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Escrever no vento

por Naçao Valente, em 07.08.13

 

 

Palavras, palavras, palavras. De muitas palavras se faz a blogosfera. Palavras de elites da escrita. Palavras de milhares de cidadãos anónimos. O ciberespaço liberalizou a palavra, "igualitarizou" as ideias. Aqui todos podem exprimir-se, todos podem colocar opiniões, todos podem publicar textos mais ou menos literários. É o comunismo da escrita. O acesso da plebe à expressão do pensamento em letra de forma.A escrita dos blogues e nos sites não passa porem de uma imitação de democracia literária. A literatura que permite retorno imediato  e que ficará para memória futura continua a residir na velha galáxia de Gutemberg. E esta continua a funcionar no ciclo fechado de uma elite de nobre.

 

 Escrever no ciberespaço é como escrever no vento. É uma escrita efémera que uma brisa contínua vai arrastando do horizonte visível. É uma espécie de estrela cadente que pode brilhar intensamente por uns instantes mas depressa se transforma num obscuro buraco negro. O ciberescritor publica assim as crónicas que nunca escreveria, tira das gavetas da memória os contos que ali estavam condenados a uma inexistência eterna, reflecte o que não seria reflectido, exprime emoções, intimidades ,nas imagens paridas em textos poéticos. Inspiração, transpiração de vogais, consoantes, artigos, adjectivos, verbos, conjunções que não sairiam da gramática. Palavras, frases, períodos, parágrafos, texto, que não sairiam do dicionário. Pontos, exclamações, interrogações sem utilidade. Quase trabalho de Sísifo num constante vaivém para uma breve visibilidade. Vale a pena? O ciberescritor sai da penumbra do anonimato a que estava destinado. Ganha fiéis ou ocasionais leitores. Partilha a sua criatividade com os seus pares que reconhece e por quem é reconhecido. À margem ou no cerne labuta entra em pequenas redes de afectos. Já não é um número indefinido das estatísticas populacionais. É um entre mil ou mais que escreve sabendo que alguém vai ler. Pequena ou grande e única compensação? Quem pode dizer! Quem pode saber se o vento na sua galopada imprevisível não é dotado de memória? Quem sabe?

 

MG

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publicado às 20:49



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