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A minha vida não dava um romance

por Naçao Valente, em 19.11.14

I Guardador de rebanho

 

O meu nome é Zé. Um Zé Qualquer. É assim que me chamam na minha já longa vida, apesar de longa ser um eufemismo ou um lugar comum, como preferirem. A vida não é longa coisa nenhuma. Nunca chega para fazermos tudo o que gostaríamos de fazer. Deixemos especulações e voltemos ao fio da narrativa.

Chamo-me Zé, mas já me chamaram muitas outras coisas. Filho da puta, grande cabrão, parvo de merda, nabo do carago(foi mais na tropa quando não acertava o passo com a carneirada) e outros mimos que não vêm ao caso. Nem estes nem outros, que são desvios à narrativa central.

Diz-me como te chamas e dir-te-ei quem és. Zé, está na cara, é nome de pobre, que nem sempre de pobre diabo. Da barriga da mãe de onde saí, saíram aaí maís onze se a memória não me atraiçoa. Como se vê não havia recursos para nomes pomposos. O meu pai gabava-se, na venda do Zé d`Alzira, entre um copo de três e um jogo de sueca, que cada vez que tirava as botas e ficava em ceroulas, metia mais um na “fábrica” da mulher. E dizia-o com propriedade, pois recordo-a ou prenha ou a parir. Da outra variante não tenho lembrança, que nas duas camas disponíveis a lotação estava esgotada e alguém tinha que pernoitar no palheiro.

Lembro-me, isso sim, de ver zés e marias acabadinhos de chegar . Uma vez, por mero acaso, até vi atravessar a porta de saída creio que da Maria dos Remédios. (ou seria a Maria da Consolação?) Foi durante a ceifa, num dia em que o estio mostrava a sua verdadeira face. Era como se o inferno tivesse descido aquele outeiro.

lembro-me

A minha mãe gritou “ áuguas”. E eu larguei o molho de trigo e na minha inocência juvenil corri a buscar a infusa onde estava água para da canícula. Quando cheguei já ali estava uma nova Maria,

da Encarnação?

O meu pai a gritar, e a cortar o cordão com a foice, “ não é da infusa que precisamos mas do alforge para deitar a tua mana, grande burro” (aí está). E lá montamos a minha mãe, na lindinha, a burra cinzenta, com a Maria de regresso a casa. E durante esse verão, pelo menos, a mãe não voltou à ceifa. Sim que entre uma e outra "parição" e uma outra amamentação a mãe ainda ajudava nas lides do campo, quando a faina apertava.

No espaço que sobrava entre guardar a vaca, duas ovelhas, e uma cabra, comecei a ir escola. Tinha que ir porque era obrigatório. Foi lá que comecei a conhecer o mundo para além do horizonte curto da aldeia. Foi lá que percebi aquele mistério da crucificação de que ouvia falar na catequese, em que Jesus tinha sido crucificado ao lado de dois ladrões. Ali estava, à nossa frente, a representação da cena com o crucifixo, no meio dos ditos ladrões.

tão verdade como me chamar Zé

O senhor professor que era um bom católico e um grande patriota, a quem tínhamos de saudar de braço esticado, dizia-nos que aqueles dois de ar severo, eram o senhor Presidente da República e o senhor Presidente do Conselho. Na minha ignorância campónia, não entendia o significado daquelas palavras. Presidente só conhecia o da Junta de Freguesia. E o meu pai, sempre que ele nos visitava, murmurava entre dentes “aí vem o ladrão contar as galinhas e os ovos que elas poem, com a lengalenga dos interesses da nação”. Bate certo. Presidente igual a ladrão. Se calhar não apenas pilha galinhas, mas “pilhador” de coisas mais avantajadas. E aqueles dois que ladeavam Jesus, na parede da escola, só podiam ser chefes de quadrilha. Pensava eu na minha ingenuidade de um zé qualquer.

Quando fiz exame da 4º classe, com distinção, passei a moiral dos animais a tempo inteiro que as bocas para alimentar não paravam de crescer, embora as mais velhas tenham ido servir a senhoras da cidade. Mas a Maria dos Remédios

ou seria a da Purificação?

deixou-se enganar por um gandulo da cidade, com promessas de ludibriar tolas, e apareceu em casa com uma barriga maior que o globo da escola primária e ali pariu mais uma alma inocente, que pai teve que alimentar. Que havia de fazer? Pai é Pai. O que valeu foi que o Zé tendeiro já sem mercado entre as moças casadoiras, comprou o produto desvalorizado e ainda levou o brinde.

(continua)

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publicado às 22:28

O pião

por Naçao Valente, em 14.07.13

imagem net

 

Quem não gostaria de voltar à infância com todo o saber acumulado e começar de novo? Mas, caindo na real, só é possível voltar à infância viajando nas recordações acantonadas na memória. Muitas vezes, essas viagens ao passado, são desencadeadas por pormenores quase sempre imprevistos. Foi assim, que hoje, me cruzei com um despoletador de memórias e me revi nos tempos de criança. Foi assim, que tive um encontro imediato de terceiro grau com um pião, um dos brinquedos que me abandonou quando terminou a idade dos sonhos. Esse ingrato, esse filho pródigo, hoje voltou. Perdoei a sua longa ausência e recebi-o como um príncipe de um rei que nunca existiu. Tal como me aconteceu,  estão visíveis na sua pele as marcas do tempo: notam-se uma outra ruga, alguns aleijões, várias cicatrizes provocadas  pelas agruras da vida. 

 

O meu velho pião, a que chamava piorra, talvez devido ao seu corpo mais raquítico e franzino, acompanhou-me no tempo de brincadeiras de pobre de país pobre. Foi um companheiro incondicional de brincadeira, sempre disponível a actuar nas frentes de batalha com outros mais avantajados da sua espécie. E muitas vezes, sofreu no coiro as consequências das disputas, não por culpa sua, mas pela inabilidade do seu dono na arte do manejamento. O velho pião, por ser filho de um artesão ocasional, sem a perfeição e a robustez de outros mais sofisticados, viu o seu corpo retalhado e pisado, pelo ferrão afiado dos nascidos de poderosos tornos. Mas resistiu e deu luta, com dignidade.

 

Apesar dos tempos de chumbo que pautaram essa infância, no contexto da realidade de um meio rural de horizontes perdidos, foi gratificante ter voltado a esse universo, onde a felicidade se resumia às coisas simples de um dia a dia de subsistência, que o rodopiar de um pião, ou o rolar de um "riol" (berlinde) tornava mais ameno. E se hoje no século XXI, há ainda, neste mundo cão, muitos meninos sem infância, naquele tempo dos meados do século XX, tive o privilégio de ter sido criança. Foi isso que me mostrou este pião, perdido e triste, entre outros objectos do passado e que adoptei como um novo companheiro. E a nossa relação quotidiana, vai servir, para não deixarmos enterrados nas brumas da memória esse nosso passado mítico. Porque só assim vivemos plenamente.

 

MG

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publicado às 21:57

Mealheiro colectivo

por Naçao Valente, em 16.12.10

 tostoescadecasa.blogspot.com

 

 

No tempo em que a palavra consumismo não era pronunciada em Portugal. No tempo em que o conceito Estado Providência não existia. No tempo do salve-se quem puder,no tempo da pobreza assumida, a palavra mealheiro associada à poupança privada era dominante do berço à tumba.

 

Nesses tempos sem reformas universais, subsídios ou outras protecções, cada cidadão tinha de ir pondo de parte as poucas migalhas ( daí o uso da expressão migalheiro nalguns locais) que sobravam do seu magro rendimento.

 

Nestes tempos difíceis, foi o governo que recuperou a ideia do mealheiro colectivo. Com efeito nas propostas de alterações laborais para salvar o país do colapso, surgiu a ideia de um fundo para garantir indemnizações em caso de despedimento. Quem até aqui as pagava era o patronato quando dispensava trabalhadores. Com a nova norma, acabam, em última instância, por ser os próprios a financiar o seu eventual despedimento. Dizem que é uma garantia que salvaguarda que empresas falidas possam cumprirem as suas obrigações. Poderá ser, mas o facto é que inverte o  princípio das responsabilidades numa relação laboral.

Quem diria que depois de décadas de progresso social seria esta a situação? Penso que para isto muito contribuiu esta ideia errada: a prosperidade encontra-se na tarja de um cartão de crédito. Esta falsa prosperidade já tem sido demonstrada pela história, mas a memória curta da sociedade não a consegue reter. 

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publicado às 18:29

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publicado às 22:35

Memória histórica - La Lys

por Naçao Valente, em 10.04.10

No dia 10 de Abril de 1918 as tropas portuguesas que defendiam a frente em La Lys cederam à ofensiva alemã começada no dia anterior.

As tropas do Corpo Expedicionário Português, cansadas e desfalcadas, resistiram até ao limite, em condições bastante difíceis e evitaram que a bem organizada ofensiva alemã, conseguisse o seu principal objectivo: atravessar o rio Lys.

Em mais um aniversário da quase mítica batalha de La Lis recordo a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial e sugiro a leitura do  livro de investigação histórica “Das trincheiras com Saudade” e do romance “Cruz de Portugal”.

MG

 

 

Excerto

"Tenho uma história para vos contar, mas não sei por onde começar. Eu devia andar pela idade de atirar pedras aos pardais quando a República tomou conta do meu país. A partir daí nunca mais tive descanso. O meu pai enfiou comigo numa quinta, a trabalhar que nem um mouro para me tornar republicano, e depois mandou-me para Lisboa, para estudar e me tornar merceeiro. E o meu governo mandou-me para um quartel em Tavira, para me tornar soldado, e depois despachou-me para França, para as trincheiras da Grande Guerra, onde vivi o Inferno"


Sinopse:

«De noite é que é o inferno. […] os telefones retinem, os estafetas põem-se a andar e o S.O.S. sobe ao céu, no vinco luminoso dos very-lights […] até que se apagam e o mundo é apenas escuridão. […] Ouve-se o crac-crac das metralhadoras que o boche despeja e que nós despejamos. E transida, bafejando as mãos, sem sono, a gente escuta o ecos e o nosso coração doente como um velho relógio tonto oscilando entre a saudade dos que estão longe e a ideia de morrer ali, armado e equipado, sonolento e triste, com um cão sem forças.»

Albino Forjaz Sampaio, oficial português na Flandres.

 

 

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publicado às 19:47




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