótico, a expressão:

- Jean Pierre, faire attention, tu va tomber!

...porra o moço já partiu os cornos!

 

A entrada na comunidade europeia trouxe fundos e mais fundos. Uns perdidos, outros aplicados, com alguma utilidade. Está neste caso a melhoria de infra-estruturas, nomeadamente as estradas. A prosperidade pouco consistente, trazida pelos dinheiros europeus, permitiu que Portugal, no início do século XXI, passasse de país de emigração a país de imigração. Fomos inundados por emigrantes de leste e do Brasil. Os carros dos emigrantes tugas foram diminuindo nas modernas auto estradas.

 

Durante este verão, nos meus percursos por esse Portugal, de norte a sul, pareceu-me ter regressado ao passado.Os automóveis de matrícula estrangeira voltaram em força. Com uma pequena diferença: a cilindrada não me parece tão elevada. Sinal dos tempos. Contudo, o que merece ser assinalado é que bastaram três anos para recuarmos ao tempo de um país de emigração, como uma sina traçada na palma da mão. E esse é um destino, que nos é proporcionado por uma elite de gente medíocre, a quem temos entregado, de mão beijada, a direcção desta nação secular. Mas se já saímos doutras situações obscuras, também, sairemos desta. E apenas ouviremos dizer às nossas crianças:

 Tem orgulho, João Pedro, nasceste na mais antiga nação da Europa.

 

MG

 

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publicado às 22:45

Delim delão porque é verão

por Naçao Valente, em 25.07.14

 

 

toca o sino

pra procissão

corre o emigra

no seu carrão

estala o foguete

no pino do verão

 

O rosmaninho

rasteja no chão

milhares de rodas

comem alcatrão

baratas tontas

em diversão

felicidade

em poluição

 

À romaria

chega o ladrão

com  muitos sorrisos

semeia ilusão

parte confortado

por grande ovação

o sino repica

pra corrupção

 

Roubam a seara

pra tirar-lhe o pão

espremem o suor

como a um limão

esquece-se a injustiça

e a aflição

pára a caravana

e passa o cão

 

Morra o otário

viva o ladrão

mais o vigário

e o patrão

da nação

delim delão

toca o sino

para a extorsão

 

 

Prenhes as praias

de multidão

tostam  os corpos

rolando no chão

cantam hossanas

ao bendito verão

nas águas mergulha

uma ficção

 

Soam as trombetas

e nasce a canção

jovens imberbes

dormindo no chão

juntam os corpos

em comunhão

incham os ventres

porque é o verão 

 

Velho reformado

conta a pensão

leva o andor

vai na procissão

pede a Deus

só mais um tostão

que estes daqui

Já não lh`o dão.

 

O poeta triste

faz uma canção

poema sem rima

exprime a emoção

ninguém o entende

que desilusão

entre ladainhas

passa a frustração

 

Faz-se sementeira

de mais ilusão

a chuva do medo

raio! apaga o verão

já não toca o sino

para a procissão

Delim delim

Delão delão

 

MG

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publicado às 23:19

Lili

por Naçao Valente, em 23.07.14

A crise da natalidade não se nota na presença de mulheres nos mais diversos serviços. Ainda bem. Em escolas, em hospitais, no comércio, nas compras parecem-me sempre em maioria. Além disso estão cada vez mais bonitas. Mas, modéstia à parte, os homens não lhe ficam atrás. Na pastelaria onde vou tomar café o serviço é prestado exclusivamente por lindas senhoritas. É , foi e será. De quando em vez há renovação de pessoal e lá vêm novas caras larocas

 

A última aquisição dessa pastelaria chama-se Lili, Veio com os primeiros odores do verão. Com mesma simpatia, a mesma eficiência, mas completamente diferente das suas antecessoras. A empregada que me atendia antes era para o rechonchudo, ligeiramente loira, reservada e tirava-me um café leve e delicioso. A Lili é morena, expansiva qb, e um símbolo de elegância. É tão magra, que parece transparente. Quando se desloca não anda desliza, e serve-me um café mais denso, mais pesado que contrasta com a leveza do seu ser, mas também delicioso.

 

A Lili encanta-me com a sua simplicidade a roçar a ingenuidade. Já conhece o meu gosto e a nossa comunicação dispensa palavras. Olhares, sorrisos e cumplicidades . O actual estado passou, contudo, por um processo de conhecimento gradual. Primeiro fazia-lhe o meu pedido com todas as letras, depois eu começava a frase e ela acabava-a, ou seja "quero um carioca cheio"..." com adoçante" acrescentava ela muito depressa para mostrar que fazia progressos. Agora é como se nos conhecêssemos para a eternidade.

 

Admito que não sou propriamente jovem. O cartão de cidadão não me deixa mentir. No entanto, o meu espírito recusa-se a assumir essa realidade. A Lili não precisa de artifícios para assumir a juventude. É mesmo jovem. Mas quando  os olhares se fundem desvanece-se essa diferença. Melhor, quando os olhos se confundem, sinto que retornei ao tempo de todas as ilusões. A Lili não  se limita a servir-me um saboroso e quente café. Aquece-me a existência e permite-me saboreá-la com os sabores dos frutos proibidos.

 

Um dia a Lili, partirá, como a Cláudia, a Catarina entre outras. Vou ter pena. Do seu sorriso, do seu olhar doce, do seu andar ondulante e até de uma ou outra expressão de disfarçada tristeza. Guarda-la-ei num recantinho da memória. Depois, virá outra Lili, e começará tudo de novo. É assim a vida, um carrocel de encontros e desencontros. Nova corrida nova viagem até que o carrocel não traga mais lilis. Apenas a ausência de qualquer memória.

 

MG 

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publicado às 22:51

Estou na lua

por Naçao Valente, em 20.07.14

 

Há quarenta e cinco anos o homem pôs o pé no terreno lunar. Mas assim como foi, veio. Não se deu bem por lá. E a razão mais evidente é que para lá não voltou. Houvesse por lá algum arzinho respirável e algumas riquezas naturais de fácil acesso, já teria começado a corrida. E teria começado a disputa entre as grandes potências. Mas ainda bem que as paragens lunares não atraem os "terráqueos". Conflitos já chegam e sobram os que por aqui existem.

 

Mesmo sem a ida para o nosso satélite há muita gente que por lá anda. Se assim não fosse não faria sentido a expressão "estás na lua".  Estar na lua, significa, neste contexto, pairar acima da realidade. Significa tirar os pés da terra. Significa estar pertinho lá do céu, ou seja do paraíso. É por essas e por outras que os que vivem neste mundo cão vão fazendo das suas. Os do BES ou do GES, os da PT que se perdem num rio forte e caudaloso, e vão gastando à tripa forra aquilo que acumulamos. Mas como estamos na lua tanto faz. E quando descermos, para respirar, já só resta mesmo o ar. Valha-nos isso e um bom tempo de verão .

 

MG

 

 

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publicado às 23:30

Poema de verão

por Naçao Valente, em 01.07.14

 Fosse eu Sol

ou fosse vento,

nos teus braços

me acolhia,

e no calor do

abraço

encantado

adormecia.

 

Se fosse azul

de céu,

fosse mar

ou maresia,

nos teus olhos

me afogava

nos teus olhos

renascia.

 

 

Se fosse duna

e areia,

onda  praia

e calor,

me enroscava

no teu corpo

contigo fazia

amor.

 

Se luz fosse,

escuridão,

fosse noite

fosse

dia,

me deitava

no teu sono

e no teu sonho

vivia.

 

MG

 

 

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publicado às 20:04

Encontro adiado

por Naçao Valente, em 10.02.14

desaba...

 

 

Numa noite de um verão porque suspiro. Que saudades! Numa esplanada cheia de alegres convivas. Crise, qual crise? Uma mocinha fina nos modos e no perfil, servia um pouco afogueada acalorados clientes. Bebia um fino com todo o gosto, disse. Diga-me isso quando sair, respondeu-me. Surpresa! Saí a pensar o que fazer. Não voltei a dizer! Nos piores momentos deste inverno chuvoso, frio, triste, lembro-me da mocinha que servia numa esplanada. Anseio pela chegada do verão. Desespero por voltar aquele local e voltar a pedir um fino à fina menina que me me marcou encontro para a saída. Faltei! Vou corrigir a indelicadeza mal chegue Agosto. É apenas um encontro adiado.

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publicado às 16:23




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