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Os bons velhacos

por Naçao Valente, em 01.06.19

"Já não te quero
O meu nome é Camila, mas os meus amigos do “face” conhecem-me por Cam. Nasci no bairro do Aleixo há quinze anos. Acabei de entrar para um curso especial de alunos com dificuldades. O que eu queria mesmo era deixar a escola. Mas do mal, o menos. Neste curso, com currículos alternativos, é tudo mais manual e eu tenho boas mãozinhas e outras coisas que agora não vêm ao caso. Já não tenho de aprender aquelas merdas, que me ensinavam na Básica. Quero lá saber quem foi o gajo que inventou este país. Quero lá saber se se chamava Afonso e era de Guimarães. Dessa história, o que registei, foi a explicação que me deu a Sal isto é a Salomé, que deixou a escola (finória) e foi trabalhar como acompanhante para um bar alternativo. Dizia ela: “o Afonsinho de Guimarães f*deu a mãe em S. Mamede e depois meteu-a na “prisa”. Por isso não admira que este seja um país f*dido”. Outra coisa que me irritava era darem alcunhas às palavras. Para mim, batatas são batatas. Ponto. Tem lá algum jeito dizer, hoje vou comer um substantivo (batata) com outro substantivo (bacalhau). Bem fez a Sal, que se livrou dessas tretas, e ganha a vida a dar tanga a cotas com muita grana."

Extracto do conto "Já não te quero" , do livro "Os Bons Velhacos"

Dia 2 de junho, estou na feira do livro de Lisboa, às 16H, para assinar o livro.Pavilhão dos Pequenos Editores.

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publicado às 23:09

Encontros imediatos de terceiro grau

por Naçao Valente, em 11.09.14

Naquela manhã fria de 1971, o meu FIAT coupé, teve um encontro imediato de terceiro grau, com um velho volkswagen carocha que ia no sítio errado à hora errada. Tinha saído pouco antes do apartamento J.Pimenta (pois pois J. Pimenta) com a Leonilde que comigo partilhava a habitação em Paço De Arcos. Ao entrar, intempestivamente, na marginal, não respeitei a prioridade e pronto, bate chapas e tinta robbialac.

A culpa, em parte foi da Leonilde, uma colega/namorada problemática, que me punha os nervos em franja. Mas aconteceu e não valia a pena estar a chorar sobre o leite derramado. Tinha que resolver o acidente e para isso convinha despachar a Leonilde. A solução, parece que caiu do céu, quando parou junto a nós um bólide chamado Porsche. De imediato me dirigi ao condutor que viajava sozinho e lhe pedi boleia para a Leonilde. Ainda o pedido não estava aceite quando me deu um feroz arrependimento. Então não é que o personagem que me ia transportar a minha namorada/colega era o Caldeira, que não via desde os tempos comuns do serviço militar. Na minha memória acenderam-se as luzes que me fizeram ver em 3D o filme do ano de 1967 em Tavira.

Foi lá que  fiz a recruta militar. Nessa época, o quartel era um viveiro de juventude, que muito animava ass ruas tortuosas e pejadas de igrejas da cidade. Quando nos deixavam transpor a porta de armas, saíamos  aprumados com a nossa farda número um e com as grandes botas cardadas  que nos punham nos pés, marchávamos com ar gingão para atrair os olhares das moças que, atrevidas e curiosas, nos espreitavam debruçadas nos parapeitos das janelas. Depois de algum tempo de clausura e aplicação militar, sem a presença de um sorriso feminino, aqueles risos, às vezes trocistas, eram como uma bênção para a nossa solidão do charme das formas femininas.

 

Depois de regressarmos da passeata e durante a refeição da noite, aproveitávamos para falar das experiências desse regresso à normalidade. Embevecia-me, particularmente, com as aventuras do Caldeira, que era natural de Alcabideche. E porque um homem não é de pau, para além da mulher que deixara, saudosa, à espera, gabava-se de se ter envolvido com umas moças de Tavira e afirmava que até estava de cama e pucarinho com uma dama divorciada. Ora para quem não conseguia molhar a sopa, o sucesso do Caldeira com as damas, causava-me alguma inveja, mas não conseguia-deixar de o admirar.No dia em que, acabada a recruta, partimos para outros destinos, e enquanto observava as janelas fechadas, imaginei-me a a ver por detrás das cortinas, damas chorosas pela perda do Caldeira de Alcabideche.

 

 Por ironia do destino eu e o Caldeira fomos transferidos para a mesma unidade militar sediada em Alcabideche. Eu, Félix Lagos, e o grande sedutor tínhamos sido colocados no Regimento de Artilharia de Costa, única unidade que não dava mobilização para a guerra colonial . Nunca percebi porque recebi essa benesse, mas o meu companheiro, disse-me que  era protegido de uma alta patente militar. No novo quartel, fizemos juntos a especialidade. Ele ficou a cumprir o serviço militar na sua terra natal e muitas vezes no aconchego dos seus lençóis e a mim coube-me rumar a outras paragens, por curiosidade bem mais agradáveis. Não voltei a vê-lo desde esses meses em que convivemos no serviço militar.

 

Depois de ter arrumado as galochas, desenvolvi a minha profissão em Lisboa. Após conhecer a Leonilde, passei a residir, com ela, no seu apartamento de Paço de Arcos. Naquela manhã, fria e nevoenta, em que o meu coupé se atirou ao carocha, fazíamos a viagem para a capital, onde íamos iniciar mais um dia de trabalho. Quando, depois do acidente, o Porsche, se aproximou, até pensei que era um craque de futebol de um clube grande. Quando olhei para a cara do ocupante até exclamei; “caramba eu conheço esta fronha, mas não me recordo do nome”. Aí o fulano olhou-me e disse com ar algo enjoado. “é pá, mas tu és o Félix Lagos”. Foi então que se me abriu a carola. O gajo era, nem mais nem menos, que o engatatão do Caldeira. A nossa relação foi apenas conjuntural. É tipo com quem não vou à bola. Aliás nunca jogámos no mesmo campeonato. Fui directo ao assunto:” estou acidentado, se vais para Lisboa podes levar a minha namorada?” “Claro, disse num tom que me pareceu um pouco amaneirado.

 

Uma desgraça nunca vem só, pensei. Já não me basta a chatice do abraço entre as viaturas. Agora dá-se um encontro de terceiro grau, imediato ou não, entre a Leonilde e o garanhão do Caldeira. O homem das mulheres, ainda  me rouba a namorada/amante/companheira. Ao chegar ao local de trabalho perguntei à Leonilde: "Então, o correu tudo bem? O rapaz do Porches não te deu nenhuma “cantada”? “Não. E é pena, porque o moço é um bom pedaço, eu ainda puxei por ele, mas conversa puxa conversa descobri que o homem é florzinha, ou seja, gosta mais dos belos corpos masculinos e nem tinha sido preciso confessá-lo, pois os seus maneirismos não enganam ninguém”. Fiquei boquiaberto. Como foi possível lidar algum tempo com o fulano sem uma leve suspeita. Só então percebi que aquela fanfarronice das conquistas não passava de uma forma de esconder a sua verdadeira vocação sexua,l num meio que poderia ser-lhe hostil. Naquele momento, respirei de alívio, por a Leonilde não ter caído nos braços do Caldeira. Acabaria por cair nos braços de uma hospedeira de bordo que conhecemos numa viagem à Madeira, mas isso são contas de outro rosário.

 

MG

 

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publicado às 21:29




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