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Gunter Grass e Eduardo Galeano

por Naçao Valente, em 14.04.15

Resultado de imagem para eduardo galeano frases  Mesmo os livros maus são livros e por isso sagrados

                                                                                                           Gunter Grass

 

 

 

O que têm em comum Gunter Grass e Eduardo Galeano? Nasceram  em continentes diferentes. Viveram realidades diversas. Tiveram percursos de vida ímpares. Apesar de todas as diferenças, comungam do mesmo amor às artes, da mesma entrega à escrita. Seguramente venderam a alma aos livros. Comprovadamente caldearam-se em inícios de vida atribulados e difíceis, mas ricos das experiências que permitem ficcionar o real, sem o desfigurar. Parafraseando Galeano "não são feitos de átomos mas de histórias".Partiram no mesmo dia para parte incerta. No entanto, continuam por aí, pois são feitos de histórias.

MG

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publicado às 21:15

Auto de danças com cadeiras à portuguesa

por Naçao Valente, em 04.03.12

Manhã

Aquele sábado amanheceu escuro e chuvoso. Parecia que o céu, com nuvens prenhes como odres, se ia abater sobre a terra seca e faminta de água. Depois de engolir as sopas de café, deixei a casa dos meus avós onde residia por opção e privilégio, para ir ter com o primo Ricardo. Mas a meio do caminho, a nuvem negra desfez-se em água. Nunca tinha visto ou imaginado coisa assim. Até pensei que fosse o princípio do apocalipse, de que a jovem Célia falava, nas sessões de catequese, entre a missa dominical e o namorico com o João Sapateiro. Mas o esgarrão foi tão depressa quanto veio. Escampou, e um sol brilhante, iluminou as paredes caiadas da aldeia. Tive a estranha sensação que esse iria ser um dia diferente, digno de figurar nos registos da memória. Enquanto brincava com o Ricardo, ouviu-se o ronco dum altifalante, que silenciou o som de um riacho acidental. ”De quem eu gosto, nem às paredes confesso…”: Tinha chegado à aldeia o cinema ambulante! Era uma alegria rara. Deitei fora os bocados de lama que segurava nas mãos, esqueci o quotidiano salazarento, as reguadas diárias na escola, o dique em construção. Sabia que nessa noite iria assistir, na praça central, a uma sessão de imagens animadas com os meus avós, indefectíveis cinéfilos.

Tarde

A tarde passava lenta e aborrecida. As horas arrastavam-se no relógio da torre sineira. Na minha ansiedade, a noite tornara-se preguiçosa e demorava a cobrir de escuridão as ruas. Só o altifalante alimentava a minha esperança e distraía o meu espírito com as modas de singela felicidade decretada pelo regime. De quando em vez anunciava a aventura a projectar. “Venham ver as aventuras do Robim dos Bosques” Ao cair da noite, regressei a casa dos avós para um jantar alargado a toda a família. Comemos arroz com massa condimentado com toucinho de porco preto a que o dedo mágico da avó dava um gostinho incomparável. Depois de regalado o estômago o avô disse: -Está na hora de irmos ao cinema. Já pus as cadeiras no melhor lugar da praça. A avó, a mãe, a tia e as primas vestiram as roupas domingueiras, pois quando o cinema descia à aldeia, era dia de festa

 Noite

 O pequeno gerador que dava luz ao projector fazia-se ouvir entre sussurros da assistência. Lobo Antunes, o projeccionista, remendava a fita que se partira durante a rebobinagem. Robim dos Bosques, o Herói, preparava-se para entrar em acção, com o seu bando de ladrões que só roubava aos ricos. Chegado ao local, o avô verificou que faltava uma cadeira. Descobriu-a longe, encostada a uma parede, debaixo de um altifalante. No seu lugar, outra cadeira igual, suportava o rabo mirrado do Carola, dono de cavalo de cobrição e ferrador da aldeia. O avô, que fervia em pouca água, avançou para o Carola, como besta picada por mosca. - Ó sua grande cavalgadura, porque tirou a minha cadeira desse lugar?! -Não vi cadeira nenhuma. Este lugar estava livre quando cheguei. - Acha-me com cara de parvo, é? A minha cadeira já aí estava, e embora tenha pernas, ainda não anda, retorquiu o avô. Tire daí essa cadeira ou racho-o ao meio! O Robim no seu camarim de celulóide preparava-se para cavalgar pela floresta.”. O Carola continuou colado ao assento, desafiador e confiante na sua razão. Mas por pouco tempo, pois o avô assentou-lhe a mão sapuda no focinho, colando-o ao chão. O Carola mais alto e felino levantou-se tão rápido quanto permite a lei da gravidade, agarrou o avô pelo colarinho da camisa. O João Pequeno, que afinal até é grande e que com o seu bando se prepara para assaltar um solar e levar as economias escondidas no colchão de penas, para matar a fome do povo, está ansioso para sair da pasmaceira da fita. O avô escapou das mãos calejadas do ferrador, e atirou-o contra os espectadores que, envolvidos no reboliço, rebolaram, nas suas cadeiras desengonçadas. Os soldados do xerife continuam serenos à espera que o projeccionista os autorize a atirar Robim para o fosso do castelo. Mariana que assiste à cena de camarote deixará fugir uma lágrima furtiva lubrificando a película. As primas olham espantadas e a sua mãe, mais angustiada que perua na véspera de natal está desolada. Uma prima, perdeu o casaco na confusão e chora baba e ranho, como é próprio da sua idade. A pancadaria pára, finalmente, na plateia e as pessoas procuram acomodar-se nos seus lugares. As lâmpadas fecham as suas íris incandescentes. Lobo Antunes põe a fita em movimento e dá vida às vidas presas. O Carola voltou a acomodar-se no seu lugar, mais amachucado que talega de azeite na prensa. O avô, espumando raiva, assiste à sessão de pé, evaporado numa nuvem de indiferença. As imagens de sombra e luz ganham vida na parede branca. Começam as cavalgadas, espadeiradas, emboscadas, suspiros, castigos, beijos…THE END. A ilusão chegou ao fim. Os espectadores abandonam o local, com as suas cadeiras, sem ilusões perdidas ou renascidas. Entre o burburinho da saída e o barulho do dínamo, o projeccionista rebobina o filme e murmura para o ajudante, fuinha de cigarro apagado ao canto da boca desdentada: -Estes serrenhos são mais selvagens que as personagens das minhas fitas… Usei a cadeira para pôr o altifalante, e olha a confusão que arranjaram! Não volto a esta terra de brigões. O magricela enrolava os últimos fios e estendia no chão duro da calçada a manta onde havia de passar a noite. Robim, confortável no sossego do celulóide,vai finalmente descansar como um irmão ao lado de Mariana. Amanhã é outro dia. FIM

Mateus Gonçalves

(Adaptado para Fábrica de histórias)

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publicado às 23:31

histórias da aldeia

por Naçao Valente, em 12.10.09

 

Um dia de anos

No dia em que ia fazer onze anos José acordou, como sempre acontecia, com a luz matinal que de mansinho escorria pelas frinchas do caniço. A tenebrosa escuridão que o mantinha escondido, entre a enxerga e o cobertor, ia desaparecendo tal como os medos que à noite lhe povoavam a mente.

Percorreu ensonado o corredor que o levava até à pequena cozinha da casa dos seus avós com quem vivia por opção. Da esculateira desprendia-se o aroma do café de cevada que todas as manhãs lhe aconchegava a barriga. Sentou-se na acanhada e tosca mesa. A avó Maria, alta, magra, quase esfíngica, colocou numa tigela de barro as sopas de café, cheirosas e fumegantes.

O avô José Carpinteiro, pequeno mas maciço, regressou da sua ida até à venda do Serafim, volta que dava todas as manhãs para “matar o bicho”. Olhou para o moço e disse:

-Hoje vamos pescar p’ra a ribeira. Temos de apanhar peixe para fazer uma assada. O neto ouviu e após um breve silêncio retorquiu timidamente:

-Mas eu não sei pescar, nem tenho cana de pesca. José Carpinteiro saiu da pequena cozinha de pedra solta e passados breves minutos regressou com duas canas de pesca.

-Aqui estão as canas - disse. Pega na tua e vamos partir. Temos uma longa caminhada pela frente.

José  Carpinteiro e o neto partiram em direcção ao local da pescaria. Calcorrearam as margens da ribeira durante cerca de três quilómetros. O moço nunca tinha percorrido aquele caminho Observou as cores policromas da vegetação ribeirinha Ouviu os sons dos barrancos a correr e os cantos matinais dos pássaros. Assustou-se com o resmalhar dos pequenos arbustos. Seria a manhosa raposa ou a sibilina cobra? Mas sentia-se seguro junto do seu avô.

Chegaram às Pernadas, sítio onde se juntavam duas ribeiras, que tinham decidido unir-se para enfrentaram com mais coragem a sua entrada no grande rio. O silêncio quase assustava. Não se via vivalma. Afinal era domingo., dia de descanso. De repente, a silhueta de uma figura humana desenhou-se no horizonte. Quem será? - pensou José A  figura tornou-se cada vez mais nítida. Não tinha sapatos e vestia uma roupa suja e gasta. José pensou que seria mais um pescador solitário, pois trazia consigo uma cana de pesca.

- Bom dia - disse o homem.

-Bom dia - respondeu o avô. Será que temos peixe?

O homem fez um gesto enigmático e continuou o seu caminho. José Carpinteiro olhou para o neto e comentou:

-Hoje só temos a companhia do “descalço”.

“Descalço” era uma pessoa estranha àquela pequena comunidade rural, embora nela se integrasse temporariamente. Era caldeireiro de profissão e todos os anos aparecia com as chapas e martelos. Arranjava tachos e panelas, fazia tabuleiros de lata, e depois partia, tão discreto quanto chegara com os seus parcos haveres. Ficava apenas a sua sombra: os pequenos trabalhos, os poucos proventos, a aparente boa disposição, quando ao fim do dia o vinho escorria sem cessar pela sua goela.

Os dois pescadores instalaram-se num pequeno terraço, junto à margem e preparam-se para iniciar a pescaria. José notou que a água estava ludra mas serena. José Carpinteiro carregou os anzóis com minhocas e explicou ao aprendiz de pescador como devia proceder.

-Quando o peixe picar e esticar o fio, puxa logo a cana!

José, tinha esperança que os peixes o ignorassem. Não se sentia nada seguro. Atirou o fio para dentro de água e esperou. Quando a cana estremeceu puxou-a. Agarrado ao anzol vinha um peixe prateado que se contorcia para ganhar a liberdade. José tentou agarrá-lo, mas era escorregadio e viscoso. Soltou-se da sua minúscula mão, procurando freneticamente voltar para casa. E teria voltado, se o avô não o tivesse apanhado com a sua mão forte e sapuda. Era um belo exemplar de barbo, escamas largas e douradas. Brilhava ao sol. O avô pô-lo no velho cesto de cana.

Para o pequenito aquele peixe parecia uma prenda impossível. Era como se tivesse a missão de dar-lhe os parabéns pelos seus onze anos.

O avô voltou a alimentar-lhe o anzol. O moço lançou-o de novo para o pego. Outro peixe picou e a cena repetiu-se… O cesto enchia-se com os reluzentes barbos.

Ao seu lado o avô lamentava-se: - Na minha cana não pica nenhum…

-Deixe lá avô, já apanhámos bastantes.

O “descalço” voltou a passar junto a José Carpinteiro e ao seu neto, com ar cabisbaixo e desiludido, remordendo entre dentes:

- Vou-me embora. Hoje não consigo apanhar nada. Parece que os malditos se zangaram comigo.

-Pois comigo também - respondeu-lhe José Carpinteiro. Só picam na cana do moço. E têm razão. Afinal ele é que faz anos!

Quando a hora do almoço se aproximava, regressaram a casa com o cesto bem atulhado.

A avó Maria juntou uns cavacos e fez uma fogueira nas traseiras da casa. Logo que as labaredas se cansaram de crepitar, o avô pôs os peixes numa grelha de ferro, sobre as brasas. De vez em quando remexia-as, fazendo-as reviver por entre o nada do fogo.

José, seguia a cerimónia com ansiedade. Crescia-lhe a água na boca a pensar no esperado pitéu. Finalmente o avô anunciou:

- Estão prontos. Vamos a eles!

Vá-se lá saber porquê, José não voltou a pescar. Do gosto do peixe já não se lembra, mas guardou na memória aquele dia como o início de um novo tempo na sua vida.

 

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publicado às 19:55




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