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Baile

por Naçao Valente, em 10.05.16

No tempo em que o engate fazia parte do meu quotidiano, fui convidado por companheiros de “route” para um baile particular, numa espécie de salão de bombeiros. O intuito era reunir malta jovem vinda de distantes regiões do país e que vivia numa zona da cidade grande, para tirar, num corpo a corpo ritmado, um sarro com umas macacas, expressão usada por um amigo meu,o Joaquim, creio que com sentido carinhoso.
Na hora marcada compareci com a minha turma para dar o anunciado pé de dança. Diz o ditado que homem pequenino ou é velhaco ou dançarino. Mas como em tudo nos ditados também há excepções, pois velhaco não me considero e dançarino também não por mais que me esforce. Ainda fiz um curso rápido para dar um arzinho de bailador, mas sou mesmo duro de ouvido e pé de chumbo, e nessa área da dança deixo muito a desejar. Seja como for e como era uma boa oportunidade para engatar gajas lá fui cheio de expectativas.
Estava meio perdido no meio do “maralhal” quando o meu amigo Joaquim se aproximou e me disse: “vai em frente Zé; está ali uma macaca desocupada”. Enchi o peito de ar deitei borda fora de mim a maldita timidez e lá fui em direcção à dita macaca: “vamos dançar?”.” Não”! Foi a palavra que saiu da sua boca. O organizador do convívio que assistiu à cena, caiu logo em cima dela (salvo seja) criticando a sua atitude: “ouve lá, mas que merda é esta? Vens para aqui para dar “tampas”? Isto é uma festa familiar. Que raio de palavra é que não percebeste? A gaja enrolou a” ganforina”, baixou a bolinha e deu o dito por não dito: “vamos lá dançar”.
Passou-me um vaipe pela tola, um homem tem o seu brio, e disse para a tipa, ainda por cima anorética, ou como se dizia na época, um pau -de -virar -tripas. “Não quero dançar contigo, e não dançaria nem que fosses a Gina Lollobrigida”. Para as novas gerações, convém esclarecer, que a Gina é uma actriz italania, muito famosa nesse tempo, e que tinha mais curvas por metro quadrado que a antiga estrada do Marão. E quem se importaria de se estampar naquelas curvas?
A trinca-espinhas não sabe o que perdeu por se armar em carapau de corrida. Se me tivesse dado bola quem sabe se aquela dança não acabava no altar. Na altura andava muito carente e como náufrago à deriva agarrava-me a qualquer destroço que aparecesse. Assim lá ficou de monco caído sem ninguém que lhe aquecesse os ossos.
A festa começou a ficar chata e com o meu grupo resolvemos dar de “frosque”. Entramos no meu “coupé” para rumar a outras paragens. Quando nos afastávamos do local vimos sair do baile sem honra nem glória, a magricela. Parei o coupé (também na altura instrumento de engate) e fiz um sorriso cínico (se calhar sou mesmo velhaco) A moça enraivecida aproximou-se e deu dois pontapés na viatura.
Partimos e nunca mais a vi, nem mais magra (quase impossível) nem mais gorda. Houve outras danças e contradanças, mas hoje presto-lhe a minha homenagem. Em tempos de falta de assunto saltou-me do fundo da memória para me alimentar o vício da escrita, essa droga que causa tanto prazer como a “heroína”. Quem diria que passados tantos anos um simples “não” deixou de significar traste para significar heroína. São muito estranhos os caminhos da literatura.

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publicado às 19:42

Lado B

por Naçao Valente, em 22.12.10

 

 

No início dos anos 70, era tempo de vinil. Os sons, as letras, as emoções viajam em 45 rotações, por todas as galáxias. Primeiro na rádio, depois nas máquinas públicas e finalmente nos gira-discos mais ou menos roufenhos. Ouviam-se no recato da família, mas também nos bailes sem orquestra das sociedades recreativas. Era um gosto ver como o vinil alegrava os corações e aquecia os corpos unidos na enebriação da dança. Havia o lado A, a canção chamariz e o lado B a canção para encher. Para o caso tanto fazia. O que interessa eram as famílias que se constituíam nas  rotações do vinil, umas vezes no lado A, outras vezes no lado B da vida. E nesse aspecto, contribuiu muito mais para o aumento da natalidade que todos os decretos governamentais. C`est la vie, cantava Alain Barrière em 1972...

 

MG

 

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publicado às 19:57

Ar de rock

por Naçao Valente, em 19.10.10

Vivemos tempos de incerteza. O mundo quase perfeito de prosperidade e bem estar que se julgava intocável  parece querer desabar. Haverá muitas e complexas razões para explicar esta mudança. Há uma que me parece evidente e colho-a na lição da evolução histórica. Ao longo dos séculos nasceram e desapareceram civilizações que se consideravam inexpugnáveis. Mas como a actual só o eram na aparência porque os sistemas sobrevivem enquanto se auto-sustentam na suas dinâmicas próprias. Quando estas deixam de dar resposta às necessidades dos cidadãos acabam por colapsar. Podemos estar à beira de uma mudança de paradigma. Cabe-nos fazê-lo de uma forma inteligente e progressiva.

 

E enquanto nos consumimos na incerteza do nosso dia a dia, achei interessante refugiar-me nos fantasmas do passado, recuar até aos oitenta e encontrar na música um pouco de elixir para as tristezas presentes. Lembrei-me do rock ( como bom patriota) em versão nacional e pus-me a ouvir este som:

E então?

 

MG

 

 

Ai que bem xeiras, que bem xeiras dos sovacos
As meias rotas e os sapatos descascados
Nas avenidas ainda fazes os teus engates
E tudo graças ao perfume patchouli

o-ho, o-ho, o-ho
o-ho, o-ho, o-ho
o-ho, o-ho, o-ho
o-ho, o-ho, o-ho

Essas miúdas das escolas secundárias
Com cheiro a leite e o soquete pelo artelho
Ficam maradas com o teu charme perfumado, Yeah
O teu perfume patchouli

o-ho, o-ho, o-ho
o-ho, o-ho, o-ho
o-ho, o-ho, o-ho
o-ho, o-ho, o-ho

Essas miúdas das escolas secundárias
Já fumam ganzas na paragem do eléctrico
Conversas parvas com mais buço que pintelho
Não dizem duas quando estão ao pé de ti

o-ho, o-ho, o-ho
o-ho, o-ho, o-ho
o-ho, o-ho, o-ho
o-ho, o-ho, o-ho

O que elas gostam de te ver e de cheirar, o teu perfume patchouli
O que elas gostam de te ver e de cheirar, o teu perfume patchouli
O que elas gostam...

 

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publicado às 20:34



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