Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Comentários recentes



subscrever feeds



Sapos e ciganos

por Naçao Valente, em 01.03.16

boa tarde.jpg

 Não sou racista

 

Para o bem e para o mal não sou cigano, nem de rendimento mínimo, nem de rendimento máximo. Como não nasci príncipe não me posso transformar em sapo ou vice-versa. Consta por aí que os ciganos não morrem de amor por sapos. Parece que os ditos lhes trazem azar no amor e nos negócios. Dupla maldição. Não consta, porem, o que os sapos pensam dos ciganos, nem que sejam racistas ou que tenha poderes mágicos que os possam prejudicar. Mas os ciganos acham que sim e basta. O certo é que à conta desta aversão dos ciganos pelos sapos, muitos lojistas ,  começaram a encher as suas lojas com sapos de cerâmica para os afugentar.

Esta prática já foi criticada pela igreja católica, por ser considerada discriminatória. Seja como for, todos somos, discriminados de uma maneira ou de outra . Por sermos baixos ou altos, sportinguistas ou benfiquistas, honestos ou desonestos, católicos ou muçulmanos, pafistas ou costistas, e por aí fora

. E sobre isso estamos conversados, cada qual que se cuide. Mas há uma discriminação que é mãe de todas as discriminações. É entre os que têm de mais e os que não têm quase nada. E os seus grandes responsáveis, são aqueles ciganos que pululam pelos centros da finança mundial, descobertos ou encobertos. A estes não há sapo que os assuste. Caramba, não haverá para aí um animal que os possa esconjurar? Seria uma descoberta fundamental para a harmonia planetária.

MG

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:33

Chato, o mau da fita

por Naçao Valente, em 02.06.13

                                                                             Ficção

 

Ó Miguel,

 

Travei o passo, mas continuei a avançar. Afinal há mais marias no mundo. Aquele chamamento não devia ser para a minha pessoa. Nem estava muito interessado que fosse, pois quando alguém me aborda é para me pedir algo, ou vender alguma tralha.

 

-Miguel Vasconcelos,

 

Hesitei. Diacho, se calhar sou eu o visado. Desde que o dito nome é sinónimo de traição tornou-se pouco comum. Continuei a caminhar, mas pelo sim pelo não, fui olhando pelo rabinho do olho. E aí começou a desenhar-se na retina a figura esguia de Félix Chato Fininho. Agora não havia dúvida, o Chato estava no meu encalço. Não tinha alternativa. Parei, virei-me devagar e afivelei um sorriso de circunstância

 

-Então Miguel como vais?

 

O Chato foi meu colega de trabalho. Não o via há uns tempos, mas é o tipo de cidadão que não queria encontrar nem para beber um copo de bom vinho alentejano. Nem o recomendaria para genro da sogra mais empedernida. Aliás o fulano nem sogra tem. Em tempos foi casado com uma sua aluna dos cursos nocturnos, uma alentejana roliça e bem torneada, mas agora vive sozinho num T2 da periferia. Articulei mecanicamente uma frase batida, "gosto em ver-te" enquanto que  a ideia que me borbulhava na mente era "gosto em ver-te coisíssima nenhuma".

 

-O que tens feito?

 

O que me apeteceu dizer foi: "o que tens a ver com isso ó "palhaço" andante?". Comedi-me. Há palavras que se tornam anátemas. Essa coisa da frontalidade é uma grande treta. Em nome da boa educação, temos que engolir muitos sapos. Mas que custa custa. Eu até compreendo que a criatura também seja filho de Deus, embora às vezes não pareça. Penitencio-me se é blasfémia. Mas este arrependimento é só retórica verbal, senão não tinha perguntado "como vai a família" a um gajo que vive sozinho, não sei se por opção, contingência ou espírito de eremita.

 

-... (silêncio)

 

Nem sei como a ex-mulher ainda partilhou com ele a mesma cama durante uns anos. Mas que partilhou, partilhou. Tanto mais que lhe fez uma filha. O que para ela não era coisa nova, pois quando se juntou com o Chato trouxe como prémio um filho de uma  outra relação não concretizada. Era o que se chamou, em tempos, uma mãe solteira. Se calhar embarcou na aventura por se encontrar numa situação de fragilidade. E estava ali disponível o setôr Chato Fininho que lhe garantiria alguma estabilidade. Ou então, foi mesma paixão da aluna pelo mestre. Acontece muitas vezes. Quem nunca lhe sucedeu é porque é mesmo um estafermo inconcebível. Seja como fôr, se a moça se embeiçou por tão assumido cretino, não merece crítica, pois à primeira qualquer cai. Não sou nenhum santo, mas quando lhe percebi o embaraço do estupor, puxei pela minha costela misericordiosa, e mudei de assunto:"quero dizer...como vai a tua filha?"

 

-Faz tempo que não a vejo. Alíás, só me visita para me cravar. É tal e qual a puta da mãe...

 

Embatuquei e mordi a língua para não disparatar. Não gosto de ver destratar uma donzela, seja qual for a sua orientação sexual. Sou, ainda, um cavalheiro à antiga. Atalhei conversa. Meti um lugar comum: "e essa saúde?"  Resulta sempre.O Chato começou a discursar com todos os pormenores sobre mil maleitas, mas deixei do ouvir. Veio-me à superfície do pensamento mais uma especulação. Imaginei a ex-mulher, anos a fio a aturar esta verborreia. Mas esse sacrifício foi recompensado. Valeu-lhe ter tirado o curso de Solicitadora que lhe permite estar bem na vida. E até acho que esse sacrifício justifica a aldrabice que lhe pregou quando o convenceu a comprar um terreno, em nome da mãe que a pariu, para construir uma vivenda. O otário pagou o terreno e a construção e ficou sem nada. E se, entretanto, a infeliz vítima do Chato já deita outro na cama que ele pagou, são coisas que acontecem. Tem a seu favor a evidência de ter pago um alto preço. Foram muitos anos de tormento. Sim que o Chato é dose.

 

-Tenho que ir, vou entrar às dezanove...

 

Aleluia, pensei. Agora já não me polui o quotidiano, a não ser com conversas de ocasião e por breves instantes. Mas em tempos idos, quando trabalhamos juntos, torrou-me a paciência com picuinhices e confusões de baralhar um comunista ortodoxo. De facto, não conheci maior artista na arte de complicar o que era fácil. Onde quer que estivesse. Certa vez, no Alentejo profundo, meteu-se de tal modo na vida do enteado que tirou a ex-sogra do sério e palavra puxa palavra chegaram a vias de facto. Posto na rua, em plena noite, percorreu mais de dez quilómetros à pata por trilhos de sobreiros até à vila mais próxima onde apanhou um táxi para casa. Mas quando chegou  já a ex-mulher, por antecipação, tinha mudado a fechadura. A partir daí consta que viveu na garagem até se mudar para o seu apartamento. Foi o seu canto de cisne na vida da fogosa alentejana.

 

-Então, até mais ver.

 

Apertei-lhe a mão fria e esquálida. "Fica bem" disse na despedida, omitindo a última palavra da frase  que ficaria com o seguinte sentido:"Fica bem mal".

 

A verdade é mesmo uma batata. Muda de sabor e de forma de acordo com o cozinhado e com o cozinheiro. Tenho algumas razões para não gostar do Chato Fininho. Apresento-o aqui como o mau da fita. Mas honestamente, às vezes, só às vezes, interrogo-me se assim será. Se calhar nem mereço os seus cumprimentos. É que o infeliz, não sabe, nem sonha, que vivo na casa que ele pagou e que partilho a cama e o que isso implica, com a sua ex-mulher. E nem tenho razão de queixa. Limitei-me a apanhar a fruta que ele amadureceu. Se não fosse eu, era outro. Ao fim e ao cabo tenho de me auto-convencer que não sou uma peste nem o verdadeiro mau da fita.

 

MG

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:55




Comentários recentes



subscrever feeds