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Namorar não tem idade, nem dia

por Naçao Valente, em 15.02.15

Rita (nome fictício) entrou numa sala de professores com um ar estranhamente afogueado. A professora na casa dos cinquenta dirigiu-se a uma colega com quem partilhava cumplicidades e entregou-lhe um pequeno e amarrotado pedaço de papel. Encontrei-o no para brisas do carro, no estacionamento do pingo doce. (passe a publicidade que o unhas de fome do Jerónimo Martins não me paga nem um cêntimo furado) A colega solicitada leu um pequeno texto em letra de forma:

 

 

 A MULHER É COMO O VINHO

 QUANDO TEM QUALIDADE

 SE TRATADA COM CARINHO

 MEHORA COM A IDADe

 

 OS MEUS OLHOS GANHAM BRILHO

 O MEU CORAÇÃO ACELERA

 MESMO QUE ARRANJE SARILHO

 ESTOU FIEL À SUA ESPERA

 

ADMIRADOR CONFESSO

DA SUA CALMA BELEZA

DE CORPO E ALMA ME OFEREÇO

 

E COM TODA A GENTILEZA

ESTOU CONVICTO QUE MEREÇO

SER SÚBDITO DE VOSSA ALTEZA

 

CONTACTE-ME: 9xxxxxxx

 

  

Fiquei muito perturbada disse a  descasada Rita, procurando controlar a emoção na voz. Vou-te fazer uma confidência de mulher para mulher: tenho as hormonas aos saltos de tal maneira, que até me cresceram as mamas. Depois de desabafar Rita foi ganhando serenidade e procurou esquecer o incidente. Entretanto o acontecimento foi passando de boca em boca até ser conhecido por toda a comunidade docente. E de tal modo pegou nas mentes femininas, que os habituais cumprimentos foram substituídos entre o mulherio pela frase, "hoje já foste ao pingo doce?". E porque a língua portuguesa é muito traiçoeira as respostas variam de acordo com a protagonista. Assim uma trintona à toa na vida respondeu: já fui ao pingo doce mas continuo na amargura. Uma quarentona mal casada garantiu: já fui ao pingo doce toda empinocada mas ninguém me viu. Uma recentemente descasada que arranjou passarinho novo confessou: já lá fui (sem ter ido) e dei-me muito bem.Repito: a língua portuguesa é mesmo muito traiçoeira.

 

Tenho estado a matutar no desvario que vai na cabeça de tanta dama e começo a concluir que naquele parque de estacionamento deve haver um  constante corropio. Até começo a ter pena do poeta sedutor. Com tanta oferta não vai ter mãos a medir, nem vai dar conta do recado. Em verdade garanto que estava a pensar reformar-me nessa área. Contudo, a minha costela solidária está-me a empurrar para o terreno a fim de ajudar o assorbebado sedutor. Não sei se sou poeta e sedutor, admito que seja mas pouco. Mesmo assim vou montar banca num pingo doce perto de si para procurar dar resposta a tão prementes necessidades. De tal modo que já comecei a alinhavar uns versos adequados a diversas situações. Se aparecer uma com as medidas bem certinhas escreverei:

 

Nem a Vénus de Milo

em todo o seu esplendor

 exalava tanto estilo

e emanava tanto amor

 

Se a candidata for mais para as formas arredondadas arrisco:

 

 No dia mais luminoso

 ou na noite mais escura

 essas formas sinuosas

 são poemas de ternura

 levam um santo à loucura

 

Se tiver olhos azuis:

 

Olhos de grande beleza

que fazem lembrar o mar

e eu tenho uma certeza

neles me quero afogar

 

Se tiver um jeito inseguro:

 

 Essa postura insegura

segura de formosura

esconde uma alma pura

Que precisa de ternura

  

Se tiver um aspecto algo deslavado:

 

Nem tudo o que brilha é ouro

em nada existe certeza

o mais famoso tesouro

pode não estar na beleza

 

Se for pouco avantajada:

 

A mulher e a petinga

tem o charme das rosas

podem ser bem pequeninas

que até são mais saborosas

 

E por aí fora. Terminarei sempre com esta quadra:

 

Eu não sou um pinga amor

sou um homem de respeito

e estou aqui com fervor

prá receber no meu peito

 

 

E pronto. Agora é só lançar o anzol e esperar que o peixe pique na minhoca, especialmente o esfomeado. Agora é só lançar a escada para socorrer as aflitas. Agora é semear e esperar que a fruta amadureça e me caia no regaço. Espero no entanto que a colheita não seja em excesso se não o feitiço  pode virar-se contra o feitiçeiro. E aí  vou-me arrepender por me meter onde não sou chamado, só por causa da minha costela solidária. No princípio foi de uma costela solidária que nasceu a mulher, agora e neste caso pode lixar o homem Contudo arrisco por um bom namoro, seja ou não dia de S. Valentim.

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publicado às 01:01

6-A minha vida não dava um romance

por Naçao Valente, em 21.01.15

E agora José?

 

Caí de paraquedas naquela turma de preparação para o ensino superior. Nem sabia o que ia lá fazer. Há razões que a razão desconhece. Talvez estivesse ali para preparar as provas de acesso, talvez quisesse ocupar tempo sem ocupação, talvez fosse determinação do destino. Quem sabe? Se calhar, nem Deus .As aulas tinham começado há algum tempo. Os outros alunos já se conheciam, mas eu, que não sou muito ousada, sentia-me um pouco à margem. Era uma espécie de patinha feia.

Um dos colegas que me prendeu a atenção foi o Zé. E por duas razões: tinha a sensação que o conhecia de qualquer lado e porque ele costumava dar nas vistas durante os debates. Na primeira aula de Filosofia a que assisti a propósito de filósofos pré-socráticos, o professor referia a oposição entre Parménides e Heraclito. O primeiro explicava o mundo como uma permanência e o segundo defendia a constante mudança. Ninguém consegue tomar banho duas vezes no mesmo rio, era um dos seus argumentos. Lembro-me que o Zé entrou na discussão desviando o assunto para a área politica. Dizia ele “ é o que se passa cá com a intersindical e com a UGT” .Uns querem ser os únicos os outros reivindicam o direito à diferença. Estávamos no chamado PREC e deu para ver que o Zé se assumia como ativista militante.

Notei que o Zé se sentava-se ao lado duma lambisgoia de grandes olhos e tão negros como carvão. Verifiquei que no fim das aulas saiam juntos com outros colegas, formando um grupo que se juntava no fim das aulas. Passado algum tempo , o Zé e a delambida deixaram de se sentar juntos. O Zé sentava-se na fila da frente e eu na última. Um dia o Zé virou-se para trás e pousou o olhar na minha pessoa sem pedir licença. Mas não me amofinei. Antes pelo contrário, deixei os meus olhos voar ao encontro dos seus. Enfeitei esse voo com o meu melhor sorriso. Depois subiu-me um calor dos pés para todo o corpo. E vi-me a questionar a minha lucidez “Maria Alice, Maria Alice, estás a desvalorizar-te”

Não sonhava que naquele ano de setenta e cinco ia haver um verão tãoquente. Na natureza e no dia a dia. Desiludi-me com a política partidário e com os pequenos e grandes interesses que a moviam, e dei de frosque. Tinha concluído o curso liceal e para melhorar conhecimentos matriculei-me no curso Hadoque para acesso à Universidade.

Essa turma era constituída por um grupo muito heterogéneo. Uns preparavam-se para os exames de acesso, outros nem por isso. Nessa situação encontrava-se Lígia Maria, que nos seus grandes olhos pretos, trazia a tristeza de uma relação terminada. Viúva de sentimentos, frágil de confiança, ganhou coragem para chorar no meu ombro. Que podia fazer? Acho até que sou feito da massa dos anjos. Com uma diferença é que ao invés dos ditos, acrescentara-me o sexo. Nessa dupla condição fui confortando a Lígia conforme podia e sabia. Depois das aulas que terminavam às onze, íamos até ao velho Império para estudar. Hoje virou igreja, mas naquela altura era cinema e um café cosmopolita. Tínhamos um pequeno grupo, que noite adentro, matava o tempo, num animado bate-papo, ao sabor das palavras que segundo se diz são como as cerejas. Além da minha pessoa e da menina dos olhos grandes, havia o António Feliz que tinha sido deixado em terra por uma hospedeira de bordo., e havia o Marinho que tinha vertigens e não gostava de corpos femininos porque eram muito sinuosos.

Como não há bem que sempre dure desentendi-me com a Lígia, nem me lembro

bem porquê. Possivelmente por ninharias. É por aí que começam os desentendimentos. De qualquer modo, ela tinha encontrado o tempo de equilíbrio e, se calhar, desejava um diabo que a desequilibrasse. Ingrata.

Comecei, então, a reparar numa novata, discreta, que se sentava na coxia da sala. Catrapiscámo-nos. No intervalo trocávamos umas ideias sobre os assuntos da aula. Transmitia alguma serenidade e ajudou-me a colocar na caixa das memórias esquecidas a menina dos olhos negros.

Quando a delambida se deixou de se sentar ao lado do Zé, enchi-me de coragem e aproximei-me com o pretexto de lhe pedir que me esclarecesse algumas dúvidas. Mas as minhas dúvidas não se prendiam com a matéria. Nem eu sei porque lhe estava a dar bola. Receava estar a ficar oferecida. Por outro lado estava certa quando me pareceu que já tinha visto o Zé. E tinha. Afinal trabalhávamos na mesma empresa, em secções e edifícios diferentes. Eu trabalhava na secção de pessoal onde lidava com processos de trabalhadores. Recordei-me que o processo do Zé tinha-me passado pelas mãos, e reconheci-o na fotografia. Mas ao vivo não desmerecia.

 

No fim do ano lectivo toda a turma se juntou para conviver incluindo os professores. O Império era o ponto de reunião. Fomos informados que iriamos para uma discoteca na zona histórica. Distribuímo-nos pelos carros disponíveis e quando me apercebi estava no carro do Zé. Só nós dois. Partimos para o local combinado. No decurso da viagem caiu um aguaceiro de criar bicho. Perdemo-nos dos restantes e enganámo-nos no percurso. Ao entrarmos na discoteca uma voz anunciava furiosamente. “A menina da gabardine creme e o cavalheiro de bigode não têm lugar. De facto, não cabia naquele sítio nem sequer uma agulha. Fizemos ouvidos de mercador e furámos por entre uma multidão anestesiada. Dos colegas nem havia rasto. Perguntamos ao porteiro se ali tinha estado um grupo numeroso. Disse-nos que sim, mas como não havia lugar tinham ido embora. Admitiu que o informaram do local mas não se recordava. Passámos a noite a subir a descer colinas de discoteca em discoteca, como passageiros perdidos na chuva. Era como procurar o Wally.

Ao dobrar da noite conferenciamos e decidimos desistir. Lembro-me de ter dito: “uma noite para esquecer” e de o Zé ter respondido, “talvez seja para recordar”. E foi.

Na noite em que me perdi com a Maria Alice numa Lisboa diluviana, enquanto os outros companheiros de estudo, estavam num aconchego seco e agradável, a deglutir uma saborosa bebida e abanar o capacete, como se dizia, tive a convicção que me começava a meter em sarilhos. Debaixo de um aguaceiro impiedoso , por ruas quase rios, perdemos o contacto. Mas porque raio os alarves não esperaram que chegássemos? E para além de ficar com a criança no colo, (salvo seja) quando nos voltámos a encontrar, ainda me acusaram de me ter afastado para desencaminhar a donzela. Uma ova. Não queria desiludir a moça que confiara na minha competência e fiz das tripas coração para levar a carta a Garcia. Senti-me um pouco ridículo , mas ao fim e ao cabo a ela não me pareceu muito aborrecida.

Primeira paragem: cabine telefónica. Procurar desesperadamente nomes de discotecas

E a Maria Alice à espera no carro

Segunda paragem: regresso à discoteca original para ler a lista ao porteiro, na esperança que se lembrasse de um nome que me orientasse.

E a Maria Alice à espera

Terceira paragem: discoteca Boa Noite. Entrar, sair e nada.

E a Maria Alice a seguir o delírio.

Mais e mais do mesmo. E a Maria Alice com uma paciência de santa.

Fizemos os exames de acesso à Universidade. Uma pequena parte da turma entrou para a Faculdade de Letras. Aproveitámos o balanço e constituímo-nos em grupo de trabalho. No primeiro tema que tivemos que desenvolver distribuímos tarefas e depois reunimo-nos para concluir. Quando a Maria Alice apresentou a sua parte, o António Feliz, que devia estar num dia não, arrasou o texto da moça. Imagino como ela se deve ter sentido, mas reagiu serenamente. Disse que se afastava do grupo, contudo deixaria o seu contributo se assim quisessem. Na sequência deste acontecimento desistiu dessa e de outras cadeiras. Ainda tentei que reconsiderasse. Em vão. Manteve-se firme. Deixei de a ver.

No ano a seguir à conclusão do curso, porque tive saudades do ambiente universitário e porque queria fugir à rotina da análise de dados, matriculei-me em duas cadeiras suplementares. Na empresa continuava entre a cruz e a caldeirinha, isto é entre o chefe e a menina Maria Ana. Para mais já não ia a despacho com o engenheiro Casanova.A versaão oficial era que o engenheiro tinha ido fazer uma actualização aos Estados Unidos. Numa outra versão constava que teria pediu transferência porque a menina Ana era muito exigente.

Fosse porque razão fosse a Maria Ana tentou reaproximar-se de mim. Lembro-me que, da minha janela, olhava para o cais e via os barcos parados. Senti que esse navio já tinha deixado o porto.

Entretanto começaram as aulas na faculdade. Ao sair de uma dessas aulas, deparei-me com uma figura discreta sentada ao cimo de uma escadaria. Ao aproximar-me visualizei uma dama esguia que vestia uma gabardine creme. Ao chegar mais perto pousei os olhos num rosto calmo com um leve sorriso.

-Alice? Como estás? O que fazes aqui ?

Estou a fazer tempo para a próxima aula.

E tu? Pensava que já tinhas terminado!

Terminei, mas vim fazer cadeiras extra.

E então pá, para além disso, que tens feito? Casaste, tens meninos?

Embatuquei. Durante uns segundos fiquei paralisado. Fugi à questão. Repliquei a pergunta.

-E tu? Casastes, tens meninos?

-Que eu saiba ainda não se podem fazer sozinhos.

Pasmei. Tanto tempo passado, A Maria Alice tinha evoluído na arte da sedução. Ou seria da provocação?

Não sou de fugir a desafios? Entrei no jogo

-Pois se são precisos dois estamos na conta certa. Porque não passamos à acção?

Pensei que tinha jogado forte. Preparei-me para as consequências. Das duas uma: ou a Maria Alice me dava um par de estalos, ou não me levava a sério, fazia-se de desentendida e seguíamos o nosso caminho.

-Porque não? Respondeu. A proposta só peca por tardia. Há muito que estou à espera. Sou paciente. Tenho-te seguido ou esqueceste-te que tenho o teu registo à mão de semear. Houve uma altura que pensei que a bruxa dos olhos negros te tinha seduzido. Mas pela tua ficha constatava que continuavas solteiro. Até me apercebi que foste coordenar o departamento de comunicação.

É verdade. Quando me fizerem o convite não hesitei. Há muito que pretendia deixar a secção de análise de dados onde era penoso ver o chefe cada vez mais ensimesmado. Algum tempo depois de saír chegou-me aos ouvidos que o chefe tinha tido acesso às mamas da menina Ana. E dizia-se que o chefe emagrecia e perdia a cor como um tecido má qualidade. Uma manhã chegou com ar abatido, sentou-se e esparramou-se em cima da secretária. Morreu no seu posto, sem nunca chegar ao seu vinte e cinco de Abril. Houve quem atribuísse culpas à saciedade da Maria Ana e a excesso de comprimidos azuis. Do que eu me livrei.

-Mas voltando à tua sugestão: Convido-te para um jantar. Eu mesma o preparo, no apartamento que comprei na periferia. Pode ser amanhã?

Engoli em seco. Não estava à espera de uma terceira hipótese de reacção. A garota mostrava-se atrevidota. Não quis dar parte de fraco. Ainda tinha um dia pela frente. Enquanto o pau vai e vem folgam as costas. Aceitei. Quem sabe se era bluf.

-OK. Amanhã conta comigo. A que horas?

Tirou uma folha de um caderno, escreveu um endereço e rabiscou um esquema que me entregou

-Aqui está. Espero-te às oito. Não te atrases para a comida não esfriar.

Despedimo-nos. Enquanto atravessava a nave até à saída, fui invadido por um turbilhão de ideias contraditórias. Se tivesse num jogo de xadrez tinha levado cheque mate. Por outro lado lembrei-me que .t eria que procurar um novo alojamento. A dona Mariazinha ia fechar a hospedaria. Recebeu uma proposta do Paco Caballero. Aceitou e ia viver com ele. Estava de partida para a Andaluzia. Dizia que aos cinquenta, se não montasse aquele cavalo, não passaria mais nenhum. Além disso era difícil resistir ao seu charme. Como é que se ia acomodar na vida dele, logo se via. Por isso se a Maria Alice me acolhesse ficava resolvido o problema. Mas não iria meter-me noutra alhada?

E agora José?

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publicado às 22:17

O poeta solitário

por Naçao Valente, em 02.11.14

Rita (nome fictício) entrou na sala de professores com um ar estranhamente afogueado. A professora na casa dos cinquenta dirigiu-se a uma colega com quem partilhava cumplicidades e entregou-lhe um pequeno e perfumado pedaço de papel. Encontrei-o no para brisas do carro, no estacionamento do pingo doce. (passe a publicidade que o unhas de fome do Jerónimo Martins não me paga nem um cêntimo furado) A colega solicitada leu um pequeno texto em letra de forma: 

 A MULHER É COMO O VINHO

 QUANDO TEM QUALIDADE

 SE TRATADA COM CARINHO

 MELHORA COM A IDADE

 

 OS MEUS OLHOS GANHAM BRILHO

 O MEU CORAÇÃO ACELERA

 MESMO QUE ARRANJE SARILHO

 ESTOU FIEL À SUA ESPERA

 

ADMIRADOR CONFESSO

DA SUA CALMA BELEZA

DE CORPO E ALMA ME OFEREÇO

 

E COM TODA A GENTILEZA

ESTOU CONVICTO QUE MEREÇO

SER SÚBDITO DE VOSSA ALTEZA

 

CONTACTE-ME: 9xxxxxxx

 

  

"Fiquei muito perturbada" disse a assim assim casada Rita, procurando controlar a emoção na voz. Vou-te fazer uma confidência de mulher para mulher: tenho as hormonas aos saltos de tal maneira, que até me cresceram as mamas. Depois de desabafar, Rita foi ganhando serenidade e procurou esquecer o incidente. Entretanto o acontecimento foi passando de boca em boca até ser conhecido por toda a comunidade docente. E de tal modo pegou nas mentes femininas, que os habituais cumprimentos foram substituídos entre o mulherio pela frase, "hoje já foste ao pingo doce?". E porque a língua portuguesa é muito traiçoeira as respostas variam de acordo com a protagonista. Assim uma trintona à toa na vida respondeu: já fui ao pingo doce mas continuo na amargura. Uma quarentona mal casada garantiu: já fui ao pingo doce toda empinocada mas ninguém me viu. Uma recentemente descasada que arranjou passarinho novo confessou: já lá fui (sem ter ido) e dei-me muito bem.Repito: a língua portuguesa é mesmo muito traiçoeira.

 

Tenho estado a matutar no desvario que vai na cabeça de tanta dama, e concluio que naquele parque de estacionamento, deve haver um  constante corropio. Até começo a ter pena do poeta sedutor. Com tanta oferta não vai ter mãos a medir, nem vai dar conta do recado. Em verdade garanto que estava a pensar reformar-me nessa área. Contudo, a minha costela solidária está-me a empurrar para o terreno a fim de ajudar o assorbebado sedutor. Não sei se sou poeta e sedutor, admito que seja mas pouco. Mesmo assim vou montar banca num pingo doce perto de si, para procurar dar resposta a tão prementes necessidades. De tal modo que já comecei a alinhavar uns versos adequados a diversas situações. Se aparecer uma com as medidas bem certinhas escreverei:

 

Nem a Vénus de Milo

em todo o seu esplendor

 exalava tanto estilo

e emanava tanto amor

 

Se a candidata for mais para as formas arredondadas arrisco:

 

 No dia mais luminoso

 ou na noite mais escura

 essas formas sinuosas

 são poemas de ternura

 levam um santo à loucura

 

Se tiver olhos azuis:

 

Olhos de grande beleza

que fazem lembrar o mar

e só tenho uma certeza

neles me quero afogar

 

Se tiver um jeito inseguro:

 

 Essa postura insegura

segura de formosura

esconde uma alma pura

Que precisa de ternura

  

Se tiver um aspecto algo deslavado:

 

Nem tudo o que brilha é ouro

em nada existe certeza

o mais famoso tesouro

pode não estar na beleza

 

Se for pouco avantajada:

 

A mulher e a petinga

têm o charme das rosas

podem ser bem pequeninas

mas até são mais cheirosas

 

E por aí fora. Terminarei sempre com esta quadra:

 

Eu não sou um pinga amor

sou um homem de respeito

e estou aqui com fervor

prá receber no meu peito

 

 

E pronto. Agora é só lançar o anzol e esperar que o peixe pique na minhoca, especialmente o esfomeado. Agora é só lançar a escada para socorrer as aflitas. Agora é semear e esperar que a fruta amadureça e me caia no regaço. Espero no entanto que a colheita não seja em excesso se não o feitiço  pode virar-se contra o feitiçeiro. E aí  vou-me arrepender por me meter onde não sou chamdo, só por causa da minha costela solidária. No princípio foi de uma costela solidária que nasceu a mulher, agora e neste caso pode lixar o homem.

 

MG

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publicado às 23:27

Bem vinda Lili

por Naçao Valente, em 08.10.14

Acreditam em coincidências? Acreditem ou não, garanto que elas acontecem. Pois, e como já escrevi, continuo  a tomar o meu café diário, no local onde antes me era servido pela Lili. E deixou de o ser, a partir do dia, em que a eficiente jovem, desapareceu de cena. Mas vou sempre, com a esperança que a Lili ainda apareça, como um D. Sebastião em dia de nevoeiro. E não é que ao contrário do desaparecido rei, a Lili apareceu mesmo, enquanto degustava a minha bica?

Esta minha fixação na Lili, até pode parecer um comportamento obsessivo. Que seja! Que p0sso fazer? O nosso coração tem razões que a razão desconhece. Ou de uma maneira mais científica, são misteriosas as razões dos caminhos da nossa mente.Ou talvez me compreendessem melhor se conhecessem a Lili. O que posso dizer é que a presença da Lili tem o condão de me rejuvenescer, e até de me fazer esquecer da situação de vil tristeza, para que nos arrastaram as actuais lideranças políticas.

 

A Lili apareceu, com todo o seu esplendor juvenil, com toda a sua sedução,mas também com aquela simplicidade ingénua que a caracteriza. Neste local já não serve mais café. Agora voltou como mais uma cliente. Mas voltou com o mesmo sorriso redentor. E como diz o ditado (adaptado) a felicidade volta sempre ao local onde foi feliz. Hoje, por breves instantes, acreditei que o sonho e a realidade podem andar de braço de dado. Aprendi, que manter o sonho vivo, é a forma de renascermos, a cada dia, das cinzas negras de um quotidiano medíocre. Bem vinda, Lili. 

MG

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publicado às 16:41

A chinesinha-uma benção divina

por Naçao Valente, em 21.08.14

Vou fazer uma inconfidência mesmo correndo o risco (o que não o é?) de perder a aureola de pessoa séria e equilibrada granjeada com tanto labor em linhas e linhas de escrita fingida. Corro, ainda, o risco de perder de uma penada a visita de  leitores recatados. Que seja. Mas a verdade acima de tudo. Aliás, quem sabe ler nas entrelinhas já percebeu a minha tara há muito tempo. Acontece que nasci português, cresci português e hei-de ser português até à eternidade. Quanto a isso, nada a fazer. É o destino. E como  bom português tenho uma fraqueza congénita. Não resisto a pastar o olhar por qualquer rabo de saia ou até de calça com este símbolo.( ) Sem qualquer preconceito, de cor ou religião, desde que bem modelado,(nada a ver com TSU) e tendo a consciência que é um pecado venial. Mas tendo, também, a crença que o arrependimento tudo recompõe. Foi para isso que foi criado. Ou seja, a justiça divina é tão perfeita que cria o castigo e o respectivo antídoto. E não podia ser de outra maneira, a partir do momento em que criou o português.

 

 Muitos antropólogos credenciados, têm afirmado que foi dessa aptidão lusa para a arte da miscigenação, que resultou o/a mulato/a. Quem sou eu para contestar? Limito-me a seguir a corrente e a aproveitar essa fatalidade genética. Assim, arranjo justificação para o meu devaneio para com a chinesinha do lugar da fruta. Para mais, ele só existe porque a gente do império do meio, numa expansão ao contrário, resolveu vir em força aqui para o velho Portugal. Eu acho que foi por saudade dos tugas, depois do regresso das caravelas. Só pode.

 

Digo com toda a sinceridade que minha atracção pela chinesa foi logo ao primeiro olhar. Por aqueles olhos amendoados, por aquele sorriso ingénuo, por aquele corpo esguio, pela tez ainda virgem dos raios ultra-violetas. E digo com toda a propriedade que tenho bom gosto, porque não fui o único atraido por aquela  beleza oriental. Todos os dias vejo outros tugas a mandar a escada a chinesinha, apesar de ter marido. Ainda há dias, vi um desses sedutores, a faze-lo descaradamente. E dizia o sujeito com ar de labrego: (digo convictamente sem ponta de ciúme) "estás tão só, deves precisar de companhia." E ela, com cândida paciência chinesa a dizer-lhe: "o meu ilmão foi a Lisboa complal fluta e deve estal a chegal" . Mas mesmo assim o alarve (com todo o respeito) continuava a insistir. Perante o incómodo tive de intervir, discretamente, para afastar o cretino (sem ofensa). Sim que eu posso ser tuga, mas sou tuga cavalheiro.

 

Todos os dias, acho que inconscientemente, vou ao lugar da fruta. E entre grelos e pepinos, literalmente, vou enchendo devagar , devagarinho, perante a observação e um ou outro sorriso da chinesinha, o meu saco de plástico. É aí que se acentua o meu devaneio e me imagino em tête-á-tête com a bela donzela. Imagino-a a envolver-me de ternura dizendo com a sua voz maviosa, "então meu amol hoje quel leval pão de Mafla?". Sei que é pecado, tipificado como cobiça de mulher alheia, mas não passa de pecado menor, pois é apenas em pensamento. Há dias, enquanto tocava na sua mão delicada para receber o troco, afagou com a mão disponível a minha proeminência abdominal dizendo: "então quando nasce a cliança?". Laios palta. Callaças. Polla. Tanto sonho, tanta aleglia, tanta felicidade sonhados no meio daquela fluta pala ver a chinesinha a apenas se intelessal pele minha balliga. Está decidido. Amanhã vou pala o ginásio. Não quelo, não posso e não devo pôl em causa a missão globalizadola do poltuguês. A chinesinha vai ver!

 

PS Passaram dois anos depois deste texto ser escrito. A chinesinha rumou a outras paragens. A minha proeminência abdominal continua firme e hirta. Mas a sua imagem continua viva na minha memória. Ainda espero que ela regresse. Preciso de voltar a aumentar o meu rácio de fruta. A saúde agradece. E eu agradeço à chinesinha, que sem saber foi (é) minha musa inspiradora.

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publicado às 23:43

Filosofia de nádegas

por Naçao Valente, em 11.06.14

Breve história das nádegas.Imagem net. Não é pornografia é arte

Odalisca morena de François Boucher, século XVIII

 

 

Há partes do nosso corpo que continuam a ser tabu. Pronunciar o seu nome é um anátema. Lembrei-me disto a propósito das declarações do Presidente do Sporting Bruno de Carvalho quando usou as nádegas como metáfora. Para a gente que bota discurso na comunicação social, caiu o Carmo e a Trindade. Aceitamos que é linguagem de carroceiro embrulhada em erudição técnica. Eu próprio não me revejo nessa fraseologia. Trata-se de uma opção pessoal. Mas daí a considerar crime de lesa majestade, de desprestígio do clube a que preside, parece-me um exagero. No fundo, literalmente falando todas as têm. E se as têm porque razão não se pode usar o seu nome para fazer analogias? Para mais, analogias que colam perfeitamente com a realidade que se quer retratar. Basta estar atento ao que se está a passar na triste novela das eleições da liga. Essa sim verdadeiramente pornográfica.

 

Analogias à parte, as nádegas, sempre foram motivo de atracção ao longo da história. E deixemo-nos de pudores, continuam a ser cartão de visita do género feminino, que as utiliza como forma de sedução. E foram até desde tempos antigos motivo de inspiração de poetas, prosadores e pintores. A nova história que começou a abordar as coisas do quotidiano ligadas à vida privada, também se debruçou sobre o assunto. Foi nesse sentido que Jean-Luc Hennig escreveu A breve História das Nádegas. Diz o autor:

 

Esta obra dá-nos uma visão, breve mas suficientemente ampla, de uma grande multiplicidade de representações das nádegas, ao longo dos tempos: a sua figuração na escultura grega clássica, na pintura florentina e libertina, na medicina legal do século XIX, na publicidade do século XX

"O leitor céptico ou reticente encontrará aqui um manancial de informações surpreendentes. Vai aprender muito.

 

As nádegas são pois uma componente de nós próprios. Quando os guardiões moralistas dos bons costumes, julgam as pessoas pela utilização da linguagem que consideram de mau gosto, fazem um exercício de cinismo púdico. E nessa parte sagrada de si próprios, nunca levaram umas boas "nalgadas" como me estavam sempre a prometer ainda menino e moço, ou nem sequer sentiram o gosto de um  um pontapé  no traseiro.  Mas ainda estão a tempo de o levar.

 

MG

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 22:53

A técnica do lenço

por Naçao Valente, em 15.01.14

Acontecem coisas estranhas. Fila para o multibanco. À minha frente uma dama. Atrás da dama eu, mais ninguém. Escurece. A dama termina a sua operação e deixa cair a chave da viatura. Afasta-se. A chave fica. Aproximo-me para apanhar a chave, mas hesito. Lembro-me da técnica do lenço. Para quem não a conhece digo que foi uma técnica de engate usada em tempos idos. A dama quando queria seduzir o cavalheiro deixava cair o lenço para que este o apanhasse. Se a vítima caísse por ingenuidade ou por vontade de entrar no jogo começava o jogo da sedução. Palavra puxa palavra, sorriso puxa sorriso, gesto puxa gesto e a coisa podia ir até às últimas consequências.

 

Fila para o multibanco. A dama à minha frente acaba a sua operação. A chave da viatura escorrega das suas mãos e estatela-se no empedrado com um som metálico. A dama afasta-se indiferente. Vou apanhar a chave mas lembro-me da técnica do lenço. Será uma versão adequada aos tempos que correm? A dama conhece a técnica do lenço? Não arrisco. Digo: senhora deixou cair a chave. A dama voltou-se com um sorriso amarelo apanhou-a e afastou-se. Se era  truque para princípio de conversa ou para me levar a conhecer a sua viatura não resultou. Se foi um acto fortuito deve ter pensado cobras e lagartos imaginando com razão que não há cavalheiros à antiga.

 

A dama que estava à minha frente na fila do multibanco apanhou a chave que deixara cair e afastou-se. Anoitecia. Podia ter-lhe apanhado a chave mas não o fiz. Lembrei-me da técnica do lenço. Em desuso mas nunca se sabe. Nesta técnica a dama usa o lenço para engatar o cavalheiro. Depois este  decide. Se gosta ou não da dama, se é uma vamp ou um camafeu. Há muitas variáves. Apanhar ou não apanhar a chave eis a questão. Mas afinal qual é a dúvida? São coisas que acontecem. A que propósito vem a história do lenço? Há lembranças estranhas. Reminiscências?

 

MG

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publicado às 19:23

E se uma desconhecida o quiser levar para casa?

por Naçao Valente, em 02.01.14

E se uma desconhecida ou desconhecido (depende do género) o quiser levar para casa? Impossível? Garanto-lhe que não! Garanto-lhe com a verdade de experiência feita. E não ouse pensar que isto é uma ficção de um escriba sem assunto . Aconteceu. Aconteceu tal e qual como o vou relatar.

 

Estava eu a sair de uma pacata pastelaria onde como pacato cidadão tinha ido comprar pão. No mesmo instante ia a passar uma dama, coisa perfeitamente normal. O que já não é normal, parece-me, foi o que aconteceu a seguir. A dama desconhecida parou, encostou-se suavemente à minha pessoa segurou-me por um braço, sem pedir licença, e disparou uma saraivada de palavras: "quer ir comigo para a minha casa?". Sim, tal e qual!

 

Agora vem a parte mais difícil. Que resposta dar ao estranho convite? Poderia ter perguntado para que me queria a tipa na sua casa. Concerteza que não seria para mordomo, espécie há muito em extinção. Nem seria para fazer de pai Natal porque na altura o Natal já era. Poderia ser uma alma caridosa que me viu como uma alma penada, perdido na vida, sem sitio para descansar. Tudo é possível. Mas não resisto e foje-me o pé para o chinelo. A dama não quereria levar-me na condição de macho, sem sentido pejorativo e na verdadeira acepção da palavra?

 

A verdade acima de tudo. A verdade é que não fui! Se calhar desiludi a dama. "Tem medo de mim?" foi outra frase que registei. Medo de mulher? Garanto que não tenho. Não tenho é lata de chegar junto a uma qualquer jeitosa e dizer de chofre "quer ir para a minha casa?". Mesmo que o deseje, penso e repenso, no recato do pensamento, as mil e uma estratégias de o conseguir. E de tanto imaginar cenários acabo de me perder nos labirintos neuronais. Quando de lá saio, já a dama partiu para outros horizontes. Raio de vida: ou oito ou oitenta?

 

Estava entre a espada e a parede ou entre a cruz e a caldeirinha. O diacho que escolha. Onde tinha a gaja a cabeça?? Há por aí tantos e muito melhores. Mais atléticos, mais atraentes, mais disponíveis e especialmente mais novos. O que estaria a dama a pensar? Que era um invertido (do contra evidentemente), um florzinha (de estufa claro)? E porque carga de água foi logo escolher-me a mim? Acharia que eu o único homem disponível? A não ser que seja apreciadora, no caso de me querer comer, de galo velho e duro de roer.

 

Meus amigos sou obcecado pela verdade. Garanto-vos sem contradição que todo este arrazoado é pura ficção. Tudo, com excepção dos factos que serviram de mote. Em nome da verdade resume-se em poucas palavras: uma dama abordou-me e disse: "quer ir comigo para minha casa"? "Não" respondi, secamente. "Tem medo de mim?". "Não...tenho mais que fazer". Foi como sucedeu. O resto é como gostaria que tivesse acontecido e garanto que não foi. Raio de sorte. Porque é que na hora H me falta o discernimento? Porque é que não exploro os preliminares para ver o que dá? Refugiu-me no lugar comum, ninguém é perfeito. Mas bolas, precisava de tanta imperfeição? Porque não aprendo que o cavalo (ou a égua) da oportunidade só passa uma vez. Consolo-me com a ideia que a dama foi uma fada que me apareceu para me dar "bitaites" para este texto, em tempo de secura imaginativa. Fraca consolação, mas que posso fazer?

 

MG

 

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publicado às 20:38

Histórias do quotidiano

por Naçao Valente, em 27.09.13

odisseia.com

 

Romeu contrata uma profissional do sexo para o iniciar sexualmente. O inspector Shakespeare aproveita para lhe montar uma armadilha. Vai enviar-lhe a agente Julieta no papel de prostituta.

 

Epílogo

 

Shakespeare resume o plano que Julieta tem de executar: às vinte e três horas apresenta-se como a prostituta contratada. Diz a senha combinada. Vou colocar-lhe uma discreta pulseira com um transmissor para nos contactar. Estamos no lado de fora. Reproduzimos a chave do apartamento e entramos de imediato quando nos chamar.

Quem é ? perguntou Romeu . À noite todos os gatos são pardos, respondeu Julieta. Romeu abriu a porta: segue-me. A agente estagiária seguiu-o por uma sala obscurecida. No quarto perguntou: porque estão as luzes apagadas? Contratei-te para me dares umas lições de sexo. Sou um pessoa conhecida e prestigiada e não quero ser reconhecido. Acontece que me apaixonei por uma bela dama que ainda não o sabe. Consultei uma cartomante e um astrólogo que me garantiram que serei correspondido, mas que tenho de mostrar proficiência. Deixa-te de tretas Romeu, eu também faço o meu trabalho com profissionalismo e gosto de ver o que faço. Acende a luz, sei ser discreta. Quem te disse o meu nome?  Ninguém me disse. Basta-me ouvir o te discurso. Ok…Vou acender a luz.

Romeu viu então uma figura alta, com a silhueta disfarçada por um casaco comprido. A suposta prostituta virou-lhe as costa e foi-se libertando lentamente da peça de vestuário exterior. Por debaixo vestia uma t-shirt  ousada e uns calções curtos. Virou-se  sem pressa. Romeu embatucou. Julieta de olhos semicerrados desinibiu-se no seu papel: perdeste o pio? Eu não acredito-balbuciou-és a mulher que me tira o sono …e prostituta. Julieta observou o corpo de Romeu seminu e deu uma sonora gargalhada: mas és o tipo que me costuma comer com o olhar. Sou. Afinal já reparaste em mim?  Reparei. E digo-te mais, eu não acredito em cartomantes mas que acertam, acertam. Como assim?  Em cada dia que passava junto à loja para o meu trabalho me interrogava: será hoje que este pasmado se declara? Caramba, foi preciso o inspector Shakespeare suspeitar que és um assassino para desencalhares da fase do galanço. Raio! O amor se tem mesmo que acontecer salta todas as barreiras e ironia das ironias, regra geral, os namoros acabam na cama, este é onde começa. Sou Julieta Queiroz da polícia Judiciária em serviço de investigação e que investigação...

Romeu e Julieta cruzaram olhares ternurentos e entrelaçaram as mãos. A intensidade do gesto despoletou o alarme. Quieto ,disse o agente Damião de arma apontada ao peito nu de Romeu. Shakespeare aproximou-se: bom trabalho doutora. Apanhamos o bandido? Bandido? que bandido?, respondeu Julieta. Este é apenas o meu bandido. Mas o alarme, tocou . Foi falso alarme inspector. Isto é uma longa história. Está tudo sobre controle. Pode sair descansado. Deixe-me acabar o meu trabalho.

Happy end

 

Advertência: no cumprimento dos princípios da moral  judaico-cristã esta história acaba aqui. Obrigado

 

Pós epílogo

O agente Damião arrastou suavemente o inspector para a rua. Pela primeira vez viu-o perder a compostura e desafivelar a máscara de policial. Lágrimas corriam-lhe pela face. Não se sente bem  chefe?  Aconteceu uma desgraça Damião. Vou fazer-lhe uma confidência. Na juventude tive uma relação com uma moça de boas famílias. Preconceitos de classe não nos deixaram ser felizes. Desse amor nasceu uma criança. A moça casou com um rico comerciante e sumiu com o filho. Hoje voltei a vê-lo. Reconheci-o por um sinal inconfundível no ombro. É o Romeu. Porra inspector, como o compreendo. Isto até parece uma novela mexicana. Não parece é, Damião, porque o mais trágico é que Julieta também é minha filha! Passou-se dos carretos doutor Shakespeare? Antes me tivesse passado. Para matar o meu desgosto de amor envolvi-me com uma corista do Parque Mayer. Essa relação foi passageira e dela só sobrou Julieta. Nunca assumi a paternidade mas sempre a acompanhei, incógnito. Fiquei feliz quando veio para a polícia. Da mãe herdou a beleza e tem os meus genes de investigadora. Sou mesmo um biltre. Criei as personagens e perdi-lhes o controle. Acalme-se inspector, é a vida. A vida meu amigo Damião é uma ficção escrita pelo destino. Umas vezes escreve tragédias, outras escreve comédias. Não sei qual preferir.

Deixe para lá inspector. O que tem que ser é. São jovens, estão felizes, o que quer fazer?  Os tempos mudaram Shakespeare. Os criadores já não controlam as personagens que criam. Olhe, vamos até à casa da Mariquinhas, comer um galo capão de cabidela para matar a dor e beber um alvarinho para afogar as mágoas. A seguir logo se vê...

 

MG

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publicado às 17:09

Histórias do quotidiano

por Naçao Valente, em 17.09.13

odisseia.com

 

 

 

Romeu e Julieta-happy end   III

 

Romeu procura encontrar uma companheira. Depois de referenciada sente dificuldades na abordagem. Resolve  consultar cartomantes e astrólogos. Estes dão-lhe a receita para conquistar a sua amada: tem de ser afirmativo e proficiente sobretudo no sexo. Decide começar a sua aprendizagem com uma boneca insuflável... 

 

 

O T0 da periferia possuía uma sala com kitchenete. Uma porta janela sem cortinados dava acesso a uma pequena varanda. Romeu  subiu em passo apressado os dois lances de escadas que o levavam  ao seu apartamento. Atravessou a sala em direcção ao quarto, ansioso por experimentar o equipamento. O vendedor da loja informara-o que à boneca só faltava falar, o que para o efeito podia ser uma vantagem. No resto quase imitava uma tipa de carne e osso. Na sua concepção estivera a beleza de Cleópatra. Mas esclareceu-o que não há bela sem senão..Avisou-o que a ranhura se sofresse excesso de calor poderia bloquear. Dito de outra forma não podia ter uma utilização longa.

 

Depois de insuflar a sua Cleópatra, Romeu achou-a  um pouco anafada para seu gosto. A primeira tentativa de utilização correu mal. Colocou-se em cima da boneca mas esta deslizou fazendo-o dar um trambolhão da cama do que resultou ficar com algumas mazelas superficiais. A sua Cleópatra parecia ser do tipo arisco, pensou Romeu  ainda meio atordoado. Parou para avaliar a situação. Quando começou a ler as instruções percebeu que a engordara. Depois de lhe reduzir a celulite voltou à carga. Conseguiu finalmente ajustar-se  na perfeição. O treino estava a resultar. Sentia que começava a dominar a situação. Senhor de si esqueceu-se do tempo e esqueceu a advertência do vendedor. Quando quis parar estava preso à sua personal trainer. Quanto mais estrebuchava mais aumentava a sua prisão. Num segundo de lucidez descobriu que precisava de esvaziá-la. Mas como, se não tinha acesso à válvula de enchimento?

 

Romeu percebeu que precisava de um instrumento cortante. Não tinha nenhum à mão. Começou a deslocar-se para a kitchenet  com a boneca acoplada. Ao atravessar a sala tropeçou nos pelos da alcatifa e estatelou-se. Com esforço conseguiu arrastar-se até à kitchenet e agarrar uma faca de cozinha. Golpeou-a com  raiva até começar a emagrecê-la. Libertou-se. Só então reparou que não tinha descido os estores da sala. Tarde de mais. No apartamento gémeo situado em frente do seu um olheiro observava-o assustado.

 

continua...

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publicado às 22:28




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