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Jean Pierre, tu va tomber

por Naçao Valente, em 30.08.14

Nas últimas décadas do século XX, no verão, as nossas estradas, de má qualidade, animavam-se com a invasão de carros de grande cilindrada e matrícula estrangeira. Eram os emigrantes portugueses vindos da Europa desenvolvida e que vinham de "vacances" à terra mais madrasta que mãe. Para além do carro, portador de estatuto social, usavam a língua do país de acolhimento para o mesmo efeito. Ainda hoje se utiliza, com carácter anedótico, a expressão:

- Jean Pierre, faire attention, tu va tomber!

...porra o moço já partiu os cornos!

 

A entrada na comunidade europeia trouxe fundos e mais fundos. Uns perdidos, outros aplicados, com alguma utilidade. Está neste caso a melhoria de infra-estruturas, nomeadamente as estradas. A prosperidade pouco consistente, trazida pelos dinheiros europeus, permitiu que Portugal, no início do século XXI, passasse de país de emigração a país de imigração. Fomos inundados por emigrantes de leste e do Brasil. Os carros dos emigrantes tugas foram diminuindo nas modernas auto estradas.

 

Durante este verão, nos meus percursos por esse Portugal, de norte a sul, pareceu-me ter regressado ao passado.Os automóveis de matrícula estrangeira voltaram em força. Com uma pequena diferença: a cilindrada não me parece tão elevada. Sinal dos tempos. Contudo, o que merece ser assinalado é que bastaram três anos para recuarmos ao tempo de um país de emigração, como uma sina traçada na palma da mão. E esse é um destino, que nos é proporcionado por uma elite de gente medíocre, a quem temos entregado, de mão beijada, a direcção desta nação secular. Mas se já saímos doutras situações obscuras, também, sairemos desta. E apenas ouviremos dizer às nossas crianças:

 Tem orgulho, João Pedro, nasceste na mais antiga nação da Europa.

 

MG

 

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publicado às 22:45

Caça aos Tordos

por Naçao Valente, em 21.02.14

Fernando Tordo é um músico com idade sénior. Ganhou a vida como cantor, uma profissão tão digna e tão honesta como qualquer outra. Com sessenta e cinco anos e escassa reforma teve de emigrar, como outros milhares de portugueses. O seu filho, João Tordo vive da escrita, um trabalho que merece todo o respeito e consideração.

A propósito de um texto escrito por João Tordo sobre a situação do seu pai gerou-se, nas redes sociais, uma parafenália de prosas bárbaras. Pelo conteúdo e pelo tom podem considerar-se caça aos Tordos. Apenas aos tordos, porque coelhos e outros bichos rastejantes continuam isentos. Estes caçadores, de mira afinada, não puxam uma única vez pelo gatilho contra quem rouba a dignidade dos outros. Estes atiradores são a imagem de um país que venera as coutadas e despreza os seus iguais. Uma apagada e vil tristeza. Mais vil que apagada.

 

MG 

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publicado às 22:27

Português suave e triste

por Naçao Valente, em 11.06.13

Português suave e triste

Da puta que te pariste

És filho de uma monção.

Enquanto lavas no rio

Roupa  de fome e de frio

Inventas uma nação.

Com as tábuas do teu caixão

 

Português suave e triste

Do povo de onde saíste

Fizeste a revolução

Com a tua própria mão.

Com teu sangue abençoado

Regaste o teu chão sagrado

Mas a tua vida não

 

Português suave e triste

Com saudade partiste

Nas asas de uma oração,

Com pimenta te vestiste

E como foste viestes

Água pura. Fruta agreste

É a tua condição

 

Português suave e triste

Tão alto que tu subiste

Nas ondas do mar imenso.

Subiste  alturas de incenso

E do Olimpo caíste

Nos bidonvilles de lama

Povo, povo, quem te ama?

 

Português suave e triste

Voltaste mas já partiste

Com a mala de cartão

Aqui recusam-te o pão,

A vida, a dignidade,

Permitem-te a saudade

Mas a tua vida não.

 

MG

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publicado às 18:53

Utopia e realidade

por Naçao Valente, em 18.02.11

O que aconteceu de concreto na chamada revolução jasmim?A queda do presidente ditador, a promessa de eleições daqui a alguns meses e a tentativa de milhares de tunisinos de entrar em Itália para usufruir do eldorado europeu.

 

Uma coisa é a justa crença em utopias e a outra é a crua realidade. A prosperidade ocidental levou séculos a construir, com muitos avanços e recuos. A prosperidade não se decreta, constrói-se. A  construção da sociedade de bem estar não se faz com um ou outro protagonista, mas com mudança de estruturas. Concentrar toda a raiva numa personalidade, esquecendo que o erro está no sistema é pura ilusão. É por estas e por outras que não embandeiro em arco, como muitos comentadores de barriga cheia, que vêem nestes movimentos do mundo árabe, os amanhãs que cantam.

 

A mudança nos países passa por alterações profundas não apenas na política, mas também na economia e nas mentalidades. É um processo que exige paciência, inteligência e tempo, sem esquecer as conjunturas externas num mundo cada vez mais globalizado. 

 

Zé Cavaco

 

 

 

 

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publicado às 21:51

Emigrações

por Naçao Valente, em 13.11.10

A emigração  está desde sempre na génese do povo português. Todos, ou quase todos os portugueses tiveram ou têm familiares emigrados. Na Galiza, um prolongamento natural de Portugal, a poetisa Rosalia de Castro escreveu este cantar emigrante. Em Portugal, um prolongamento da Galiza o músico José Niza e duas fabulosas vozes, Isabel Silvestre e Adriano Correia de Oliveira, deram expressão cantada a este belo poema. Divino.

 

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publicado às 21:11

Diáspora

por Naçao Valente, em 27.05.10

Um Fulano, não identificado, escreveu num comentário ao meu post Portugal tem futuro: Então não? porteiras e pedreiros em Bucareste desta vez . Como não tive acesso ao Link para responder vou aproveitar a afirmação para fazer algumas reflexões sobre a tradicional diáspora portuguesa que se bem percebi é o significado implicito do comentário,

Antes de mais quero dizer sem qualquer complexo que pedreiro ou porteira são profissões tão dignas como quaisquer outras, quer sejam exercidas em Bucareste , Ankara, Pequim, ou Freixo-de Espada à Cinta.E há bons e maus pedreiros portugueses por esse mundo fora pois faz parte da genética portuguesa a procura de novos horizontes. Se olharmos para a nossa história pudemos concluir que até a fundação de Portugal está ligado a um processo emigratório.  Ou não será o primeiro rei Português descendente dum emigrante borgonhês? A massa que moldou o português moldou-se no caldeamento de povos e culturas que se encontraram e miscigenaram em processos migratórios.

 

A emigração portuguesa é, portanto, quase tão antiga como a nação portuguesa. Atinge a sua máxima dimensão durante o processo conhecido como Descobrimentos.  No século XVI já havia portugueses em todos os continentes, governando a vida e criando descendência. Não é por acaso que a língua portuguesa é uma das mais faladas no mundo. Não é por acaso que fortes comunidades portuguesas, estejam implantadas em diversos países. Não é por acaso que muitos descendentes lusos ocupem hoje importantes cargos nas nações onde decidiram viver: há políticos, cientistas, professores, militares, industriais, comerciantes, pedreiros ...e seja qual for a função que desempenhem contribuem com o seu trabalho para a riqueza e desenvolvimento desses países. Assim, estou à vontade para afirmar que Portugal é uma nação que tem futuro, até por que as suas fronteiras não têm limites, melhor tem os limites da própria imaginação.

MG

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publicado às 23:40




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