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Espírito natalício

por Naçao Valente, em 12.12.14

Caminha-se a passos largos para mais um Natal. O frenesim sente-se nos espaços comerciais. As decorações feéricas são bengalas que não nos deixam  ignorar. A música que já temos gravada na memória monopoliza os espaços. Àrvores decoradas, luzes e luzinhas piscantes perturbam o sono das noites. Gentes apressadas atopelam-se, invadem lojas, e carregam sacos coloridos. O Natal capta os corpos e embebeda as mentes. É o espírito natalício: amor e paz embrulhados em consumo.

As famílias começam a pensar na consoada: muita comida, muita bebida, servidas em taças de harmonia. Esquecem-se discordâncias e desentendimentos. Uma trégua nas agruras do quotidiano. Uma pausa na realidade. Depois a vida continua.

O 25 de Dezembro comemora, a nível religioso, o nascimento de Jesus. Simbolicamente significa a libertação da humanidade dos pecados que acumulou. A mensagem que transmite é a de um mundo livre de opressão e iniquidade durante todos os dias do ano. A festa do pai Natal, com o seu cortejo de consumo condicionado, assemelha-se mais a uma comemoração pagã. Legítima mas pagã. Este espírito natalício não se enquadra no sermão da montanha.

MG

 

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publicado às 23:14

Natal sem barreiras

por Naçao Valente, em 11.12.13

 

Já se sente o frenesim do Natal do consumo. Nunca percebi o sentido desse frenesim. Há muito, muito tempo, era eu uma criança  o outro Natal, o religioso e pagão, era muito diferente. Numa longínqua  aldeia perdida, fazia-se um presépio colectivo, punha-se o sapatinho na chaminé e esperava-se que o menino nos trouxesse alguma lembrança, mesmo modesta, que os tempos mesmo para Jesus não eram fáceis. Quando era possível a avó matava uma galinha velha já pouco reprodutiva e um tio matava o "sovão" (porco gordo) com a ajuda da vizinhança e fazia um opíparo banquete. Nesse tempo, o Natal não tinha pai, nem sequer mãe. Hoje já tem pai mas continua continua órfão da dita. Mistério!

 

O Natal  do consumismo institucionalizou-se em dia de reunião da família alargada. Não compreendo que relação existe entre este Natal e a Natividade do Menino ou até a celebração do nascimento do Deus Sol que a antecedeu. Não compreendo porque razão a reunião da família tenha de ser uma obrigatoriedade, uma espécie de comportamento condicionado, em todos os dias 25 de Dezembro. Parece-me que colide com os princípio do  livre arbítrio pleno. Ou seja, quem não o fizer sente-se como apátrida familiar, quase um marginal. É esquisito que a família de todos os dias precise de um dia para mostrar que o é .

 

Quando era um adolescente vivia na capital do império (já sem império), num quarto alugado, longe da estrutura familiar base. A minha família eram aqueles que, por uma razão ou por outra, repartiam comigo o quotidiano. Mas no dia 25 de Dezembro, desapareciam como por magia. Quando optava por não me deslocar para a terra de origem, sentia que vivia num sítio estranho: percorria as ruas praticamente desertas, passava pelos cafés de néones apagados, olhava a montra de restaurantes sem cheiro, solidarizava-me com a iluminação natalícia triste por falta de olhares. Ouvia os passos dos sapatos no empedrado dos passeios, como um som emergindo de um silêncio de chumbo. Salvava-se aqui e além o gorjeio dos pássaros nas copas das árvores ,possivelmente também admirados com a falta do bulício citadino. Os autóctones aprisionavam-se nas suas mansões ou nos seus casebres. Até os indigentes sem lar, agora ditos sem abrigo, sumiam do espaço público, para à pala da caridade natalícia, comer uma refeição melhorada. Como se esse fosse o único dia em 365 vivido com dignidade. Era uma sensação estranha de domínio sobre uma cidade fantasma. Era uma sensação de vazio, de tédio de falta de calor humano.

 

Agora, passo o Natal, noblesse oblige, com a família nuclear e é o único dia do ano em que  continuo a sentir a minha liberdade coarctada. A civilização parece ter desaparecido. As ruas de qualquer lugar estão vazias de sentido, os carros(poucos)circulam envergonhados, o bulício próprio de um organismo vivo, esfuma-se. Tudo, dizem, vai cumprir esse ritual da Família de forma fechada, escondida, comendo bacalhau e couves, sempre bacalhau e couves ou outra ementa determinada, adorando uma árvore(?) coberta de pedaços de coisa nenhuma. Sei que tradições são tradições e que se colam à nossa pele, sub-repticiamente, sem sabermos bem como. Mas posso garantir que nem sempre assim foi. Ai que nostalgia dos tempos míticos em que as pessoas estavam na rua a jogar à malha ou nas tabernas a jogar chinquilho ou a beber copos de vinho. E o menino acabado de nascer e cansado de visitar tantas chaminés, dormia a sono solto nas quentes palhas de  um estábulo sempre aberto.

 

MG

 

PS  Um Bom Natal, com o seu verdadeiro espírito prolongado pelos dias dos dias.

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publicado às 19:55

Natal sem barreiras

por Naçao Valente, em 23.12.12

Já se sente o frenesim do Natal do consumo. Nunca percebi o sentido desse frenesim. Há muito, muito tempo, era eu uma criança  o outro Natal, o religioso e pagão, era muito diferente. Numa longínqua  aldeia perdida, fazia-se um presépio colectivo, punha-se o sapatinho na chaminé e esperava-se que o menino nos trouxesse alguma lembrança, mesmo modesta, que os tempos mesmo para Jesus não eram fáceis. Quando era possível a avó matava uma galinha velha já pouco reprodutiva e um tio matava o "sovão" (porco gordo) com a ajuda da vizinhança e fazia um opíparo banquete. Nesse tempo, o Natal não tinha pai, nem sequer mãe. Hoje já tem pai mas continua continua órfão da dita. Mistério!

 

O Natal  do consumismo institucionalizou-se em dia de reunião da família alargada. Não compreedo que relação existe entre este Natal e a Natividade do Menino ou até a celebração do nascimento do Deus Sol que a antecedeu. Não compreendo porque razão a reunião da família tenha de ser uma obrigatoriedade, uma espécie de comportamento condicionado, em todos os dias 25 de Dezembro. Parece-me que colide com os princípio do  livre arbítrio pleno. Ou seja, quem não o fizer sente-se como apátrida familiar, quase um marginal. É esquisito que a família de todos os dias precise de um dia para mostrar que o é .

 

Quando era um adolescente vivia na capital do império (já sem império), num quarto alugado, longe da estrutura familiar base. A minha família eram aqueles que, por uma razão ou por outra, repartiam comigo o quotidiano. Mas no dia 25 de Dezembro, desapareciam como por magia. Quando optava por não me deslocar para a terra de origem, sentia que vivia num sítio estranho: percorria as ruas praticamente desertas, passava pelos cafés de neons apagados, olhava a montra de restaurantes sem cheiro, solidarizava-me com a iluminação natalícia triste por falta de olhares. Ouvia os passos dos sapatos no empedrado dos passeios, como um som emergindo de um silêncio de chumbo. Salvava-se aqui e além o gorjeio dos pássaros nas copas das árvores ,possivelmente também admirados com a falta do bulício citadino. Os autóctones aprisionavam-se nas suas mansões ou nos seus casebres. Até os indigentes sem lar, agora ditos sem abrigo, sumiam do espaço público, para à pala da caridade natalícia, comer uma refeição melhorada. Como se esse fosse o único dia em 365 vivido com dignidade. Era uma sensação estranha de domínio sobre uma cidade fantasma. Era uma sensação de vazio, de tédio de falta de calor humano.

 

Agora, passo o Natal, noblesse oblige, com a família nuclear e é o único dia do ano em que  continuo a sentir a minha liberdade coarctada. A civilização parece ter desaparecido. As ruas de qualquer lugar estão vazias de sentido, os carros(poucos)circulam envergonhados, o bulício próprio de um organismo vivo, esfuma-se. Tudo, dizem, vai cumprir esse ritual da Família de forma fechada, escondida, comendo bacalhau e couves, sempre bacalhau e couves ou outra ementa determinada, adorando uma árvore(?) coberta de pedaços de coisa nenhuma. Sei que tradições são tradições e que se colam à nossa pele, sub-repticiamente, sem sabermos bem como. Mas posso garantir que nem sempre assim foi. Ai que nostalgia dos tempos míticos em que as pessoas estavam na rua a jogar à malha ou nas tabernas a jogar chinquilho ou a beber copos de vinho. E o menino acabado de nascer e cansado de visitar tantas chaminés, dormia a sono solto nas quentes palhas de  um estábulo sempre aberto.

 

MG

 

PS  Um Bom Natal, com o seu verdadeiro espírito prolongado pelos dias dos dias.

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publicado às 22:38

A galinha dos ovos de ouro

por Naçao Valente, em 08.12.11

komporta.blogspot.com

Como afirmou o ex-primeiro ministro as dívidas, ditas soberanas, estão associadas ao capitalismo.  Sempre existiram e continuarão a existir enquanto houver este sistema económico. Sem recurso a endividamento não se construíam estradas, portos, fábricas, em suma não havia desenvolvimento nem progresso. Nesta perspectiva, os estados, as empresas e as pessoas recorrem a empréstimos para terem acesso imediato a bens que de outra forma não poderiam usufruir. De igual modo, os mercados financeiros ganham mais valias com o aluguer do seu dinheiro.

 

Após a crise gerada pela especulação, os mercados apoiados pelo seu cortejo de bajuladores, (políticos, analistas, comentadores) descobriram, pasme-se, que todo o mundo estava a gastar  acima das suas possibilidades. Mas quem incentivou a consumir?  Não foram os usurários para aumentar os seus lucros? Mais, não foram eles que determinaram as condições? Então porque razão, contrariando tudo o que estabeleceram, mudaram as suas próprias regras, acusando tudo e todos de caloteiros e exigindo a devolução rápida do seu dinheiro? Mas será que os mercados e os seus agentes económicos e políticos não sabem que assim estão a matar a galinha dos ovos de ouro que os alimenta e os engorda? Mas será que os mercados ensandeceram ao ponto de pôr em causa a sua sobrevivência? Há razões que a razão desconhece, digo eu!

MG

 

 

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publicado às 21:29

Natais

por Naçao Valente, em 29.11.10

presépio tradicional

 

Já se sente o frenesim do Natal pagão. Nunca percebi o sentido desse frenesim. Há muito, muito tempo, era eu uma criança  o outro Natal, o religioso, era muito diferente. Na longinqua  aldeia perdida, fazia-se um presépio colectivo, punha-se o sapatinho na chaminé e esperava-se que o menino nos trouxesse alguma lembrança mesmo modesta, que os tempos mesmo para Jesus não eram fáceis. Quando era possível a avó Ofélia matava uma galinha velha já pouco reprodutiva e o tio Fernando  assava uma chouriça suculenta a pingar gordura sobre as brasas. Nesse tempo, o Natal não tinha pai, nem sequer mãe. Hoje já tem pai mas continua continua órfão da dita. Mistério!

 

O Natal  do consumismo alcandorou-se em dia de reunião da família alargada. Não consigo entender nem aceitar este Natal. Não entendo que  a reunião da família tenha de ser uma obrigatoriedade para todos , em todos os dias 25 de Dezembro. Parece-me que colide com os princípio do  livre arbítrio. É esquisito que a família de todos os dias precise de um dia.

 

Quando era um adolescente inconsciente vivia na capital do império ( ainda havia império), num quarto alugado, longe da estrutura familiar. A minha família eram aqueles que, por uma razão ou por outra, repartiam comigo o quotidiano. Mas no dia 25 de Dezembro, desapareciam como por magia. Ficava então quase sozinho na grande cidade: percorria as ruas praticamente desertas, passava pelos cafés de neons apagados, olhava a montra de restaurantes sem cheiro, solidarizava-me com a iluminação natalícia triste por falta de olhares. Era uma sensação estranha de domínio sobre uma cidade fantasma. Era uma sensação de vazio, de tédio de falta de calor humano.

 

Agora, já maduro e bem maduro, passo o Natal, noblesse oblige, com a família nuclear e é o único dia do ano em que  continuo a sentir a minha liberdade coarctada. A civilização parece ter desaparecido. As ruas de qualquer lugar estão vazias de sentido, os carros(poucos)circulam envergonhados, o bulício próprio de um organismo vivo, esfuma-se. Tudo, dizem, vai cumprir esse ritual da Família de forma fechada, escondida, comendo bacalhau e couves, adorando uma árvore(?) coberta de pedaços de coisa nenhuma. Tudo de forma egoísta, estranhamente, em tempo de suposta solidariedade. Ai que nostalgia dos tempos míticos em que as pessoas estavam na rua a jogar à malha ou nas tabernas a jogar chinquilho ou a beber copos de três . E o menino acabado de nascer e cansado de visitar tantas chaminés, dormia a sono solto nas quentes palhas de  um estábulo sempre aberto.

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MG

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ideiacentral.wordpress.com/category/consumo/

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publicado às 19:28




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