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Parabéns Carlos

por Naçao Valente, em 01.07.14

Carlos do Carmo tem uma carreira de cinquenta anos. São muitos dias muitas horas a cantar. Conjuga na perfeição tradição com a modernidade. A qualidade da sua música não passou despercebida à Academia latina. Com toda a justiça atribui-lhe o Grammy de carreira. O primeiro da sua espécie que residirá em Portugal. Parabéns Carlos. Da sua vasta obra o difícil é escolher. É hora de palavra cantada. Viva a música.

 

 

 

 

 

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publicado às 19:57

Oh tempo volta p`ra trás

por Naçao Valente, em 19.10.13

Nos saudosos tempos da minha juventude cantava-se de norte a sul e de este a oeste "Ó tempo volta pra trás". A voz matriz deste fado era a de António Mourão. Era um tempo de ideias rigorosamente vigiadas. Era um tempo de liberdade totalmente condicionada. Era o tempo dos três efes, da mediocridade assumida como destino, do pobrete mas alegrete. Certamente que não haveria ninguém que quisesse voltar para trás. O que se queria era andar para a frente rumo a uma vida digna. Mourão que hoje terminou a sua missão aqui na terra será recordado como uma voz do fado que atingíu grande popularidade muito à custa do "tempo volta para trás":

 

 
 
O tempo não voltou para trás. Antes pelo contrário, atrás de tempos vierem tempos de mudança. A esperança nasceu numa manhã de Abril, cresceu e tornou-se certeza. O pais miserável, atrasado, analfabeto renasceu das suas próprias cinzas. Portugal entrou no século XXI como um país moderno. Os níveis de bem estar atingiram níveis  dignos de uma sociedade pautada por valores de dignificação da condição humana. Mas nada se pode considerar como adquirido. Vivemos nos últimos dois anos um período de retrocesso civilizacional quase comparável ao dos anos setenta. Apetece agora voltar a cantar o "ó tempo volta pra trás" com nova letra:
 

 

O Sócrates foi-se embora

Á vida para mim mudou

Esta cá  a troika agora

E quase tudo me tirou

 

As horas são como dias

As horas são como dias

Os dias são como anos

Já só resta a saudade

Já só resta a saudade

Depois de tantos enganos

 

Refrão

Ó tempo volta para trás

Traz de volta o que tirastes

Tem pena e leva contigo

Esta cambada de trastes

Ó tempo volta para trás

Ao tempo da vida sã

E traz o passado de volta

No nevoeiro da manhã

E traz o passado de volta

No nevoeiro da manhã

 

Porque será que o Coelho

E a troika são tão iguais

Porque será que a troika

Quando vem não se vai mais

Mas para mim o passado

Mas para mim o passado

É o eco do PEC quatro

E ainda estou à espera

E ainda estou à espera

Que ele volte pois estou farto.

 

MG

 
 

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publicado às 21:27

Desfado

por Naçao Valente, em 22.08.13

O fado é património oral e imaterial da humanidade. As suas origens são indefenidas e têm dado azo a várias explicações. Nascido em Lisboa, o certo é que o fado se torna canção nacional.  "O fadista canta o sofrimento, a saudade de tempos passados, a saudade de um amor perdido, a tragédia, a desgraça, a sina e o destino, a dor, amor e ciúme, a noite, as sombras, os amores, a cidade, as misérias da vida, critica a sociedade…" O fado marinheiro é considerado o primeiro fado.

 

 

Fado do   marinheiro


  Perdido lá no mar alto
  Um pobre navio andava;
  Já sem bolacha e sem rumo
  A fome a todos matava.

Deitaram a todos as sortes
  A ver qual d'eles havia
  Ser pelos outros matado
  P´ró jantar daquele dia


  Caiu a sorte maldita
  No melhor moço que havia;
  Ai como o triste chorava
  Rezando à Virgem Maria.


  Mas de repente o gageiro,
  Vendo terra pela prôa,
  Grita alegre pela gávea:
  Terras , terras de Lisboa.6  

— Cancioneiro popular

 

Durante a primeira metade do século XX, o fado chega ao grande público através do cinema, do teatro e da rádio. Na segunda metade do século XX galga fronteiras, emigra e conquista ao mundo. Uma nova geração de fadistas apresentam hoje o fado com novas roupagens, sem lhe tirar a sua genuinidade. É o que acontece com este desfado, cantado por Ana Moura, com letra e música de Pedro Martins:

 

 

 

Quer o destino que eu não creia no destino
E o meu fado é nem ter fado nenhum
Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido
Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum

Ai que tristeza, esta minha alegria
Ai que alegria, esta tão grande tristeza
Esperar que um dia eu não espere mais um dia 
Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente

Ai que saudade

Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém

Que aqui está e não existe
Sentir-me triste

Só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem

Só por eu andar tão triste

Ai se eu pudesse não cantar "ai se eu pudesse"
E lamentasse não ter mais nenhum lamento
Talvez ouvisse no silêncio que fizesse
Uma voz que fosse minha cantar alguém cá dentro

Ai que desgraça esta sorte que me assiste

Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada

Na incerteza que nada mais certo existe

Além da grande incerteza de não estar certa de nada

 

Letra e música de Pedro da SilvaMartins

Repertório de Ana Moura

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publicado às 22:31

Nascida para cantar

por Naçao Valente, em 31.07.13

imagem youtube

 

Cada um é para o que nasce, diz um velho aforismo popular. A ser assim, Gisela João, uma cantora, especialmente engajada como fado, nasceu para cantar. Para sustentar esta afirmação não são necessários grandes argumentos. Basta ouví-la. Uma voz que musicalmente não sei caracterizar, mas que tem qualquer coisa de encantatório. Mas mais do que isso, Gisela impôe-se pela entrega, pela forma como sente o que canta e pela naturalidade com que o transmite. Mesmo que se "monte de fadista" usando a sua definição Gisela respira" cante". O tempo o confirmará.

 

Numa entrevista dada ao programa de rádio Hotel Babilónia, mostrou , que para lá da sua faceta fadista existe uma pessoa. Demonstrou-o numa postura de simplicidade, assumindo como anti-vedeta, como uma cidadã comum, uma minhota de Barcelos que veio até à cidade grande para lutar pelo seu sonho:cantar. Mas do seu discurso aberto, despretensioso e lúcido depreende-se que mantém a genuinidade das suas origens. Como todos nós tem bons e maus momentos e não se importa de assumir que quando for caso disso vai "malhar uns finos", ou bordar e dedicar-se ao artesanato como terapia. Em conclusão Gisela João canta e encanta. Vejam e ouçam....

 

MG

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publicado às 22:42

Coração olha o que queres

por Naçao Valente, em 31.05.13

 Francisco Rodrigues Lobo, poeta e escritor do século XVI, escreveu. Marco Rodrigues fadista do século XXI, cantou. Eis o resultado:

 

 

 

Tão tirana e desigual
Sustentam sempre a vontade,
Que a quem lhes quer de verdade
Confessam que querem mal;
Se amor para elas não vale,
Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

Se alguma tem afeição
Há-de ser a quem lhe nega,
Porque nenhuma se entrega
Fora desta condição;
Não lhe queiras, coração,
E senão, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

 

Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...


São tais, que é melhor partido
Para obrigá-las e tê-las,
Ir sempre fugindo delas,
Que andar por elas perdido;
E pois o tens conhecido,
Coração, que mais lhe queres?
Que, em fim, todas as mulheres!

Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...



De Francisco Rodrigues Lobo

 

 

 

 

 

 

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publicado às 19:47

Ó tempo volta pra trás

por Naçao Valente, em 05.04.13

O Relvas foi-se embora

E a vida pra mim mudou

O que vou fazer agora

Sem um clown para o show

 

As horas são mais sombrias

Os dias parecem anos

Foram-se as alegrias

De enganos e desenganos

Ficam as análises frias

Dos verdadeiros ciganos

 

Ó tempo volta pra trás

Ameniza a minha pena

Pois quero voltar a ouvir

Relvas Grândola morena

Á sombra de uma azinheira

Já só resta a saudade

De ouvir a versão foleira

Na voz da minha cidade

Ó tempo volta pra trás

Com toda a sabedoria

Eu prefiro ter o Relvas

Ao Cavaco e à Maria

 

Por que será que o Coelho

E o Gaspar não vão embora

E levam consigo o Portas

E a troika daqui pra fora

Porque para mim o Relvas

Porque para mim o Relvas

É o bobo inofensivo

Diverte a população

Contribui pro nosso riso

E eu ainda estou à espera

Que emendem o prejuízo

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publicado às 19:11

What Happened to António Mourão?

por Naçao Valente, em 31.01.12

Ó tempo volta para trás

 

O Sócrates foi-se embora

Á vida para mim mudou

Esta cá  a troika agora

E quase tudo me tirou

 

As horas são como dias

As horas são como dias

Os dias são como anos

Já só resta a saudade

Já só resta a saudade

Depois de tantos enganos

 

Refrão

Ó tempo volta para trás

Traz de volta o que perdi

Tem pena e leva contigo

A Merkle e o Sarkozi

Como levaste o Mourão

Ó tempo volta para trás

Ao tempo da vida sã

E traz o Sócrates de volta

No nevoeiro da manhã

E traz o Sócrates de volta

 

 

No nevoeiro da manhã

 

Porque será que o Coelho

E a troika são tão iguais

Porque será que a troika

Quando vem não se vai mais

Mas para mim o Sócrates

Mas para mim o Sócrates

É o eco do PEC quatro

E ainda estou à espera

E ainda estou à espera

Que ele volte pois estou farto.

 

Mg

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publicado às 19:59

Parabéns

por Naçao Valente, em 27.11.11

O fado é uma invenção nacional e o que é nacional é bom. Pondo de parte a polémica das suas origens, o fado só podia ser português porque traduz a idiossincrasia da alma lusa. Nascido em Lisboa, depressa se tornou canção nacional, cantado nos campos e nas cidades. Independentemente dos temas, não o considero uma canção triste. Pelo contrário, vejo-o como uma forma do povo exprimir os mais variados sentimentos isto é como uma forma de exprimir a vida. Alguém imagina um bretão, um franco, um nórdico, um italiano ou até um espanhol a cantar o fado?Qual é o português que não terá trauteado as melodias simples de um ou outro fado com imenso prazer e naturalidade?  

 

Nasceu nos meios populares, aristocratizou-se, democratizou-se e intelectualizou-se, mas continua a manter a sua matriz intimista do quotidiano.Agora que é Património da Humanidade, com todo o mérito pela sua especificidade, merece rasgados PARABÉNS. Em jeito de homenagem aqui deixo uma gravação de tempos idos(podiam ser outras) com as vozes de Manuel de Almeida e de Fernanda Maria.

  

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publicado às 18:44

O xaile

por Naçao Valente, em 23.07.11

Fado: destino, fatalidade, Providência

 

 

 O xaile de minha mãe

Que me aqueceu com carinho

mais tarde serviu também

pra agasalhar meu filhinho.

 

 

 

 

O xaile é uma peça de vestuário que caíu em desuso. Na prática continua associado ao fado, versão feminina.  Em il tempori, o xaile era para as mulheres dos meios rurais  como os chapéus para os homens, ou seja, andar sem essas peças de vestuário era como estar despido. A mulher camponesa, usava-o como agasalho ou peça decorativa. Havia-os de vários tecidos, desvairadas cores e imaginativos adornos. Havia-os para mulheres casadas, jovens solteiras, damas de meia idade. Variavam com os acontecimentos: trabalho, festas, cerimónias religiosas, casamentos.

 

O Xaile continua a ser bilhete de identidade de cantadeiras. A vida de Amália que hoje completa mais um aniversário é alfa e ómega do fado e da sua internacionalização. Mas Amália é voz, imagem e imaginário, uma miscelânea que inclui a música, a composição, a representação e onde o xaile representa um papel simbólico. Simbolismo da alma lusa que o fado materializa e expressa nesse sentimento de perda, distância e amor que é a saudade. E se o xaile peça de vestuário quotidiano morreu com a ruralidade tradicional o xaile-fado também morreu um pouco com Amália.

 

MG

 

Carregado por cesarpedro em 9 de Jan de 2007

  

 

 

 

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publicado às 22:48

Silêncio e solidão e fado

por Naçao Valente, em 09.12.10

 Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles

 

 

 

A poesia reflecte a vida. A poesia é a vida na sua dimensão plena, a do sentir. A arte poética, não se aprende. Ou se é ou não se é . Por isso todos aqueles que são premiados com esse dom me merecem um carinho especial. Aqui o demonstro, com a homenagem a uma poetisa da língua portuguesa de seu nome Cecília Meireles.

 

MG

 

"Cecília Meireles nasceu em 1901, no Rio de Janeiro e faleceu no dia 9 de Dezembro em 1964, também no Rio de Janeiro. Foi poeta, professora, jornalista e cronista.
No período de 1919 a 1927, colaborou nas revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa. Fundou a primeira biblioteca infantil do Brasil.
Lecionou na Univerdade do Distrito Federal em 1936 e na Universidade do Texas em 1940. Trabalhou no Departamento de Imprensa e Propaganda no governo de Getúlio Vargas, dirigindo a revista Travel in Brazil (1936).
É considerada por muitos como uma das maiores poetisas da Língua Portuguesa.Em 1993 foi atribuído o Prémio Camões a Cecília Meireles

.

Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde, foi nessa área que os livros se abriram e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano."
Cecília Meireles

 

Recado aos Amigos Distantes

 

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

Cecília Meireles, in 'Poemas (1951

 

 

Amália canta Cecília Meireles - naufrágio

 

 

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publicado às 18:42




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