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Parêntesis egoisticamente saudosista

por Naçao Valente, em 12.03.12

 

Tenho de me render à evidência. Estou mesmo a ficar velho. E digo-o porque me estou a transformar-me num bicho de rotinas. Foi assim que ontem por ser domingo e querer fazer um parêntesis numa semana sem horizontes, me vi novamente aterrar nas Caldas da Rainha, aonde ainda há pouco tinha estado. Por outro lado, a ida a esta cidade teve o condão de me distrair do quotidiano pobre e das lutas de alecrim e manjerona entre Álvaro e Gaspar e poder mergulhar no Portugal profundo. Mais uma vez passeei pelo mercado ao ar livre entre cenouras, muitos grelos, alguns nabos e fruta para todos os gostos. Aproveitando a oferta dos vendedores “prove esta maravilha” lá fui experimentando sabores à conta da generosidade da gente genuinamente portuguesa. E entre o doce da tangerina e o ácido do limão veio-me à porta da memória uma canção popular dos anos 60, chamada “Rosinha dos limões” da autoria de Artur Ribeiro. Trancrevo este excerto: 

Passa ligeira, alegre e namoradeira,

E a sorrir, p'rá rua inteira, vai semeando ilusões.

Quando ela passa, vai vender limões à praça,

E até lhe chamam, por graça, a Rosinha dos limões.

 … Quando ela passa, apregoando os limões,

A sós, com os meus botões, no vão da minha janela

Fico pensando, que qualquer dia, por graça,

Vou comprar limões à praça e depois, caso com ela!

Depois, por associação, lembrei-me de quando nos esperançosos anos 70, passou por mim no rossio uma mocinha ainda a desabrochar mas já com diploma da universidade da vida, a querer vender-me rosas. Lá fui educadamente dizendo que não precisava, e estugando o passo. Enquanto me afastava, algo aliviado, ouvi a sua voz dizer “ anda cá que eu ofereço-tas”. Esta cena ficou registada na gaveta do arrependimento, pois foi a primeira e a última vez que uma desconhecida por impulso me ofereceu flores e que por embaraço e atrapalhação não aceitei .Ontem quando passava junto à banca das flores, a caminho da feira anual de velharias, ainda olhei, de soslaio, para ver se havia alguma jovem a oferece-las mas não, apenas divisei uma matrona com saudades dos anos 70. Avancei. Ali ,no meio de muitas bugigangas descobri numa exposição de livros, uma capa desbotada pelo tempo onde se lia “gramática da língua portuguesa”. Folheei e comprovei que os substantivos se chamavam substantivos e não nomes epicenos ou contáveis e não contáveis, os adjectivos, adjectivos simplesmente e não”radical adjectival” e não havia nenhum “verbo abundante”, nem sujeitos expletivos, ao invés do que acontece na gramática generativa ou degenerativa (que não para de degenerar) ou na moderna tlebes. Mas isto é na feira de velharias. Por fim, agarrei num velho dicionário e procurei o significado de excepção. Deu: desvio da regra geral, restrição, privilégio. Ai fiquei mesmo baralhado. Então porque raio é que o ministro Relvas que julgava que era dos Assuntos Parlamentares e pelos vistos também é especialista de língua, afirmou que excepção (a propósito dos não cortes de vencimentos na TAP, CGD...) significa adaptação . Se calhar está a construir um novo dicionário. Se assim for ainda bem. É que já estou a ver que em vez de me chamarem preguiçoso e enfezado latino do sul, passam a chamar-me adaptado de laborioso e matulão bárbaro do norte. De repente ganhei estatuto. Afinal já não sou uma velharia. Oh, Relvas…corta! Na próxima ofereço-te um Zé povinho adaptado ao que mereces: toma=rua!

MG

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publicado às 21:48

Parêntesis amordaçado

por Naçao Valente, em 25.02.12

Há dias que começam antes de começar. Estranho? Será, mas não impossível. Quem nunca lhe aconteceu acordar dentro de um pesadelo? Isso mesmo. Foi assim que começou o meu sábado. E suponha que está a executar uma daquelas acções que fazem crescer a humanidade, tendo ainda por cima uma partenaire (ou um partenaire, depende da situação) tipo vamp capa de revista e na altura certa a coisa embatuca. E ainda consegue dizer, timidamente, “raio nunca me aconteceu” e a gaja de cima dos seus galões de vamp responde sem contemplações “pois é há sempre uma primeira vez, não é filho. Olha, habitua-te ou então toma viagrarix que é uma coisa que resulta já desde o tempo dos gauleses com as poções do Panoramix. (ou achas que todos são Strauss-Kahn?) Valha-nos o sentido de humor da vamp.

Mas afinal que treta de crónica é esta, avisa pressurosa a consciência moral…Passaste-te?  Fugiu-te a inspiração para as partes baixas, isto é para as unhas dos pés? Ou então, só porque consegues encaixar três ou quatro fases com sentido, que alguns incautos lêem, julgas que tens liberdade para escrever o que te dá na real gana? Pior, consideras-te já um grande escritor, julgas-te até um Lobo Antunes, um Saramago, um Amado, um Garcia Marquez, entre outros, isto para não dizer que te vês a receber um Nobel das mãos de uma sueca escultural (com essa tua mente tortuosa não me admirava). Modera-te, filho, tu não passas de um escriba do virtual.

Esforço-me mas não entendo este pesadelo. Logo no dia em que decidi ir às Caldas da Rainha ver uma simples exposição de artesanato e antiguidades (é sábado e domingo na Expo Oeste), haveria de aparecer esta angústia a acordar-me  a consciência. Não há-de haver consciência piegas que me trave e hei-de ir, custe o que custar.

Ui, coisas das Caldas, não é filho, já estou a ver como isto vai acabar, o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Não ponhas mais na carta: artesanato “práqui”, arte popular “prácolá”, Rafael Bordalo para justificar, louça tradicional, blá, blá, blá. Não adianta, não há respeito pela consciência, é o que é.

O dia começou num pesadelo mas acabou num sonho. Cidade bonita, agradável, acolhedora, com cheiros bucólicos. Gente simpática, tranquila. Calcorreei o tradicional mercado ao ar livre (coisa rara), comprei fruta, legumes, hortaliças, a preço justo. (finalmente) Almocei um opíparo arroz de grelos (pois, pois) com “jaquinzinhos”. No fim comi umas maminhas, mas havia noutras versões (eu não avisei?),um doce regional feito com a massa das cavacas. (não confundir com cavacos, que esses nem cães os podem tragar) Fugi do Shopping como diabo da cruz (sim, para quem aprecia, Caldas da Rainha já tem um) e deleitei-me com a exposição. Entre as muitas velharias expostas, adquiri um cartaz usado pelo extinto cinema ambulante e que me fez reviver os tempos despreocupados da infância, quando com a sua magia nos fazia sonhar sonhos impossíveis, sem as barreiras da consciência. Maldita consciência, deixa-me usufruir o prazer da escrita e deixa-me levar o meu sonho com a vamp até ao fim, ao menos uma vez por semana.

MG

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publicado às 22:22




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