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O pecado da gula

por Naçao Valente, em 27.10.15

Quando Deus fez o Homem dotou-o dos atributos indispensáveis para a sua sobrevivência: olhos para ver, pernas para andar, braços para executar, boca para comer e sexo para se reproduzir e software para programar. Mas o homem, dotado de espírito inventivo, depressa ultrapassou o seu Criador e deu  aos seus componentes outras funções, sem que se mostrasse agastado. Foi assim que a boca foi usada para morder, mordiscar, beijar, enfim, apenas tendo como limite a imaginação. Mas tendo a boca como função primordial comer, não deixa de ser irónico, que desde tempos imemoriais lhe seja atribuído, o pecado da gula.

Esse pecado tomou na Idade Média proporções preocupantes. As restrições ao consumo de carne assumiam, na Quaresma, o seu expoente total. Proibição absoluta. Contudo, como não há regra, sem excepção, logo os propostos representantes da divindade criaram a Bula, uma forma de dar liberdade gastronómica a quem pagasse uma taxa ao poder eclesiástico. Eu, que sou apenas um simples mortal, sem acesso às fontes divinas, acho, nessa qualidade, que  o perdão do pecado a troco de vil metal é apenas coisa da humana realidade.

Reflectindo sobre o assunto acho que tem uma explicação lógica. O que os clericais pretendiam era proteger os seus semelhantes de doenças escondidas nos alimentos processados com carne. E se alguns tinham condições para comprar Indulgências, a maioria não adiantava comprá-las, porque depois não tinha dinheiro para comprar comida. É certo que os mais endinheirados, incluindo o alto clero, o poderiam fazer, mas decerto o evitariam como pessoas bem informadas. A saúde do povo estava garantida. Poderia morrer de fome, mas nunca de doenças cancerígenas. O céu estava garantido.

A proibição religiosa acabou por passar à história, mas os fundamentalistas do cientifismo, herdeiros genéticos do passado e  usando o software recebido da divindade, chegaram à mesma conclusão que os fundamentalistas da igreja medieval: carne processada ou desprocessada, especialmente de cor vermelha, manda-te desta para melhor. Ou seja, se abrires a boca a iguarias carnívoras, podes morrer, mas se deixares de comer morres seguramente. Triste dilema.

Portanto coma. Use a boca como bem entender. Esqueça o pecado religioso ou científico. Cumpra o plano divino. Use os instrumentos corporais de acordo com o plano divino. Não ponha em causa a máxima, "crescei e multiplicai-vos". Faça sexo em segurança. Procure não cair da cama. Coma com moderação. Faça da refeição um prazer e não uma tortura. Saboreie uma posta mirandesa, regada com um vinho de boa cepa. Não se esqueça, Nas bodas de Canaan Jesus transformou a água em vinho. In vino veritas. E na sua pregação está a palavra mas está também a boa comida. Siga o exemplo.

  

 

 

 

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publicado às 19:10

Sobre a comida e outros prazeres

por Naçao Valente, em 02.06.15

Entre viver para comer ou comer para viver, a escolha é complicada. As duas opções fazem sentido. E eu como todos os viventes cumpro a lei da natureza pela sobrevivência. Mas também também não dispenso uma comidinha bem saborosa. Quem a dispensa?.E se o Senhor nos fez com papilas gustativas é porque não nos quis privar dos sabores dos alimentos. Pelos vistos só proibiu a maçã.

Digo porque sei, de fonte segura, que já nos tempos idos, se comia, quando havia comida, com imenso prazer. Uma das iguarias que fazia salivar os indígenas era uma lagosta mesmo ao natural. Dando um pulo no tempo, está ainda na memória de muita gente, o espectáculo gastronómico dado pelos roedores de crustáceos de Cacilhas, no tempo do PREC. Foram tempos de prosperidade, à sombra da valorização salarial da malta dos estaleiros navais. Que lhe tenha feito bom proveito. Nem sequer os invejo.

Fujo á regra geral. Esses bichos de casca não me abrem o apetite. A não ser que a lagosta esteja bem bronzeada e com sabor a sal. Mas seja como for, prefiro antes uma boa febra de porco ou porca pretos ou de outras cores, bem portuguesa, no primeiro ou no segundo sentido. Ao natural, com muito ou pouco molho. E como não sou esquisito, não faço questão de serem só das mais tenrinhas. Mesmo as mais maduras, se vierem, também são bem recebidas pelas, gustativas, olfactivas, ou tácteis. Isto porque todas têm direito a serem desejadas. Em qualquer sentido, bem entendido. E se cair alguma chouriça na ementa não deixa de ser um bom aperitivo.

Outro prato que me delicia, são as iscas com ou sem elas. Se for com elas melhor, é como atingir o paraíso, mas se não for é como se fosse. Usa-se a imaginação. E se vier uma lasca de bom lombo, nem penso duas vezes, não vá outro mais expedito deitar-lhe a unha. Maminha, um prato mais abrasileirado, também me tira do sério. E então bem aquecida faz-me sentir o calor dos trópicos, sem nunca lá ter estado.  

Para sobremesa não recuso uma barriga de freira. Um pitéu de fazer água na boca. É doce, cremosa e única. Ao que consta, o nosso rei D.João V, era grande apreciador, sobretudo das do Convento de Odivelas, onde ia comê-las frequentemente. Contudo, é um pitéu caro. Não está ao alcance de todas as bolsas. Pelo menos não há o risco de cair no pecado da gula. Diz-se que depois de provadas é comer e chorar por mais.

Enfim, concluo:  comer só para viver, pode ser necessário, mas é uma sensaboria. Viver para comer, em qualquer sentido, é o cerne da vida. E bem fez a Eva em dar uma dentada na maçã, desobedecendo às prescrições divinas. Até aí aquilo não atava nem dasatava. Digamos que sem saber escreveu direito por linhas tortas. Bem haja. Se assim não tivesse sido ainda por lá andavam num bocejo eterno. Nem as febras pululavam por aí, nem esta croniqueta podia ter sido escrita. 

MG  

 

 

 

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publicado às 16:20




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