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A formiga no carreiro ia em sentido contrário

por Naçao Valente, em 30.08.16

 

O direito ao gozo de férias é uma conquista recente. Vem na sequências das lutas laborais e da ascensão ao poder de partidos de índole socialista. São um direito universal expresso na Declaração dos Direitos do Homem. Em Portugal, generalizam-se após o 25 de Abril de 1974. O conceito de férias inicialmente associado ao direito ao lazer, acabou por dar azo a uma revolução na economia mundial, com a criação da indústria do turismo. Ironia das ironias é a classe empresarial, são os donos de dinheiro, que acabam por beneficiar deste direito popular, descobrindo uma nova forma de multiplicar o seu capital.

 

Durante longos meses de trabalho, os cidadãos sonham com a chegada desses dias de paragem na actividade profissional. Paralelamente ao gozo de férias surgiu a moda dos banhos de mar. As longas praias da costa portuguesa, adormecidas durante séculos pelo embalo das ondas marítimas, foram acordadas por gente ruidosa e sequiosa de sol e mar no período estival. Quando chega o Verão o país entorna-se para o litoral, especialmente para o Sul na procura de calor e águas mais tépidas. A maioria dos que podem dar-se a esse pequeno luxo partem de armas e bagagens para as praias mais procuradas. Aterram na confusão das urbes marítimas, disputam milímetro a milímetro um lugar no areal. Embebedam-se de sal, torram-se de raios uv. Mais escaldão menos escaldão, sentem-se felizes e durante breves momentos alheiam-se das agruras da puta da vida.

 

Ao contrário da maioria dos que podem fazer férias fora de casa, não rumo, nesta época ao Sul. Como a formiga no carreiro vou em sentido contrário. Longe do burburinho cosmopolita da área marítima rumo a Norte. Perco-me nas paisagens verdes das beiras e do Minho. Calcorreio as ruas de pequenas vilas, com alguns visitantes, mas onde se sente o genuíno pulsar dos autótones. Procuro saborear as gastronomias locais, com moderação, que a vida não está para luxos. Integro-me nas suas festas seculares e sinto-me no Portugal tradicional, embora modificado pela modernidade. Feirense em Santa Maria da Feira onde a sua viagem medieval é já uma instituição nacional, tripeiro na Invicta, ponte-limense em Ponte de Lima com a sua ponte romana e a sua arquitectura de belos solares, cerveirense em Vila Nova de Cerveira com a sua bienal. E muitas outras poderia referenciar. Descobrir este Portugal, mesmo se já descoberto, tem sempre um encanto renovado. E sem pôr em causa as virtualidades do litoral marítimo, acentuo, que mesmo para férias, existe outro país.

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publicado às 23:16

Jean Pierre, tu va tomber

por Naçao Valente, em 30.08.14

Nas últimas décadas do século XX, no verão, as nossas estradas, de má qualidade, animavam-se com a invasão de carros de grande cilindrada e matrícula estrangeira. Eram os emigrantes portugueses vindos da Europa desenvolvida e que vinham de "vacances" à terra mais madrasta que mãe. Para além do carro, portador de estatuto social, usavam a língua do país de acolhimento para o mesmo efeito. Ainda hoje se utiliza, com carácter anedótico, a expressão:

- Jean Pierre, faire attention, tu va tomber!

...porra o moço já partiu os cornos!

 

A entrada na comunidade europeia trouxe fundos e mais fundos. Uns perdidos, outros aplicados, com alguma utilidade. Está neste caso a melhoria de infra-estruturas, nomeadamente as estradas. A prosperidade pouco consistente, trazida pelos dinheiros europeus, permitiu que Portugal, no início do século XXI, passasse de país de emigração a país de imigração. Fomos inundados por emigrantes de leste e do Brasil. Os carros dos emigrantes tugas foram diminuindo nas modernas auto estradas.

 

Durante este verão, nos meus percursos por esse Portugal, de norte a sul, pareceu-me ter regressado ao passado.Os automóveis de matrícula estrangeira voltaram em força. Com uma pequena diferença: a cilindrada não me parece tão elevada. Sinal dos tempos. Contudo, o que merece ser assinalado é que bastaram três anos para recuarmos ao tempo de um país de emigração, como uma sina traçada na palma da mão. E esse é um destino, que nos é proporcionado por uma elite de gente medíocre, a quem temos entregado, de mão beijada, a direcção desta nação secular. Mas se já saímos doutras situações obscuras, também, sairemos desta. E apenas ouviremos dizer às nossas crianças:

 Tem orgulho, João Pedro, nasceste na mais antiga nação da Europa.

 

MG

 

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publicado às 22:45

Viajar no tempo

por Naçao Valente, em 19.08.14

 

Viajar, é,  nos tempos que correm, não apenas uma necessidade, mas um acto lúdico. As viagens tornaram-se uma indústria, com peso significativo na economia da sociedade de consumo. O desenvolvimento do sector de transportes permite que se façam deslocações rápidas e fáceis entre países e continentes. Contudo, as grandes viagens são ainda um privilégio das bolsas mais recheadas. A maioria das populações viaja apenas virtualmente através dos media. A democratização política não passa de uma utopia no que diz respeito à distribuição da riqueza.

 

Há, no entanto, coisas que o dinheiro não pode comprar. Uma delas é o anseio, milenar, de viajar no tempo. As ditas máquinas que o permitem  fazem parte do mundo da ficção. No rompimento das barreiras temporais, a recriação de certos aspectos do passado, é o que mais se aproxima da realidade. De há anos a esta parte começaram a surgir as chamadas feiras medievais. Hoje proliferam por diversas localidades do nosso país. O facto é que são um acontecimento que tem forte adesão popular. Viajar ao passado tornou-se um hábito simbólico que casa ancestralidade com modernidade.

 

Santa Maria da Feira foi pioneira na realização destes eventos. Pela persistência e pela experiência é, hoje, a maior recriação da Idade Média, que se faz em Portugal. Este ano encantou durante dez dias cerca de meio milhão de visitantes. Quem ruma a terras de Santa Maria, sabe que pode contar com um espectáculo de qualidade, pautado pelo rigor histórico. E a participação do visitante está cada vez mais inserido no próprio espectáculo. No evento de 2014 dissecou-se o reinado conturbado de D. Sancho II. Uma lição de história viva, feita com profissionalismo. Uma viagem da qual saímos a pensar naquela que virá a seguir.

 

MG 

 

 

 

 

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publicado às 21:04

A formiga no carreiro ia em sentido contrário

por Naçao Valente, em 13.08.13

O direito ao gozo de férias é uma conquista recente. Vem na sequências das lutas laborais e da ascensão ao poder de partidos de índole socialista. São um direito universal expresso na Declaração dos Direitos do Homem. Em Portugal, generalizam-se após o 25 de Abril de 1974. O conceito de férias  inicialmente associado ao direito ao lazer, acabou por dar azo a uma revolução na economia mundial, com a criação da indústria do turismo. Ironia das ironias é a classe empresarial, são os donos de dinheiro, que acabam por beneficiar deste direito popular, descobrindo uma nova forma de multiplicar o seu capital.

 

Durante longos meses de trabalho, os cidadãos sonham com a chegada desses dias de paragem na actividade profissional.  Paralelamente ao gozo de férias surgiu a moda dos banhos de mar. As longas praias da costa portuguesa, adormecidas durante séculos pelo embalo das ondas marítimas, foram acordadas por gente ruidosa e sequiosa de sol e mar no período estival. Quando chega o Verão o país entorna-se para o litoral, especialmente para o Sul na procura de calor e águas mais tépidas. A maioria dos que podem dar-se a esse pequeno luxo partem de armas e bagagens para as praias mais procuradas. Aterram na confusão das urbes marítimas, disputam milímetro a milímetro um lugar no areal. Embebedam-se de sal, torram-se de raios uv. Mais escaldão menos escaldão, sentem-se felizes e durante breves momentos alheiam-se das agruras da puta da vida.

 

Ao contrário da maioria dos que podem fazer férias fora de casa, não rumo, nesta época  ao Sul. Como a formiga no carreiro vou em sentido contrário. Longe do burburinho cosmopolita da área marítima rumo a Norte. Perco-me nas paisagens verdes das beiras e do Minho. Calcorreio as ruas de pequenas vilas, com alguns visitantes, mas onde se sente o genuíno pulsar dos autótones. Procuro saborear as gastronomias locais, com moderação, que a vida não está para luxos. Integro-me nas suas festas seculares e sinto-me no Portugal tradicional, embora modificado pela modernidade. Feirense em Santa Maria da Feira onde a sua viagem medieval é já uma instituição nacional, tripeiro na Invicta, ponte-limense em Ponte de Lima com a sua ponte romana e a sua arquitectura de belos solares, cerveirense em Vila Nova de Cerveira com a sua bienal. E muitas outras poderia referenciar. Descobrir este Portugal, mesmo se já descoberto, tem sempre um encanto renovado. E sem pôr em causa as virtualidades do litoral marítimo, acentuo, que mesmo para férias, existe outro país.

 

MG


   

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publicado às 21:19

Setembro

por Naçao Valente, em 07.09.10

Setembro é um mês difícil. Significa o fim das férias e o stress do regresso ao trabalho. Significa o fim do verão com os seus longos e luminosos dias. Significa o regresso às aulas com o habitual cortejo de disparates governamentais. Significa o regresso da política e dos políticos com as suas guerras de alecrim e manjerona, sempre em defesa do povo. Significa o fim dos namoricos fugazes e despreocupados.

 No tempo em me iludia e desiludia com os amores transitórios, no tempo dos gloriosos dias das rádio, esta canção interpretada pelo saudoso Duo Ouro Negro fazia-nos acreditar que outro verão havia de chegar com as mesmos sonhos e que a vida com seus altos e baixos é um eterno retorno.

MG

 

 

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publicado às 14:49




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