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Os bons velhacos

por Naçao Valente, em 01.06.19

"Já não te quero
O meu nome é Camila, mas os meus amigos do “face” conhecem-me por Cam. Nasci no bairro do Aleixo há quinze anos. Acabei de entrar para um curso especial de alunos com dificuldades. O que eu queria mesmo era deixar a escola. Mas do mal, o menos. Neste curso, com currículos alternativos, é tudo mais manual e eu tenho boas mãozinhas e outras coisas que agora não vêm ao caso. Já não tenho de aprender aquelas merdas, que me ensinavam na Básica. Quero lá saber quem foi o gajo que inventou este país. Quero lá saber se se chamava Afonso e era de Guimarães. Dessa história, o que registei, foi a explicação que me deu a Sal isto é a Salomé, que deixou a escola (finória) e foi trabalhar como acompanhante para um bar alternativo. Dizia ela: “o Afonsinho de Guimarães f*deu a mãe em S. Mamede e depois meteu-a na “prisa”. Por isso não admira que este seja um país f*dido”. Outra coisa que me irritava era darem alcunhas às palavras. Para mim, batatas são batatas. Ponto. Tem lá algum jeito dizer, hoje vou comer um substantivo (batata) com outro substantivo (bacalhau). Bem fez a Sal, que se livrou dessas tretas, e ganha a vida a dar tanga a cotas com muita grana."

Extracto do conto "Já não te quero" , do livro "Os Bons Velhacos"

Dia 2 de junho, estou na feira do livro de Lisboa, às 16H, para assinar o livro.Pavilhão dos Pequenos Editores.

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publicado às 23:09

Quando o livro sai à rua

por Naçao Valente, em 13.06.15
 
 

Ir a uma feira do livro é, para um viciado em livros, como para um católico militante ir em Maio ao santuário de Fátima. Como o católico não vai à espera de uma benesse imediata, como um milagre, mas por sentir uma necessidade espiritual, o adorador da galáxia de Gutemberg não vai pela necessidade de  adquirir o livro A ou B, mas para um encontro especial com o espírito das letras. Num certo sentido, ambos cumprem um ritual.

 

Ir em Maio à feira o livro de Lisboa, mãe  de todas as feiras, tem um sabor especial. É como viajar por dentro dos livros. E para os amantes  de livros à antiga, estes são papel, tinta, letras, imagens. Existem, têm substância, satisfazem todos os sentidos: despertam o tacto, atraem o olhar, despertam a audição no restolhar das páginas, interrogam com a sua mudez, não são indiferentes ao olfacto. Ali estão discretos na sua sabedoria, humildes nas milhares de ideias e mensagens que guardam, disponíveis e ao alcance de qualquer mão. Deixam-se folhear sem protesto, felizes por um convívio aberto com a sua razão de ser, os leitores. Ali voltam a ter um feliz encontro com os criadores que lhes deram vida e asas para voar.

 

Os rituais alimentam a fé. As feiras de livros, em qualquer lugar, são para além de lugares de divulgação e comércio, sítios onde se retoma a ligação umbilical com a aventura humana. Ali está o ADN da humanidade, a palavra escrita, o registo da memória, a prova de temos um passado e a garantia de que teremos um futuro. No espírito daquelas páginas está o conhecimento acumulado e a alma de todos os que construíram. Hamurabi, Homero, Hesíodo, Vergilio, Heródoto, Sócrates, Arquimedes, Aristófanes, Cícero, Horácio, Santo Agostinho, Leonardo de Vince, Camões, Galileu, Newton, Stendhal, Vítor Hugo, Cervantes, Anderson, Eça, Saramago...são nomes que de repente me vêm à memória, entre tantos outros que é impossível enumerar.

 

Os livros na sua quietude de papel são organismos vivos . Se os entendermos, se os vivermos, se com eles convivermos, entramos na sua intimidade e viajamos, ao fim e ao cabo, por dentro de nós próprios. Em Maio esperam-nos no parque Eduardo VII, em Lisboa. De braços abertos.

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publicado às 00:58

Chegou a feira do livro

por Naçao Valente, em 29.05.15

Sem memória não há desenvolvimento. Sem memória não haveria humanidade nem civilização. Os registos das descobertas do homem são a razão de ser do progresso. Falar de registos é falar de fontes, de documentos e em última instância de livros.

Os livros nunca foram, nem são, os bem amados, dos cidadãos. Nas suas prioridades encontram-se necessidades básicas como a alimentação, mas também outras menos básicas, a saber: comprar carro, fazer férias e diversos atractivos da sociedade de consumo. O livro é neste contexto um parente pobre. Apenas algumas elites o desejam e o adquirem. E é pena. O livro, pelo que representa como memória de todos nós, merecia outra atenção. Negá-lo é negar a própria sobrevivência.

Proliferam lojas de moda dos mais diversos produtos. Mas as livrarias dificilmente subsistem fora dos meios mais cosmopolitas. Por indiferença. Longe das grandes cidades, é difícil ter acesso ao contacto com o livro, a não ser em bibliotecas e mesmo aí vegetam no esquecimento. As livrarias são cada vez mais locais aristocráticos, locais de culto restrito e elitista.

Há, porém, alturas em que o livro se liberta. Baixa do seu altar e desce à rua. Já que o povo não vai ao livro vem o livro ao povo. E aí todos podem vê-lo, sentir-lhe o odor de papel, ouvir  o sussurro do movimento das suas páginas, sentir a textura das letras, saborear a sabedoria que transportam. Meus senhores e minhas senhoras, alegrai-vos. Chegou a feira do livro.

MG

 

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publicado às 23:32

O livro saíu à rua

por Naçao Valente, em 15.06.14

Imagem net

 

O futebol monopoliza as atenções. Nos grandes meios de comunicação social a antena está ocupada com o mundial. São horas e horas de jogos, análises, debates, previsões. Um enjoo mesmo para quem gosta de futebol como é o meu caso. Dizem que é do que o povo gosta. É verdade. Há anos que o povo gosta de pão e circo. Mesmo que haja mais circo que pão. Para os governantes é uma benção. Pena não haver mundial o ano todo. Era uma constante manipulação. Está nos genes da humanidade.

 

No entanto, há vida para além do futebol. E muita. Vou referir-me especialmente a um acontecimento anual com grande significado cultural. Na minha opinião, mais importante que os desportos de massas, que desde a antiguidade tem variado nos gostos dos cidadãos. Falo em geral da cultura e das feiras do livro em particular. É à cultura que devemos a civilização. Esta, vista no sentido do aperfeiçoamento humano, não seria possível sem o avanço do conhecimento.

 

A feira do livro de Lisboa é mãe de todas as feiras, sem menosprezo pelas outras. E é-o por razões óbvias. Encerra hoje dia quinze de Junho. Durante as semanas em que esteve aberta, trouxe para a rua esses objectos chamados livros. Digamos que desceram ao povoado e se misturaram com o povo anónimo. Digamos que deixaram o ar condicionado e confortável das livrarias e os armazens das editoras, onde entram apenas os fiés, cada vez mais reduzidos, da leitura impressa.

 

Ao contrário do futebol que aliena pela paixão o livro liberta pela razão. A sua presença na rua agita um pouco as consciências, depois regressa às suas capelas durante mais um ano. A iletracia, mau grado o aumento da escolaridade é elevadíssima. Daí que nasçam cada vez menos livros. O que reina são as redes de comunicação visual. Imagens rápidas e rapidamente consumíveis. Mas o livro será sempre eterno. E para mim o livro em papel tem outro encanto, mesmo na hora da despedida. Tem textura, tem cheiro e tem escondida na tinta impressa a vida com as suas agruras e alegrias. Ensina, diverte, emociona, traz dentro de si a súmula da humanidade. Resta a saudade até que volte a sair à rua.

 

MG

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publicado às 21:40

O cemitério dos livros esquecidos

por Naçao Valente, em 10.06.14

O escritor catalão Ruiz Zafón criou no seu universo ficcional o cemitério dos livros esquecidos, situado numa Barcelona mítica do século passado. Nesse local, vivem os livros que desde o princípio da escrita foram sendo guardados para que, ironicamente, não se percam no esquecimento eterno. Os convidados a visitar essa estranha biblioteca, assumiam o compromisso de não denunciar o seu paradeiro e de se responsabilizarem por um desses livros.

 

Quando entro na feira do livro de Lisboa, sinto-me um personagem de Zafón numa visita ao seu cemitério dos livros esquecidos. Ali repousam milhares de livros. Muitos são figuras mediáticas de grande visibilidade, mas outros, tantos, estão completamente esquecidos, naquelas prateleiras, à espera que que alguém se lembre deles. Pois, há livros que, também, desesperam na sua solidão. E do silêncio das suas palavras mudas, clamam pelo carinho de algum passante. Choram, em silêncio, lágrimas de tinta. É certo que a maioria passa indiferente ao sofrimento dos livros esquecidos, quando não indiferente aos livros em geral. Outros visitantes fixam-se nos tops e nos livros, transitoriamente,  privilegiados, da galáxia de Gutenberg.

 

Um amante de livros, de todos os livros, não pode fazer descriminação. De uma forma ou de outra, todos tem em si um pouco da aventura humana de que somos herdeiros e continuadores. Essa memória que, apesar de momentos de descrença, nos faz acreditar que a utopia é possível. Admiro-os sem excepção e procuro prestar-lhe a minha homenagem e o meu reconhecimento. É, também, para isso que ali vou. Sem excepção, envolvo-me com todos eles. Mas pelos abandonados a uma letargia forçada, tenho um carinho especial. São muitos e não posso mimá-los a todos. Contudo, vou dando o meu contributo: pego-lhes com cuidado, folheio as suas páginas amareladas pelo tempo, recupero por breves momentos palavras, frases adormecidas, e sinto que ficam felizes. Depois ,interesso-me por algum (ou será ele que se interessa por mim?) e resgato-o da sua penumbra. 

 

Até ao próximo dia 15 de Junho os livros esperam por si no parque Eduardo VII.  Aguardam a sua visita. E se puder, retire pelo menos um do esquecimento, ou então evite que outros sejam colocados na marginalidade.

 

MG. 

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publicado às 12:57

Destaque

por Naçao Valente, em 27.05.13

 

 

 

 

O que é que o Portal Sapo e este blog têm de comum? Em absoluto não sei nem vem ao caso. Mas há um vicio que ,seguramente, compartilhamos. É o gosto pelos livros. Isso explica, na minha opinião,  o destaque que foi feito ao post, "Por dentro dos livros" (imagem Sapo)  no Sapo-Portugal Online. Os meus agradecimentos, sobretudo em nome dos livros. Merecem. 

MG

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publicado às 20:25

Por dentro dos livros

por Naçao Valente, em 25.05.13

Ir a uma feira do livro é, para um viciado em livros, como para um católico militante ir em Maio ao santuário de Fátima. Como o católico não vai à espera de uma benesse imediata, como um milagre, mas por sentir uma necessidade espiritual, o adorador da galáxia de Gutemberg não vai pela necessidade de  adquirir o livro A ou B, mas para um encontro especial com o espírito das letras. Num certo sentido, ambos cumprem um ritual.

 

Ir em Maio à feira o livro de Lisboa, mãe  de todas as feiras, tem um sabor especial. É como viajar por dentro dos livros. E para os amantes  de livros à antiga, estes são papel, tinta, letras, imagens. Existem, têm substância, satisfazem todos os sentidos: despertam o tacto, atraem o olhar, despertam a audição no restolhar das páginas, interrogam com a sua mudez, não são indiferentes ao olfacto. Ali estão discretos na sua sabedoria, humildes nas milhares de ideias e mensagens que guardam, disponíveis e ao alcance de qualquer mão. Deixam-se folhear sem protesto, felizes por um convívio aberto com a sua razão de ser, os leitores. Ali voltam a ter um feliz encontro com os criadores que lhes deram vida e asas para voar.

 

Os rituais alimentam a fé. As feiras de livros, em qualquer lugar, são para além de lugares de divulgação e comércio, sítios onde se retoma a ligação umbilical com a aventura humana. Ali está o ADN da humanidade, a palavra escrita, o registo da memória, a prova de temos um passado e a garantia de que teremos um futuro. No espírito daquelas páginas está o conhecimento acumulado e a alma de todos os que construíram. Hamurabi, Homero, Hesíodo, Vergilio, Heródoto, Sócrates, Arquimedes, Aristófanes, Cícero, Horácio, Santo Agostinho, Leonardo de Vince, Camões, Galileu, Newton, Stendhal, Vítor Hugo, Cervantes, Anderson, Eça, Saramago...são nomes que de repente me vêm à memória, entre tantos outros que é impossível enumerar.

 

Os livros na sua quietude de papel são organismos vivos . Se os entendermos, se os vivermos, se com eles convivermos, entramos na sua intimidade e viajamos, ao fim e ao cabo, por dentro de nós próprios. Em Maio esperam-os no parque Eduardo VII, em Lisboa. De braços abertos.

 

MG

 

 

 

 

 

 

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publicado às 22:28




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