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Conversa de dentista

por Naçao Valente, em 03.03.18

Dia de dentista. Uma massa que cai, uma falha no sorriso, as palavras que escapam pelo buraco, aberto no centro da boca. Fazer o que? Aguentar. Antes, ainda tinha as mãos delicadas de uma dentista a manipular as brocas. Mas a jeitosa foi para Holanda e deixou-me em estado de orfandade. Agora, quando me esparramo naquela cadeira, tenho à frente um doutor barbudo. A única coisa que temos em comum é a paixão pelo mesmo clube. Nos preliminares  do trabalho, dá-me dois dedos de conversa sobre os jogos, as tácticas, as arbitragens. Tudo o que se discute até à exaustão em programas de televisão em hora nobre.

Entrei no consultório e fui recebido com um sorriso pelo doutor e pela sua assistente. Aparentemente estava a correr bem. Pergunta da praxe:
-Então em que posso ser útil, disse o doutor Esperança
Limitei-me a abrir a boca.
-É pá, sem esse dente,  parece mesmo um arrumador de carros.
Risos da Assistente. Afinal, enganei-me, quando pensei que ia correr bem. Então o gajo, quer dizer o doutor da mula ruça, confunde-me com um arrumador de viaturas, e di-lo nas minhas fuças. É para isso que lhe pago, e bem. Ultrapassou o espectável. Eu tenho respeito por todas as profissões, incluindo a dita cuja. Mas todos sabem que essa está associada a drogas leves, médias e duras. Ser arrumador vá que não vá, agora consumidor de produtos proibidos, deixou-me à beira da apoplexia. Sou um cidadão respeitador das leis da República. Já não tenho idade para isto. Limitei-me a  fazer um sorriso amarelo. Ao fim e ao cabo ele é que tem as brocas. Acondicionei-me e nem um grama de conversa sobre futebol lhe dei. Que vá fiar borra para o raio que o parta.

O pior estava para vir. O doutorzinho depois de olhar para a minha ficha, continuou no mesmo registo:
-É pá, nasceu na década de quarenta. Tem x anos, já tem a idade até à qual eu espero viver.
A idade até à qual eu espero viver? Mau, mau. Querem ver que o finório me acha já fora do circuito. Uma espécie de múmia ressuscitada. Tudo é possível nesta vida. Bem, eu juro que vi um defunto que saiu do palácio de Belém, e julga que está vivo, ou então, é um holograma. Ainda há pouco apareceu armado em escritor de assuntos de maus costumes, maus fígados e piores bofes. Literatura top. Por enquanto não é esse o meu caso. O doutor continuava imparável:
-Tenho uma doença muito grave. Tenho tensão alta. Agora o senhor ainda vai chegar aos cem
Tensão alta? Isso hoje é um distúrbio controlável. Portanto ele que se cuide. Apesar de me considerar fora de prazo, um fantasma a arrumar carros, entre duas passas, desejo-lhe longa vida. Mas se a sua previsão se concretizar não estou preocupado. Dentistas há muitos. A estória de chegar aos cem, pelo dentista, numa de dar uma no cravo e outra na ferradura, fez-me recordar coisas que tinha esquecido, e que se passaram  quando ainda era jovem.

Estava num período mó de baixo, quando me passou pela cabeça consultar um Quiro Astrólogo, que descobri num anúncio de jornal. O indivíduo, estudou-me as linhas da mão, mediu a linha da vida com um transferidor e depois, assertivo, sentenciou: “casamento garantido no ano tal, doença grave na idade Y e esperança de vida até aos X anos. Tudo comprovado com certidão passada e assinada. Fiquei agradado. Para mais, ainda me restavam quarenta anos deste lado da barricada. O problema é que o que antes era muito tempo, é agora cada vez menos. Estou mais inclinado a esquecer o Astrólogo e aplicar a expressão “só Deus sabe”. E que não se meta o dentista em adivinho para emendar a mão. Cem anos não são nada no oceano do tempo.
Chegou a hora de abrir a boca e ficar calado. Enquanto punha molde, tirava molde, a  conversa mudou de alvo e prosseguiu com a diligente assistente.
-Ó Ercília, você tem que se cuidar, está cada vez mais curvada. Eu até tenho visto, na televisão, o anúncio de um colete que põe os corcundas direitos que nem um fuso. Ou então, porque não vai para a ginástica correctiva.
-Nem pensar doutor, disse ela, sempre a rir. É um problema de família. Com a idade todos ficamos assim. Ninguém foge ao seu destino.
Às tantas, a Ercília deve pensar que é descendente de algum corcunda famoso, talvez do de Notre Dame, que se tornou conhecido nas páginas do livro de Victor Hugo. Mas aposto que não foi aí que ela o conheceu. Mais certo ter sido no filme de Walt Disney, que deve ter visto na juventude, numa sala de cinema, de mão dada com o seu namorado “ó mor aquele ali parece mesmo o meu avô”
-Senhor José, disse o doutor Esperança, cuspa e bocheche, por hoje está despachado. Volte daqui a quinze dias para continuarmos o trabalho.
Despedi-me e saí sem dizer palavra. Nas grandes tormentas, uma pequena saída limpa, é como uma vitória. Senti-me livre e feliz. Tinha estado à beira de ser arrumador, fantasma, e possivelmente corcunda, e pior,  não poder escrever a crónica do
Cota-Diano

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publicado às 22:49





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