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Romeu e Julieta happy end, epílogo

por Naçao Valente, em 11.08.16

Romeu contrata uma profissional do sexo para o iniciar sexualmente. O inspector Shakespeare aproveita para lhe montar uma armadilha. Vai enviar-lhe a agente Julieta no papel de prostituta.

 

Epílogo

 

Shakespeare resume o plano que Julieta tem de executar: às vinte e três horas apresenta-se como a prostituta contratada. Diz a senha combinada. Vou colocar-lhe uma discreta pulseira com um transmissor para nos contactar. Estamos no lado de fora. Reproduzimos a chave do apartamento e entramos de imediato quando nos chamar.

Quem é ? perguntou Romeu . À noite todos os gatos são pardos, respondeu Julieta. Romeu abriu a porta: segue-me. A agente estagiária seguiu-o por uma sala obscurecida. No quarto perguntou: porque estão as luzes apagadas? Contratei-te para me dares umas lições de sexo. Sou um pessoa conhecida e prestigiada e não quero ser reconhecido. Acontece que me apaixonei por uma bela dama que ainda não o sabe. Consultei uma cartomante e um astrólogo que me garantiram que serei correspondido, mas que tenho de mostrar proficiência. Deixa-te de tretas Romeu, eu também faço o meu trabalho com profissionalismo e gosto de ver o que faço. Acende a luz, sei ser discreta. Quem te disse o meu nome? Ninguém me disse. Basta-me ouvir o te discurso. Ok…Vou acender a luz.

Romeu viu então uma figura alta, com a silhueta disfarçada por um casaco comprido. A suposta prostituta virou-lhe as costa e foi-se libertando lentamente da peça de vestuário exterior. Por debaixo vestia uma t-shirt ousada e uns calções curtos. Virou-se sem pressa. Romeu embatucou. Julieta de olhos semicerrados desinibiu-se no seu papel: perdeste o pio? Eu não acredito-balbuciou-és a mulher que me tira o sono …e prostituta. Julieta observou o corpo de Romeu seminu e deu uma sonora gargalhada: mas és o tipo que me costuma comer com o olhar. Sou. Afinal já reparaste em mim? Reparei. E digo-te mais, eu não acredito em cartomantes mas que acertam, acertam. Como assim? Em cada dia que passava junto à loja para o meu trabalho me interrogava: será hoje que este pasmado se declara? Caramba, foi preciso o inspector Shakespeare suspeitar que és um assassino para desencalhares da fase do galanço. Raio! O amor se tem mesmo que acontecer salta todas as barreiras e ironia das ironias, regra geral, os namoros acabam na cama, este é onde começa. Sou Julieta Queiroz da polícia Judiciária em serviço de investigação e que investigação...

Romeu e Julieta cruzaram olhares ternurentos e entrelaçaram as mãos. A intensidade do gesto despoletou o alarme. Quieto ,disse o agente Damião de arma apontada ao peito nu de Romeu. Shakespeare aproximou-se: bom trabalho doutora. Apanhamos o bandido? Bandido? que bandido?, respondeu Julieta. Este é apenas o meu bandido. Mas o alarme, tocou . Foi falso alarme inspector. Isto é uma longa história. Está tudo sobre controle. Pode sair descansado. Deixe-me acabar o meu trabalho.

Happy end

 

Advertência: no cumprimento dos princípios da moral judaico-cristã esta história acaba aqui. Obrigado

 

Pós epílogo

O agente Damião arrastou suavemente o inspector para a rua. Pela primeira vez viu-o perder a compostura e desafivelar a máscara de policial. Lágrimas corriam-lhe pela face. Não se sente bem chefe? Aconteceu uma desgraça Damião. Vou fazer-lhe uma confidência. Na juventude tive uma relação com uma moça de boas famílias. Preconceitos de classe não nos deixaram ser felizes. Desse amor nasceu uma criança. A moça casou com um rico comerciante e sumiu com o filho. Hoje voltei a vê-lo. Reconheci-o por um sinal inconfundível no ombro. É o Romeu. Porra inspector, como o compreendo. Isto até parece uma novela mexicana. Não parece é, Damião, porque o mais trágico é que Julieta também é minha filha! Passou-se dos carretos doutor Shakespeare? Antes me tivesse passado. Para matar o meu desgosto de amor envolvi-me com uma corista do Parque Mayer. Essa relação foi passageira e dela só sobrou Julieta. Nunca assumi a paternidade mas sempre a acompanhei, incógnito. Fiquei feliz quando veio para a polícia. Da mãe herdou a beleza e tem os meus genes de investigadora. Sou mesmo um biltre. Criei as personagens e perdi-lhes o controle. Acalme-se inspector, é a vida. A vida meu amigo Damião é uma ficção escrita pelo destino. Umas vezes escreve tragédias, outras escreve comédias. Não sei qual preferir.

Deixe para lá inspector. O que tem que ser é. São jovens, estão felizes, o que quer fazer? Os tempos mudaram Shakespeare. Os criadores já não controlam as personagens que criam. Olhe, vamos até à casa da Mariquinhas, comer um galo capão de cabidela para matar a dor e beber um alvarinho para afogar as mágoas. A seguir logo se vê...

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publicado às 20:58

Romeu e Julieta happy end 5

por Naçao Valente, em 09.08.16

 


Romeu e Julieta-happy end V

 

No episódio anterior Romeu foi denunciado à polícia por um mirone que o acusou de cometer um crime. Foi visitado pelo inspector Shakespeare no seu apartamento mas não foram encontrados vestígios.

 

 

 

Romeu reconheceu que o plano A tinha falhado. Na manga esperava o plano B. Tinha chegado a hora de o executar. Eram 21 horas quando entrou bar Flórida pela primeira vez. Nunca tinha estado num local de venda de sexo. Na semi-obscuridades da sala reparou nas silhuetas sentadas em volta de mesas de pé de galo. Na pista de dança rodopiavam pares de dançarinos. Dirigiu-se ao balcão e sentou-se num banco de pé alto. Pediu um Wisqui e solicitou a presença do gerente. Bebeu um gole. Sentiu uma mão suave no ombro. Olhou de soslaio. “vamos dançar jeitoso?” Abanou a cabeça procurando sacudir aquela voz atrevida.

“Em que posso servi-lo” disse o individuo que se apresentou como gerente. “Queria contratar uma das suas meninas?” Olhe à sua volta e escolha”. Não está a perceber”, continuou Romeu; “vou directo ao assunto”: por razões que não vêem ao caso necessito de umas lições de sexo. Preciso uma profissional experiente e discreta, pois por razões que não interessa desenvolver não quero ser reconhecido. Não discuto o preço.” Se puder ser, desejo começar hoje”. “Já percebi” , afirmou o gerente,” vou enviar-lhe uma menina de toda a confiança. Pode ser às vinte e três”?.

O inspector Shakespeare disfarçado no sobretudo tweed esperou que Romeu saísse. Saiu da obscuridade e aproximou-se do balcão. Passou o crachá pelos olhos espantados do gerente do bar. “Polícia Judiciária”. “Posso ser útil?”, disse o gerente. “Quero que me diga o que pretendia o sujeito com quem esteve a falar. Estamos a segui-lo como suspeito de eventuais crimes”, informou o inspector. Ok disse o gerente . “Veio contratar uma menina. Combinámos enviá-la ao seu apartamento às vinte e três.” Não vai enviar menina nenhuma. Eu trato do assunto”.Shakespeare dirigiu para o carro e disse ao agente Damião:” ligue-me de imediato à agente estagiária Julieta Queiroz.”

 

Julieta Queiroz entrara para a PJ por vocação e convicção. Filha de uma corista de revista, e gerada durante uma relação ocasional da mãe nunca soube quem era o pai. Activa, determinada e inteligente cursou Direito para seguir a carreira policial. Aliava a estes predicados uma beleza rara e incomum que herdara da mãe. Distinguia-se pelo seu porte no meio das multidões. Era habitual receber piropos de homens atrevidos que não a intimidavam, pois costumava responder sempre à letra e embatucar os provocadores: “sou boa como o milho? Pois sou mas não é para o teu bico, galo capão”.

Depois do jantar adquirira o hábito de tomar um banho relaxante. Estava a sair da banheira quando o telefone tocou:

-Estou.

-Doutora Julieta fala Shakespeare

-A esta hora inspector?

-Temos uma urgência …prepare-se. Apanhamo-la dentro de meia hora.

“Vou directo ao assunto” disse Shakespeare quando Julieta entrou na viatura. “Podemos estar na pista do enguia. Acabou de contratar uma prostituta. Precisamos da sua colaboração para a substituir”. "Alto aí doutor Shakespeare. Sou agente de polícia. Não fui contratada como prostituta nem como actriz”, replicou Julieta. “Desculpe doutora, não a chamei para argumentar , mas para agir. É este o plano.”

 

continua

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publicado às 22:33

Romeu e Julieta, happy end-3

por Naçao Valente, em 03.08.16

Romeu procura encontrar uma companheira. Depois de referenciada sente dificuldades na abordagem. Resolve  consultar cartomantes e astrólogos. Estes dão-lhe a receita para conquistar a sua amada: tem de ser afirmativo e proficiente sobretudo no sexo. Decide começar a sua aprendizagem com uma boneca insuflável... 

 

 

O T0 da periferia possuía uma sala com kitchenete. Uma porta janela sem cortinados dava acesso a uma pequena varanda. Romeu  subiu em passo apressado os dois lances de escadas que o levavam  ao seu apartamento. Atravessou a sala em direcção ao quarto, ansioso por experimentar o equipamento. O vendedor da loja informara-o que à boneca só faltava falar, o que para o efeito podia ser uma vantagem. No resto quase imitava uma tipa de carne e osso. Na sua concepção estivera a beleza de Cleópatra. Mas esclareceu-o que não há bela sem senão..Avisou-o que a ranhura se sofresse excesso de calor poderia bloquear. Dito de outra forma não podia ter uma utilização longa.

 

Depois de insuflar a sua Cleópatra, Romeu achou-a  um pouco anafada para seu gosto. A primeira tentativa de utilização correu mal. Colocou-se em cima da boneca mas esta deslizou fazendo-o dar um trambolhão da cama do que resultou ficar com algumas mazelas superficiais. A sua Cleópatra parecia ser do tipo arisco, pensou Romeu  ainda meio atordoado. Parou para avaliar a situação. Quando começou a ler as instruções percebeu que a engordara. Depois de lhe reduzir a celulite voltou à carga. Conseguiu finalmente ajustar-se  na perfeição. O treino estava a resultar. Sentia que começava a dominar a situação. Senhor de si esqueceu-se do tempo e esqueceu a advertência do vendedor. Quando quis parar estava preso à sua personal trainer. Quanto mais estrebuchava mais aumentava a sua prisão. Num segundo de lucidez descobriu que precisava de esvaziá-la. Mas como, se não tinha acesso à válvula de enchimento?

 

Romeu percebeu que precisava de um instrumento cortante. Não tinha nenhum à mão. Começou a deslocar-se para a kitchenet  com a boneca acoplada. Ao atravessar a sala tropeçou nos pelos da alcatifa e estatelou-se. Com esforço conseguiu arrastar-se até à kitchenet e agarrar uma faca de cozinha. Golpeou-a com  raiva até começar a emagrecê-la. Libertou-se. Só então reparou que não tinha descido os estores da sala. Tarde de mais. No apartamento gémeo situado em frente do seu um olheiro observava-o assustado

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publicado às 21:27

Romeu e Julieta happy end-2

por Naçao Valente, em 01.08.16

II-continuação

 

No episódio anterior Romeu vive o dilema de lhe faltar uma cara metade. Desesperado resolve consultar uma cartomante que lhe traça um destino radioso e lhe dá alguns conselhos. Não fica totalmente esclarecido e resolve consultar um astrólogo.

 

Salte-lhe para cima 

 

Uma menina, mesmo menina, de longas e bem torneadas pernas, descobertas por uma espécie de saia que mal lhe cobria as generosas nádegas abriu-lhe a porta e recebeu-o com um sorriso carnudo de orelha a orelha. A coisa prometia pensou Romeu. "Sou Irene, muito prazer" enquanto estendia, num cumprimento, uma mão suave como seda que o deixou cheio de calafrios. "Espere um minutinho, o meu marido atende-o já." Irene empurrou uma porta, "mor está aqui o senhor Romeu". "Entre, disse o astrólogo". Entrou e viu na sua frente um cavalheiro de meia idade, gorducho, magro de cabelo, com reflexos de neve. "Está bem calçado o magano" foi a primeira ideia que lhe ocupou a mente. Feitas as apresentações, Hórus consultou um mapa astral de onde ia retirando cenários muito genéricos, mas todos promissores. No fim desta breve arenguisse, o discurso descambou para a actividade sexual, o que não estava desenquadrado . No fim Romeu reteve apenas a ideia que parecia faltar: "para conquistar e segurar uma mulher é preciso satisfazê-la sexualmente. Nunca use a técnica do coelho. Prolongue a acção durante bastante tempo...digamos que uma hora é o mínimo...para a deixar bem saciada." Pagou, despediu-se, reviu na saída a escultural menina mulher do cota Horus. Começou a achar sentido ao conselho do astrólogo " para conquistar e satisfazer uma mulher..." 

 

Romeu considerou que terminara a fase de consulta. Estava na hora de passar à acção. Mas sentia que antes de entrar no jogo a sério tinha de fazer alguma preparação. Tarefa que não se apresentava nada fácil. Por acaso lembrou-se de conversas com colegas nas horas mortas. Ouvira falar na Gruta do Amor, um estabelecimento clandestino onde se adquiriam artefactos sexuais. Nessas conversas tomara conhecimento da existência de bonecas insufláveis. Quando entrou na Gruta do Amor Romeu parecia um espião russo dos anos vinte. Ao espesso bigode acrescentara uma barba postiça, uns óculos de lentes grossas e um boné de pescador .Um tipo que parecia chupado das carochas olhou-o de soslaio e perguntou-lhe se podia ser útil. "Venho a pedido de um amigo que vive isolado saber se tem material insuflável." disse procurando disfarçar o tom de voz. Não pretendia pôr em causa a sua reputação de cidadão honesto e respeitador dos bons costumes. "Quer dizer imitação de gajas, feita de latex? Tenho aí material de primeira que até vibra e nunca se cansa.Tem preferência por cor? Tenho-as de todos os continentes e para todos os gostos."Tenho ainda as personalizadas que imitam tipas famosas. Aqui está o catálogo." Levo esta, disse Romeu, o meu amigo é admirador da Antiguidade, faça-me um embrulho discreto."

 

continua...

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publicado às 22:11

Félix Chato, o mau da fita.

por Naçao Valente, em 11.03.16

Ó Miguel,

 

Travei o passo, mas continuei a avançar. Afinal há mais marias no mundo. Aquele chamamento não devia ser para a minha pessoa. Nem estava muito interessado que fosse, pois quando alguém me aborda é para me pedir algo, ou vender alguma tralha.

 

-Miguel Vasconcelos,

 

Hesitei. Diacho, se calhar sou eu o visado. Desde que o dito nome é sinónimo de traição tornou-se pouco comum. Continuei a caminhar, mas pelo sim pelo não, fui olhando pelo rabinho do olho. E aí começou a desenhar-se na retina a figura esguia de Félix Chato Fininho. Agora não havia dúvida, o Chato estava no meu encalço. Não tinha alternativa. Parei, virei-me devagar e afivelei um sorriso de circunstância

 

-Então Miguel como vais?

 

O Chato foi meu colega de trabalho. Não o via há uns tempos, mas é o tipo de cidadão que não queria encontrar nem para beber um copo de bom vinho alentejano. Nem o recomendaria para genro da sogra mais empedernida. Aliás o fulano nem sogra tem. Em tempos foi casado com uma sua aluna dos cursos nocturnos, uma alentejana roliça e bem torneada, mas agora vive sozinho num T2 da periferia. Articulei mecanicamente uma frase batida, "gosto em ver-te" enquanto que a ideia que me borbulhava na mente era "gosto em ver-te coisíssima nenhuma".

 

-O que tens feito?

 

O que me apeteceu dizer foi: "o que tens a ver com isso ó "palhaço" andante?". Comedi-me. Há palavras que se tornam anátemas. Essa coisa da frontalidade é uma grande treta. Em nome da boa educação, temos que engolir muitos sapos. Mas que custa custa. Eu até compreendo que a criatura também seja filho de Deus, embora às vezes não pareça. Penitencio-me se é blasfémia. Mas este arrependimento é só retórica verbal, senão não tinha perguntado "como vai a família" a um gajo que vive sozinho, não sei se por opção, contingência ou espírito de eremita.

 

-... (silêncio)

 

Nem sei como a ex-mulher ainda partilhou com ele a mesma cama durante uns anos. Mas que partilhou, partilhou. Tanto mais que lhe fez uma filha. O que para ela não era coisa nova, pois quando se juntou com o Chato trouxe como prémio um filho de uma outra relação não concretizada. Era o que se chamou, em tempos, uma mãe solteira. Se calhar embarcou na aventura por se encontrar numa situação de fragilidade. E estava ali disponível o setôr Chato Fininho que lhe garantiria alguma estabilidade. Ou então, foi mesma paixão da aluna pelo mestre. Acontece muitas vezes. Quem nunca lhe sucedeu é porque é mesmo um estafermo inconcebível. Seja como fôr, se a moça se embeiçou por tão assumido cretino, não merece crítica, pois à primeira qualquer cai. Não sou nenhum santo, mas quando lhe percebi o embaraço do estupor, puxei pela minha costela misericordiosa, e mudei de assunto:"quero dizer...como vai a tua filha?"

 

-Faz tempo que não a vejo. Alíás, só me visita para me cravar. É tal e qual a puta da mãe...

 

Embatuquei e mordi a língua para não disparatar. Não gosto de ver destratar uma donzela, seja qual for a sua orientação sexual. Sou, ainda, um cavalheiro à antiga. Atalhei conversa. Meti um lugar comum: "e essa saúde?" Resulta sempre.O Chato começou a discursar com todos os pormenores sobre mil maleitas, mas deixei do ouvir. Veio-me à superfície do pensamento mais uma especulação. Imaginei a ex-mulher, anos a fio a aturar esta verborreia. Mas esse sacrifício foi recompensado. Valeu-lhe ter tirado o curso de Solicitadora que lhe permite estar bem na vida. E até acho que esse sacrifício justifica a aldrabice que lhe pregou quando o convenceu a comprar um terreno, em nome da mãe que a pariu, para construir uma vivenda. O otário pagou o terreno e a construção e ficou sem nada. E se, entretanto, a infeliz vítima do Chato já deita outro na cama que ele pagou, são coisas que acontecem. Tem a seu favor a evidência de ter pago um alto preço. Foram muitos anos de tormento. Sim que o Chato é dose.

 

-Tenho que ir, vou entrar às dezanove...

 

Aleluia, pensei. Agora já não me polui o quotidiano, a não ser com conversas de ocasião e por breves instantes. Mas em tempos idos, quando trabalhamos juntos, torrou-me a paciência com picuinhices e confusões de baralhar um comunista ortodoxo. De facto, não conheci maior artista na arte de complicar o que era fácil. Onde quer que estivesse. Certa vez, no Alentejo profundo, meteu-se de tal modo na vida do enteado que tirou a ex-sogra do sério e palavra puxa palavra chegaram a vias de facto. Posto na rua, em plena noite, percorreu mais de dez quilómetros à pata por trilhos de sobreiros até à vila mais próxima onde apanhou um táxi para casa. Mas quando chegou já a ex-mulher, por antecipação, tinha mudado a fechadura. A partir daí consta que viveu na garagem até se mudar para o seu apartamento. Foi o seu canto de cisne na vida da fogosa alentejana.

 

-Então, até mais ver.

 

Apertei-lhe a mão fria e esquálida. "Fica bem" disse na despedida, omitindo a última palavra da frase que ficaria com o seguinte sentido:"Fica bem mal".

 

A verdade é mesmo uma batata. Muda de sabor e de forma de acordo com o cozinhado e com o cozinheiro. Tenho algumas razões para não gostar do Chato Fininho. Apresento-o aqui como o mau da fita. Mas honestamente, às vezes, só às vezes, interrogo-me se assim será. Se calhar nem mereço os seus cumprimentos. É que o infeliz, não sabe, nem sonha, que vivo na casa que ele pagou e que partilho a cama e o que isso implica, com a sua ex-mulher. E nem tenho razão de queixa. Limitei-me a apanhar a fruta que ele amadureceu. Se não fosse eu, era outro. Ao fim e ao cabo tenho de me auto-convencer que não sou uma peste nem o verdadeiro mau da fita.

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publicado às 23:08

Governo de Esquerda

por Naçao Valente, em 27.10.15

 

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publicado às 19:05

A máfia russa não brinca em serviço

por Naçao Valente, em 29.10.14

 

iimagem net

 

Nas televisões corre  a notícia "em última hora" que a força aérea portuguesa detectou e acompanhou a Oeste do Atlântico, dois caças russos (coisa nunca vista) que tiveram de retroceder. Não houve até ao momento qualquer justificação para a sua presença neste espaço aéreo. Eu, com todas as reservas que o melindre destes actos merece, avanço uma explicação: podemos estar a assistir a uma acção da máfia russa dos árbitros, contra o Sporting Clube de Portugal, por causa do protesto contra a arbitragem do jogo com o Schalk 04. Talvez o  objectivo da missão fosse bombardear o estado, perdão o estádio de Alvalade. Ainda bem que estávamos atentos. Mas cuidado é preciso manter a vigilância. A máfia russa não brinca em serviço.

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publicado às 22:12

Namorar: a gabardina e outras técnicas.

por Naçao Valente, em 14.02.14

em "roupas femininas loja"

 

 Sala de professores de uma escola. Intervalo. Os professores chegam das aulas onde acumulam imenso stress. É altura de deixar sair a pressão. As conversas tendem a pender para o chinelo. Manda-se às malvas o racionalismo, o pensamento estruturado, o rigor da análise, a crítica política. Mesmo a terapia sobre a indisciplina, o significado de respeito, a ideia de educação reserva-se para reuniões institucionais. O que predomina nas no bate papo são as emoções feitas banalidades do quotidiano: amores, humores, sexo, aventuras e outras coisas boas da vida. 

 

Dia dos namorados. O assunto está na ordem do dia. As mulheres em grande maioria enredam-se em considerações sobre a sua condição de namoradas. Trintonas quarentonas e cinquentonas discutem qual a lingerie mais adequada para esse dia. Há quem se lembre dos sutians que reagem a estímulos externos da pessoa amada. Uma dama das mais bem informadas disse que a nova tecnologia estava nos seus planos, mas fora do alcance da sua bolsa. Contudo, já tinha preparado uma alternativa. Usando a sua capacidade criativa ia colocar por cima de uma lingerie sexy apenas uma gabardine. Logo aí outra namoradinha contestou o êxito da técnica no seu caso pessoal, pois tendo em consideração que o seu marido estava muito entrosado com a arte de bem beber, teria que se disfarçar de garrafa. Uma outra dama, discreta, tímida, silenciosa e que parecia pouco à vontade, pediu licença para dar opinião acrescentando: "conserva essa ideia da garrafa...quem sabe se ele não resolve usar o saca-rolhas? Ipsis verbi. Gargalhada. Corou! O que foi que eu disse? Campainha. Dispersão. Salva pelo gong. Nova corrida, o dia dos namorados pode esperar.

 

MG   

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publicado às 21:33

David e Golias (Histórias do quotidiano)

por Naçao Valente, em 15.10.13

 

 

Deixei de viver na capital há mais de trinta anos. Contudo, de tempos a tempos desço ao povoado, como costumo dizer, para tomar um banho de cosmopolitismo e matar velhas saudades. Na minha última visita deambulava pela praça dos Restauradores quando um desconhecido me abordou com um sotaque que me pareceu familiar:

-Tu não és o Carlos Antunes?

-É como me tratam. Com quem estou a falar?

-Eu bem me parecia. Não te vejo desde os anos setenta mas reconheci-te de imediato. Estás na mesma, parece que os anos não te fizeram mossa. Eu sou o João. Fomos hóspedes na casa da dona Conceição.

-Claro, o João Saramago. Quem diria. O corpo disforme, o cabelo escasso, a voz arrastada. Caraças. O que é feito do João garboso, atlético, trigueiro natural como marca do seu Alentejo? Onde está o sedutor que se gabava das suas performances durante as intermináveis noites com a namorada. Porque raio nos castiga assim a puta da vida.

-Caramba pá, o tempo esqueceu-se de ti, continuou João. Até parece que vendeste a alma à juventude eterna. Qual é afinal o teu segredo?

-É muito simples, respondi. Saí há muito do bulício da cidade. Vivo na parvónia: sossego, ar puro, vida saudável; além disso sou um solteirão empedernido, não tenho mulher para me torrar a paciência, nem filhos para me fazerem cabelos brancos.

-Pois eu, Carlos, casei muito novo. Como sabes tive de juntar os trapinhos à pressa com a Virgínia a minha primeira e única namorada, porque ficou prenha apesar de todos os cuidados que tínhamos. Será que a reconheces? Está aqui ao meu lado.

Lembrava-me, claramente, desse casamento. Fui convidado mas não estive presente. Tinha as minhas razões. Não havia dúvida. Estava ali a mesma Virgínia: a mesma beleza selvagem, o mesmo rosto que roçava a perfeição, apenas mais flácido, os mesmos fascinantes olhos azuis, apenas com menos brilho. Como não reconheceria Virgínia depois do que nos aconteceu num fim-de-semana alucinante.

Tudo começou quando o Joaquim, um outro hóspede, me convidou a ir passar o sábado e o domingo à casa praia de uma amiga da namorada, chamada Leonor. A Leonor que conheci numa passagem de ano, era uma quarentona desinibida e viúva de afectos. Aceitei o convite. E lá teria ido se a “mamãe” Conceição como a tratávamos não se tivesse metido no caso, com as suas “finas” ironias, durante o jantar. “Então senhor Carlos quando é o casamento?” Embaraçou-me. Sou discreto, não gosto de ver a minha vida nas bocas do mundo. Previ que o assunto teria novos capítulos, com muitos pormenores. Não tenho estofo psicológico para aguentar insinuações. Admito a minha fraqueza. Dei o dito pelo não dito. Arranjei uma desculpa esfarrapada. Pus-me de fora.

Contudo, o Joaquim não quis deixar a Leonor a servir de pau-de-cabeleira e arranjou uma alternativa. E quem estava mesmo à mão? Nem mais nem menos que o garanhão do João Saramago. O João não se limitou a aceitar. Teve de dar espaço à sua habitual bazófia: “ela só vai ganhar com a troca. Nunca teve na cama ninguém tão bem artilhado. As réguas da escola que tinham vinte centímetros não chegavam para mo medir”. Se já estava em baixo a soberba do João pôs-me mais pequenino que um verme. Mas a vida quando menos se espera dá cambalhotas surpreendentes. Mal sabia eu que o melhor estava para vir.

Naquele Sábado ia sair depois do jantar para afastar as teias de aranha que me povoavam a mente quando “mamãe” Conceição me chamou:

-Senhor Carlos espere, tem aqui um telefonema. Atendi.

-Está, disse uma voz tão distante que parecia que vinha do além.

-Estou!

-Fala a Virgínia. Desculpa se incomodo. O João disse-me que ia ao Alentejo visitar os pais e aqui na casa onde estou hospedada está tudo de fim-de-semana e até a patroa foi ver uns familiares. Estou um pouco abandonada e aborrecida. Se não tens nenhum compromisso convido-te para ir ver um filminho.

-Era mesmo isso que ia fazer, disse procurando esconder a surpresa. Onde nos encontramos?

Montei-me no meu velho mini e apanhei a Virgínia Junto à fonte luminosa quando ainda tinha luz e água. Perguntei-lhe: tens algum filme em mente? Escolhe tu, respondeu. Estava meio bloqueado. As mulheres encabulam-me. Por isso deixei rolar o mini pelas ruas da cidade. E só deixou de rolar quando na praça dos Restauradores, junto ao cinema Condes, foi parado pela traseira de um carro estacionado. Ainda não consigo explicar como aconteceu. Ou me distraí com o cartaz “DAVID E GOLIAS” ou me perturbei com a beleza da companhia inesperada. Raio, isto não começa bem, murmurei. E agora? Perguntou Virgínia. Agora bate-chapas e tinta…A Virgínia deve ter percebido a minha perturbação. Fez uma fuga para a frente: vamos esquecer o filme; vamos tomar um drink e bater um papo; concordas? Bater um papo é coisa a que não resistia, naqueles tempos revolucionários. Aonde? Perguntei Na minha casa, respondeu. Engoli em seco. Deixei-me levar, o que podia fazer? Não sei dizer não a uma dama. Sou mesmo um fraco.

Percorremos um corredor até uma salinha com um sofá, um televisor e um velho piano de cauda.

-Uau, aqui mora gente fina? Disse  para quebrar o silêncio.

-A menina Amélia foi uma menina bem. Na juventude aprendeu a tocar piano e a falar francês. Quando os pais morreram estava solteira e sem profissão. Agora para sobreviver aluga quartos. Põe-te à vontade, Senta-te que eu já venho.

Quando Virgínia regressou caiu-me o coração aos pés. A moça vestia uma curta e transparente camisa de noite que deixava ver roupa interior com bolinhas amarelas. Até parece que ainda estou a ver. Sentou-se ao meu lado. Procurei manter a serenidade enquanto pensava: “como vou sair desta?" Lancei um assunto:

-O que achas do governo Vasco Gonçalves? Parece que os “comunas” estão a pôr-nos  a pata em cima. Ainda mal saímos de uma ditadura e estamos quase a entrar noutra…

-Não percebe nada de comunas. Sou mais de põr a pata em cima, respondeu Virgínia. Sem me dar mais nenhuma  “deixa”  agarrou-me e pespegou-me  um beijo na boca que me fez ver estrelas. Quando parou para respirar consegui dizer:

-Que se passa Virgínia, porque fizeste isto?

-Não me digas que não gostaste?

Sou um fraco. Não consigo pregar uma mentira, mesmo piedosa. Fui sincero:

-Claro que gostei. Mas, por acaso, tu não és a namoradinha de um amigo meu? Ou por acaso vocês estão zangados e estás carente  de afecto?.

-O teu amigo, esse grande cabrão, disse aumentando o tom de voz,  está agora a “chifrar-me” com uma coroa desavergonhada, possivelmente embalados pelas ondas do mar.

-Ó Virgínia , tu sabias?

-Claro que sabia. Achas-me com cara de tansa? Mas isso agora não interessa nada. Nâo estamos em revolução? E mulher na revolução  é biombo de sala? Liberdade, igualdade, amor livre  é exclusivo de macho?

Senti que estava a ser usado e a praticar pecado venial com mulher de outro, mas não fui capaz de resistir. Apeteceu-me fugir, mas não o fiz.Sou mesmo um fraco.  Deixei-a despojar-me da pouca roupa que vestia e sem saber como fui parar à sua cama no escurinho do seu quarto. Foi uma noite interminável. Numa coisa o João tinha razão: a moça tinha estofo de maratonista e vi-me e desejei-me para a acompanhar até à meta.

O dia tinha começado há muito quando acordámos. Apenas me lembrei de dizer:

-Espero não te ter desiludido. Estás habituada a andar num grande carrão e hoje tiveste de te contentar com um mini.

-Foi uma noite inigualável e irrepetível. O que interessa é a eficiência. Grandes para quê, meu amigo?

 

Amigo Carlos, disse João, nem estou em mim. Nunca imaginei que te iria encontrar  trinta anos depois. Mas ainda não apresentei a nossa melhor produção, a Olinda, que já está uma mulher, quase a sair doutora.

 Olinda fazia jus ao nome. Era linda de morrer. Mas o mais curioso é que me pareceu ter voltado aos anos setenta, ao tempo da juventude de Virgínia. O mesmo corpo esbelto, o mesmo rosto no qual apenas destoavam uns luminosos olhos castanhos. Cumprimentei-a:

-É muito bonita menina. Tem a quem sair. Vocês de facto esmeraram-se.

-Apenas destoa na cor dos olhos, eu tenho os olhos verdes e a Virgínia os olhos azuis.

-Às vezes vão buscar essas características a antepassados remotos. Nem tudo pode ser perfeito. Acontece amigo João

.

Acontece senhor Carlos, disse “mamãe” Conceição mal entrei.

O quê, dona Conceição?

-Ainda não sabe? O truca-truca do nosso João com a Leonor correu mal. Foi uma noite interminável. A batalhar, a batalhar e o coiso a dar sempre nega atrás de nega. A Leonor bem ajudou com toda a sua experiência e nada. Eu acho que foi castigo por ter deixado a namorada, uma moça tão linda, abandonada e triste. Deve ter passado um fim de semana interminável. “Pois passou“, comentei em surdina , “e pela boca morre o peixe, mas ainda bem que não fui eu o cordeiro, pois  já estava a prever isto, fosse qual fosse o resultado ou não conhecesse em a “mamãe”.  O que está a dizer senhor Carlos? Nada, nada, dona Conceição, enquanto ia saindo de fininho da conversa.

 

-A conversa ainda só está no início mas estamos com pressa. Vamos assistir a um concerto. Dá-me o teu contacto, Carlos. Assim que a Olinda sair doutora vou dar uma festa de arromba e já estás convidado… não é Virgínia?

Olhei para Virgínia. Vi um certo brilho nos seus olhos. Estarei presente com muito gosto, disse. O que posso fazer? Não sei dizer não, especialmente à Virgínia. Esta fraqueza nasceu comigo e comigo viverá. Despedimo-nos. Enquanto me afastava revi de novo Olinda. Perseguia-me uma interrogação. Mas onde é que já vi estes olhos castanhos? Quando passava junto ao ex-cinema Condes fez-se luz no meu espírito. Eureka.” Vejo estes olhos sempre que me olho no espelho”. Bolas! Agora tenho razões de sobra para voltar, pois é evidente que o pequeno David venceu Golias mais uma vez.

MG

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publicado às 17:39

Nascida para fazer drama

por Naçao Valente, em 06.10.13

As crianças são a melhor coisa do mundo.(senso comum) As crianças não têm passado, nem futuro, e coisa que nunca nos acontece, gozam o presente." (Bruyere) A infância é o tempo de maior criatividade na vida de um ser humano”. (Piaget)

 

Uma imagem vale mais do que mil aforismos? Ou não?

 

 

 

 

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publicado às 16:22




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