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A menina das análises

por Naçao Valente, em 25.08.14

Fazer análises de sangue, especialmente o vulgar hemograma, é hoje uma prática generalizada. É uma coisa tão corriqueira que não merece enquanto experiência individual uma linha mal alinhavada. Só mesmo uma mísera falta de assunto ou de engenho para o abordar, associada a uma vã glória de escrever umas loas a qualquer preço as faz assunto de crónica.

 

Entre os fazedores de análises há os normais que as fazem como quem vai tomar uma bica e os cagarolas que tremem só de as imaginar. É o meu caso. Ou melhor era o meu caso, porque tudo na vida é feito de mudança. E o meu horror a agulhas rasgando-me a epiderme, furando-me a veia e vampirizando-me o sangue, mudou de uma forma acidental. Tudo começou quando a minha velha doutora analista, em boa hora,  se reformou. Boa profissional, meticulosa muito trabalhadora sem dúvida. Tão trabalhadora que ganhou artroses a espetar agulhas, estragou os olhos a espreitar para dentro de microscópios, arruinou o sistema respiratório a snifar estranhos reagentes. Se alguém merece um prolongado descanso é a minha velha analista.

 

No laboratório onde me sujeitei há tortura das agulhas está agora uma nova doutora analista. Nova na total acepção da palavra. Mas chamar-lhe doutora, com aquele palminho de cara e aqueles olhos capazes de encantar passarinhos não me parece apropriado. Doutora é um termo ou chavão que fica bem a pessoas com ar soturno. A minha nova analista não merece esse castigo. Por isso vou chamar-lhe simplesmente menina das análises. 

 

Quando me sento naquela cadeira começo de súbito a tremer. Começo não, começava. Agora fixo-me na candura da minha menina analista que me pergunta qual anjo do paraíso:

-Está a sentir-se bem?

-Estou, estou mesmo muito bem, respondo com a máxima sinceridade. Perturba-me é olhar para o sangue. Não se importa que olhe para si...

- Pode olhar, diz com uma sua voz capaz de redimir um pecador, olhar não tira pedaço.

- Tirar não tira digo em silêncio, mas vontade não me falta, falta-me é coragem.

A última sensação que retenho é a dos dedos delicados a percorrer-me o braço para encontrar a veia. Ao fim de algum tempo ouço de novo a sua voz:

-Pronto já está!

-Já está?

Nem agulha a romper-me a veia, nem seringa a sugar-me o sangue. Apenas sensação de que o que é bom acaba depressa.

. É estranho, mas agora não me importo de fazer análises. E digo sem ironia: até as faria todos os dias, de bom grado, como uma penitência.Talvez ainda bole uma estratégia para convencer o meu médico a fazer das análises uma espécie de terapêutica continua. Sim porque a menina das análises é seguramente mais de meia cura pois se  Deus nos brinda com criatura tão angelical é porque só quer o nosso bem. E até deixei de ter pesadelos com profetas do Apocalipse, tipo Medina Carreira, porque agora estou convicto que estes demagogos da desgraça são seguramente enviados do demo. Estes e a corte de aprendizes de mafarrico que nos sugam até ao tutano e ainda nos querem roubar a alma. Mas não hão-de conseguir, porque com a menina das análises no pensamento sou invencível.

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publicado às 22:45

Lili

por Naçao Valente, em 23.07.14

A crise da natalidade não se nota na presença de mulheres nos mais diversos serviços. Ainda bem. Em escolas, em hospitais, no comércio, nas compras parecem-me sempre em maioria. Além disso estão cada vez mais bonitas. Mas, modéstia à parte, os homens não lhe ficam atrás. Na pastelaria onde vou tomar café o serviço é prestado exclusivamente por lindas senhoritas. É , foi e será. De quando em vez há renovação de pessoal e lá vêm novas caras larocas

 

A última aquisição dessa pastelaria chama-se Lili, Veio com os primeiros odores do verão. Com mesma simpatia, a mesma eficiência, mas completamente diferente das suas antecessoras. A empregada que me atendia antes era para o rechonchudo, ligeiramente loira, reservada e tirava-me um café leve e delicioso. A Lili é morena, expansiva qb, e um símbolo de elegância. É tão magra, que parece transparente. Quando se desloca não anda desliza, e serve-me um café mais denso, mais pesado que contrasta com a leveza do seu ser, mas também delicioso.

 

A Lili encanta-me com a sua simplicidade a roçar a ingenuidade. Já conhece o meu gosto e a nossa comunicação dispensa palavras. Olhares, sorrisos e cumplicidades . O actual estado passou, contudo, por um processo de conhecimento gradual. Primeiro fazia-lhe o meu pedido com todas as letras, depois eu começava a frase e ela acabava-a, ou seja "quero um carioca cheio"..." com adoçante" acrescentava ela muito depressa para mostrar que fazia progressos. Agora é como se nos conhecêssemos para a eternidade.

 

Admito que não sou propriamente jovem. O cartão de cidadão não me deixa mentir. No entanto, o meu espírito recusa-se a assumir essa realidade. A Lili não precisa de artifícios para assumir a juventude. É mesmo jovem. Mas quando  os olhares se fundem desvanece-se essa diferença. Melhor, quando os olhos se confundem, sinto que retornei ao tempo de todas as ilusões. A Lili não  se limita a servir-me um saboroso e quente café. Aquece-me a existência e permite-me saboreá-la com os sabores dos frutos proibidos.

 

Um dia a Lili, partirá, como a Cláudia, a Catarina entre outras. Vou ter pena. Do seu sorriso, do seu olhar doce, do seu andar ondulante e até de uma ou outra expressão de disfarçada tristeza. Guarda-la-ei num recantinho da memória. Depois, virá outra Lili, e começará tudo de novo. É assim a vida, um carrocel de encontros e desencontros. Nova corrida nova viagem até que o carrocel não traga mais lilis. Apenas a ausência de qualquer memória.

 

MG 

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publicado às 22:51

Os salões de cabeleireiro deviam ter isenção de IVA. Digo-o com total convicção. É que para além de nos retocarem a aparência exterior, desempenham um importante papel social. Qualquer destes serviços devia merecer relevância de serviço público. E se a aparência é o nosso cartão de apresentação, já a promoção do convívio é um factor de identidade e coesão social. Tendo essa consciência assumo a minha ida ao cabeleireiro como um acto de participação cívica, que faz reviver  a ilusão de eterna juventude envergonhada e escondida, nos labirintos da memória.

 

Aquele mundo povoado de jovens bem cuidadas, funciona como uma antecâmara do paraíso, isto é como o imagino. Há lá coisa melhor do que sentir as mãos delicadas de fada-madrinha da jovem cabeleireira ,passeando livremente por entre as farripas de cabelos cansados pelos desgostos da vida e distribuindo champô com uma delicadeza angelical. São momentos breves, extasiantes, que nos libertam do desgaste do tempo, mas que como as coisas boas da vida, acaba depressa.

 

Os dedos maravilhosos da menina, movimentam a tesoura com mestria até ser atingida por uma dor lombar, que suporta estoicamente. Sem dar tréguas à sua tarefa, diz à colega que fazia extensões no cabelo duma dama com sotaque brasileiro: ",tenho de pedir os extensores ao teu marido". A outra, continuou serenamente a esticar o cabelo da cliente, limitando-se a fazer um sorriso amarelo. Aí, pensei, que se não fosse a maldita timidez que me acompanha desde o berço e que só me há-de abandonar na tumba, teria puxado de palavras ofendidas e teria dito: "deixe lá os extensores do marido da Bruna (nome fictício) em paz. Deve haver por aí tanto extensor desocupado". Até eu, não me importava de lhe retribuir o serviço com umas extensões gratuitas. Pensei, mas continuei calado como rato, tudo por causa  da maldita timidez.

 

A senhora de sotaque brasileiro que sofria o impacto das extensões, agora mais enérgicas, da cabeleireira com sorriso de Mona Lisa, loquaz e sem mostrar pingo de timidez deve ter-me lido o pensamento porque disparou sem poupar munição: ó Sofia Vanessa (nome fictício) porque não pede os extensores ao seu namorado?" ó dona Jeruça (nome fictício) pedia se o tivesse, enquanto soltou mais um ai . Puxa Vida, como não tem namorado?! Está tudo cego!?

 

Uma cliente sentada na cadeira de espera, folheava absorta uma revista de salão de cabeleireiro, entrou na conversa, com um conselho para a Sofia Vanessa: "ó minha amiga, porque não fazes umas férias? Estou a ver aqui oferta de casas económicas no Algarve. De férias como, dona Francisca Assunção? Há nove anos que não sou aumentada, nem sei que cor tem o subsídio de férias?

 

A estilista olhou-me pelo espelho e debitou uma frase feita para todos os clientes: "está bem assim?". "Está", foi a única palavra que consegui articular? Nas estradas neuronais circulavam caóticos pensamentos que corriam para destinos paradisíacos na companhia da mocinha a precisar de extensores. Corriam se não fossem paralisados pela mudez verbal. Maldita timidez. Garanto que bem me esforço, mas não consigo entrar na roda das conversas de cabeleireiro.

 

MG

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

 

 

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publicado às 21:27

No dia em que o meu coração quase parava

por Naçao Valente, em 04.07.12
Quem nunca se apaixonou por estrelas das galáxias das artes que atire a primeira pedra. Confesso, sem vergonha, que para esse peditório já dei. Confesso, sem arrependimento que sofri a tortura  dessas paixões platónicas, porque na  prática não são concretizáveis. E nem se quer se coloca a questão de serem ou não correspondidas, porque entre o cidadão comum e esse mundo estelar existem distâncias insuperáveis. É quase impossível aceder ao Olimpo onde habitam. Resta sonhar e sofrer no silêncio da nossa intimidade. Mas como em tudo às vezes acontecem excepções.   Foi assim que certo dia me cruzei com uma star, do teatro nacional, em carne e osso, por quem meu sofrido coração palpitava. Estava sentado a jantar com colegas de estudo, num restaurante credenciado, quando a dama saiu da sua nave prateada e entrou vaporosa e linda na companhia de outros astros do mesmo universo. Logo um solícito empregado (também apaixonado?) se lhe dirigiu com uma deferência de fazer inveja. Por momentos intermináveis desejei assumir aquele papel. Depois da surpresa inicial aspirei a colocar-me no seu horizonte visual. E como quem recebe um brinde de um deus generoso, a dama, ao passar pela minha mesa dignou-se, como numa atracção fatal, fulminar-me com o seu olhar de uma candura infinita. Aí, o meu coração disparou mais rápido que um carro de fórmula um, de tal modo que quase me saia do peito arfante. O meu rosto reflectiu incontroláveis emoções. Desde o vermelho vivo até ao branco robbialac, mostrou o catálogo de todas as cores do arco-íris. Sentada ao meu lado, uma companheira de mesa, das que estão sempre presentes, mas nas quais nunca reparamos, amparou-me para não me diluir no assento que me suportava. O meu coração tinha sofrido tão grande aceleração que a seguir quase parava. Lentamente, fui-me recompondo com a ajuda e paciência  de quem me acompanhava. O prozac natural de graduação etílica elevado foi-me trazendo de volta ao mundo terreno do nosso contentamento descontente. Mantive-me firme. Não abri o jogo. Ninguém ficou a saber o motivo da minha abrupta indisposição. Muito menos a causadora involuntária da situação. Espero que quem, agora, ficar a saber. não dê com a língua nos dentes! Até porque esse amor não se concretizou, mas teve o mérito de despertar em mim o poeta escondido. De facto desse encontro nasceram estes versos de coração quebrado, que dedico a todos os apaixonados mal correspondidos (ou não):

 

   

Por causa dela,

Mas só por causa dela,

Meu coração bateu tanto

Que partiu uma costela!

 

Toda a minha juventude

Metido numa ilusão,

Foi com a sua lembrança

Que venci a solidão;

 

Nas noites escuras e frias,

Guardei sua imagem bela

E sobrevivi aos dias

Mas só por causa dela:

 

Sempre no meu pensamento,

Passei tempos a sonhar,

E  concretizei o meu intento

Quando a pude encontrar;

 

Encontrá-la foi um espanto,

Enfrentá-la uma mazela,

Meu coração bateu tanto

Que partiu uma costela!

 

Cronista apaixonado

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publicado às 20:00

Aventureiro acidental

por Naçao Valente, em 02.07.12

dir.coolclips.com

 

Parafraseando o escritor Lobo Antunes numa crónica da revista Visão, "agora deu-me para ficar bonito". E vai daí, toca a caminhar que nem um desalmado. Mas porque aqui, por onde caminho, ainda não existe um daqueles percursos de país desenvolvido, tenho de partilhar as ruas, bem perfumadas com fumaça diesel, com parceiros de quatro rodas, 

 

Ao fim da tarde saio da minha área de conforto, mais antiga e mais tradicional e atravesso-a quase sem ver vivalma. Como um descendente de descobridores passo uma espécie de Bojador e entro, sem pedir licença, num mundo completamente diferente. Ali continua a falar-se português sem TLEBES e sem acordo ortográfico, mas um português mais suave, mais adocicado, menos bárbaro. É como se estivesse numa expansão ao contrário. Gente colorida na pele e nos gestos. Mais alegre, muito mais alegre. Mais jovem, muito mais jovem. As crianças estão fora dos seus casulos e brincam despreocupadas na rua. As mulheres tagarelam ou fazem trabalhos manuais. Os homens em pequenos grupos discutem sabe-se lá o quê. Um pequeno grupo comandado por um capitão, faz exercícios físicos com método de treino. E eu observo e admiro e sinto-me renascer, pelo menos em espírito.

 

Agora, quando parto da minha zona sisuda, reservada e mais envelhecida, no meu jogging vespertino, já não sei se vou para ficar esbelto e elegante sem protuberâncias inestéticas ou se vou  para mergulhar nessa aventura de desoberta. Se calhar, não perdemos os genes acumulados durante gerações! Se calhar, o nosso ADN, caldeado na mestiçagem, sabe que é na mestiçagem e na diversidade que o mundo se renova. E nesse aspecto somos campeões.

 

Ao fim da tarde lá  vou à aventura...

 

Cronista acidental

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publicado às 17:18

Miss Portalegre

por Naçao Valente, em 01.10.10

                        

Portalegre capital de distrito no Alto Alentejo tem muitos motivos para se orgulhar. Pela sua história, pela sua cultura, pelos seus monumentos, pela sua gastronomia, pelas suas paisagens peculiares, pelo seu parque natural na serra de S. Mamede. Já foi uma importante contribuinte do erário público. Teve um papel pioneiro na industrialização do país. Resiste à litoralização de Portugal e procura com novas valências adaptar-se aos tempos modernos.

 

Portalegre tem agora um novo motivo de orgulho. Doou ao país uma miss  mundo Portugal de seu nome Catarina Aragonez. E não é uma contribuição menor. É a prova que as belezas genuinas de Portugal também têm marca raiana. É a garantia que Portugal não acaba na periferia da linha atlântica, nem mesmo onde não chegam as vias rápidas.

MG

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publicado às 16:17




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