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Onde pára a Lili?

por Naçao Valente, em 03.10.14

A Lili servia-me um excelente café. Impreterivelmente às duas, hora da mudança de turno, rumava à pastelaria, para ser sempre servido pela Lili. Podem não acreditar, mas ela dava outro sabor ao café. Para além do sabor natural, Lili, acrescentava-lhe o doce charme da sua presença. Acrescentava-lhe é a forma verbal adequada, pois neste momento já não acrescenta. Nos últimos dias a presença leve e quase transparente da Lili sumiu daquele local. Ainda pensei que seria ausência temporária, mas está comprovado que não voltará.

Agora sou servido pela proprietária/gerente, de nome Sónia. Não nego que também tem o seu encanto, mas não é a mesma coisa. O café continua saber a café, mas falta-lhe o sabor Lili. Qualquer dia virá substituí-la outra Lili qualquer. Há no mundo muitas lilis. No entanto, para mim, não haverá outra Lili. Interrogo-me: onde é que pára a Lili? Podem não acreditar, mas eu vou até ao fim do mundo para beber o delicioso café/lili. Nem que seja a última coisa que faço!

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publicado às 19:02

Deus criou a mulher e...não se esqueceu do café

por Naçao Valente, em 03.08.14

Todos sabem. Se não sabem deviam saber. Faltar à formação religiosa é pecado. Vou recordar. Deus fez o mundo. Criou Adão  gostou da sua obra e descansou. Mas por pouco tempo. Sentiu que faltava qualquer coisa. Pelo canto do olho espreitou Adão  e viu-o acabrunhado e triste. Mesmo sabendo tudo não estava a entender. Fez o mundo e entregou-lho de mão beijada. Olhou de novo, e lembrou-se que lhe podia ler o pensamento. Leu e percebeu. Adão tinha acabado de inventar a solidão. Deus reconheceu a sua falha e resolveu agir. Esperou que Adão adormecesse, tirou-lhe uma costela e fabricou a mulher. Viu felicidade no rosto de Adão, quando  sentiu o odor da sua Eva. Finalmente podia descansar. Com a autoridade de um pai disse: crescei e multiplicai-vos. E assim se fez. O multiplicador começou a funcionar mas com pouca equidade. Multiplicava mais as mulheres que os homens e de tal modo que muitas ficavam sem companheiro. A perfeição não é possível. Para compensar a situação e perante o  descanso de Deus, alguns homens multiplicaram-se por várias mulheres. Sem maldade, tinham inventado o adultério antes da existência do próprio conceito. Também sem conceito nasceu o pecado. Para dar a volta ao texto, de forma subtil, o profeta Maomé, com mandato divino, fez contas e decretou que cada homem devia cuidar de sete mulheres. Assim se fez e extraordinariamente se equilibrou o que o multiplicador desequilibrava.

 

A cristandade não adoptou a norma e o problema continua a persistir. Foram porém as mulheres que encontraram a solução. Para sairem do domínio masculino, conquistaram a sua autonomia. Sairam da situação de dependentes e invadiram todas as profissões onde, dado o seu estatuto demográfico, aparecem em maioria.

 

É por isso que na pastelaria onde vou tomar café trabalham, para além da proprietária, mais três empregadas. Tudo Evas. Chego até a interrogar-me se o que me atrai para aquele espaço é o delicioso sabor do café ou a deliciosa presença das simpáticas Evas

.

 Entro. Percorro maquinalmente o espaço até ao balcão. Na minha frente pousa uma chávena de fumegante café trazido pelas mãos reconchuchudas de uma Eva loura  enfeitada com um sorriso com reflexos de centelha divina.  Outras vezes o saboroso néctar negro chega discreto nas mãos delicadas de uma morena de corpinho iogurte magro. Um sorriso arco íris reflectido nas cores do aparelho de correcção dental reflecte-se na cor uniforme do café matizando-lhe a sisudez.

 

Não consigo decidir de qual das Evas gosto mais. Penso então na felicidade de Adão que nunca teve que passar pelo dilema de optar. Mas agora são tantas e todas tão atraentes na sua diversidade que apetece ficar com todas. Mas isso não passa de pensamento, apenas pensamento que fique claro. Pois se até o pensamento é acto pecaminoso, o que não será o acto concreto. Condenação para a eternidade ou quase. Esta questão não se põe para quem nasceu muçulmano. Não é o caso. A questão minimiza-se para quem é mórmon. Não ouso!  Resta carregar mais esta injustiça. Afinal a desigualdade não está apenas na divisão da riqueza mas também no acesso à beleza. Às vezes apetece gritar: Vítimas da monogamia uni-vos. Mas emudeço. Carrego nos meus genes milhares de anos de inculcação de valores judaico-cristãos. Aguento. Talvez no paraíso haja também igualdade no acesso às não sei quantas Evas para a eternidade.Não me importo se são mil ou se são virgens.Têm é que saber servir um bom café.

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publicado às 00:18

Lili

por Naçao Valente, em 23.07.14

A crise da natalidade não se nota na presença de mulheres nos mais diversos serviços. Ainda bem. Em escolas, em hospitais, no comércio, nas compras parecem-me sempre em maioria. Além disso estão cada vez mais bonitas. Mas, modéstia à parte, os homens não lhe ficam atrás. Na pastelaria onde vou tomar café o serviço é prestado exclusivamente por lindas senhoritas. É , foi e será. De quando em vez há renovação de pessoal e lá vêm novas caras larocas

 

A última aquisição dessa pastelaria chama-se Lili, Veio com os primeiros odores do verão. Com mesma simpatia, a mesma eficiência, mas completamente diferente das suas antecessoras. A empregada que me atendia antes era para o rechonchudo, ligeiramente loira, reservada e tirava-me um café leve e delicioso. A Lili é morena, expansiva qb, e um símbolo de elegância. É tão magra, que parece transparente. Quando se desloca não anda desliza, e serve-me um café mais denso, mais pesado que contrasta com a leveza do seu ser, mas também delicioso.

 

A Lili encanta-me com a sua simplicidade a roçar a ingenuidade. Já conhece o meu gosto e a nossa comunicação dispensa palavras. Olhares, sorrisos e cumplicidades . O actual estado passou, contudo, por um processo de conhecimento gradual. Primeiro fazia-lhe o meu pedido com todas as letras, depois eu começava a frase e ela acabava-a, ou seja "quero um carioca cheio"..." com adoçante" acrescentava ela muito depressa para mostrar que fazia progressos. Agora é como se nos conhecêssemos para a eternidade.

 

Admito que não sou propriamente jovem. O cartão de cidadão não me deixa mentir. No entanto, o meu espírito recusa-se a assumir essa realidade. A Lili não precisa de artifícios para assumir a juventude. É mesmo jovem. Mas quando  os olhares se fundem desvanece-se essa diferença. Melhor, quando os olhos se confundem, sinto que retornei ao tempo de todas as ilusões. A Lili não  se limita a servir-me um saboroso e quente café. Aquece-me a existência e permite-me saboreá-la com os sabores dos frutos proibidos.

 

Um dia a Lili, partirá, como a Cláudia, a Catarina entre outras. Vou ter pena. Do seu sorriso, do seu olhar doce, do seu andar ondulante e até de uma ou outra expressão de disfarçada tristeza. Guarda-la-ei num recantinho da memória. Depois, virá outra Lili, e começará tudo de novo. É assim a vida, um carrocel de encontros e desencontros. Nova corrida nova viagem até que o carrocel não traga mais lilis. Apenas a ausência de qualquer memória.

 

MG 

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publicado às 22:51

"Parêntesisinho"

por Naçao Valente, em 19.02.12

Mais um dia sem chuva. Nem um parentêsisinho pluvioso. Contudo, um dia lindo, cheio de sol de inverno neste país abençoado pela natureza. É para aproveitar. Assim, vou por aí fora, ao Deus dará e à pata calcorrear ruas. Hoje não me fazem pôr o pé num quatro rodas a aspirar fumaça diesel. Fico aqui mesmo, na parvónia e vou aproveitar o que é bom enquanto dura.

Depois de sair de casa faço uma paragem no café (único sítio debaixo de telha onde pouso) para tomar a habitual bica. Assim que me sento na mesa, logo uma empregada solícita mas um pouco pró descarado me aborda “ então jovem é um cafezinho?” “ Jovem é a tua tia" –apeteceu-me dizer- parafraseando um político/comentador (chamam-lhe Santana Lopes) para um “partenaire” de debate televisivo (Fernando Rosas) que lhe disse parecer o Salazar. Contive-me, pois vendo a coisa por outro prisma, quem sabe se a dama consegue ler o meu estado de espírito no mais fundo do meu ser. Mas o que às vezes começa mal acaba bem e acabei (passe o pleonasmo) por ser servido por outra mocinha (agora nos cafés é quase tudo feminino) mais recatada e algo tímida, que me olha com alguma ternura, com uns belos e profundos olhos castanhos, esboça um ténue sorriso, agitando com suavidade percings na boca e no nariz. E aí, seguindo uma sugestão recente da Golimix (é uma bloguer simpática e muito inspirada que costumo visitar (no blog), apeteceu-me dizer-lhe “gosto de ti”,( no melhor dos sentidos) dando assim livre expressão à nossa parte emocional. Apeteceu-me dizer mas não disse, porque isto de deixar que as emoções não sejam inibidas pelo  flirtro racional, não é tarefa fácil. Retribuí o sorriso e fiquei aliviado.

Enfim, enquanto saboreio o agradável sabor(...) do café e passo os olhos pelos títulos dos jornais vou ouvindo conversas cruzadas ( sem alcovitice, pois se Deus nos deu ouvidos é porque quer  que ouçamos) e prendo a minha atenção na vozeirão de um sujeito a defender a Lei de Talião (não percebi a que propósito) perante o olhar espantado de um casal de etnia cigana, muito bem arranjado e acompanhado por uma jovem filha com uma mini saia até à cintura ( como os tempos estão mudados). Vox populi não é para levar a sério, pensei, vou mas é concentra-me na leitura. Pior a emenda que o soneto: assassínios, acidentes, assaltos, roubos, desemprego a aumentar não se sabe até quando, mais empobrecimento, esperança zero, deputado da maioria a dizer “ quem não está bem muda-se” e o povo sempre sereno (uma virtude)  e cada vez mais conformado (querem maior pieguice?). Está mas é na hora de ir caminhar para arejar os pulmões e as ideias, mas isso já não vem ao caso.

MG

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publicado às 22:38

Rua da Saudade

por Naçao Valente, em 28.06.11

 

Tanto tempo e tempo nenhum. Ary dos Santos 25 anos depois tem a mesma juventude, a mesma irreverência, a mesma  actualidade. Quem tem  o dom de dançar com as palavras todas as danças, de olhar o mundo com sensibilidade e bom gosto, não nasce, nem morre. É imortal, mesmo quando habita na Rua da Saudade:

 

 

 

 

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publicado às 21:46




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