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Coisas da vida II

por Naçao Valente, em 08.03.14

No cumprimento do seu roteiro por Portugal a família Cuco rumou ao verde Minho. Instalou-se no duas estrelas, um pequeno hotel familiar muito digno. O problema estava na reserva feita para duas pessoas, quando os Cuco eram três. A jovem Cucozinha continuava a viajar como penetra. Logo o cavalheiro Cuco esclareceu a situação, pedindo uma cama extra. O recepcionista e também gerente foi peremptório. -vão ficar numa suite pela mesma tarifa, apenas pagam mais o preço da cama extra. Os Cuco continuavam em alta. E assim ocuparam a o melhor aposento do hotel.

 

Os Queiroz acompanhantes e cicerones dos Cuco nesta viagem por cidades e serras de Portugal, ocuparam o quarto reservado por via internet. Eram três em ponto da tarde. Um calor sufocante tornava o ar irrespirável. Os Queiroz só tinham um desejo: instalar-se e refrescar-se no prometido ar condicionado. Tinham mas não iam ter! Ar condicionado? Qual ar condicionado? No quarto apenas se vislumbrava um aparelho de aquecimento. Queiroz dirigiu-se à recepção. Disse ao recepcionista ou talvez ao gerente: -senhor, reservei um quarto com ar condicionado, mas onde estou não lhe encontro nem rasto. O gerente olhou-o estupefacto: -peço imensa desculpa. Tenho catorze quartos havendo quatro sem refrigeração. Deve ter havido algum equívoco e agora não posso mudar porque o hotel está cheio. Enquanto os Cuco remoçavam nos seus refrigerados aposentos, os Queiroz num forno de quarenta graus, mesmo de janela escancarada, dormiram mas pouco e não estufaram porque tinham que sobreviver para contar a história.

 

No dia seguinte durante o pequeno almoço o gerente e empregado de mesa com enormes olheiras, pediu desculpa pela enésima vez: -esta noite nem consegui dormir a pensar no sucedido. O Queiroz varão,  coração de manteiga incorrigível, até já estava a ter pena do homem. Aquando do pagamento da conta foi-lhe cobrado o estipulado. Enfim, aceitável depois de tanta desculpa. Mas agora pasme-se. Aos Cuco, frescos que nem uma alface, foi cobrada a tarifa de quarto normal ,mas perdoada a cobrança da tal cama extra, conforme combinado. Quer dizer, os Queiroz pagaram o pato e os Cuco lamberam os beiços. Está comprovado. Os Cuco nasceram mesmo com os rabinhos virados para a lua. São coisas da vida. Mas, porra, têm que ser sempre para o mesmo lado?

 

MG

 

 

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publicado às 21:56

A formiga no carreiro ia em sentido contrário

por Naçao Valente, em 13.08.13

O direito ao gozo de férias é uma conquista recente. Vem na sequências das lutas laborais e da ascensão ao poder de partidos de índole socialista. São um direito universal expresso na Declaração dos Direitos do Homem. Em Portugal, generalizam-se após o 25 de Abril de 1974. O conceito de férias  inicialmente associado ao direito ao lazer, acabou por dar azo a uma revolução na economia mundial, com a criação da indústria do turismo. Ironia das ironias é a classe empresarial, são os donos de dinheiro, que acabam por beneficiar deste direito popular, descobrindo uma nova forma de multiplicar o seu capital.

 

Durante longos meses de trabalho, os cidadãos sonham com a chegada desses dias de paragem na actividade profissional.  Paralelamente ao gozo de férias surgiu a moda dos banhos de mar. As longas praias da costa portuguesa, adormecidas durante séculos pelo embalo das ondas marítimas, foram acordadas por gente ruidosa e sequiosa de sol e mar no período estival. Quando chega o Verão o país entorna-se para o litoral, especialmente para o Sul na procura de calor e águas mais tépidas. A maioria dos que podem dar-se a esse pequeno luxo partem de armas e bagagens para as praias mais procuradas. Aterram na confusão das urbes marítimas, disputam milímetro a milímetro um lugar no areal. Embebedam-se de sal, torram-se de raios uv. Mais escaldão menos escaldão, sentem-se felizes e durante breves momentos alheiam-se das agruras da puta da vida.

 

Ao contrário da maioria dos que podem fazer férias fora de casa, não rumo, nesta época  ao Sul. Como a formiga no carreiro vou em sentido contrário. Longe do burburinho cosmopolita da área marítima rumo a Norte. Perco-me nas paisagens verdes das beiras e do Minho. Calcorreio as ruas de pequenas vilas, com alguns visitantes, mas onde se sente o genuíno pulsar dos autótones. Procuro saborear as gastronomias locais, com moderação, que a vida não está para luxos. Integro-me nas suas festas seculares e sinto-me no Portugal tradicional, embora modificado pela modernidade. Feirense em Santa Maria da Feira onde a sua viagem medieval é já uma instituição nacional, tripeiro na Invicta, ponte-limense em Ponte de Lima com a sua ponte romana e a sua arquitectura de belos solares, cerveirense em Vila Nova de Cerveira com a sua bienal. E muitas outras poderia referenciar. Descobrir este Portugal, mesmo se já descoberto, tem sempre um encanto renovado. E sem pôr em causa as virtualidades do litoral marítimo, acentuo, que mesmo para férias, existe outro país.

 

MG


   

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publicado às 21:19

O homem do capachinho

por Naçao Valente, em 16.08.12

 

Há quem adore derreter o seu dinheiro em sujas e miseráveis cidades indianas. Há até quem gaste o que não tem para enfardar comida e corar ao sol nas praias da República Dominicana. Gostos. Eu mais modestamente prefiro uma escapadinha a cidades europeias ou fazer uma escapadela pela ibéria. Mas o que gosto mesmo é de deambular pelos cantos e recantos do meu país. O que gosto mesmo é apreciar a variada gastronomia regional e a autenticidade das nossas gentes. Foi assim que deambulando pelo Minho e pelas suas estradas mais sinuosas fui parar, mais uma vez, a Ponte de Lima.

 

Podia aqui falar do seu rio que admiro, enquanto degusto uns rojões numa refrescante esplanada. Podia dar espaço à festa do emigrante com direito a tourada que nesse dia se anunciava. Podia descrever os carros antigos que por ali desfilaram. Podia referir a homenagem/recepção que se preparava para o herói da terra medalhado em Londres. Podia recordar o deputado/autarca que traiu o seu partido por amor à sua terra e ao queijo limiano. Mas não. Vou falar de um anti-herói como todos nós. Não sei como se chama, nem que idade tem, nem que clube apoia, nem em que partido vota. Sei que usa uma farta peruca e por isso, com todo o respeito vou chamar-lhe " o homem do capachinho".

 

Ao acaso, impulsionado pela necessidade de cafeína, deambulava por uma rua da qual não sei o nome quando uma porta fechada, de uma discreta pastelaria se abriu para dar saída a um  cidadão. Ao acaso, ou talvez não, senti-me impulsionado, com a gente que me acompanhava, a entrar  naquele espaço. Timidamente, espreitamos e perguntamos se estava aberto e se nos podiam servir café, como se não o houvesse nos 100 quilómetros mais próximos. Do interior soou  então uma voz: "entrem nós estamos aqui é para servir os clientes. Estou fechado para ir comer uma lampreia(?) mas ela que espere, concluíu". Desenhou-se então na nossa frente um rosto impreciso, simpático e bem disposto. Tal e qual. O homem do capachinho.

 

Serviu-nos um delicioso café acompanhado de uns pastéis de nata amorangados. Enquanto o ouvíamos, deliciado, pronunciar-se sobre as virtualidades do verdadeiro pastel de nata versus o sucedâneo por que optáramos, reparei num quadro onde estava emoldurada uma capa de jornal amarelecida pelo tempo, onde se noticiava a inauguração daquele estabelecimento, se a memória não me engana, em 1903, possivelmente um dos mais antigos da vila. Interrogado sobre o facto, o homem do capachinho, deu azo à sua capacidade expressiva ( a lampreia(?) que espere) fazendo um relato da história da pastelaria.Ficámos a saber que tendo começado como empregado era hoje o seu proprietário.

 

 Depois de nos despedirmos para poder poder ir comer a sua lampreia(?) veio atrás de nós com um tabuleiro de doces dizendo: "esperem...tomem lá um miminho". Hesitei e fui dizendo "obrigado, o meu açúcar não deixa" mas depois de ouvir uma detalhada explicação sobre a influência do pâncreas no seu processamento não resisti ( que se lixem os diabetes) e agarrei aquele delicioso doce de simpatia e genuinidade portuguesa.

 

 E agora venham cá com férias nas Bahamas ou nas Seicheles. Há lá coisa melhor que o acolhimento da nossa gente. E isto para não falar na beleza natural das minhotas que agora em festas e romarias exibem os trajes tradicionais. Não perdem pela demora... 

 

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publicado às 23:59

Lenços de namorados

por Naçao Valente, em 15.02.12

     

Hoje o namoro já não tem o encanto de outrora. Pulsa ao ritmo alucinante das novas tecnologias. Assume muitas vezes um carácter quase informático. Nasce e morre à velocidade das ondas electromagnéticas. E mesmo quando se desenvolve no contacto "directo" das novas redes sociais, é muitos vezes efémero e fugaz, como o bater de asas de uma borboleta. Reflecte a sociedade de consumo, do imediatismo, do compra e deita fora. Do descartável. 

Viajando pelo Minho encontrei os tradicionais lenços de namorados. Hoje não são mais que um souvenirs  para turistas acidentais ou saudosistas dos velhos tempos. Vejo recordado nestes lenços, na sua riqueza pictórica de mensagens ingénuas, uma forma mais autêntica, mais singela, mais ternurenta e até mais genuína do namoro em Portugal. E numa perspectiva mais prosaica não deixam de ser um documento relevante sobre os usos e costumes das nossas gentes.

MG

 

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publicado às 23:44

Pouca terra...pouca terra...

por Naçao Valente, em 06.11.10

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O "eu" que nós somos é composto ao longo da vida por muitos pequenos "eus". Em tempos, trabalhei nos Caminhos de Ferro. Depois saí dessa empresa e segui outros caminhos. Mas dentro de mim ficou sempre o bichinho dos comboios. Além disto, tive a honra e o privilégio de na minha infância viajar nos velhos comboios a vapor que "pouca terra...pouca terra" cruzavam Portugal de lés a lés. Por tudo isso cada vez que se encerra uma linha, que se doa à comunidade da rataria mais uma estação, se entrega os reluzentes carris à voragem do bicho da ferrugem,que se deixa degradar mais um pouco do património arquitectónico deste país morre em mim mais uma parcela do meu "eu" ferroviário.

Hoje soube, que na há muita desactivada linha que ao longo do frondoso rio Minho, ligava Valença a Monção foi construída uma ciclovia e restauradas algumas estações desse percurso. A reabilitação deste troço da ferrovia, para benefício da população do alto Minho, merece todos os louvores e é para mim motivo de alegria e esperança. Esperança de que este exemplo frutifique e que desta ou de outra maneira, se recupere o tristemente abandonado acervo ferroviário da nação portuguesa. Pelo passado, pelo presente e pelo futuro. A história exige-o.

 

MG 

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publicado às 22:44

João Semana

por Naçao Valente, em 06.08.10

passado    presente

 

Durante as minhas andanças pelo verdejante Minho lembrei-me do médico João Semana, personagem do clássico de Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor. Era um tradicional médico de aldeia dedicado e generoso sempre disponível para todos, pobres ou abastados.

 

Na minha infância, numa outra latitude, numa perdida vila do nordeste algarvio árida e pouco verdejante, também havia um João Semana. Chamava-se João Dias e geria um pequeno hospital na povoação fronteiriça de Alcoutim. Não o conheci pessoalmente, nem nunca precisei de recorrer aos seus serviços, mas os meus avós maternos foram por ele operados com sucesso e com os meios arcaicos que possuía. Tanto extraía sinais na pele, como fechava uma hérnia. Era um médico à antiga competente e polivalente. Era conhecido e respeitado em toda a serra, pela sua competência e pela sua generosidade. Nunca nenhum doente ficou por tratar por falta de recursos financeiros. A medicina era para ele como um sacerdócio, nas antípodas da mercantilização que hoje existe. O Dr. João Dias morreu de doença súbita, quando ainda tinha muito para dar. Sobre as razões da sua morte correram as mais variadas e nunca esclarecidas explicações. Para lhe prestar as últimas homenagens a população serrana alugou autocarros e deslocou-se a Alcoutim numa das maiores mobilizações populares da povo do nordeste algarvio.

 

Muitos outros João Semana existiram  por todo o pais e creio por todo o mundo. Ainda hoje Alcoutim pouco bafejada pelo desenvolvimento, devido à sua interioridade tem o privilégio de ter um médico que encarna o espírito "semanista". Francisco Amaral hoje Presidente da Câmara Municipal tem procurado tirar este Pequeno Concelho do seu atraso endémico e criado condições dignas para uma população muito envelhecida. Apesar das suas funções autárquicas continua a trabalhar como médico em regime voluntário no Hospital de Faro.

 

 Os exemplos que aqui refiro fazem-nos acreditar que  o humanismo ainda persiste num mundo onde os grandes valores da solidariedade tem vindo a ser submergidos pela exploração, pela ganância e pelo desrespeito. A todos os "João Semana" de agora e de sempre presto a minha modesta homenagem: bem hajam.

 

MG

 

 

 

 

 

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publicado às 19:00

Postal Ilustrado Terras de Cervaria

por Naçao Valente, em 04.08.10

 

Há terras que nos encantam particularmente vamos lá saber porquê. Acontece-me com Vila Nova de Cerveira. É uma típica vila minhota, discreta, sossegada, simpática. Não tem o bulício cosmopolita das grandes cidades, nem os seus grandes centros comerciais. Tem a singeleza de  uma pequena povoação, de um pequeno país quase intacta na sua ancestral ruralidade. É um sítio aonde não se vai, mas aonde se está.

 

Cerveira situa-se nas margens do rio Minho incrustada  entre a serra e estreita planície fluvial. Vive paredes meias com a Galiza com quem há séculos mantêmum intercambio que nenhuma fronteira consegue separar. Ao passar pelos seus pomares, ao observar os seus campos de milho, ao assistir às suas festas e romarias vem-me sempre à memória os romances de Júlio Dinis com as suas desfolhadas "milho-rei, milho-rei" os seus amores contrariados," as Pupilas do Senhor Reitor". Sinto estas vivências e estas personagens ainda a  calcorrear a ruas calmas, a conviver na praça  central, agora sentadas nos bancos ou nas modernas esplanadas a saborear a sua rica gastronomia. E de quando em vez enche-se de desvairados forasteiros a assistir  às suas bienais de arte ou a aadmirar o seu património, como poe exemplo o castelo  e o forte.

 

Estar em Cerveira é como mergulhar um pouco num paraíso perdido. Ajuda a a relaxar o corpo e aquietar a mente. Ajuda a esquecer transitoriamente as agruras de um quotidiano pejado de injustiças. Até ajuda a esquecer a política que nos desgoverna.

Mg   

 

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publicado às 22:08




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