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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

O homem escrevia crónicas numa página de um jornal inventado. Escrevia crónicas sobre tudo e sobre nada. Dominava o verbo como poucos. Debitava ideias ponderadas e buriladas até à exaustão. Não cometia um erro de sintaxe nem um deslize semântico. Tudo no seu lugar: não se esquecia de um ponto, não falhava uma vírgula, exclamações quanto baste, os verbos na conjugação certa, os adjectivos no grau adequado, os advérbios e as  conjunções no sítio preciso. As suas ideias eram sempre claras, convincentes, plausíveis, coerentes. Era lido com respeito e veneração.

A crónica “a liberdade das palavras” prometia mais um texto sem mácula. Foi lido e relido pelos habituais leitores imaginários e pelo Director imaginado. Uma e outra vez. Uma e outra vez. Ninguém percebia patavina. As palavras corriam desordenadas como um rio que deixa de respeitar as margens e se move sem sentido aparente, como se não tivesse que cumprir um percurso determinado e alimentar um mar. As frases não se regiam por um significado mas por muitos significantes ou vice-versa.

O Director chamou a tipografia. “Quem truncou este texto”, perguntou,” Ninguém”, disseram, “respeita o original”. “Não pode, pode, não pode…ou então o homem passou-se”.

Os leitores tão amestrados à sua escrita perderam-se nas linhas e nas entrelinhas. -Não pode ser, diziam.- Será que estou bem? -Será que me passei?

Chame-se o homem disse imperial o director no seu papel de director chamou-se e veio sem sujeitos predicados apostos complementos o seu texto não faz sentido não tem nexo que se passa é verdade não tem o meu sentido mas tem o seu porque o deixei fluir livre porque conseguiu soltar-se das amarras de pensamentos condicionados e dizer a sua própria verdade e não a minha como assim afinal foi você quem o escreveu melhor foi ele que me escreveu mas não vai entender pois não é um homem livre

-O homem que escrevia crónicas passou-se mesmo, desabafou o Director. Acontece. Temos de procurar outro. Um que escreva crónicas perceptíveis e ajude a formar consciências.

Amanhã é outro dia e volto a escrever sem me passar. Prometo