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Os homens também choram

por Naçao Valente, em 23.03.18

Por um acaso, por uma daquelas reminiscências inexplicáveis, que de quando em vez no batem à porta, vi-me transportado para os tempos longínquos da juventude, quando tive de ser militar à força. Por acaso ou obra do destino, fui parar a regimento de Artilharia de Costa, único que não dava mobilização para a guerra colonial, e no âmbito desta unidade a um pequeno aquartelamento de defesa da costa atlântica, no alto da Trafaria. Ali estava um destacamento de cerca de duas dezenas de homens, a tomar conta de uns canhões a precisar de reforma e que se fosse o caso não defendiam porra nenhuma.
Também por vontade do destino, fui encarregue do comando daqueles militares, por delegação do Primeiro-sargento Martins, conhecido como Penamacor, responsável no terreno, mas  que andava metido em guerra de alcova com a mulher do seu melhor amigo, e cujo campo de batalha era o vale de lençóis. Todos o sabiam com excepção do dito cujo, dando razão ao ditado “o corno é o último a saber”.
Ali estive cerca de dois anos a lidar com mancebos de várias regiões do país, numa autêntica idiossincrasia nacional. Ali estava o Rajão, um pescador da Póvoa de Varzim, alto louro e um pouco boçal, que me fazia lembrar um viquingue de tempos idos.  Armado em cozinheiro improvisado, tinha a tarefa de alimentar a preceito os bravos artilheiros. Fazia um curioso par com Zé Sapateiro, português de Braga, que tinha uma paixão assolapada por uma cachopa do Minho, alimentada através de uma intensa actividade epistolar. Por portas e travessas alguém conseguia ter acesso ao conteúdo dessas cartas, que eram lidas em público para gaudio da rapaziada do quartel. É que naquela linguagem vernácula, palavra sim palavra não, estas cresciam tanto que ganhavam o estatuto de palavrão. E metiam a um canto as cartas de Soror Mariana.
Da teoria à prática o "Passatempo", vindo do Algarve profundo, saia do quartel pela calada da noite, e como lobo esfaimado, descia ao povoado mais próximo, Costa da Caparica,  onde por bares e cafés dava, para usar a sua expressão, “caça aos picolhos”, que traduzido queria dizer, homens com tendências sexuais fora da norma, da moral e dos bons costumes. E de lá trazia uns trocos nos bolsos, para alimentar o vício do tabaco. Que podia fazer com o fraco pré que recebia do exército?
Já o "Avozinho", cidadão que andara a fugir ao serviço durante anos e anos, trazia para aquele universo militar uma nota dramática. Caçado pelo exército quando tinha trinta e sete anos, casado e com filhos para sustentar, era uma montra de lamúrias. E quando menos se esperava caia num choro convulsivo( um homem também chora)  que até  entristecia as pedras da calçada. Um dia lá o libertaram do degredo e voltou para junto da família perdida.  Um alivio para ele e para nós. Em contraponto o Barreto, moço de forcados, ribatejano, conseguia estar sempre ausente “dispensado” pelo exército a um grande agrário e quando aparecia punha os cabelos em pé a todos os camaradas.
Mas quem não me sai da lembrança é o Marques de Valongo, e de alcunha o Nariz, devido ao enorme apêndice nasal com que a natureza lhe adornou o rosto. Merecia-me alguma simpatia, pois quando chegava a meia noite avisava-me, que na rádio da sala de convívio, estavam a dizer mal do governo de uma rádio de Argel. Desbaratou todo esse crédito, quando na sua tarefa nocturna de sentinela, a altas horas, abandonou o seu posto, tirou as botas e deitou-se com o fuzil na sua caminha, precisamente na noite em que o Primeiro-sargento, bem comido e melhor bebido, invadiu o quartel aos tiros e por ali entrou sem que ninguém lhe tolhesse o passo.
E meus amigos, só eu sei o que passei para convencer o “primeiro” a não fuzilar tudo o que mexia. A única coisa de que ainda me arrependo é não ter dado dois tabefes ao Marques, mas receei que não lhe descobrisse a face escondida na grandeza do nariz.
 O “primeiro” de tanto disparar, meteu filho no útero da mulher do amigo, as coisas descambaram, o marido enganado tornou-se fera ferida e o sargento foi recambiado para a selva africana. No dia em que se veio despedir, para além das palavras, que esqueci, deu-me um apertado abraço e partiu com os olhos rasos de lágrimas, sim que um guerreiro do mato  também chora. E antes de partir entregou-me o Diário do Governo,  onde estava publicado o seu último acto naquela unidade: um detalhado louvor sobre a minha acção sob as suas ordens. O tempo passou e deixou as suas marcas. E se houvesse viagens no tempo ia a uma agência comprar uma viagem para esse tempo que persiste na memória. Que mais não fosse para dar os merecidos tabefes  no Marques de Valongo.Talvez ao menos chorasse lágrimas de crocodilo.

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publicado às 23:43

A menina dos olhos de amêndoa

por Naçao Valente, em 31.01.18
 
 
Entrei a carruagem do metro a uma hora tardia. Hora morta, diz a voz corrente. Pouca gente e muitos lugares vazios. Sensação de vazio. Sentei-me num lugar junto à janela. Reminiscência da mítica idade infantil, quando fazia birra para ter um lugar com vista para a paisagem, nos comboios que  “pouca terra, pouca terra”, pintavam a paisagem de cinzento, com o fumo que exalavam, como fumador viciado, da chaminé da máquina a vapor.
Reparei que à minha frente se sentava outro passageiro da noite, melhor, outra passageira, de longos brincos nas orelhas e olhos amendoados. Sem dúvida uma asiática das terras de além mar. Trocámos um primeiro olhar fugidio. Pareceu-me vislumbrar um discreto sorriso na sua boca bem desenhada. Ao seu lado repousava um trólei de viagem. Não sou, por timidez congénita, de meter conversa com estranhos. Nunca sei como começar. Dei voltas aos miolos para ver se encontrava um pretexto. Nada. Para mais não sabia que língua ela falava. Em línguas estrangeiras sou um desastre. Costumo citar Eça para me consolar: “devemos falar bem português, as outras línguas mal, orgulhosamente mal”. Retraí-me.
Numa segunda troca de olhares a menina de olhos de amêndoa sorriu e num português bem perceptível disse:
-Senhor, para ir para a Pousada da Juventude, saio nas Picoas?
Decerto já tinha sido informada, mas quis confirmar. Fez-me lembrar a minha avó quando viajávamos de comboio e tínhamos que mudar de linha. Fazia sempre a mesma pergunta a diferentes funcionários. Nunca se enganava.
-Acabei de desembarcar no aeroporto e é a primeira vez que faço este percurso. Venho do Japão, Nagasáqui. Vou estudar para a Faculdade de Letras.
-Sim, sai nas Picoas. Como se chama? disse, para tentar alguma aproximação
-Sou KumiKo
O que me veio à mente, via memória, foi uma personagem da Crónica do Pássaro de Corda de Haruki  Murakami.. A mulher do protagonista, chamado Toru, desaparecida no enredo da história. O mesmo nome. O cabelo preto curto. A vivacidade no olhar. Mas não podia ser. Simples coincidência. As personagens da ficção estão enclausuradas nas páginas impressas e só vivem na imaginação do seu criador, o autor, ou na recordação dos seus leitores.
-Também saio nas Picoas. Se não se importar ajudo-a a chegar à Pousada.
 E mesmo que não saísse passei a sair. Não ia deixar a menina sozinha aquela hora tardia, embora ela me parecesse bastante destemida. Também, em tempos idos, andei perdido no metro de Milão à procura de uma Pousada, e houve uma alma caridosa que me deu a mão.
-Fala bem português, disse para continuar conversa.
-Comecei a estudar português na Universidade porque me interesso pela cultura portuguesa. Venho aprofundar esse estudo. Tomei contacto com essa cultura no Secundário onde se faz alusão à importância dos portugueses na história do Japão e na sua unificação, para além de serem os primeiros europeus a chegar ao Japão. Se for possível quero, aqui, ensinar o japonês.
É verdade, pensei. O mundo é pequeno. Quatro séculos depois de três ousados aventureiros lusos, terem demandado, numa “casca de noz”, as costas japonesas, então isoladas do resto do mundo, vejo uma menina de olhos de amêndoa a aventurar-se num subterrâneo desconhecido de Lisboa, à descoberta de Portugal. Tantos séculos depois de homens montados numa cruz, onde acabaram por ser crucificados, talvez por terem convertido milhares de japoneses, aí está uma menina de Nagasáqui , confessa católica, possivelmente   descendente de mártires do século XVI, a conhecer o país dos namban (bárbaros do sul) . O mundo é mesmo uma grande aldeia apesar de haver quem queira dividi-la com muros em cada esquina.
A menina dos olhos de amêndoa ficou em segurança na Pousada. Palavra de escuteiro. Diz o ditado que “burro velho não aprende línguas”, mas se Kumiko  vier a dar aulas de japonês talvez ainda vire burro novo e lá estarei a aprender, como um bom aluno. E quem sabe se ultrapasso a minha inapetência para línguas estrangeiras. Para Já fica garantido esse compromisso na crónica do
Cota-diano.
 

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publicado às 19:36

A rapariguinha da livraria

por Naçao Valente, em 31.01.17

Para o leitor compulsivo entrar numa livraria é como para o crente religioso entrar na sua igreja. Com respeito e devoção. Percorre os altares, no caso prateleiras, Presta veneração aos santos, ou seja aos livros e aprecia os milagres que fazem na mente dos fiéis, os seus leitores. De quando em vez, arranca um livro à pasmaceira do seu dia-a-dia e consulta-o, porque o livro gosta de ser folheado e de partilhar com o leitor a sua intimidade. Acredito que livro sem leitor vive triste e aborrecido.
Depois da minha visita às estantes e de tirar do seu sono um ou outro exemplar, faço a minha opção, vejo se nos sentimos bem um com o outro e dirijo-me ao altar, digo caixa, para concretizarmos a relação, sempre por intermédio de um sacerdote ou sacerdotisa, a quem pago os respectivos emolumentos. Mas hoje, antes de me decidir, assolou-me o espírito uma dúvida que precisei de esclarecer. Dirigi-me à menina da caixa, que verdade seja dita, estava a concluir um contrato com outro cliente, Mas a minha questão era simples, coisa de sim ou não e arrisquei perguntar, infringindo a cerimónia em curso. A rapariguinha olhou-me de soslaio e disse: -“aguarde, pois estou a atender este senhor”.
Amochei. Que mais podia fazer. Eu sou prático e não gosto de complicar. Eu não, mas o meu outro eu, um pouco mais rebelde, e que vive escondido dentro de mim, logo começou a especular.


-Mas porque carga de água esta pitonisa de tranças pretas, não me diz sim ou não, obrigando-me a ficar a secar sem necessidade? Vendo as coisa pelo prisma que me é favorável, digo que se calhar engraçou com os meus lindos olhos e que me quer-me manter aqui em observação. Mas vendo as coisas do avesso, como numa pirâmide invertida, pode querer castigar-me por ousar interrompê-la no seu mister. Até me imaginei a captar o seu pensamento:-“aguente aí ó cota atrevido. Já tem idade para aprender a respeitar as precedências e a esperar pela sua vez".

.
Passado algum tempo o tal que vive escondido atrás das aparências, deu de frosque e foi refugiar-se nas páginas de um livro que, ao menos, esse nunca contesta. Quem o acolheu foi o escritor Mário Vargas Llosa, que aprecio na arte de bem pensar e melhor dizer. Estava ali um exemplar, meio oferecido, a fazer-me olhinhos, por acaso, o primeiro do autor e que ainda não li. E diz-se, na galeria dos lugares comuns, que não há amor como o primeiro, nem luar como o de Janeiro. Mas isso não sei porque, mês acabado, não lhe pus a vista em cima.
Quem me pôs a vista em cima, ou melhor os “olharápios” pintados de azul celeste, lindos, foi a rapariguinha da caixa, que se aproximou sorrateira. –Peço desculpa. O que desejava? Que óptimo livro que está a observar, que grande escritor, adoro”! Pois, balbuciei, para logo ser interrompido pelo eu clandestino


_o que tu queres, ó serigaita, sei eu, ou por outro lado penso que sei, o que não sendo idêntico vai dar ao mesmo. Vens-me agora com a tanga da conversa fiada, armada em gata , à espera que lhe façam festas que lhe ericem o pelo”.


-Pois, senhorita tem muito bom gosto, consegui dizer antes do intrometido me embaraçar, de novo, o discurso de conveniência.


“ Bom gosto? O que ela tem é um bom corpinho, nem muito gordo, nem muito magro, nem muito alto nem muito baixo. Na conta. Deixa-te mas é de literatices, ó palerma, afina o paleio e vê se a convidas para tomar um “shope”. Há tontas que se deixam levar por umas larachas. Aproveita. Não tens a vida toda.


-Então, mas qual era a dúvida? Insistiu a rapariguinha. –Nada, respondi, já está esclarecida. Vou levar este livro. Interessa-me. Tenho um fraquinho por este escritor, no que diz respeito à sua escrita, bem entendido.


“E também começo a ter um fraquinho pela senhorita, assim como uma chama que começa a crescer, a crescer” acrescentou o eu alternativo.


O que vale é que o bisbilhoteiro, só tem meios de pensamento, mas não tem formas de expressão, senão estava o caldo entornado. Paguei. Saí na companhia dos “Cachorros” . A rapariguinha da livraria, com os seus olhos de mar, o seu corpo de sereia, o seu peito de onda de surf, ficou na livraria com o meu eu escondido. O que se passou depois não sei. O que sei é que fiz o meu papel de cronista do
cota-diano.

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publicado às 20:05

Baile

por Naçao Valente, em 10.05.16

No tempo em que o engate fazia parte do meu quotidiano, fui convidado por companheiros de “route” para um baile particular, numa espécie de salão de bombeiros. O intuito era reunir malta jovem vinda de distantes regiões do país e que vivia numa zona da cidade grande, para tirar, num corpo a corpo ritmado, um sarro com umas macacas, expressão usada por um amigo meu,o Joaquim, creio que com sentido carinhoso.
Na hora marcada compareci com a minha turma para dar o anunciado pé de dança. Diz o ditado que homem pequenino ou é velhaco ou dançarino. Mas como em tudo nos ditados também há excepções, pois velhaco não me considero e dançarino também não por mais que me esforce. Ainda fiz um curso rápido para dar um arzinho de bailador, mas sou mesmo duro de ouvido e pé de chumbo, e nessa área da dança deixo muito a desejar. Seja como for e como era uma boa oportunidade para engatar gajas lá fui cheio de expectativas.
Estava meio perdido no meio do “maralhal” quando o meu amigo Joaquim se aproximou e me disse: “vai em frente Zé; está ali uma macaca desocupada”. Enchi o peito de ar deitei borda fora de mim a maldita timidez e lá fui em direcção à dita macaca: “vamos dançar?”.” Não”! Foi a palavra que saiu da sua boca. O organizador do convívio que assistiu à cena, caiu logo em cima dela (salvo seja) criticando a sua atitude: “ouve lá, mas que merda é esta? Vens para aqui para dar “tampas”? Isto é uma festa familiar. Que raio de palavra é que não percebeste? A gaja enrolou a” ganforina”, baixou a bolinha e deu o dito por não dito: “vamos lá dançar”.
Passou-me um vaipe pela tola, um homem tem o seu brio, e disse para a tipa, ainda por cima anorética, ou como se dizia na época, um pau -de -virar -tripas. “Não quero dançar contigo, e não dançaria nem que fosses a Gina Lollobrigida”. Para as novas gerações, convém esclarecer, que a Gina é uma actriz italania, muito famosa nesse tempo, e que tinha mais curvas por metro quadrado que a antiga estrada do Marão. E quem se importaria de se estampar naquelas curvas?
A trinca-espinhas não sabe o que perdeu por se armar em carapau de corrida. Se me tivesse dado bola quem sabe se aquela dança não acabava no altar. Na altura andava muito carente e como náufrago à deriva agarrava-me a qualquer destroço que aparecesse. Assim lá ficou de monco caído sem ninguém que lhe aquecesse os ossos.
A festa começou a ficar chata e com o meu grupo resolvemos dar de “frosque”. Entramos no meu “coupé” para rumar a outras paragens. Quando nos afastávamos do local vimos sair do baile sem honra nem glória, a magricela. Parei o coupé (também na altura instrumento de engate) e fiz um sorriso cínico (se calhar sou mesmo velhaco) A moça enraivecida aproximou-se e deu dois pontapés na viatura.
Partimos e nunca mais a vi, nem mais magra (quase impossível) nem mais gorda. Houve outras danças e contradanças, mas hoje presto-lhe a minha homenagem. Em tempos de falta de assunto saltou-me do fundo da memória para me alimentar o vício da escrita, essa droga que causa tanto prazer como a “heroína”. Quem diria que passados tantos anos um simples “não” deixou de significar traste para significar heroína. São muito estranhos os caminhos da literatura.

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publicado às 19:42

O charme discreto de trocas de olhares

por Naçao Valente, em 07.07.15

Todas as idades têm o seu encanto. Na infância a inocência. Na juventude a ingenuidade. Na idade adulta a maturidade. Na velhice a experiência. Grosso modo e de uma maneira simplista. Estou na fase da experiência o que  significa que já passei por todas as outras, com mais ou menos variantes. Cada caso é um caso.

Eu, sempre acompanhado da minha experiência, de alguma inocência e de ingenuidade quanto baste, mantenho o antigo ritual de me sentar na mesa de um café a tomar uma bica. É o lugar ideal para rever todas as fases da vida. Por ali passam desde netos a avós. E por mais discretos que quisermos ser, não se conseguem evitar trocas de olhares, sem descriminação de género e idades. Confesso que me atraem mais os femininos.

No posto de observação vou observando, passe a redundância. Há os permanentes, os que por ali param todos os dias, replicando sempre os mesmos gestos. Um bom dia, um sorriso passageiro, uma bebida, uma revista cor de rosa. Pedaços de vidas ocultas nas suas alegrias e nas suas tristezas. Há os ocasionais, que entram e saem deixando um rasto de indiferença. Trocas de olhares rápidos, fugazes, momentâneos. Vêem e vão como um cometa apressado.

Hoje entrou uma jovem na idade madura. Desconhecida, desenvolta, andar seguro, sorriso enigmático. Aproximou-se do balcão e libertou os olhos dos óculos de sol. Não fui a tempo de travar o meu olhar na procura do seu. Olhos indiscretos que voam sem a minha autorização. Encontraram-se como num acaso programada. Obriguei o olhar atrevido a fixar-se nas imagens inertes de uma revista de fofocas. Em vão. Mal me distraí ei-los insubordinados em silencioso solilóquio com o olhar da dama.

Vi-a sair e segui-lhe a silhueta. Os cabelos soltos e frisados esvoaçavam com o vento reflectindo os dourados do sol.  Entrou num escritório em frente. Voltou para comprar uma garrafa de água. Mil interrogações. Não me atrevo a desvendá-las. Aquele olhar não me sai da cabeça. Ansio revê-lo. Todas as idades têm o seu encanto, mas dava-me jeito recuar duas ou três décadas. Ai se dava.

MG

 

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publicado às 19:53

O homem escrevia crónicas numa página de um jornal inventado. Escrevia crónicas sobre tudo e sobre nada. Dominava o verbo como poucos. Debitava ideias ponderadas e buriladas até à exaustão. Não cometia um erro de sintaxe nem um deslize semântico. Tudo no seu lugar: não se esquecia de um ponto, não falhava uma vírgula, exclamações quanto baste, os verbos na conjugação certa, os adjectivos no grau adequado, os advérbios e as  conjunções no sítio preciso. As suas ideias eram sempre claras, convincentes, plausíveis, coerentes. Era lido com respeito e veneração.

A crónica “a liberdade das palavras” prometia mais um texto sem mácula. Foi lido e relido pelos habituais leitores imaginários e pelo Director imaginado. Uma e outra vez. Uma e outra vez. Ninguém percebia patavina. As palavras corriam desordenadas como um rio que deixa de respeitar as margens e se move sem sentido aparente, como se não tivesse que cumprir um percurso determinado e alimentar um mar. As frases não se regiam por um significado mas por muitos significantes ou vice-versa.

O Director chamou a tipografia. “Quem truncou este texto”, perguntou,” Ninguém”, disseram, “respeita o original”. “Não pode, pode, não pode…ou então o homem passou-se”.

Os leitores tão amestrados à sua escrita perderam-se nas linhas e nas entrelinhas. -Não pode ser, diziam.- Será que estou bem? -Será que me passei?

Chame-se o homem disse imperial o director no seu papel de director chamou-se e veio sem sujeitos predicados apostos complementos o seu texto não faz sentido não tem nexo que se passa é verdade não tem o meu sentido mas tem o seu porque o deixei fluir livre porque conseguiu soltar-se das amarras de pensamentos condicionados e dizer a sua própria verdade e não a minha como assim afinal foi você quem o escreveu melhor foi ele que me escreveu mas não vai entender pois não é um homem livre

-O homem que escrevia crónicas passou-se mesmo, desabafou o Director. Acontece. Temos de procurar outro. Um que escreva crónicas perceptíveis e ajude a formar consciências.

Amanhã é outro dia e volto a escrever sem me passar. Prometo

MG

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publicado às 23:45




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