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Coisas do arco da velha

por Naçao Valente, em 07.12.15

Esta é uma história de sexo e morte. Uma história trágica, mas ao mesmo tempo com laivos de humor. Possivelmente de humor negro. Vou contá-la como aconteceu, ou melhor, como a conheci. Omito lugares e identidades. Aqui, para quem a ler não passará de uma ficção, essa grande máscara da realidade.

A vizinha de L estranhou, naquela manhã, como tantas outras, a sua ausência, na pastelaria onde tomava o pequeno almoço, desde que ficara viúva. Preocupada bateu à sua porta. De dentro daquela casa apenas saía silêncio. A vizinha, que preferiu ficar incógnita, chamou as autoridades. Avaliada a situação no contexto das rotinas de L, decidiram arrombar a porta.

A casa estava impecavelmente arrumada. Tudo no seu lugar. Nada que denunciasse assalto. A polícia foi percorrendo as várias divisões com minúcia policial. Por fim, entraram no quarto. L estava deitada na cama, inconsciente. Uma perícia mais aprofundada permitiu concluir que L estava morta. P, o perito de investigação, com a sua experiência de muitos anos de tarimba, reparou que junto do corpo inerte se encontrava uma foto do marido e um artefacto de estimulação sexual. Na ,tudo apontava para uma sessão de masturbação que teria terminado numa sincope, tendo em conta a idade da senhora. Mas um polícia com faro policial, tem de procurar a verdade para além do manto diáfano da fantasia. Foi por causa dessa capacidade barra competência, que o investigador reparou num pequeno pormenor: o pescoço da vítima, tinha ténues marcas de mãos humanas. A morte, concluiu P, deveria ter sido provocada por asfixia. Fácil? Claro. O mais complicado começava agora: descobrir o agressor e o seu móbill.

P, para além de um profissional sem mácula, tinha ainda aquela estrelinha, que protege os audazes. Por acaso, em tudo há um acaso, notou que na peça de vestuário que tapava as partes púbicas havia uma pequena mancha. Observada a olho nu, pareceu-lhe que se tratava de um resto de esperma. Podia estar ali a chave do mistério. Mandou, de imediato, recolher uma amostra para ser analisada no laboratório. A seguir, era dos cânones, bastaria confrontar o resultado com o adn do seu produtor.

Enquanto não chegava a análise, P continuou as suas investigações. Procurou saber quem frequentava a casa de L, com que pessoas do sexo masculino se relacionava. Pela lógica mais banal, o suspeito, tinha de ser alguém com acesso ao apartamento. Tudo indicava que o acto fora praticada sem nenhuma violência colateral. A vizinha próxima, mas incógnita, informou P que via L ser visitada por C, uma pessoa que vivia na mesma rua. Procedeu-se como é dos livros à captação do seu adn. P acertou, como sempre, na mouche. O esperma, não havia dúvida, pertencia a C.

Interrogado pela polícia C não teve como negar.Ditou o seguinte depoimento:

Depois que L ficara viúva mantive com ela uma relação de amizade, na qual estava incluída uma relação sexual. Durante a prática do acto usavam a técnica da asfixia, como forma de intensificar o prazer da senhora. Era essa a única intensão. Mas naquele dia, não sabe se por exagero, se por outras razões, a coisa correu mal. A relação com L, era desconhecida da sua mulher e dos seus filhos, e procurou esconder o que tinha acontecido. Para despistar qualquer responsabilidade, colocara a foto e o vibrador.

L, morta por asfixia, em pleno acto sexual, tinha 91 anos. C, o companheiro do acto tem 43 anos. Coisas do arco a velha. 

 

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publicado às 18:15

Perdido numa livraria

por Naçao Valente, em 23.04.15

Os centros comerciais são hoje uma mancha na paisagem urbana deste país à beira mar. São uma espécie de Meca da sociedade de consumo. Ir a esses lugares de compras e encontros tornou-se um vício colectiva. Não me quero armar em iconoclasta. Não fujo à regra. Vai não vai dou comigo preso dentro desses espaços. Calcorreio corredores mais ou menos adornados por outros passeantes, mas fujo às promessas de felicidade, que como sereias da ilha dos amores, nos chamam a cada passo. Mas há uma tentação a que nunca resisto: veste-se de papel, alimenta-se de letras, odoriza-se de tinta.

A minha perdição nas catedrais da nossa ilusão de felicidade, são as livrarias. Dentro delas vivem os livros e dentro deles as palavras agrupadas em linhas, que nos permitem viajar por mundos reais ou imaginários. Linhas como carris por onde circula o olhar numa viagem sem limites. Nas páginas de cada livro mergulhamos num mar de saberes, de emoções,de memórias infindas. É aí que me perco, que esqueço noções de tempo e espaço, que vivo em mundos paralelos, que me esqueço de mim e das hipocrisias de um quotidiano de horizontes limitados. Perdido numa livraria, perdido entre livros e nos livros, acabo por me encontrar no encontro comigo mesmo.

MG   

 

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publicado às 18:53

9-A minha vida não dava um romance

por Naçao Valente, em 05.03.15

Aforismos e sarilhos

Como se diz na gíria, sou um pouco bota de elástico. Não consigo integrar-me nessa modernice do casa descasa. Tenho feito o possível por manter um casamento que desejei, e que tem passado por fases melhores e piores. Quando o Zé começou a trabalhar no ensino nocturno, com a tanga que queria ganhar mais uns trocos, cheirou-me a conversa fiada. O que me pareceu foi que procurava novas paisagens. Ainda pensei em comprar uma gabardine mais moderna, mas concluí que o problema não estava no embrulho e deixei andar. Em má hora. Quando acordei já o Zé andava meio enrolado com uma cabra sem vergonha, armada em leoa. Digo-o porque me meti a caminho e descobri que a fulana se transportava num carro de alta cilindrada com o símbolo do leão, que lhe tinha oferecido o paizinho, aquando da conclusão do curso. Há gente assim. Nasce com a bunda (e que bunda) virada para a lua. Tinha chegado a hora de agir. In extremis consegui salvar o Zé das garras da predadora. Mas sabia que a situação não estava resolvida. Depois daquela noite quente e luarenta, a solicitar amores, perguntei ao meu homem:

-Então pá, indo directo ao assunto, o que fazias, altas horas, com a gaja da mini-saia?

-Afinal agora deu-te para ciumar? Já te disse que a acompanhei para não ir sozinha aquela hora tardia. O que tem de mal? A noite estava agradável e ficamos a falar de assuntos comuns, nomeadamente de futebol, pois somos ambos do clube do leão.

-Tá bem abelha, cantas bem, mas não me alegras, foi o que me apeteceu dizer-lhe, mas contive-me. Não era a altura de atirar lenha para a fogueira. Fiz-me de peixe morto, e encerrei aquele diálogo. Sabia, porém, que o caso não estava terminado, e já tinha bolado o meu plano. Ia procurar a tipa, confrontá-la, e pôr os pontos nos is, nos esses e em todas as letras que precisassem de ser pontuadas. Sei que sou discreta e tímida, posso até parecer uma mosca morta, mas se me fazem chegar a mostarda ao nariz, viro fera e não há leoa que me pare. Conhecia-lhe os hábitos e sabia onde devia encontrá-la. Estudei ao pormenor como iria enfrentá-la. Tinha a meu favor o factor surpresa.

-Bom dia. Posso interromper o seu pequeno-almoço por uns minutinhos? Sou a Maria Alice mulher do Zé, seu colega, do ensino nocturno.

-Sente-se, disse secamente e com um sorriso muito amarelado.

-Falando mal e depressa vim aqui gastar o meu precioso tempo, para te dizer (tinha chegado a hora de endurecer o discurso) que o meu marido, com papel passado, não está disponível para desmamar pitas de pernas ao léu. Se ainda precisas de chucha, procura outro, que há por aí bastantes gajos bem melhores. Se não fosses cega tinhas visto que o homem já está um pouco usado. De facto até é competente mas não o tenho poupado. Além disso aturo-o há cerca de dez anos, e também me deve algumas rugas, mas ainda dou conta do recado, não preciso de muletas. Portanto espero não voltar a encontrar-te a propósito, porque pode fiar mais fino. Se for preciso dou-te um estalo nessas fuças de lambisgoia. Faço-me entender?

Naquela pequena pastelaria, com venda de pão, éramos os únicos clientes sentados. Pessoas sonolentas, entravam e saíam, depois de fazer as suas compras. Esforcei-me por falar num tom calmo para não chamar a atenção. Nem a menina bem nutrida, e de grandes óculos de abelha, que estava atrás do balcão se apercebeu da baixaria. Dito o que tinha ensaiado, levantei-me e saí discretamente.

Como acontece, muitas vezes no teatro, a um bom ensaio não corresponde uma boa estreia. Tinha estudado até ao pormenor o que queria dizer aquela desavergonhada, mas na hora da verdade passou-se tudo ao contrário. Por cima da porta onde me encontrava nervosa e insegura lia-se “Pastelaria Lua-de-mel”. Enchi o peito de ar e entrei. Atrás de um balcão corrido uma garçonete bem nutrida atendia clientes com ar apressado. Ao fundo, sentada numa mesa de fórmica estava a razão do meu martírio. Aproximei-me e perguntei:

-É a professora Mercedes? Eu sou a Alice mulher do seu colega Zé, do Ensino Recorrente. Podia dar-me um minuto de atenção?

-Concerteza…o que se passa com o Zé?

-Sinto-me um pouco constrangida em abordar o assunto e nem sei bem como começar. Não tinha conhecimento que o Zé era casado? Perguntei.

-E tinha que saber? Nem ele me disse, nem eu lhe pedi o bilhete de identidade. Somos colegas de trabalho e costumamos falar sobre coisas sobre as quais temos afinidades, como futebol ou política por exemplo. Mas a que propósito me faz a pergunta?

Titubeei . Depois de um silêncio comprometido disse:

-Eu conheço o Zé há muitos anos e mantivemos uma boa relação até ao período que coincide com o seu trabalho nocturno. Chega cada vez mais tarde a casa com reflexos no nosso relacionamento. Também sei que certos homens escondem o seu estado civil para fazer conquistas amorosas…

-Creio que percebi. Se quer saber se andamos enrolados, não andamos. O Zé é um cavalheiro que me tem acompanhado a casa a uma hora bastante tardia. Simplesmente. Sabe o que lhe digo: vim substituir uma colega que está com licença de maternidade. Tenho um horário cheio de buracos, trabalho em todos os turnos. Brevemente, volta a colega, e vou pregar a outra freguesia, mas não pense que sou uma espécie de marinheira com homens em todos os portos, nem tenho um íman entre as pernas para atrair machos. Tenho mais que fazer.

Alguma verdade haveria naquelas palavras mas não me convenceram. A afirmação que iria partir em breve deixou-me mais sossegada. Evitei  pôr mais na carta. Encerrei a conversa: “

-Não ponho em causa a sua seriedade. Como mulher, deve saber, que os homens podem parecer uns santos mas, às vezes, perdem a cabeça com qualquer rabo de saia. Peço desculpa pela minha insegurança e aceito o seu esclarecimento.

Após a o diálogo com a Maria Alice sobre a Mercedes o assunto ficou encerrado. Ela partiu para novos horizonte e eu terminado o contrato dei por finda a minha aventura no ensino. Como se previa, a Alice engravidou, como tanto desejava. Começou com uns enjoos matinas e continuou com a barriga a crescer. Apesar do mal-estar a Maria Alice andava entusiasmada. Eu não tanto. E muito menos o fiquei quando ela fez a primeira ecografia. Para espanto meu em vez de um estavam lá dois. Isso mesmo. Naquela barriga viviam gémeos e como diz o ditado não há fome que não dê em fartura. Fazer o quê? Tristezas não pagam dívidas. Aguentar e cara alegre.

-Da barrigada de aforismos saiu o Pedro e o Paulo, que nascendo da mesma fornada tinham sido gerados de óvulos diferentes. Daí que se apresentassem ao mundo com caracteres físicos opostos. Enquanto o Pedro era magro, o Paulo tinha tendência para a obesidade. E se o Paulo adornava a sua face de anjo querunbim com uma cabeleira loira, o rosto comprido e seco do Pedro estava encimado por uma melena castanha e áspera. Estes traços exteriores tinham correspondência na personalidade.

Desde muito novos que as diferenças comportamentais se começaram a notar. Nos primeiros anos tivemos trabalho redobrado. No fundo, eram duas bocas a protestar por insondáveis razões: fome, frio, calor, alegria, mal estar, tristeza e sabe-se lá o quê? O livro de instruções nunca é preciso nem claro. Tive de abandonar o trabalho no ensino para dar apoio à Maria Alice. Muitas noites dormíamos por turnos. Até na empresa comecei a marcar passo e a minha provável chegada ao Conselho de Administração ficou pelo caminho. Mas ainda bem. Lá me teria cruzado outra vez com a sempre menina Maria Ana, secretária do Conselho, depois de ser unha com carne com Presidente, um ancião que pintava, regularmente, o longo cabelo embranquecido.

Na adolescência as diferenças evidenciaram-se. O Pedro concentrado na sua formação era um mouro de trabalho. A carreira estava à frente de tudo. Nem um namorico tinha no seu currículo. Mais tarde apercebemo-nos que se tratava de opção de vida. Formou-se em veterinária. Vive num casarão rodeado de animais e recebe ajuda de um amigo. Adoptou duas crianças, uma veio da Ásia e outra das antigas colónias portuguesas. O Paulo foi um pouco mais problemático como se dizia. No polo oposto, levava uma vida boémia. Gostava de experiências sociais. Passou pelas drogas leves e por noitadas de música e álcool. Quando conseguiu terminar o curso de informática, integrou-se numa empresa de telecomunicações, casou-se e estabilizou. Mas por pouco tempo. O que ele gosta de fazer é pintar. Tem alma de artista. Fez uns cursos de artes visuais e montou um atelier no apartamento. Tem passado a maior parte da sua vida de baixa médica. Sofre de ataques de pânico. Apenas nos pincéis encontra tranquilidade. Já tem três filhos todos de mulheres diferentes. Tem mesmo alma de artista.

Quem tem filhos tem sarilhos. E uma vez iniciados nunca mais acabam. Eles vivem a sua vida mas as preocupações e os trabalhos continuam. A nossa casa agora é uma espécie de Creche. Mesmo aposentados não há descanso para os guerreiros. Especialmente para a Maria Alice. Quem corre por gosto não cansa. Mas cansa, cansa.

Continua

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publicado às 20:19

6-A minha vida não dava um romance

por Naçao Valente, em 21.01.15

E agora José?

 

Caí de paraquedas naquela turma de preparação para o ensino superior. Nem sabia o que ia lá fazer. Há razões que a razão desconhece. Talvez estivesse ali para preparar as provas de acesso, talvez quisesse ocupar tempo sem ocupação, talvez fosse determinação do destino. Quem sabe? Se calhar, nem Deus .As aulas tinham começado há algum tempo. Os outros alunos já se conheciam, mas eu, que não sou muito ousada, sentia-me um pouco à margem. Era uma espécie de patinha feia.

Um dos colegas que me prendeu a atenção foi o Zé. E por duas razões: tinha a sensação que o conhecia de qualquer lado e porque ele costumava dar nas vistas durante os debates. Na primeira aula de Filosofia a que assisti a propósito de filósofos pré-socráticos, o professor referia a oposição entre Parménides e Heraclito. O primeiro explicava o mundo como uma permanência e o segundo defendia a constante mudança. Ninguém consegue tomar banho duas vezes no mesmo rio, era um dos seus argumentos. Lembro-me que o Zé entrou na discussão desviando o assunto para a área politica. Dizia ele “ é o que se passa cá com a intersindical e com a UGT” .Uns querem ser os únicos os outros reivindicam o direito à diferença. Estávamos no chamado PREC e deu para ver que o Zé se assumia como ativista militante.

Notei que o Zé se sentava-se ao lado duma lambisgoia de grandes olhos e tão negros como carvão. Verifiquei que no fim das aulas saiam juntos com outros colegas, formando um grupo que se juntava no fim das aulas. Passado algum tempo , o Zé e a delambida deixaram de se sentar juntos. O Zé sentava-se na fila da frente e eu na última. Um dia o Zé virou-se para trás e pousou o olhar na minha pessoa sem pedir licença. Mas não me amofinei. Antes pelo contrário, deixei os meus olhos voar ao encontro dos seus. Enfeitei esse voo com o meu melhor sorriso. Depois subiu-me um calor dos pés para todo o corpo. E vi-me a questionar a minha lucidez “Maria Alice, Maria Alice, estás a desvalorizar-te”

Não sonhava que naquele ano de setenta e cinco ia haver um verão tãoquente. Na natureza e no dia a dia. Desiludi-me com a política partidário e com os pequenos e grandes interesses que a moviam, e dei de frosque. Tinha concluído o curso liceal e para melhorar conhecimentos matriculei-me no curso Hadoque para acesso à Universidade.

Essa turma era constituída por um grupo muito heterogéneo. Uns preparavam-se para os exames de acesso, outros nem por isso. Nessa situação encontrava-se Lígia Maria, que nos seus grandes olhos pretos, trazia a tristeza de uma relação terminada. Viúva de sentimentos, frágil de confiança, ganhou coragem para chorar no meu ombro. Que podia fazer? Acho até que sou feito da massa dos anjos. Com uma diferença é que ao invés dos ditos, acrescentara-me o sexo. Nessa dupla condição fui confortando a Lígia conforme podia e sabia. Depois das aulas que terminavam às onze, íamos até ao velho Império para estudar. Hoje virou igreja, mas naquela altura era cinema e um café cosmopolita. Tínhamos um pequeno grupo, que noite adentro, matava o tempo, num animado bate-papo, ao sabor das palavras que segundo se diz são como as cerejas. Além da minha pessoa e da menina dos olhos grandes, havia o António Feliz que tinha sido deixado em terra por uma hospedeira de bordo., e havia o Marinho que tinha vertigens e não gostava de corpos femininos porque eram muito sinuosos.

Como não há bem que sempre dure desentendi-me com a Lígia, nem me lembro

bem porquê. Possivelmente por ninharias. É por aí que começam os desentendimentos. De qualquer modo, ela tinha encontrado o tempo de equilíbrio e, se calhar, desejava um diabo que a desequilibrasse. Ingrata.

Comecei, então, a reparar numa novata, discreta, que se sentava na coxia da sala. Catrapiscámo-nos. No intervalo trocávamos umas ideias sobre os assuntos da aula. Transmitia alguma serenidade e ajudou-me a colocar na caixa das memórias esquecidas a menina dos olhos negros.

Quando a delambida se deixou de se sentar ao lado do Zé, enchi-me de coragem e aproximei-me com o pretexto de lhe pedir que me esclarecesse algumas dúvidas. Mas as minhas dúvidas não se prendiam com a matéria. Nem eu sei porque lhe estava a dar bola. Receava estar a ficar oferecida. Por outro lado estava certa quando me pareceu que já tinha visto o Zé. E tinha. Afinal trabalhávamos na mesma empresa, em secções e edifícios diferentes. Eu trabalhava na secção de pessoal onde lidava com processos de trabalhadores. Recordei-me que o processo do Zé tinha-me passado pelas mãos, e reconheci-o na fotografia. Mas ao vivo não desmerecia.

 

No fim do ano lectivo toda a turma se juntou para conviver incluindo os professores. O Império era o ponto de reunião. Fomos informados que iriamos para uma discoteca na zona histórica. Distribuímo-nos pelos carros disponíveis e quando me apercebi estava no carro do Zé. Só nós dois. Partimos para o local combinado. No decurso da viagem caiu um aguaceiro de criar bicho. Perdemo-nos dos restantes e enganámo-nos no percurso. Ao entrarmos na discoteca uma voz anunciava furiosamente. “A menina da gabardine creme e o cavalheiro de bigode não têm lugar. De facto, não cabia naquele sítio nem sequer uma agulha. Fizemos ouvidos de mercador e furámos por entre uma multidão anestesiada. Dos colegas nem havia rasto. Perguntamos ao porteiro se ali tinha estado um grupo numeroso. Disse-nos que sim, mas como não havia lugar tinham ido embora. Admitiu que o informaram do local mas não se recordava. Passámos a noite a subir a descer colinas de discoteca em discoteca, como passageiros perdidos na chuva. Era como procurar o Wally.

Ao dobrar da noite conferenciamos e decidimos desistir. Lembro-me de ter dito: “uma noite para esquecer” e de o Zé ter respondido, “talvez seja para recordar”. E foi.

Na noite em que me perdi com a Maria Alice numa Lisboa diluviana, enquanto os outros companheiros de estudo, estavam num aconchego seco e agradável, a deglutir uma saborosa bebida e abanar o capacete, como se dizia, tive a convicção que me começava a meter em sarilhos. Debaixo de um aguaceiro impiedoso , por ruas quase rios, perdemos o contacto. Mas porque raio os alarves não esperaram que chegássemos? E para além de ficar com a criança no colo, (salvo seja) quando nos voltámos a encontrar, ainda me acusaram de me ter afastado para desencaminhar a donzela. Uma ova. Não queria desiludir a moça que confiara na minha competência e fiz das tripas coração para levar a carta a Garcia. Senti-me um pouco ridículo , mas ao fim e ao cabo a ela não me pareceu muito aborrecida.

Primeira paragem: cabine telefónica. Procurar desesperadamente nomes de discotecas

E a Maria Alice à espera no carro

Segunda paragem: regresso à discoteca original para ler a lista ao porteiro, na esperança que se lembrasse de um nome que me orientasse.

E a Maria Alice à espera

Terceira paragem: discoteca Boa Noite. Entrar, sair e nada.

E a Maria Alice a seguir o delírio.

Mais e mais do mesmo. E a Maria Alice com uma paciência de santa.

Fizemos os exames de acesso à Universidade. Uma pequena parte da turma entrou para a Faculdade de Letras. Aproveitámos o balanço e constituímo-nos em grupo de trabalho. No primeiro tema que tivemos que desenvolver distribuímos tarefas e depois reunimo-nos para concluir. Quando a Maria Alice apresentou a sua parte, o António Feliz, que devia estar num dia não, arrasou o texto da moça. Imagino como ela se deve ter sentido, mas reagiu serenamente. Disse que se afastava do grupo, contudo deixaria o seu contributo se assim quisessem. Na sequência deste acontecimento desistiu dessa e de outras cadeiras. Ainda tentei que reconsiderasse. Em vão. Manteve-se firme. Deixei de a ver.

No ano a seguir à conclusão do curso, porque tive saudades do ambiente universitário e porque queria fugir à rotina da análise de dados, matriculei-me em duas cadeiras suplementares. Na empresa continuava entre a cruz e a caldeirinha, isto é entre o chefe e a menina Maria Ana. Para mais já não ia a despacho com o engenheiro Casanova.A versaão oficial era que o engenheiro tinha ido fazer uma actualização aos Estados Unidos. Numa outra versão constava que teria pediu transferência porque a menina Ana era muito exigente.

Fosse porque razão fosse a Maria Ana tentou reaproximar-se de mim. Lembro-me que, da minha janela, olhava para o cais e via os barcos parados. Senti que esse navio já tinha deixado o porto.

Entretanto começaram as aulas na faculdade. Ao sair de uma dessas aulas, deparei-me com uma figura discreta sentada ao cimo de uma escadaria. Ao aproximar-me visualizei uma dama esguia que vestia uma gabardine creme. Ao chegar mais perto pousei os olhos num rosto calmo com um leve sorriso.

-Alice? Como estás? O que fazes aqui ?

Estou a fazer tempo para a próxima aula.

E tu? Pensava que já tinhas terminado!

Terminei, mas vim fazer cadeiras extra.

E então pá, para além disso, que tens feito? Casaste, tens meninos?

Embatuquei. Durante uns segundos fiquei paralisado. Fugi à questão. Repliquei a pergunta.

-E tu? Casastes, tens meninos?

-Que eu saiba ainda não se podem fazer sozinhos.

Pasmei. Tanto tempo passado, A Maria Alice tinha evoluído na arte da sedução. Ou seria da provocação?

Não sou de fugir a desafios? Entrei no jogo

-Pois se são precisos dois estamos na conta certa. Porque não passamos à acção?

Pensei que tinha jogado forte. Preparei-me para as consequências. Das duas uma: ou a Maria Alice me dava um par de estalos, ou não me levava a sério, fazia-se de desentendida e seguíamos o nosso caminho.

-Porque não? Respondeu. A proposta só peca por tardia. Há muito que estou à espera. Sou paciente. Tenho-te seguido ou esqueceste-te que tenho o teu registo à mão de semear. Houve uma altura que pensei que a bruxa dos olhos negros te tinha seduzido. Mas pela tua ficha constatava que continuavas solteiro. Até me apercebi que foste coordenar o departamento de comunicação.

É verdade. Quando me fizerem o convite não hesitei. Há muito que pretendia deixar a secção de análise de dados onde era penoso ver o chefe cada vez mais ensimesmado. Algum tempo depois de saír chegou-me aos ouvidos que o chefe tinha tido acesso às mamas da menina Ana. E dizia-se que o chefe emagrecia e perdia a cor como um tecido má qualidade. Uma manhã chegou com ar abatido, sentou-se e esparramou-se em cima da secretária. Morreu no seu posto, sem nunca chegar ao seu vinte e cinco de Abril. Houve quem atribuísse culpas à saciedade da Maria Ana e a excesso de comprimidos azuis. Do que eu me livrei.

-Mas voltando à tua sugestão: Convido-te para um jantar. Eu mesma o preparo, no apartamento que comprei na periferia. Pode ser amanhã?

Engoli em seco. Não estava à espera de uma terceira hipótese de reacção. A garota mostrava-se atrevidota. Não quis dar parte de fraco. Ainda tinha um dia pela frente. Enquanto o pau vai e vem folgam as costas. Aceitei. Quem sabe se era bluf.

-OK. Amanhã conta comigo. A que horas?

Tirou uma folha de um caderno, escreveu um endereço e rabiscou um esquema que me entregou

-Aqui está. Espero-te às oito. Não te atrases para a comida não esfriar.

Despedimo-nos. Enquanto atravessava a nave até à saída, fui invadido por um turbilhão de ideias contraditórias. Se tivesse num jogo de xadrez tinha levado cheque mate. Por outro lado lembrei-me que .t eria que procurar um novo alojamento. A dona Mariazinha ia fechar a hospedaria. Recebeu uma proposta do Paco Caballero. Aceitou e ia viver com ele. Estava de partida para a Andaluzia. Dizia que aos cinquenta, se não montasse aquele cavalo, não passaria mais nenhum. Além disso era difícil resistir ao seu charme. Como é que se ia acomodar na vida dele, logo se via. Por isso se a Maria Alice me acolhesse ficava resolvido o problema. Mas não iria meter-me noutra alhada?

E agora José?

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publicado às 22:17

Fim de semana alucinante

por Naçao Valente, em 25.11.14

Aquele país imaginário ou imaginado estava uma pasmaceira. Os seus habitantes sofriam de uma estranha doença. Vegetavam como zombies numa espécie de sono encantatório. Havia até quem admitisse que estavam sob o domínio maléfico de uma bruxa má. Tentaram-se vários esconjuros. Aplicou-se a receita tecnoforma sem resultado. Colocara--se num labirinto. A pasmaceira persistia.            

Até que alguém,não identificado, presentou uma solução radical. Tratava-se de os exorcizar todos os males com um animal feroz. Acendeu-se o Sol, ou dito de outra forma fez-se luz. Mas onde encontrar esse animal,num país amorfo de carneirada, incluindo os lobos disfarçados? Até que alguém, não se sabe quem, sugeriu que se podia imaginá-lo. E imaginou-se um que não destoava de um país imaginário.

A etapa seguinte consistia em arranjar um domador. Alguém, há sempre alguém, disse que conhecia um que por caso até era o único. Tinha o perfil ideal. Fora gerado acima de qualquer suspeita. Havia quem garantisse que teria sido gerado sem pecado, embora não fosse filho de um carpinteiro e de uma virgem. Mas era filho de um mensageiro da manhã e de uma dama de pés de cabra. Era de uma pureza de desafiava a essência do conceito. Não se lhe conhecia um deslize. De certo não fora conspurcado pelo pecado original das fraquezas do género humano. Os cidadãos de um país sem cidadãos, curvavam-se  perante a santidade do justiceiro. À justiça o que é da justiça disseram em coro. Infalível.

 

Chegou a hora de montar o circo. O espectáculo estava pronto. Estava na hora de acordar o povo pasmado. Ia começar um fim de semana alucinante. O animal feroz, inventado, desceu dos céus como um cavaleiro do apocalipse, sem visto Gold. O domador puxou do longo chicote justiceiro e domou com pompa e circunstância o animal. Sacou-lhe as garras roubadas a outros animais. Soaram as trombetas. O povo acordou estremunhado. Do espanto passou à euforia. As emoções estavam ao rubro. Aleluia. O encantador de consciências estava domado. O reino salvou-se.

Na arena imaginada o povo rejubilava. Depois de um longo sono vivia a realidade virtual. Abata-se, esfole-se. Acabaram-se as nossas agruras.A multidão alucinada queria mais. Mas o domador imaculado consultou o deus menor que adora e decidiu: o animal feroz vai recolher aos curros. Precisamos dele porque o espectáculo tem que continuar. Este é apenas o primeiro acto.

 

PS aplique-se o lugar comum: não se pode estabelecer qualquer semelhança destes não factos com a realidade. 

 

MG

 

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publicado às 18:19

A minha vida não dava um romance

por Naçao Valente, em 19.11.14

I Guardador de rebanho

 

O meu nome é Zé. Um Zé Qualquer. É assim que me chamam na minha já longa vida, apesar de longa ser um eufemismo ou um lugar comum, como preferirem. A vida não é longa coisa nenhuma. Nunca chega para fazermos tudo o que gostaríamos de fazer. Deixemos especulações e voltemos ao fio da narrativa.

Chamo-me Zé, mas já me chamaram muitas outras coisas. Filho da puta, grande cabrão, parvo de merda, nabo do carago(foi mais na tropa quando não acertava o passo com a carneirada) e outros mimos que não vêm ao caso. Nem estes nem outros, que são desvios à narrativa central.

Diz-me como te chamas e dir-te-ei quem és. Zé, está na cara, é nome de pobre, que nem sempre de pobre diabo. Da barriga da mãe de onde saí, saíram aaí maís onze se a memória não me atraiçoa. Como se vê não havia recursos para nomes pomposos. O meu pai gabava-se, na venda do Zé d`Alzira, entre um copo de três e um jogo de sueca, que cada vez que tirava as botas e ficava em ceroulas, metia mais um na “fábrica” da mulher. E dizia-o com propriedade, pois recordo-a ou prenha ou a parir. Da outra variante não tenho lembrança, que nas duas camas disponíveis a lotação estava esgotada e alguém tinha que pernoitar no palheiro.

Lembro-me, isso sim, de ver zés e marias acabadinhos de chegar . Uma vez, por mero acaso, até vi atravessar a porta de saída creio que da Maria dos Remédios. (ou seria a Maria da Consolação?) Foi durante a ceifa, num dia em que o estio mostrava a sua verdadeira face. Era como se o inferno tivesse descido aquele outeiro.

lembro-me

A minha mãe gritou “ áuguas”. E eu larguei o molho de trigo e na minha inocência juvenil corri a buscar a infusa onde estava água para da canícula. Quando cheguei já ali estava uma nova Maria,

da Encarnação?

O meu pai a gritar, e a cortar o cordão com a foice, “ não é da infusa que precisamos mas do alforge para deitar a tua mana, grande burro” (aí está). E lá montamos a minha mãe, na lindinha, a burra cinzenta, com a Maria de regresso a casa. E durante esse verão, pelo menos, a mãe não voltou à ceifa. Sim que entre uma e outra "parição" e uma outra amamentação a mãe ainda ajudava nas lides do campo, quando a faina apertava.

No espaço que sobrava entre guardar a vaca, duas ovelhas, e uma cabra, comecei a ir escola. Tinha que ir porque era obrigatório. Foi lá que comecei a conhecer o mundo para além do horizonte curto da aldeia. Foi lá que percebi aquele mistério da crucificação de que ouvia falar na catequese, em que Jesus tinha sido crucificado ao lado de dois ladrões. Ali estava, à nossa frente, a representação da cena com o crucifixo, no meio dos ditos ladrões.

tão verdade como me chamar Zé

O senhor professor que era um bom católico e um grande patriota, a quem tínhamos de saudar de braço esticado, dizia-nos que aqueles dois de ar severo, eram o senhor Presidente da República e o senhor Presidente do Conselho. Na minha ignorância campónia, não entendia o significado daquelas palavras. Presidente só conhecia o da Junta de Freguesia. E o meu pai, sempre que ele nos visitava, murmurava entre dentes “aí vem o ladrão contar as galinhas e os ovos que elas poem, com a lengalenga dos interesses da nação”. Bate certo. Presidente igual a ladrão. Se calhar não apenas pilha galinhas, mas “pilhador” de coisas mais avantajadas. E aqueles dois que ladeavam Jesus, na parede da escola, só podiam ser chefes de quadrilha. Pensava eu na minha ingenuidade de um zé qualquer.

Quando fiz exame da 4º classe, com distinção, passei a moiral dos animais a tempo inteiro que as bocas para alimentar não paravam de crescer, embora as mais velhas tenham ido servir a senhoras da cidade. Mas a Maria dos Remédios

ou seria a da Purificação?

deixou-se enganar por um gandulo da cidade, com promessas de ludibriar tolas, e apareceu em casa com uma barriga maior que o globo da escola primária e ali pariu mais uma alma inocente, que pai teve que alimentar. Que havia de fazer? Pai é Pai. O que valeu foi que o Zé tendeiro já sem mercado entre as moças casadoiras, comprou o produto desvalorizado e ainda levou o brinde.

(continua)

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publicado às 22:28

Uma aventura no dentista

por Naçao Valente, em 15.04.14

Chegou o dia de ir ao dentista. A cadeira do dentista é para mim a tortura made in século XXI. Estou convicto que se Torquemada andasse por aí, com acesso a tal instrumento acabava com os hereges em três tempos. Mas a verdade é que não anda, pelo menos até ver, pois como as coisas estão  não sei não. Enfim, tem que ser tem que ser. Porém não me armo em herói e confesso que vou transido de medo. Bem se alguém não vai, com medo, para essa cadeira, que atire a primeira pedra. Pela minha parte, preparo-me o melhor que sei: faço um retiro espiritual, invoco todos os santos, enebrio-me de pensamento positivo e à cautela tomo um xanax. Depois, entrego-me nas mãos da minha dentista, que as mulheres agora estão de corpo e alma em todas as profissões.

 

A minha dentista é a doutora Isabel Alçada. Para o caso o nome tem pouca relevância, mas aproveito para aplicar umas técnicas que aprendi num seminário de escrita criativa. A doutora para além da competência em bem manejar as brocas e outros instrumentos picantes, tem uma indisfarçável paixão por um clube de futebol com o qual também me identifico. Para não ser ostracizado por algum leitor, não vou dizer se somos benfas, lagartos ou "dragons" carago. O que digo é que temos grandes bate-papos a propósito. Ela descarrega a tensão e a pressão de mais uma jornada e eu dou-lhe corda e vou adiando a hora da broca me perturbar a paz bucal. E entre golos falhados, bolas no poste, juízos de árbitros acima de qualquer suspeita (gatunos) remato, para impressionar, que o futebol moderno vive menos de tácticas e mais de dinâmicas, coisas que aprendo com os comentadores de futebol. Remato mas sempre ao lado que a doutora está sempre à defesa e não me deixa marcar nem um golito. Adiante, que já vou na linha doze  e ainda não se passou nada que agarre o leitor. Nem um "enrolanço" repentino, na cadeira, com a doutora, na altura em que entrava de surpresa o eventual companheiro e que me dava uma surra de criar bicho e me partia o resto dos dentes sãos.  Nem sequer aconteceu uma tentativa de assassinato da dentista por um cliente tresloucado. Vontade não tem faltado, a chatice é que ela é de carne e osso e não uma personagem de enredo literário. Nem sequer se sabe da densidade da personagem, ou se é loura ou morena. A continuar por este caminho já tinha chumbado em escrita criativa

 

Assim que entro no consultório, sou informado pela assistente, que a doutora teve que se ausentar. Aí pensei, hoje é o meu dia de sorte. Pensamento não era completado e já a solícita assistente me informava sem deixar cair o verbo: -a doutora fez uma escapadinha mas deixou uma substituta e está à sua espera senhor José, concluiu. Uma vez que a assistente identificou o narrador, que queria ficar incógnito, vamos enfrentar a nova torturadora. Enfrentei-a de nariz empinado para não dar parte de fraco. Cumprimentou-me com um sorriso tímido. -Chamo-me Ana Maria Magalhães e estou a substituir, provisoriamente a Isabel Alçada. Então qual é o problema? Abri a boca e mostrei-lhe a cratera que me dava a imagem de anti-drácula. -Ainda se pode fazer alguma coisa doutora? Pouco, respondeu. Foi apenas o que lhe ouvi dizer. Depois, só se ouviu o som dos instrumentos num frenesim ininterrupto. Não sei se a doutora substituta sofre por algum clube, se é apoiante do governo ou se tem página no facebook. Estava ainda embrenhado nas minhas especulações quando a dentista voltou a falar: -Já tem de novo o seu dente. Não vi. Os dentistas não têm, como os cabeleireiros, um espelho para mostrar a obra. Uma falha. Mas senti o buraco tapado e pareceu-me boa a reconstrução. Antes de sair arrisquei perguntar: quando volta a doutora Isabel Alçada? No seu estilo economizador de palavras disse: -quem sabe? Está presa preventivamente. Foi considerada arguida na morte do marido. Questões passionais. Bolas, agora que a aventura acabou é que aconteceu algo capaz de fazer progredir a história...

 

MG

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publicado às 19:05

O pior estava para vir

por Naçao Valente, em 28.02.14

Ficção

 

-Bom dia, sou o comissário Vasco da PSP. Foi o senhor que nos telefonou a pedir ajuda…

Sim. Sou Mário Soares, único sócio, gerente e recepcionista desta pensão residencial decadente. Agradeço a prontidão

-Diga-me senhor Soares, conhece o homem que está a ameaçar atirar-se do telhado?

Conheço-o como a palma da minhas mãos “messieur gendarme”, pardon  senhor comissário, mas fui emigrante em França no tempo da outra senhora, entende-me?, e às vezes confundo as o línguas.

-Não há problema. Sabe o que levou o indivíduo a praticar este acto?

É uma longa história. O Fernando, é assim que se chama, foi dos primeiros hóspedes da Brisa de Paris. Chegou aqui depois de fugir das colónias após a descolonização. Uma mão atrás outra à frente, entende-me? Eu tinha aberto esta residencial com as economias que ganhei como emigrante. Estava em Paris tal como o meu homónimo Soares na condição de refugiado político e quando ele regressou como herói, pensei, chegou a minha hora, nem é tarde nem é cedo se “monami Soarous” pode, eu também posso.

-Peço desculpa senhor Soares, mas não estou aqui para ouvir a sua história mas para tentar salvar o pretenso suicida. Tenho na minha equipa o doutor Otelo, especialista em acção psicológica, que tem que começar a agir. Pode indicar-lhe o caminho para o telhado?

“Pardon messieur gendarme”. Felice um velho hóspede vai acompanhar o doutor. Como lhe estava a dizer, o Fernando, na altura da abertura veio hospedar-se, como muitos outros, às custas do Estado. Chamavam-lhe retornados. Bons tempos. O Fernando começou a trabalhar como tipógrafo no DN onde conheceu a Eunice que trabalhava nas limpezas e tinha uma filha de pai incógnito, a Clarinha. Lá se entenderam e começaram a viver juntos. Garanto-lhe que era um casal feliz até chegar o Basílio…

Senhor Soares o que é que isso tem a ver com o que está a acontecer?

“Messieur”, a vinda do Basílio tem a ver e muito. O Fernando pediu-me para o deixar ficar no seu quarto por uns tempos, pois estava a passar dificuldades. Apresentou-mo como um amigo da máxima confiança. Não pude dizer-lhe que não. Que homem! o Basílio, uma estampa, embora o Fernando não seja de desprezar e sem desmerecer o senhor comissário que não lhe fica atrás…

-Seja objectivo

…voilá, eu achei que era difícil acomodarem-se todos num espaço tão pequeno mas lá se acomodaram. Algum tempo depois veio a saber-se, mais tarde ou mais cedo tudo se sabe, que dormiam todos na mesma cama, entende? Ménage à trois, está claro.

-Por este seu depoimento vejo que o meu amigo errou a profissão. Está a demonstrar jeito de contador de estórias, e aptidão para a dramatização.

Assim foram vivendo na paz dos deuses e indiferentes a falatórios até ao dia em que Eunice, que trabalhava até mais tarde, teve de vir mais cedo para trazer a filha que tinha adoecido na escola, e aí teve uma grande surpresa…

-Avance que já estou a ficar em pulgas.

…não queria estar no lugar da pobrezinha, pois os seus dois homens estavam enrolados num grande tête-à-tête, comprend?

-Espere um momento senhor Soares, preciso de contactar o doutor Otelo

-Está doutor? Está no telhado? Como vai a acção?

-Com toda a normalidade comissário.

-Vou-lhe dar uma informação que pode ser útil? O sujeito é invertido!

-Defina invertido!

-Porra doutor, quero dizer,  florzinha, mariconço. Percebeu ou quer que lhe faça um desenho

-Se quer dizer indivíduo com capacidade para interpretar as relações íntimas numa perspectiva abrangente e descomplexada, percebi.

-Faça o seu trabalho e deixe-se de ironia de telhado.

-E que sucedeu então senhor Soares, se isso for relevante para entender as razões do suicida?

Esse acontecimento não tem relação directa com o que está a acontecer. A Eunice acomodou-se. O que podia fazer? Mas o pior estava para vir. O desenlace que levou ao que se está a passar deu-se hoje de manhã. Quando o Fernando chegou da tipografia não encontrou o Basílio, a Eunice e a filha. Apareceu-me aqui branco como a cal com uma carta que me deu para ler. O infeliz só dizia: “amigo Soares, a minha vida acabou”. Li.

 

Fernando,

A situação existente está a ficar insustentável. A Clarinha precisa de uma família que tenha estabilidade e que lhe dê segurança. Eu e o Basílio resolvemos refazer a nossa vida juntos. Fazemo-lo porque nos amamos mas sobretudo pela Clarinha. Desculpa mas não era possível deixar as coisas como estavam. Vai ser doloroso para todos mas a vida continua. Desejamos-te o melhor.

Eunice

 

-“Amigo Soares a minha vida acabou. Fui traído.”  Ainda tentei consola-lo e até estava disposto a recebe-lo nos meus braços. Não me ouviu. Foi aí que subiu para o telhado.

Com licença senhor Soares, tenho de atender o telemóvel:

 

Sim doutor.

Está tudo resolvido. Vamos descer.

Parabéns. Fico à espera.

 

Tudo vai acabar bem. Ai vêm eles. O doutor Otelo é um grande profissional e sempre mereceu a minha confiança. –“ Então doutor que trâmites vamos seguir?”

-Assunto encerrado comissário. O Fernando vai viver comigo para minha casa. Vivo lá sozinho e tem muito espaço. Vai correr bem, somos pessoas descomplexadas.

-Sabe o que lhe digo mon ami Soares. O pior,de forma descomplexada.  estava mesmo para vir.

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publicado às 20:28

Chato, o mau da fita

por Naçao Valente, em 02.06.13

                                                                             Ficção

 

Ó Miguel,

 

Travei o passo, mas continuei a avançar. Afinal há mais marias no mundo. Aquele chamamento não devia ser para a minha pessoa. Nem estava muito interessado que fosse, pois quando alguém me aborda é para me pedir algo, ou vender alguma tralha.

 

-Miguel Vasconcelos,

 

Hesitei. Diacho, se calhar sou eu o visado. Desde que o dito nome é sinónimo de traição tornou-se pouco comum. Continuei a caminhar, mas pelo sim pelo não, fui olhando pelo rabinho do olho. E aí começou a desenhar-se na retina a figura esguia de Félix Chato Fininho. Agora não havia dúvida, o Chato estava no meu encalço. Não tinha alternativa. Parei, virei-me devagar e afivelei um sorriso de circunstância

 

-Então Miguel como vais?

 

O Chato foi meu colega de trabalho. Não o via há uns tempos, mas é o tipo de cidadão que não queria encontrar nem para beber um copo de bom vinho alentejano. Nem o recomendaria para genro da sogra mais empedernida. Aliás o fulano nem sogra tem. Em tempos foi casado com uma sua aluna dos cursos nocturnos, uma alentejana roliça e bem torneada, mas agora vive sozinho num T2 da periferia. Articulei mecanicamente uma frase batida, "gosto em ver-te" enquanto que  a ideia que me borbulhava na mente era "gosto em ver-te coisíssima nenhuma".

 

-O que tens feito?

 

O que me apeteceu dizer foi: "o que tens a ver com isso ó "palhaço" andante?". Comedi-me. Há palavras que se tornam anátemas. Essa coisa da frontalidade é uma grande treta. Em nome da boa educação, temos que engolir muitos sapos. Mas que custa custa. Eu até compreendo que a criatura também seja filho de Deus, embora às vezes não pareça. Penitencio-me se é blasfémia. Mas este arrependimento é só retórica verbal, senão não tinha perguntado "como vai a família" a um gajo que vive sozinho, não sei se por opção, contingência ou espírito de eremita.

 

-... (silêncio)

 

Nem sei como a ex-mulher ainda partilhou com ele a mesma cama durante uns anos. Mas que partilhou, partilhou. Tanto mais que lhe fez uma filha. O que para ela não era coisa nova, pois quando se juntou com o Chato trouxe como prémio um filho de uma  outra relação não concretizada. Era o que se chamou, em tempos, uma mãe solteira. Se calhar embarcou na aventura por se encontrar numa situação de fragilidade. E estava ali disponível o setôr Chato Fininho que lhe garantiria alguma estabilidade. Ou então, foi mesma paixão da aluna pelo mestre. Acontece muitas vezes. Quem nunca lhe sucedeu é porque é mesmo um estafermo inconcebível. Seja como fôr, se a moça se embeiçou por tão assumido cretino, não merece crítica, pois à primeira qualquer cai. Não sou nenhum santo, mas quando lhe percebi o embaraço do estupor, puxei pela minha costela misericordiosa, e mudei de assunto:"quero dizer...como vai a tua filha?"

 

-Faz tempo que não a vejo. Alíás, só me visita para me cravar. É tal e qual a puta da mãe...

 

Embatuquei e mordi a língua para não disparatar. Não gosto de ver destratar uma donzela, seja qual for a sua orientação sexual. Sou, ainda, um cavalheiro à antiga. Atalhei conversa. Meti um lugar comum: "e essa saúde?"  Resulta sempre.O Chato começou a discursar com todos os pormenores sobre mil maleitas, mas deixei do ouvir. Veio-me à superfície do pensamento mais uma especulação. Imaginei a ex-mulher, anos a fio a aturar esta verborreia. Mas esse sacrifício foi recompensado. Valeu-lhe ter tirado o curso de Solicitadora que lhe permite estar bem na vida. E até acho que esse sacrifício justifica a aldrabice que lhe pregou quando o convenceu a comprar um terreno, em nome da mãe que a pariu, para construir uma vivenda. O otário pagou o terreno e a construção e ficou sem nada. E se, entretanto, a infeliz vítima do Chato já deita outro na cama que ele pagou, são coisas que acontecem. Tem a seu favor a evidência de ter pago um alto preço. Foram muitos anos de tormento. Sim que o Chato é dose.

 

-Tenho que ir, vou entrar às dezanove...

 

Aleluia, pensei. Agora já não me polui o quotidiano, a não ser com conversas de ocasião e por breves instantes. Mas em tempos idos, quando trabalhamos juntos, torrou-me a paciência com picuinhices e confusões de baralhar um comunista ortodoxo. De facto, não conheci maior artista na arte de complicar o que era fácil. Onde quer que estivesse. Certa vez, no Alentejo profundo, meteu-se de tal modo na vida do enteado que tirou a ex-sogra do sério e palavra puxa palavra chegaram a vias de facto. Posto na rua, em plena noite, percorreu mais de dez quilómetros à pata por trilhos de sobreiros até à vila mais próxima onde apanhou um táxi para casa. Mas quando chegou  já a ex-mulher, por antecipação, tinha mudado a fechadura. A partir daí consta que viveu na garagem até se mudar para o seu apartamento. Foi o seu canto de cisne na vida da fogosa alentejana.

 

-Então, até mais ver.

 

Apertei-lhe a mão fria e esquálida. "Fica bem" disse na despedida, omitindo a última palavra da frase  que ficaria com o seguinte sentido:"Fica bem mal".

 

A verdade é mesmo uma batata. Muda de sabor e de forma de acordo com o cozinhado e com o cozinheiro. Tenho algumas razões para não gostar do Chato Fininho. Apresento-o aqui como o mau da fita. Mas honestamente, às vezes, só às vezes, interrogo-me se assim será. Se calhar nem mereço os seus cumprimentos. É que o infeliz, não sabe, nem sonha, que vivo na casa que ele pagou e que partilho a cama e o que isso implica, com a sua ex-mulher. E nem tenho razão de queixa. Limitei-me a apanhar a fruta que ele amadureceu. Se não fosse eu, era outro. Ao fim e ao cabo tenho de me auto-convencer que não sou uma peste nem o verdadeiro mau da fita.

 

MG

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publicado às 23:55

Danças com galinhas

por Naçao Valente, em 02.02.12

 

categoria; ficção

 

 

 Esta é a história real (tanto quanto o conceito subjectivo de realismo o permite)de um cachorro que foi colocado num quintal onde vive com galinhas. É a minha primeira abordagem da literatura infanto-juvenil. Fica a boa intenção.

 

 

Era uma vez eu. Sou um cachorro e chamo-me Só. A minha mãe é a Dórémi e os meus quatro irmãos são o Lá, o Fá, o Si e o Dó. Nasci numa varanda de um apartamento e o meu dono era músico, chamavam-lhe senhor Maestro. Na nossa vida de cães éramos felizes. Éramos, porque já não somos. Fui arrancado à família e abandonado num grande terreno, habitado por uns estranhos bichos com um grande bico, parecidas (mas assim para maior…) com o Totó. O Totó é um pássaro que vive em casa do senhor Maestro.

Nunca percebi porque vim aqui parar. Quando cá cheguei até pensei que fosse castigo, pois o senhor Maestro estava sempre a dizer ao filho: “sai da playstation, Mozart (é o nome do filho) e vai estudar. Um dia ainda te castigo e te mando para um colégio interno”.Aproximei-me dos passarões e numa de tipo porreiro, perguntei:

-É malta isto aqui é um colégio interno?

O meu medo era que me dessem nas orelhas, pois ainda ouvia o senhor Maestro dizer ao filho: -“olha que lá no colégio se não estudares levas nas orelhas…”

-Carácarácácá - responderam-me

- Não vos percebo… mas que raio de língua falam? Será inglês? O meu dono dizia muitas vezes ao filho “vai estudar inglês, pois inglês é o futuro”

-Carácarácarácácá

Então aproximou-se de mim um deles, e disse:

-Oi cachorro como te chamas?

-Chamo-me Só - respondi um pouco atarantado. Tu falas português?

- Yá!

-E as outros, o que falam?

-Os outros são galinhas por isso falam galinhês e pró que fazem, que é pôr ovos, chega.

- E tu não pões ovos?

-Eu sou o gajo que toma conta do galinheiro e faço poemas bué. Sou galo e poeta. Estou mesmo a ver que ainda conheces pouco da vida!

-Bem vejo que tens muita gramática. Lembrei-me que o senhor Maestro volta e meia dizia ao  Mozart: “vai estudar gramática para aprenderes a falar e seres alguém na vida”

- Pois sei e vou mostrar-te. Ouve esta:

Não sou esperto nem burro

Nem bem nem mal educado

Sou apenas o produto

Do meio onde fui criado

 

- Vendo bem  não é minha. É dum tipo chamado Aleixo, mas a que vou recitar foi feita pelo je, quer dizer eu.

 

Posso parecer o que sou

Mas não sou o que pareço

Sou rei na capoeira

E poeta me confesso.

 

-Que tal ó projecto de cão?

- Eu não tenho muita gramática, nem nunca fui à escola – respondi, arrasado por tanta sabedoria. Adiante..

-  E tu como te chamas? disse para mudar de assunto.

-Eu sou o galo Pinoka. E elas são a Catita, a Gaga, a Sissi, a Totó e a Marlene, que é a minha preferida. E não é para me gabar mas estão todas caidinhas por mim.

-Hum..

- Deixa p’ra lá, isso agora não interessa nada - disse o galo poeta. O que interessa é que temos de ser companheiros e trabalhar em equipa. Elas põem ovos, eu componho, canto e tu tens de guardar o quintal, pois há por aí muitos pilha-galinhas. Percebeste?

-Mais ou menos, respondi

-Okei …e olha não podemos desiludir o nosso patrão. E tu que és novo por cá vais ter de mostrar o teu valor. Nem uma galinha, nem um ovo podem ser roubados!

Que raio de sorte a minha, pensei. Deixei a rica vidinha na casa do senhor Maestro e agora aqui estou a experimentar a dureza da vida tal como ele dizia ao filho:“ollha que a vida não é como os jogos de computador…tens de te preparar para o mundo cão”.  E eu que o diga, que até sou cão …tenho de estar alerta senão estou lixado.

Os primeiros tempos não foram fáceis, especialmente na hora da paparoca, pois as galinhas roubavam-me a comida ou atacavam-me com grandes bicadas. Principalmente a Marlene, aquela descarada! Um dia marquei uma reunião, como vi fazer ao senhor Maestro. Quando estavam todos tomei a palavra:

-Meus amigos e companheiros. Estamos ou não estamos todos no mesmo barco? (nunca percebi bem esta frase, mas se o Maestro a dizia...). Então porque é que as galinhas me bicam e roubam a minha comida? Há ou não há companheirismo? Onde é que está a equipa, ó Pinoka? Olha que eu assim não danço…

-Bom, disse o galo, estás certo, fica descansado; vou-me entender com as meninas.

  A partir daí as coisas começaram a melhorar e algum  tempo depois tive a minha prova de fogo. Uma noite estavam as minhas companheiras já no seu sono profundo, quando ouvi um barulho estranho. Era parecido com aqueles barulhos saídos dos jogos do Mozart, que lhe arrancavam aquelas expressões que o Maestro detestava “ filho da….”( cala-te boca que esses palavrões não se dizem, especialmente numa história para crianças). Aproximei-me e vi então um bicho comprido a rastejar em direcção à capoeira.

-Quem és tu’?

-fuuuuuuuu

-Deves ser o pilha galinhas, não tens patas, não falas, só sopras. Não tens mesmo gramática nenhuma. És mesmo abaixo de cão, como dizia o meu patrão ao filho quando saiam as notas da escola.

-Queres comer vai trabalhar e deixa as minhas companheiras em paz. Não sejas parasita. Raspa-te daqui senão ferro-te o dente. Queres ver?

Ãoãoãoão

Já te vais embora? É assim mesmo moleque. Respeitinho é bom e eu gosto (esta aprendi com a mulher do senhor Maestro, quando mandava o filho baixar o som do batuque)

No dia seguinte, quando o patrão veio recolher os ovos ouviu-o dizer: “é pá está aqui rasto de cobra, e não falta nenhuma galinha. Foste tu, Só, que a espantaste. Bom menino, é assim mesmo. Bem me disse o Maestro que tu eras Bué. Hoje vais ter uma recompensa.

E assim fui admitido como guardador de quintal e garanti o meu futuro do lado do bem. Pois como o senhor Maestro sempre lembrava ao filho : “por este andar ainda vais acabar mal, ainda te vais tornar num pilha-galinhas”. Jamais!!!

Enfim, Vitória, Vitória… acabou-se a história!

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publicado às 19:17




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