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Parêntesis na puta da vida, porque hoje é sábado

por Naçao Valente, em 16.08.14

Porque hoje é sábado fui passear os calcantes para o Shopping e como quem não quer a coisa entrei na FNAC (passe a publicidade) para pastar os olhos pelas novidades literárias. Agarrei num livro quase ao acaso e sentei-me entre uma senhora bem posta e um cavalheiro com facies(passe o estrangeirismo) indiano. Cada um deles, com os olhos pregados numa página de um livro ocasional. Nos lugares da frente, uma fila de leitores quase todos equipados com umas apropriadas lunetas na ponta do nariz, saboreavam concentrados páginas de prazeres virtuais.

 

Abri ao acaso o livro, escrito por um tal Gonçalo M. Tavares ( na badana muito premiado) e vi-me envolvido numa história com um cabrão de um guia anão e intelectual (descrição do autor) que  vociferava contra a geometria da catedral da Cidade do México, pondo os cabelos em pé aos visitantes ocidentais, alguns já motivados para tirar o raio do anão (expressão minha) de cena ,quando a visita acabou(e ainda bem). Virei a página e do anão nem rasto. Ia começar outra história no mesmo cenário citadino. Agora era um menino de onze anos que queria à viva força casar-me com a mãe ,que pelos vistos, não tinha marido. E sem ter tempo para respirar fundo, já me apresentava a dama em lingerie e dizia "é este. é este". Tirem-me desta história pensei em voz alta, sem que os leitores envolventes sequer pestanejassem. Apenas um cidadão, sentado em frente, misto de ancestralidade e modernidade (passe a indiscrição) com um boné tradicional a emoldurar uma aparada barba branca e calçado com uns ténis Nike (que se lixe a publicidade) me olhou de soslaio por cima do seu livro de artes culinárias. Isto cada tiro cada melro, pensei, pois mal virei a página já estava envolvido noutra aventura, ao procurar proteger um rapaz que apedrejara um ecrã de cinema, na altura em que o herói ia beijar a rapariga (não interessa o motivo), causando um olho negro no actor/personagem e um rombo na tela. E não fora um jovem amigo ocasional, poderia ter levado um tiro do assanhado proprietário do cinema, que ameaçava o pirralho de revólver engatilhado. Tiro-me já deste filme antes que seja tarde. Recusei mudar de página, fechei o estranho livro e li de supetão a capa. Em letras salientes dizia: Canções Mexicanas ( passe a divulgação). Levantei-me do concílio de leitores e devolvi o livro à estante. Noutro sábado talvez volte a enfrentá-lo, num qualquer Shopping (com toda a descrição) numa qualquer livraria (nada de publicidade) porque este é um dia de parêntesis na rotina ronceira da puta da vida.

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publicado às 23:43

O cemitério dos livros esquecidos

por Naçao Valente, em 10.06.14

O escritor catalão Ruiz Zafón criou no seu universo ficcional o cemitério dos livros esquecidos, situado numa Barcelona mítica do século passado. Nesse local, vivem os livros que desde o princípio da escrita foram sendo guardados para que, ironicamente, não se percam no esquecimento eterno. Os convidados a visitar essa estranha biblioteca, assumiam o compromisso de não denunciar o seu paradeiro e de se responsabilizarem por um desses livros.

 

Quando entro na feira do livro de Lisboa, sinto-me um personagem de Zafón numa visita ao seu cemitério dos livros esquecidos. Ali repousam milhares de livros. Muitos são figuras mediáticas de grande visibilidade, mas outros, tantos, estão completamente esquecidos, naquelas prateleiras, à espera que que alguém se lembre deles. Pois, há livros que, também, desesperam na sua solidão. E do silêncio das suas palavras mudas, clamam pelo carinho de algum passante. Choram, em silêncio, lágrimas de tinta. É certo que a maioria passa indiferente ao sofrimento dos livros esquecidos, quando não indiferente aos livros em geral. Outros visitantes fixam-se nos tops e nos livros, transitoriamente,  privilegiados, da galáxia de Gutenberg.

 

Um amante de livros, de todos os livros, não pode fazer descriminação. De uma forma ou de outra, todos tem em si um pouco da aventura humana de que somos herdeiros e continuadores. Essa memória que, apesar de momentos de descrença, nos faz acreditar que a utopia é possível. Admiro-os sem excepção e procuro prestar-lhe a minha homenagem e o meu reconhecimento. É, também, para isso que ali vou. Sem excepção, envolvo-me com todos eles. Mas pelos abandonados a uma letargia forçada, tenho um carinho especial. São muitos e não posso mimá-los a todos. Contudo, vou dando o meu contributo: pego-lhes com cuidado, folheio as suas páginas amareladas pelo tempo, recupero por breves momentos palavras, frases adormecidas, e sinto que ficam felizes. Depois ,interesso-me por algum (ou será ele que se interessa por mim?) e resgato-o da sua penumbra. 

 

Até ao próximo dia 15 de Junho os livros esperam por si no parque Eduardo VII.  Aguardam a sua visita. E se puder, retire pelo menos um do esquecimento, ou então evite que outros sejam colocados na marginalidade.

 

MG. 

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publicado às 12:57

Pensei que aceitasses "que trocássemos umas ideias sobre o assunto". Disse-o com a esperança de merecer alguma atenção do escritor Mário de Carvalho. "Era bom", seria a resposta esperada. Eu sei que ele é o autor único e indivisível e eu apenas um, entre milhares de leitores. Mas também li, seja ceguinho se não li, que um livro uma vez parido, deixa de ser apenas de quem o gerou, para ser de todos, os que o de corpo e alma, o manuseiam. Um pouco como um filho, que depois de sair da barriga da mãe, se torna  cidadão do mundo e de certo modo, propriedade da nação, para o a que der e vier.

E é nesse sentido, que ouso invadir o lugar de conforto do autor, e perturbá-lo no seu solilóquio. Primeiro senti-me agastado, por este, só ao fim de dezoito páginas de descrição contestável de ambientes, introduzir na história as personagens. E ainda mais agastado fiquei quando me pespegou, no focinho, que o fazia deliberadamente, como um recurso anti-criativo. E por falar em recurso, ainda me atira com um discurso sobre o uso da analepse. Porra pá! Não seria mais civilizado aplicá-la, como fazem todos os outros? Não deve o criador usar as figuras de estilo que lhe der na mona, sem ter de explicar e justificar a sua utilização? Sobre o assunto, gostaria que trocássemos umas ideias. E por falar em figuras de estilo, estou carente de conhecimento sobre a captura das metáforas, pelos fazedores de poesia e pela razão de esta não o ser se não tiver sido emprenhada por essas figuras. Do mesmo jeito, mas num contexto mais abrangente, nem entendo o papel castrador dado às regras gramaticais. Mas que crédito se pode atribuir a uma Senhora que está sempre a mudar. Agora diz que é tlebes, mas em tempos foi generativa e não quero ir mais aquém, nem predizer mais além, para não falhar na previsão.

Pois, gostaria que trocássemos umas ideias. Sim, porque uns são filhos da mãe e outros filhos da outra. Ou seja, uns podem mandar a dita para as urtigas e são um génio e outros, se o fizerem, são acusados de maltratar sua excelência. Não entendes? Eu explico: se eu colocar uma vírgula entre o sujeito e o predicado, aqui d'el rei que cometi erro grave sem perceber porquê. Afinal, porque raio o desgraçado do sujeito e o infeliz do predicado têm de passar a vida separados por um muro. Bem,  mas quando o grande Saramago resolveu escrever sem passar cavaco à pontuação, aleluia que é inovação. É o que digo: dois pesos e duas medidas. Se um obscuro escriba falhar na utilização de maiúsculas, está a ofender a santa gramática. Agora quando o Valter Hugo Mãe não as usa a seguir aos pontos, merece encómios. Deve ser por essas e por outras, que o dito cujo, não aprecia os meus contos no concurso FNAC onde é júri, já que entre mil nunca ficaram nos dez melhores. Dá próxima vez vou dar tratos de polé à dita cuja.

A não ser que trocássemos umas ideias sobre o assunto, porque os personagens principais, (ou serão secundárias?), passam a vida entre analepses, a não fazer coisa nenhuma. E como é que um bibliotecário, com uma vida de merda, um filho preso por tráfico de droga, e que quer entrar para o PCP, um velho professor comunista, divorciado, e com uma filha armada em missionária, a apanhar picadas de mosquito, que quer sair do PCP, uma tipa que pensa que é jornalista e que se mete na cama do Professor (quando tem P grande) para que lhe componha a entrevista a Agustina Bessa Luís, (entre outras) de que não percebeu pevide e dois burocratas do PCP, que descobrem que o bibliotecário andou na juventude a rasgar cartazes do partido e a escrever em jornais de província, artigos contra o KGB, acabam a história como a começaram. O comunista continuou a ser o militante que não queria ser, a jornalista que deixou de o ser quando se levantou da cama do professor e o bibliotecário que não conseguiu entrar para o partido, suprema humilhação. Ao fim e ao cabo nem mortes, nem traições, nem adultérios, nem porrada de criar bicho, nem uma verdadeira cena de sexo. Nem percebo como cheguei ao fim desta história, mas sei que queria era que o fim não chegasse porque "Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto".

 

MG

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publicado às 19:21




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