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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

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27 Mar, 2014

Descalço

Durante a minha infância a pobreza era assumida como um destino.  Mais pobre que os pobres, da aldeia onde nasci, era o Descalço, caldeireiro itinerante. Em tempos de apologia da pobreza e de concretização de um processo de empobrecimento como um objectivo necessário e até como um castigo para os portugueses, aqui presto justa homenagem ao Descalço, esteja onde estiver. Nesta sociedade condenada, pelos seus principais dirigentes, à pobreza sem fim, os "Descalços" vão começar a multiplicar-se, perante a apatia geral. Este povo transporta  consigo, os genes da subserviência, numa postura de descalços de dignidade.

 

 

Descalço nasceu pra vida

descalço continuou

sapatos nem de defunto

nunca nos seu pés usou.

Num saco de linho sujo

trazia a sua existência

um prato, um copo de vinho,

e a sua competência.

A sua casa era o mundo

dormia em lençóis de nuvens

tapado com raios de sol

vestido de vagabundo

num andar de girassol.

 

No adro da velha igreja

exercia a profissão

remendava uma panela

velha na sua função,

numa chapa de metal

desenhava um belo peixe

para a sua refeição;

envolto em manta de vinho

deitava o sono no chão

fosse inverno ou fosse verão. 

Partia como viera

até um dia voltar

o nome que mãe lhe dera

não sabia soletrar

nem na forma de sonhar.

 

Descalço nasceu na vida

sapatos nunca rompeu

saiu sem despedida

e nunca mais apareceu

foi numa rota perdida

ou

descalço foi para o céu

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