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Aventuras e desventuras com a cara metade

por Naçao Valente, em 28.08.15

Fui com a cara metade à capital. É sempre um prazer  visitaresta Lisboa de Costa, remoçada e reinventada sem perder a sua genuinidade. Os sentidos agradecem as sensações que a cidade proporciona. Os cheiros, os sabores, as imagens inebriam por mais que a visitemos. Lisboa é hoje como há quinhentos anos uma cidades de desvairadas gentes de estranhos falares. Respira-se alegria nas suas ruas carregadas de simbolismo.

Os olhares perdem-se e encontram-se em olhares de todos os tons, resvalam por corpos dengosos, seminus, cantando hossanas às bênçãos da temperatura estival. E não fora a cara metade, sempre vigilante, de certo me perderia em êxtases sem limites. Assim perante o respeito pelos sagrados laços em que  me deixei enredar, refugio-me na imaginação de contos de mil e uma noites.

Na hora de maior calor repousei num centro comercial da cidade. Por momentos, separei-me da cara metade e senti que regressava às origens de plena liberdade. Circulei então como um jovem ancião ou vice-versa, tirando partido do falso e dissimulado estatuto de passarinho fora da gaiola.

Sol de pouca dura. Se o mundo é pequeno, um centro comercial, por maior que seja, é claustrofóbico. Vai não vai lá tenho a cara metade à perna. "Já te telefonei seis vezes e não me atendestes, disse em tom recriminatório". Confesso que não ouvi o telemóvel. Aliás verifiquei que o som estava no zero. Juro que não sei como aconteceu. A minha relação com esta tecnologia deixa muito a desejar.

-Afinal já me encontraste, retorqui. E não entendo qual é o grilo. Já não tenho idade para me perder. A não ser  que me perdesse com alguma cara linda. Ou será que imaginas que teria ido com ela para outros horizontes? Vontade não me falta. O problema é não haver cara linda, apenas linda e sem ser cara metade.

Para ser honesto não garanto, com fidelidade, se disse o que disse, ou apenas pensei que o devia dizer. Enfim lá regressamos ao nosso passeio conjunto de mão dada, talvez para evitar que alguém ficasse só com meia cara. E logo voltava a tarefa de andar à procura da metade perdida. No fundo é esta a nossa sina. No fundo será que gostamos de viver neste contentamento descontente?

Quando puder volto a calcorrear as ruas da capital. É um vício assumido. E sendo um passeio recorrente é sempre uma nova experiência. Mesmo com a cara metade. E acredite ou não, tudo volta à estaca zero. E a história poderá ser outra, mas também poderá ser a mesma. Aconteça ou não. Tudo culpa da liberdade da imaginação, que se recusa a andar com cara metade.  

MG

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publicado às 22:14

Quando o livro sai à rua

por Naçao Valente, em 13.06.15
 
 

Ir a uma feira do livro é, para um viciado em livros, como para um católico militante ir em Maio ao santuário de Fátima. Como o católico não vai à espera de uma benesse imediata, como um milagre, mas por sentir uma necessidade espiritual, o adorador da galáxia de Gutemberg não vai pela necessidade de  adquirir o livro A ou B, mas para um encontro especial com o espírito das letras. Num certo sentido, ambos cumprem um ritual.

 

Ir em Maio à feira o livro de Lisboa, mãe  de todas as feiras, tem um sabor especial. É como viajar por dentro dos livros. E para os amantes  de livros à antiga, estes são papel, tinta, letras, imagens. Existem, têm substância, satisfazem todos os sentidos: despertam o tacto, atraem o olhar, despertam a audição no restolhar das páginas, interrogam com a sua mudez, não são indiferentes ao olfacto. Ali estão discretos na sua sabedoria, humildes nas milhares de ideias e mensagens que guardam, disponíveis e ao alcance de qualquer mão. Deixam-se folhear sem protesto, felizes por um convívio aberto com a sua razão de ser, os leitores. Ali voltam a ter um feliz encontro com os criadores que lhes deram vida e asas para voar.

 

Os rituais alimentam a fé. As feiras de livros, em qualquer lugar, são para além de lugares de divulgação e comércio, sítios onde se retoma a ligação umbilical com a aventura humana. Ali está o ADN da humanidade, a palavra escrita, o registo da memória, a prova de temos um passado e a garantia de que teremos um futuro. No espírito daquelas páginas está o conhecimento acumulado e a alma de todos os que construíram. Hamurabi, Homero, Hesíodo, Vergilio, Heródoto, Sócrates, Arquimedes, Aristófanes, Cícero, Horácio, Santo Agostinho, Leonardo de Vince, Camões, Galileu, Newton, Stendhal, Vítor Hugo, Cervantes, Anderson, Eça, Saramago...são nomes que de repente me vêm à memória, entre tantos outros que é impossível enumerar.

 

Os livros na sua quietude de papel são organismos vivos . Se os entendermos, se os vivermos, se com eles convivermos, entramos na sua intimidade e viajamos, ao fim e ao cabo, por dentro de nós próprios. Em Maio esperam-nos no parque Eduardo VII, em Lisboa. De braços abertos.

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publicado às 00:58

Canção de Verão

por Naçao Valente, em 04.07.14

Este Verão anda muito envergonhado e pobrezinho. Talvez esteja a sofrer os efeitos da austeridade custe o que custar. Os ditos mercados já nos tiraram muita qualidade de vida em consequência, dizem, do nosso mau comportamento. Quem nos mandou viver acima das nossas possibilidades? afirmam. Mas parece que ainda não contentes nos querem tirar o nosso saboroso verão.  Não deixem. Com mais ou menos Sol, não percam a alegria e a esperança. E em vez dos antidepressivos das grandes multinacionais ouçam este som espectacular. Não se arrependerão! Aproveitem as Praias de Lisboa:

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publicado às 22:02

O cemitério dos livros esquecidos

por Naçao Valente, em 10.06.14

O escritor catalão Ruiz Zafón criou no seu universo ficcional o cemitério dos livros esquecidos, situado numa Barcelona mítica do século passado. Nesse local, vivem os livros que desde o princípio da escrita foram sendo guardados para que, ironicamente, não se percam no esquecimento eterno. Os convidados a visitar essa estranha biblioteca, assumiam o compromisso de não denunciar o seu paradeiro e de se responsabilizarem por um desses livros.

 

Quando entro na feira do livro de Lisboa, sinto-me um personagem de Zafón numa visita ao seu cemitério dos livros esquecidos. Ali repousam milhares de livros. Muitos são figuras mediáticas de grande visibilidade, mas outros, tantos, estão completamente esquecidos, naquelas prateleiras, à espera que que alguém se lembre deles. Pois, há livros que, também, desesperam na sua solidão. E do silêncio das suas palavras mudas, clamam pelo carinho de algum passante. Choram, em silêncio, lágrimas de tinta. É certo que a maioria passa indiferente ao sofrimento dos livros esquecidos, quando não indiferente aos livros em geral. Outros visitantes fixam-se nos tops e nos livros, transitoriamente,  privilegiados, da galáxia de Gutenberg.

 

Um amante de livros, de todos os livros, não pode fazer descriminação. De uma forma ou de outra, todos tem em si um pouco da aventura humana de que somos herdeiros e continuadores. Essa memória que, apesar de momentos de descrença, nos faz acreditar que a utopia é possível. Admiro-os sem excepção e procuro prestar-lhe a minha homenagem e o meu reconhecimento. É, também, para isso que ali vou. Sem excepção, envolvo-me com todos eles. Mas pelos abandonados a uma letargia forçada, tenho um carinho especial. São muitos e não posso mimá-los a todos. Contudo, vou dando o meu contributo: pego-lhes com cuidado, folheio as suas páginas amareladas pelo tempo, recupero por breves momentos palavras, frases adormecidas, e sinto que ficam felizes. Depois ,interesso-me por algum (ou será ele que se interessa por mim?) e resgato-o da sua penumbra. 

 

Até ao próximo dia 15 de Junho os livros esperam por si no parque Eduardo VII.  Aguardam a sua visita. E se puder, retire pelo menos um do esquecimento, ou então evite que outros sejam colocados na marginalidade.

 

MG. 

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publicado às 12:57

David e Golias (Histórias do quotidiano)

por Naçao Valente, em 15.10.13

 

 

Deixei de viver na capital há mais de trinta anos. Contudo, de tempos a tempos desço ao povoado, como costumo dizer, para tomar um banho de cosmopolitismo e matar velhas saudades. Na minha última visita deambulava pela praça dos Restauradores quando um desconhecido me abordou com um sotaque que me pareceu familiar:

-Tu não és o Carlos Antunes?

-É como me tratam. Com quem estou a falar?

-Eu bem me parecia. Não te vejo desde os anos setenta mas reconheci-te de imediato. Estás na mesma, parece que os anos não te fizeram mossa. Eu sou o João. Fomos hóspedes na casa da dona Conceição.

-Claro, o João Saramago. Quem diria. O corpo disforme, o cabelo escasso, a voz arrastada. Caraças. O que é feito do João garboso, atlético, trigueiro natural como marca do seu Alentejo? Onde está o sedutor que se gabava das suas performances durante as intermináveis noites com a namorada. Porque raio nos castiga assim a puta da vida.

-Caramba pá, o tempo esqueceu-se de ti, continuou João. Até parece que vendeste a alma à juventude eterna. Qual é afinal o teu segredo?

-É muito simples, respondi. Saí há muito do bulício da cidade. Vivo na parvónia: sossego, ar puro, vida saudável; além disso sou um solteirão empedernido, não tenho mulher para me torrar a paciência, nem filhos para me fazerem cabelos brancos.

-Pois eu, Carlos, casei muito novo. Como sabes tive de juntar os trapinhos à pressa com a Virgínia a minha primeira e única namorada, porque ficou prenha apesar de todos os cuidados que tínhamos. Será que a reconheces? Está aqui ao meu lado.

Lembrava-me, claramente, desse casamento. Fui convidado mas não estive presente. Tinha as minhas razões. Não havia dúvida. Estava ali a mesma Virgínia: a mesma beleza selvagem, o mesmo rosto que roçava a perfeição, apenas mais flácido, os mesmos fascinantes olhos azuis, apenas com menos brilho. Como não reconheceria Virgínia depois do que nos aconteceu num fim-de-semana alucinante.

Tudo começou quando o Joaquim, um outro hóspede, me convidou a ir passar o sábado e o domingo à casa praia de uma amiga da namorada, chamada Leonor. A Leonor que conheci numa passagem de ano, era uma quarentona desinibida e viúva de afectos. Aceitei o convite. E lá teria ido se a “mamãe” Conceição como a tratávamos não se tivesse metido no caso, com as suas “finas” ironias, durante o jantar. “Então senhor Carlos quando é o casamento?” Embaraçou-me. Sou discreto, não gosto de ver a minha vida nas bocas do mundo. Previ que o assunto teria novos capítulos, com muitos pormenores. Não tenho estofo psicológico para aguentar insinuações. Admito a minha fraqueza. Dei o dito pelo não dito. Arranjei uma desculpa esfarrapada. Pus-me de fora.

Contudo, o Joaquim não quis deixar a Leonor a servir de pau-de-cabeleira e arranjou uma alternativa. E quem estava mesmo à mão? Nem mais nem menos que o garanhão do João Saramago. O João não se limitou a aceitar. Teve de dar espaço à sua habitual bazófia: “ela só vai ganhar com a troca. Nunca teve na cama ninguém tão bem artilhado. As réguas da escola que tinham vinte centímetros não chegavam para mo medir”. Se já estava em baixo a soberba do João pôs-me mais pequenino que um verme. Mas a vida quando menos se espera dá cambalhotas surpreendentes. Mal sabia eu que o melhor estava para vir.

Naquele Sábado ia sair depois do jantar para afastar as teias de aranha que me povoavam a mente quando “mamãe” Conceição me chamou:

-Senhor Carlos espere, tem aqui um telefonema. Atendi.

-Está, disse uma voz tão distante que parecia que vinha do além.

-Estou!

-Fala a Virgínia. Desculpa se incomodo. O João disse-me que ia ao Alentejo visitar os pais e aqui na casa onde estou hospedada está tudo de fim-de-semana e até a patroa foi ver uns familiares. Estou um pouco abandonada e aborrecida. Se não tens nenhum compromisso convido-te para ir ver um filminho.

-Era mesmo isso que ia fazer, disse procurando esconder a surpresa. Onde nos encontramos?

Montei-me no meu velho mini e apanhei a Virgínia Junto à fonte luminosa quando ainda tinha luz e água. Perguntei-lhe: tens algum filme em mente? Escolhe tu, respondeu. Estava meio bloqueado. As mulheres encabulam-me. Por isso deixei rolar o mini pelas ruas da cidade. E só deixou de rolar quando na praça dos Restauradores, junto ao cinema Condes, foi parado pela traseira de um carro estacionado. Ainda não consigo explicar como aconteceu. Ou me distraí com o cartaz “DAVID E GOLIAS” ou me perturbei com a beleza da companhia inesperada. Raio, isto não começa bem, murmurei. E agora? Perguntou Virgínia. Agora bate-chapas e tinta…A Virgínia deve ter percebido a minha perturbação. Fez uma fuga para a frente: vamos esquecer o filme; vamos tomar um drink e bater um papo; concordas? Bater um papo é coisa a que não resistia, naqueles tempos revolucionários. Aonde? Perguntei Na minha casa, respondeu. Engoli em seco. Deixei-me levar, o que podia fazer? Não sei dizer não a uma dama. Sou mesmo um fraco.

Percorremos um corredor até uma salinha com um sofá, um televisor e um velho piano de cauda.

-Uau, aqui mora gente fina? Disse  para quebrar o silêncio.

-A menina Amélia foi uma menina bem. Na juventude aprendeu a tocar piano e a falar francês. Quando os pais morreram estava solteira e sem profissão. Agora para sobreviver aluga quartos. Põe-te à vontade, Senta-te que eu já venho.

Quando Virgínia regressou caiu-me o coração aos pés. A moça vestia uma curta e transparente camisa de noite que deixava ver roupa interior com bolinhas amarelas. Até parece que ainda estou a ver. Sentou-se ao meu lado. Procurei manter a serenidade enquanto pensava: “como vou sair desta?" Lancei um assunto:

-O que achas do governo Vasco Gonçalves? Parece que os “comunas” estão a pôr-nos  a pata em cima. Ainda mal saímos de uma ditadura e estamos quase a entrar noutra…

-Não percebe nada de comunas. Sou mais de põr a pata em cima, respondeu Virgínia. Sem me dar mais nenhuma  “deixa”  agarrou-me e pespegou-me  um beijo na boca que me fez ver estrelas. Quando parou para respirar consegui dizer:

-Que se passa Virgínia, porque fizeste isto?

-Não me digas que não gostaste?

Sou um fraco. Não consigo pregar uma mentira, mesmo piedosa. Fui sincero:

-Claro que gostei. Mas, por acaso, tu não és a namoradinha de um amigo meu? Ou por acaso vocês estão zangados e estás carente  de afecto?.

-O teu amigo, esse grande cabrão, disse aumentando o tom de voz,  está agora a “chifrar-me” com uma coroa desavergonhada, possivelmente embalados pelas ondas do mar.

-Ó Virgínia , tu sabias?

-Claro que sabia. Achas-me com cara de tansa? Mas isso agora não interessa nada. Nâo estamos em revolução? E mulher na revolução  é biombo de sala? Liberdade, igualdade, amor livre  é exclusivo de macho?

Senti que estava a ser usado e a praticar pecado venial com mulher de outro, mas não fui capaz de resistir. Apeteceu-me fugir, mas não o fiz.Sou mesmo um fraco.  Deixei-a despojar-me da pouca roupa que vestia e sem saber como fui parar à sua cama no escurinho do seu quarto. Foi uma noite interminável. Numa coisa o João tinha razão: a moça tinha estofo de maratonista e vi-me e desejei-me para a acompanhar até à meta.

O dia tinha começado há muito quando acordámos. Apenas me lembrei de dizer:

-Espero não te ter desiludido. Estás habituada a andar num grande carrão e hoje tiveste de te contentar com um mini.

-Foi uma noite inigualável e irrepetível. O que interessa é a eficiência. Grandes para quê, meu amigo?

 

Amigo Carlos, disse João, nem estou em mim. Nunca imaginei que te iria encontrar  trinta anos depois. Mas ainda não apresentei a nossa melhor produção, a Olinda, que já está uma mulher, quase a sair doutora.

 Olinda fazia jus ao nome. Era linda de morrer. Mas o mais curioso é que me pareceu ter voltado aos anos setenta, ao tempo da juventude de Virgínia. O mesmo corpo esbelto, o mesmo rosto no qual apenas destoavam uns luminosos olhos castanhos. Cumprimentei-a:

-É muito bonita menina. Tem a quem sair. Vocês de facto esmeraram-se.

-Apenas destoa na cor dos olhos, eu tenho os olhos verdes e a Virgínia os olhos azuis.

-Às vezes vão buscar essas características a antepassados remotos. Nem tudo pode ser perfeito. Acontece amigo João

.

Acontece senhor Carlos, disse “mamãe” Conceição mal entrei.

O quê, dona Conceição?

-Ainda não sabe? O truca-truca do nosso João com a Leonor correu mal. Foi uma noite interminável. A batalhar, a batalhar e o coiso a dar sempre nega atrás de nega. A Leonor bem ajudou com toda a sua experiência e nada. Eu acho que foi castigo por ter deixado a namorada, uma moça tão linda, abandonada e triste. Deve ter passado um fim de semana interminável. “Pois passou“, comentei em surdina , “e pela boca morre o peixe, mas ainda bem que não fui eu o cordeiro, pois  já estava a prever isto, fosse qual fosse o resultado ou não conhecesse em a “mamãe”.  O que está a dizer senhor Carlos? Nada, nada, dona Conceição, enquanto ia saindo de fininho da conversa.

 

-A conversa ainda só está no início mas estamos com pressa. Vamos assistir a um concerto. Dá-me o teu contacto, Carlos. Assim que a Olinda sair doutora vou dar uma festa de arromba e já estás convidado… não é Virgínia?

Olhei para Virgínia. Vi um certo brilho nos seus olhos. Estarei presente com muito gosto, disse. O que posso fazer? Não sei dizer não, especialmente à Virgínia. Esta fraqueza nasceu comigo e comigo viverá. Despedimo-nos. Enquanto me afastava revi de novo Olinda. Perseguia-me uma interrogação. Mas onde é que já vi estes olhos castanhos? Quando passava junto ao ex-cinema Condes fez-se luz no meu espírito. Eureka.” Vejo estes olhos sempre que me olho no espelho”. Bolas! Agora tenho razões de sobra para voltar, pois é evidente que o pequeno David venceu Golias mais uma vez.

MG

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publicado às 17:39

Qual é a tua ó meu

por Naçao Valente, em 14.06.13

 

(Refrão)
Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer "quem manda aqui sou eu"?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu.

Com trinta por uma linha
Esburacaste a Liberdade
E a Alegria
É só puxar a Pontinha
Cai o Carmo e a Trindade
No mesmo dia

Com tanta Ladra no mundo
O teu Rato andava à caça
de Sapadores
Quanto mais a dor Dafundo
Menos a gente acha Graça
Aos ditadores

(Refrão)

O Intendente semeou
O Desterro e o Calvário
Sem nenhum dó
Mas Santa Justa acordou
Porque a Voz do Operário
Não Fala-Só

Pedes Ajuda e Mercês
Mas só Palhavã vais pondo
No nosso prato
Engarrafa-se o Marquês
E cai o Conde Redondo
Mais o Beato

(Refrão)

Sem Socorro, ardeu-te a tenda
E tu ficas Entrecampos
A ver se escapas
Mas como não tens Emenda
Vais com Baixa de sarampo
Para a Buraca

Não é possível meter
Águas Livres numa Bica,
Como tu queres
Quem pensa assim, podes crer,
Campo Grande onde Benfica
É nos Prazeres

 

 

No período do PREC José Mário Branco compôs esta canção para um concurso de marchas populares em Lisboa. O Júri desse concurso eliminou-a por ter falta de qualidade. Falta de qualidade? De facto tudo na vida é relativo. O dito júri esfumou-se. Mas esta canção ficou e ficará na história da música portuguesa. Lembro-a em tempo de santos populares.

 

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publicado às 21:51

Santo António com tomates.

por Naçao Valente, em 12.06.13

 efeitos

 

Estamos no tempo dos santos populares. Para já temos o santo antónio. Casamenteiro e rei da folia. Em sua honra hoje e amanhão vai-se comer sardinha à tripa forra, especialmente em Lisboa. À tripa forra é capaz de ser exagero, se cada uma custa para aí dois euros. Pronto cortamos na sardinha mas compensemos no tomate. Digo-o com conhecimento de causa. Portugal é um país com muitos tomates. Foi o que disse o homem de Boliqueime no dia de Portugal, o que veio mesmo a propósito E o homem de Boliqueime nunca se engana. Só nos engana, mas isso são contas de outro rosário.

 

Voltando à tomatada vamos então comemorar o santo António, bom português emigrado em Pádua, com muita salada de tomate. E como o homem de Boliqueime merece toda a nossa consideração, guardemos uns bem madurinhos para lhe oferecer. Sim que ele parece não os possuir. E como está inacessível lá no palácio que ocupa, quando ele passar por aí vamos dar-lhos da maneira mais conveniente. Santo António como bom folião, até vai gostar.

 

MG

 

 

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publicado às 19:59

Por dentro dos livros

por Naçao Valente, em 25.05.13

Ir a uma feira do livro é, para um viciado em livros, como para um católico militante ir em Maio ao santuário de Fátima. Como o católico não vai à espera de uma benesse imediata, como um milagre, mas por sentir uma necessidade espiritual, o adorador da galáxia de Gutemberg não vai pela necessidade de  adquirir o livro A ou B, mas para um encontro especial com o espírito das letras. Num certo sentido, ambos cumprem um ritual.

 

Ir em Maio à feira o livro de Lisboa, mãe  de todas as feiras, tem um sabor especial. É como viajar por dentro dos livros. E para os amantes  de livros à antiga, estes são papel, tinta, letras, imagens. Existem, têm substância, satisfazem todos os sentidos: despertam o tacto, atraem o olhar, despertam a audição no restolhar das páginas, interrogam com a sua mudez, não são indiferentes ao olfacto. Ali estão discretos na sua sabedoria, humildes nas milhares de ideias e mensagens que guardam, disponíveis e ao alcance de qualquer mão. Deixam-se folhear sem protesto, felizes por um convívio aberto com a sua razão de ser, os leitores. Ali voltam a ter um feliz encontro com os criadores que lhes deram vida e asas para voar.

 

Os rituais alimentam a fé. As feiras de livros, em qualquer lugar, são para além de lugares de divulgação e comércio, sítios onde se retoma a ligação umbilical com a aventura humana. Ali está o ADN da humanidade, a palavra escrita, o registo da memória, a prova de temos um passado e a garantia de que teremos um futuro. No espírito daquelas páginas está o conhecimento acumulado e a alma de todos os que construíram. Hamurabi, Homero, Hesíodo, Vergilio, Heródoto, Sócrates, Arquimedes, Aristófanes, Cícero, Horácio, Santo Agostinho, Leonardo de Vince, Camões, Galileu, Newton, Stendhal, Vítor Hugo, Cervantes, Anderson, Eça, Saramago...são nomes que de repente me vêm à memória, entre tantos outros que é impossível enumerar.

 

Os livros na sua quietude de papel são organismos vivos . Se os entendermos, se os vivermos, se com eles convivermos, entramos na sua intimidade e viajamos, ao fim e ao cabo, por dentro de nós próprios. Em Maio esperam-os no parque Eduardo VII, em Lisboa. De braços abertos.

 

MG

 

 

 

 

 

 

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publicado às 22:28

Mulher não sabe ler sinais de trânsito

por Naçao Valente, em 08.04.13

 

Para mal dos meus pecados acompanhei uma dama à capital. Acomodei-me no lugar do pendura e lá fui, pensando de mim para mim, "vamos lá ver se isto corre bem". Não correu! Diga-se em abono da verdade que não sou sexista, nem um bocadinho. Mas que há coincidências há.

 

Nada a ver com a condução. Admito que não faria melhor. O diabo está nos detalhes, melhor, no estacionamento. Contudo, parecia que começava bem. Parque pago, daqueles onde se põe umas moedinhas, lugares de fácil arrumação. Tudo preparado para dar certo. Arrumada a viatura para o merecido descanso, fomos à pata, numa missão quase impossível, procurar uma tela de bordar, que segundo consta, terá existido em tempos idos. Mas dama quando encasqueta  uma coisa nas meninges...adiante, corremos seca e Meca e objectivo zero. Muito mais previsível que as previsões do Gaspar. Fazer o quê?

 

Voltámos para retomar o recuperado carro. Ao aproximarmo-nos, deparámo-nos com uma situação insólita. O sortudo, estava a ser envolvido com uma fita colorida, assim a modos como aquelas que põem ao pescoço dos homenageados no dia da nação. Mas quando me aproximei vi que o infeliz estava a ser simultaneamente algemado, isto é já tinha uma roda bloqueada. Não batia a bota com a perdigota. No imediato, fiquei estupefacto, mas dentro das minhas limitações percebi, "não sei porquê mas estamos lixados".

 

A dama ainda correu apressada para junto dos cavalheiros que praticavam a má acção. "Mas eu paguei o estacionamento", balbuciou. Pois pagou, disse um calmeirão fardado a preceito, o problema é que estacionou num lugar proibido. "Mas isto não é um parque de estacionamento? Está ali a placa". É, respodeu sem respeitar a pontuação, com excepção deste lugar". A dama ainda tentou atirar com o chamado charme feminino para cima (salvo seja) do fiscalizador, dizendo: "eu venho aqui muito raramente e não me apercebi".  Não adiantou, o homem tinha sido programado para multar e não havia argumentos, por maiores que fossem, que o convencessem. Um funcionário exemplar. Merece ser recompensado no paraíso.

 

Fiquei calado que nem um rato e enquanto a dama pagava a multa, via multibanco, deslizei de mansinho até junto ao sinal de trânsito da entrada do parque. Verificado. Lá estava a cores e com todas as letras "proibido estacionar". Confirmado. Mulher não sabe ler sinais de trânsito. Voltei da minha discreta ronda e constatei que dois atarefados agentes, sentados numa secretária improvisada, dentro de uma carrinha que pedia descanso e caldos de galinha, daquelas que os ciganos usam nas feiras, lutavam com um computador portátil, que recusava aceder ao seu servidor para passar a multa. Continuei de bico calado, mas pensei: "há máquinas mais sensatas que os humanos". Por fim, um deles disse: passa a multa à mão. À mão, disse o outro, não sei, já perdi o jeito.

 

 

O senhor agente teve mesmo de meter mãos à obra .E nós à espera, que a coisa rendia! Enquanto preenchia o formulário com leves afagos e instruções via telemóvel, que com a precipitação deixou cair, divindindo-o em dois, o grandalhão desbloqueou a roda e aliviou a viatura daquele injusto castigo. Eu continuava mudo de nascença e a dama com cara de caso (ou de, casa) só dizia: Lá se foram oitenta euros (setenta da multa e dez para tirar o aparelho de tortura). Apenas por não saber ler sinais de trânsito. Moral da história: quem viajar com dama, previna-se. Nunca confie. É que há coisas que são genéticas e receio que não haja excepções.

 

 

 

MG

 

 

 

E nós à espera!

 

 

 

 

 

 

  

 

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publicado às 15:53

Lisboa é

por Naçao Valente, em 12.12.11

Lisboa é barco,

é batel,

cidade de sombra e luz;

Lisboa é água, Babel,

adaga,

espada e cruz

 

Lisboa é guerra ,

é vingança,

amor,ódio e traição;

Lisboa é mudança e esperança,

1383,

 justiça e revolução

 

Lisboa é sol,

é pimenta,

caravela sem idade;

é vela,mar,

e tormenta,

 é sonho e realidade

 

Lisboa é ouro

é Brasil

passarola intemporal;

é acúcar e anil,

cheiro, pregão,

 luz e cal

 

Lisboa é grito,

tristeza,

fado menor e vadio;

é realidade e mito,

donzela,

 amor e cio

 

Lisboa é desejo,

é saudade,

Lisboa é canela fina;

é mentira e verdade

menina,

 moça e menina.

 
MG

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publicado às 21:23




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