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25 de Abril: entre a soneca e a sonolência

por Naçao Valente, em 27.04.15

Passou mais um dia 25 de Abril. Alguém chamou à sessão solene na AR, a sessão soneca. Estas comemorações no hemiciclo merece bem o epíteto. Discursos de circunstância, sonolentos, vazios de conteúdo. Um frete que todos os presentes esperam que acabe depressa. Mas as manifestações comemorativas tocam pelo mesmo diapasão. Transformaram-se num ritual, onde os ritos se repetem, mecanicamente, de ano para ano. E apenas um grupo de fiéis se empolga com a cerimónia, igual a tantas outras a que os mesmos sempre comparecem quando convocados pelo seu clero. É a opção entre a soneca e a sonolência.

O 25 de Abril foi na sua essência um movimento libertador. Derrubou um regime que estava moribundo e se arrastava numa agonia à espera de misericórdia. Devolveu à nação o direito de escolher os caminhos do seu destino colectivo. Consolidou o processo democrático com os seus defeitos e virtudes. Agora, os portugueses, podem decidir a vários níveis quais são os seus governantes. É certo que nem sempre decidem bem. É certo que os oportunismos se aproveitam da ingenuidade dos eleitores. Mas na contabilidade do deve e do haver, o saldo a favor dos valores de Abril, é muito positivo.

Sem falsa modéstia, também me considero um cidadão de Abril. Tive a grande honra de ter visto cair o regime no largo do Carmo. E como outros, ter dado com a minha presença, uma pequena contribuição, para o êxito desse evento. Contudo, o 25 de Abril não foi apenas um momento, mas um processo atribulado até ao 25 de Novembro. E continua a ser um processo contínuo de actualização numa realidade dinâmica. E isso é o mais importante. As comemorações, com mais ou menos cravos, são o que são, cerimónias do foro do simbólico. E assim sendo, cada vez mais sonolentas.

MG  

 

  

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publicado às 17:33

Cravos e cravas

por Naçao Valente, em 28.04.13

Em  anos de servidão, opressão

agruras mil,

revoltou-se uma nação.

Era Abril

Nas armas nasceram cravos,

 esperanças mil,

cravos vermelhos ousaram

a liberdade,

Descamisados sonharam

a igualdade.

Já não têm cor os cravos,

desilusão!

Agora é tempo de cravas,

sem coração.

Porque se deixa oprimir

Uma nação?

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publicado às 22:05

Otelo, Isaltino e 25 de Abril

por Naçao Valente, em 24.04.13

 webs.ie uminho pt

Duas notícias que não estão relacionadas (ou estarão?) deixaram-me com a pulga atrás da orelha. Numa anuncia-se a prisão de Isaltino Morais para cumprir uma pena de dois anos que já tem barbas. Custa a acreditar e espero para ver. Na outra fala-se do desaparecimento do Otelo. Otelo, apontado como estratega do movimento do MFA que fez o golpe de 25 de Abril, já foi prisioneiro, com pena cumprida a preceito. Algo estranho se está a passar, foi a primeira reacção. Espero que para melhor, pois para pior já basta assim.

 

Aí senti-me percorrido por uma ténue esperança. É que o mistério Otelo podia estar ligado a um novo golpe, uma espécie de renascimento das cinzas do 25 de Abril. Uma remake século XXI. Quem sabe, pensei, se o homem não foi preparar um novo movimento para acabar com o estado a que isto chegou. E como a imaginação não tem limites, voltei a ver-me de novo no largo do Carmo à espera da rendição do actual governo. E senti até o cheiro a liberdade deixado pelo rasto dos tanques militares pilotados por soldados imberbes. E vi-os rodeados de jovens irreverentes colocando-lhes cravos na lapela. Quanto ao PR  consta que se refugiou em parte incerta. Como bibelot decorativo tanto faz. Quero é navegar nas asas de um novo sonho.

 

Apenas um sonho. Depressa bati de chofre na realidade. Diz-se que os advogados de Isaltino inventaram mais não sei quantos recursos e que a sua prisão não passa de mais um fait-divers, de uma nuvem passageira. Quanto a Otelo a desilusão ainda foi maior. Afinal a notícia não se referia ao verdadeiro Otelo, mas um macaco que usa o seu nome. E quem sabe se a prisão de Isaltino não foi fruto de um engano, pensando que se prendia o macaco fujão. Um macaco? Que pena!

 

MG

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publicado às 21:32

Nascem flores nas espingardas

por Naçao Valente, em 22.04.12

 

 

 

-Acorda Zé, começou a guerra…

 

As palavras modeladas pelo timbre arrastado do Alentejo, ricochetearam como balas perdidas no silêncio da manhã adormecida.

 

Acorda Zé, estão a dizer na rádio para as pessoas ficarem em casa e  estão a pedir aos médicos para se dirigirem aos hospitais…

 

Não havia dúvida, aquela voz única era a do João Cabeça Rato, português de Cuba, que comigo e outros hóspedes ocupava a casa de hospedagem de D. Regina. Levantei-me ainda embrulhado numa manta de sono. Dirigi-me à cozinha onde o João roía uma carcaça, com  o ar rude  de um camponês na cidade. Eram 7H30M do dia 25 de Abril de 1974. Num rádio de transístores uma voz firme anunciava:

 

-Aqui posto de comando das Forças Armadas…Conforme tem sido difundido, as Forças Armadas desencadearam na madrugada de hoje uma série de acções com vista à libertação do País do regime que há longo tempo o domina.
Nos seus comunicados as Forças Armadas têm apelado para a não intervenção das forças policiais com o objectivo de se evitar derramamento de sangue. Embora este desejo se mantenha firme, não se hesitará em responder, decidida e implacavelmente, a qualquer oposição que venha a manifestar-se.
Consciente de que interpreta os verdadeiros sentimentos da Nação, o Movimento das Forças Armadas prosseguirá na sua acção libertadora e pede à população que se mantenha calma e que se recolha às suas residências. Viva Portugal”(1)

 

Enquanto bebia à pressa uma chávena de café de cevada e continuava a ouvir os receios do João e os comentários de ocasião de outros companheiros, comecei a aperceber-me que a ditadura fascista tinha os dias contados.

 

-Eu sou bem comportado e respeito as ordens que estão a dar pela rádio. Fico aqui com os més pés quentinhos, até ver o quisto dáá, dizia o Cabeça  Rato

 

-Pois eu vou cumprir as minhas tarefas profissionais, disse eu sem conseguir disfarçar uma tremura na voz. Estava à espera disto há muito tempo. E se for preciso quero ajudar.

 

A camioneta ronceira atravessava a ponte Salazar, aproximava-se da outra margem. Do alto do Cristo-Rei espreitavam canos de canhões, enquanto uma coluna militar  vinda do sul, se aproximava das portagens . Um militar saiu de um jipe e afastou umas barreiras, perante o olhar pasmado dos portageiros.

 

Em Almada as conversas giravam à volta dos acontecimentos que eram relatados nas rádios. Uma senhora de nacionalidade espanhola dizia-me um pouco incrédula: "habemos democrácia". Não consegui manter-me afastado dos acontecimentos. Queria vivê-los por dentro e regressei à capital. Depois de uma refeição frugal tomei conhecimento da evolução da situação militar:

 

“ Na sequência das acções desencadeadas na madrugada de hoje, com o objectivo de derrubar o regime que há longo tempo oprime o País, as Forças Armadas informam que de Norte a Sul dominam a situação e que em breve chegará a hora da libertação.
Recomenda-se de novo à população que se mantenha calma e nas suas residências para evitar incidentes desagradáveis cuja responsabilidade caberá integralmente às poucas forças que se opõem ao Movimento.”(1)

 

Deambulei pela cidade quase deserta à procura da revolução e dei por mim a descer a rua da Misericórdia e a aproximar-me do largo Camões. Soldados estacionados atrás de trempes de metralhadoras estavam colocadas nos passeios e em esquinas de ruas que circundavam  o largo do Carmo. Pessoas circulavam por aquelas artérias livremente sem qualquer impedimento e entabulavam conversa com os soldados, algo descontraídos e confiantes. Cheguei ao largo do Carmo ocupado por uma multidão exultante. Pendurados nas árvores, empoleirados nas cabines telefónicas, cidadãos procuravam o melhor lugar e quase submergiam as posições dos militares. Um homem de fato e gravata, cabelos brancos, mas lesto como um gato, saltou para cima da guarita do quartel e com um megafone falava à multidão. (2)

 

Tanques subiam a rua do Carmo e colocavam-se estrategicamente. O capitão Salgueiro Maia deu ordem para disparar. Uma saraivada de balas esburacou as paredes do quartel e partiu algumas vidraças. Um bando de pássaros esvoaçou assustado. O povo exultou e aplaudiu.

Ao fim da tarde, um carro preto com o general Spínola atravessou coberto de aplausos a multidão contida por um cordão de militares. Pouco depois saiu do Carmo um tanque, seguido pelo carro do general, desceu a inclinada rua com o que sobrava do regime.

 

A multidão correu atrás das viaturas que se afastaram rapidamente. Nas ruas da Baixa grupos de populares comemoravam a queda do fascismo oferecendo comida aos seus heróis. Vinda de nenhures uma mulher aproximou-se com um ramo de cravos que começou a entregar aos militares. Em vez de balas nasceram flores nos  canos das espingardas. A alegria escorria pelas ruas da cidade. Nos campos de Portugal as flores ganham mais cor.

Regressei a casa onde o João Rato continuava à espera que a guerra terminasse. Para mim apenas tinha começado.

 

MG

1-Centro de Documentação 25 de Abril

2-Alusão a Francisco Sousa Tavares

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publicado às 23:04




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