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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Um dos contos publicado no livro "Os Bons Velhacos", disponível na Bertrand, na Mosaico de Palavras, e na Wook, online.

 

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Manhã


Aquele sábado de fim de primavera amanhecera escuro e chuvoso. Parecia que o céu, com o seu cortejo de nuvens prenhes como odres, se ia abater sobre a terra seca e faminta de água. Às oito da manhã nasci da cama com os primeiros raios de sol que se esparramavam pelas frinchas das janelas sem as lentes de vidro que nos protegiam dos ataques do suão sibilante. Procurando esconder-me entre os xarogaços raquítios para não ser visto por algum fedelho que me atazanasse com a minha inapropriada alcunha “ eh gato”, desci com todas as pernas que pude arranjar a íngreme vereda que separava a casa dos meus avós, onde tinha cama, comida e roupa lavada . Dirigi-me como uma bola saltitante para a casa dos meus atarefados pais para não me esquecer que eles continuavam a fazer peso na face enlameada da terrra. Ia a meio do sinuoso percurso, cantarolando a canção, então em voga “só às paredes confesso”quando se abateu sobre os meus ombros de pardal mal alimentado uma carga de água de pedra, que me molhou que nem um pinto , mais assustado que galinha visitada por raposa. Nunca tinha visto ou imaginado uma coisa assim. Até pensei que aquela fosse um principio do apocalipse, de que a jovem Célia, branca e pura como as imagens de madeira e tinta dos altares, falava com a sua boca decorada com um excitante tufo de pelos ruços, nas sessões de catequese, entre a missa dominical e o namorico com João Sapateiro.
O certo é que o esgarrão da minha angústia foi tão depressa quanto veio. As nuvens barrigudas como barriga de burra prenha sumiram como o joio pelos buracos de uma peneira , escampou, e um sol brilhante como o pitromax da venda do senhor joão iluminou as pitorescas casas da aldeia.
Dirigi-me , com a dignidade de Zapata diplomático para a casa do meu primo Ricardo, dois anos mais novo, com quem dividia as brincadeiras de infância. Quando as águas do dilúvio libertaram as margens dos caminhos sinuosos e formaram caudalosos riachos de água e lama comecei a engendrar barragens que os impedissem de se instalar no aconchegante leito da ribeira. Ricardo transportava nas suas mãos sapudas de eventual cavador as pedras com que iria construir a sua vida sem futuro e eu juntava lama para cimentar a nossa inocência campónia. E enquanto víamos o pequeno riacho deslizar das nossas mãos como cobra de água, ouviu-se de repente o ronco de um altifalante de muitos decibéis, que silenciou a melodia produzida pela água no seu contacto, ora brusco ora acariciante, com as pedras e a terra por onde deslizava, não segura, em direcção à ribeira.” De quem eu gosto, nem às paredes confesso…”: Tinha chegado à aldeia o cinema ambulante.
Uma alegria rara e pouco frequente fez-me estremecer como se tivesse sido vergastado por uma vara de zambujeiro verde. Deitei fora os bocados de lama que segurava nas mãos, esqueci-me do quotidiano salazarento, das reguadas diárias na escola do estado novo e do meu utilitário primo. Sabia que nessa noite iria assistir, no salão de bailes do senhor Armando, a uma sessão de imagens animadas com os meus avós que eram cinéfilos de boa cepa. A mesma alegria não contagiou o meu primo Ricardo. A sua família não era gente desses pequenos luxos no seu mourejar diário por uma côdea de pão.
Tarde
. Na camioneta da tarde que todos os dias trazia alguma ausência e levava alguma saudade, desembarcou a tia Susana e seus dois moços pequenos. Raramente visitavam a família na aldeia.
Viviam longe, lá para a lezíria do Tejo, onde mourejavam pelo pão nosso de cada dia, como tordos que batalhavam para roubar uns grãos aos espantalhos que guardavam as searas do pai. Na casa dos avós houve muita satisfação. Matou-se um galo capão e a avó, cozinheira sem escola mas com tarimba, fez um suculento arroz de cabidela. O avô, abalizado bebedor nas vendas da aldeia, fez questão de regar o jantar com um forte vinho caseiro, guardado para ocasiões tão especiais como o nascimento de um bezerro de vaca leiteira. Depois de enganado o estômago o avô disse:
-Está na hora de irmos ao cinema. Já fui pôr as cadeiras no melhor lugar do salão do senhor Armando. Os dois aparvalhados primos maternos, não disfarçaram a seu contentamento e como barbos saltitantes no cesto da pescaria lá foram estrada fora com o cortejo familiar rumo ao mundo das ilusões perdidas.
Noite
. O pequeno gerador que dava luz à máquina de produzir ilusões fazia-se ouvir entre os sussurros dos ansiosos assistentes. Lobo Antunes, o projeccionista remendava uma fita que se partira durante a rebobinagem. Os moços pequenos que os pais tinham soltado, como pardal que dera a monte, acomodavam-se no chão sujo e frio, à frente da primeira fila de cadeiras.Robim dos Bosques, o Herói desse dia preparava-se para entrar em acção, com o seu bando de ladrões que só roubava aos ricos mas que não deixava por isso de ser ladrão.Ao dirigir-se ao local onde havia plantado as cadeiras o avô verificou que uma delas tinha fugido do seu lugar, encostando-se a uma parede da sala. No seu lugar, outra cadeira, coisa estranha, suportava o rabo mirrado, como azeitonas de sal ,do José Carola, agricultor, dono de cavalo de cobrição e ferrador da aldeia. O avô , que fervia em pouca água, avançou para o Carola, como besta picada pela mosca.
- Ó seu grande cabrão, então você roubou-me o lugar?!
-Não roubei lugar nenhum, disse o Carola mais atarantado que burra assustada com a ferramenta do cavalo cobridor. Este lugar estava virgem quando eu cheguei.
- Acha-me com cara de tanso, é? A minha cadeira já aí estava , e embora tenha pernas, ainda não sabe andar- retorquiu o avô. Levante-se e retire o cu dessa cadeira nojenta ou racho-o já ao meio.O Robim já cavalgava pela densa floresta, o João Pequeno atirava dez soldados e o sherif com as suas cavalgaduras por um barranco abaixo. Menina Mariana estava na janela do castelo em estilo carochinha sabidona “Quem me quer tirar daqui, nem que seja para uma união de facto”.
O Carola continuou colado ao seu assento, desafiador e confiante na sua razão, mas pouco tempo esteve de pé, pois o avô assentou-lhe a mão sapuda no focinho, dando-lhe uma chapada , que o fez estatelar-se da sua cadeira, derrubando como pedras de dominó, alguns espantados e incautos espectadores, no lugar errado à hora errada.O Robim talvez com fome de mulher aventura-se, é esse afinal o seu papel, no castelo com Mariana à janela, mas é barrado pelo malvado xerif. Robim , num daqueles truques que se aprendem no cinema, atinge-o bem entre as pernas: -Toma cão danado - embora o uivo do infeliz, mais parecesse de lobo que de cão ao mesmo tempo que piscava o olho triunfante ao avô.
O Carola, ainda só pai de filharada ranhosa, alto espadaúdo e seco de carnes levanta-se tão rápido quanto permite a lei da gravidade, agarra o avô, bem mais portátil, pelo colarinho da camisa, que se desfez em pedaços, como cantarinha de barro a estatelar-se no chãoO João Pequeno, que afinal até é grande, entra com o seu bando num solar de um titular amarra-o aos pés da cama e saca-lhe as economias escondidas no colchão de penas, o que não deixa de ser uma boa acção, porque o povo está esfomeado de comida e de justiça.
O avô escapa das mãos calejadas do ferrador, agarra uma cadeira e enfia-lha desde o poiso dos piolhos até à arrecadação dos chatos. Outros espectadores são envolvidos no reboliço e rebolam, nas suas cadeiras desengonçadas. Os meus primos olham espantados e a sua mãe ,mais angustiada que peru na véspera de natal está desolada. Já a prima, perdeu o casaco na confusão e chora baba e ranho, como é próprio da sua idade.Os soldados do xerife atiram Robim para o fosso do castelo e este depois de rebolar mais de dez metros levanta-se mais fresco que uma alface na brisa matinal. Mariana que assiste à cena de camarote deixa fugir uma lágrima furtiva.
De repente a fita parte-se e a sala fica mergulhada na escuridão. De repente a pancadaria pára e as pessoas procuram acomodar-se nos seus lugares. As lâmpadas acendem as suas íris incandescentes- INTERVALO- e o projeccionista Lobo Antunes remenda a história e procura remediar os estragos. José Carola volta a acomodar-se no seu lugar, mais amachucado que talega de azeite na prensa. O avô recusa-se a mudar e, espumando de raiva, assiste à sessão de pé, funde-se na parede da sala, evapora-se numa nuvem de indiferença. A avó, a tia e os primos, esperam receosos pelo fim da aventura.As imagens de sombra e luz voltam a ganhar vida na parede branca do fundo da sala. Continuam as cavalgadas, as espadeiradas, as emboscadas, os suspiros de Mariana, o castigo dos apoiantes do rei João…THE END.
A ilusão chegou ao fim. Ordeiramente os espectadores abandonam a sala, carregando as suas cadeiras de sofrimento e vazio sem ilusões perdidas ou renascidas. Entre o burburinho da saída e o barulho do dínamo, o projeccionista, Lobo Antunes , rebobina o filme e murmura para o fuinha de cigarro apagado ao canto da boca desdentada e que o ajudava a desmontar a máquina que fabricava imagens na solidão do escuro:
-Estes cabrões são uns selvagens…Aproveitaram o facto de eu tirar a cadeira para colocar o altifalante, para perturbarem o meu espectáculo. Não volto a esta terra de merda e de miseráveis brigões.O magricela enrolava os últimos fios e estendia no chão duro de ladrilhos a manta onde havia de passar a noite com o cigarro apagado a saltitar no som dos seus roncos sibilantes. Robim no sossego do celuloide foi finalmente descansar. Amanhã é outro dia. Na cama ao lado de Mariana como um irmão bem comportado dorme a sono solto. FIM

tags: contos, lobo antunes

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