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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Pensei que aceitasses "que trocássemos umas ideias sobre o assunto". Disse-o com a esperança de merecer alguma atenção do escritor Mário de Carvalho. "Era bom", seria a resposta esperada. Eu sei que ele é o autor único e indivisível e eu apenas um, entre milhares de leitores. Mas também li, seja ceguinho se não li, que um livro uma vez parido, deixa de ser apenas de quem o gerou, para ser de todos, os que o de corpo e alma, o manuseiam. Um pouco como um filho, que depois de sair da barriga da mãe, se torna  cidadão do mundo e de certo modo, propriedade da nação, para o a que der e vier.

E é nesse sentido, que ouso invadir o lugar de conforto do autor, e perturbá-lo no seu solilóquio. Primeiro senti-me agastado, por este, só ao fim de dezoito páginas de descrição contestável de ambientes, introduzir na história as personagens. E ainda mais agastado fiquei quando me pespegou, no focinho, que o fazia deliberadamente, como um recurso anti-criativo. E por falar em recurso, ainda me atira com um discurso sobre o uso da analepse. Porra pá! Não seria mais civilizado aplicá-la, como fazem todos os outros? Não deve o criador usar as figuras de estilo que lhe der na mona, sem ter de explicar e justificar a sua utilização? Sobre o assunto, gostaria que trocássemos umas ideias. E por falar em figuras de estilo, estou carente de conhecimento sobre a captura das metáforas, pelos fazedores de poesia e pela razão de esta não o ser se não tiver sido emprenhada por essas figuras. Do mesmo jeito, mas num contexto mais abrangente, nem entendo o papel castrador dado às regras gramaticais. Mas que crédito se pode atribuir a uma Senhora que está sempre a mudar. Agora diz que é tlebes, mas em tempos foi generativa e não quero ir mais aquém, nem predizer mais além, para não falhar na previsão.

Pois, gostaria que trocássemos umas ideias. Sim, porque uns são filhos da mãe e outros filhos da outra. Ou seja, uns podem mandar a dita para as urtigas e são um génio e outros, se o fizerem, são acusados de maltratar sua excelência. Não entendes? Eu explico: se eu colocar uma vírgula entre o sujeito e o predicado, aqui d'el rei que cometi erro grave sem perceber porquê. Afinal, porque raio o desgraçado do sujeito e o infeliz do predicado têm de passar a vida separados por um muro. Bem,  mas quando o grande Saramago resolveu escrever sem passar cavaco à pontuação, aleluia que é inovação. É o que digo: dois pesos e duas medidas. Se um obscuro escriba falhar na utilização de maiúsculas, está a ofender a santa gramática. Agora quando o Valter Hugo Mãe não as usa a seguir aos pontos, merece encómios. Deve ser por essas e por outras, que o dito cujo, não aprecia os meus contos no concurso FNAC onde é júri, já que entre mil nunca ficaram nos dez melhores. Dá próxima vez vou dar tratos de polé à dita cuja.

A não ser que trocássemos umas ideias sobre o assunto, porque os personagens principais, (ou serão secundárias?), passam a vida entre analepses, a não fazer coisa nenhuma. E como é que um bibliotecário, com uma vida de merda, um filho preso por tráfico de droga, e que quer entrar para o PCP, um velho professor comunista, divorciado, e com uma filha armada em missionária, a apanhar picadas de mosquito, que quer sair do PCP, uma tipa que pensa que é jornalista e que se mete na cama do Professor (quando tem P grande) para que lhe componha a entrevista a Agustina Bessa Luís, (entre outras) de que não percebeu pevide e dois burocratas do PCP, que descobrem que o bibliotecário andou na juventude a rasgar cartazes do partido e a escrever em jornais de província, artigos contra o KGB, acabam a história como a começaram. O comunista continuou a ser o militante que não queria ser, a jornalista que deixou de o ser quando se levantou da cama do professor e o bibliotecário que não conseguiu entrar para o partido, suprema humilhação. Ao fim e ao cabo nem mortes, nem traições, nem adultérios, nem porrada de criar bicho, nem uma verdadeira cena de sexo. Nem percebo como cheguei ao fim desta história, mas sei que queria era que o fim não chegasse porque "Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto".

 

MG

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