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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Inconfidências de alcova

Conheci o Zé no início da década de setenta. Estava eu a descansar os ossos na cama que ocupava na "hospedaria" da dona Mariazinha depois de um dia a subir escadas sem elevador, para tentar vender aspiradores a quem nem dinheiro tinha para comprar uma vassoura, quando a fui sobressaltado por uma pancada forte na porta do quarto.

-Dá-me licença? Preciso de mostrar o quarto ao...como se chama?

-Zé, como havia de ser? Ou melhor, que hipóteses tinha de não ser?

Quando a dona Mariazinha saiu do meu horizonte, com o seu uniforme semi-transparente de andar-em-casa, que acentuava as suas formas, ainda firmes, de quarentona divorciada, desenhou-se então entre os umbrais, uma silhueta, projectada pela contraluz que jorrava da janela/porta que dava para a marquise. Numa primeira impressão pareceu-me uma figura nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, talvez tudo isso. Mas houve um pormenor, ou pormaior que me prendeu a atenção. O pretenso novo hóspede usava uns óculos escuros de formiga. É assim que identifico as lunetas tipo raiban, embora estivesse na cara de quem os usava, que num crivo de largo espectro não passavam de imitação barata. E de imediato concluí que quem usava tal artefacto tinha de ser um gajo porreiro. E não me enganei.

O meu novo companheiro de quarto instalou-se nesse dia, mas só começámos a conviver mais de perto uns tempos mais tarde. O Zé tinha acabado de cumprir o serviço militar e procurava encontrar um rumo para a sua vida. Trabalhava então como operário numa metalúrgica, em horário nocturno. Nos poucos momentos em que nos encontrávamos disse-me que, para além de ter de sobreviver, aproveitava para ir fazendo currículo eclético que lhe permitisse estar preparado para todos os desafios. Mostrava ser um tipo ambicioso.

O seu tirocínio no mundo operário durou dois meses. Por minha sugestão entrou para a multinacional de electrodomésticos onde eu tentava vender enceradoras a quem não tinha nem dinheiro para comprar a cera. Actividade profissional à parte, ocupávamos o nosso tempo livre também com outros hóspedes, pelas capelas nocturnas da cidade. Pelos cafés em bate papos sem sentido, pelos cinemas a papar bons ou más filmes. Desde o Leopardo, de Visconti, até coboiadas spaghetti. Outras vezes andávamos por boites à procura de garinas perdidas.

Só uma achega. Entreguei a narração ao meu amigo porque esta é a parte chata. Coisas de alcova, intimidades, causam-me sempre algum engulho. Penso que deve ser trauma de infância mal resolvido. Aconteceu quando tinha para aí cinco ou seis anos. Lembro-me que no ano seguinte ia entrar para o ensino primário. Fui com um grupo de meninas com quem brincava as brincadeiras da infância assexuada visitar a escola. Dirigimo-nos para as traseiras onde existia um pátio que tinha retretes, um luxo dos edifícios salazaristas, mas que nunca vi abertas. Ali continuamos a brincar imitando a vida dos adultos. Foi aí que, com naturalidade, me bateu, que faz parte da vida dos casais produzir filhos. E foi com toda a naturalidade que propus a uma Maria que podíamos fazer um menino. Nada que fosse além da natural proposição bíblica "crescei e multiplicai-vos". A moça, certamente dentro do mesmo espírito aceitou sem hesitar. Pusemos as restantes em alerta e preparamo-nos para a função. Não deu. Arrependimento repentino? Nem por isso. Aconteceu um factor inesperado. Foi o factor avó que apareceu do nada e sem ter sido convidada. E ainda bem. Mas que jeito tem, querer ser pai, aos seis anos de idade. Visto à distância foi uma ideia completamente destrambelhada.

Não se concretizou mas marcou-me negativamente. Quando comecei a frequentar a catequese, por imposição do senhor professor, adepto do estado novo e católico fervoroso. apercebi-me da tragédia que era cometer pecado carnal. É verdade que não cometi por obra ,mas fi-lo por pensamento. Esse fardo perseguiu-me durante algum tempo. Dentro da escola especialmente, não tinha coragem para olhar para o crucifico pendurado na parede entre os senhores presidentes. A situação resolveu-se no dia em que fiz a primeira comunhão. Deixei esse peso no confessionário. O senhor prior, a troco de umas rezas, perdoou-me. Mas penso que este acontecimento, de forma inconsciente, continuou a perseguir-me. Feito o esclarecimento passo ao narrador ocasional.

É apenas uma teoria sem validade científica, mas acredito que as coisas acontecem quando têm que acontecer. Depois de andar à caça de gajas sem grande sucesso caiu-me uma no regaço sem dizer água vai. Estava a descansar o esqueleto depois de mais um dia sem vender um único aspirador, entrou o Zé que tinha ido encontrar-se com uma colega dos administrativos que andava a catrapiscar há uns tempos(e eu roído de inveja)

-Então Zé tiveste uma nega? Disse e pensei “é bem feito” pois tenho este defeito de ficar feliz com a desgraça dos outros, pelo menos nesta matéria. Mas não devo ser o único

-Qual nega qual carapuça. Pior. Fui buscar uma e aparecem-me duas. Não há fome que não dê em fartura. Ainda pensei que o contrapeso era uma espécie de pau-de-cabeleira, mas não. A tipa não parou de me chatear a moleirinha. Quer que lhe arranje um parceiro dos meus conhecimentos. Lembrei-me de ti, afinal somos mesmo parceiros

Claro que aceitei. Descolei a carcaça de vale de lençóis e vesti o meu fato cor café com leite e desci ansioso pelo inesperado encontro. Assim como assim não tinha nada a perder. Entrei no carro onde o Zé me esperava com as moças. Fomos ver a Janela Indiscreta de Hitchcock, bebemos cacau quente na ribeira e devolvemos as garinas ao apartamento que partilhavam nos subúrbios. E outros encontros vieram até ao dia em que fomos convidados a jantar no remanso do lar das garotas.

Nesse dia D (recuperei a expressão do filme com o mesmo nome) pudemos finalmente entrar na sua intimidade. Viviam num apartamento novo composto por um quarto e por uma mini-cozinha-sala, construído para solteiros, solteirões e divorciados. Depois da refeição, pouco relevante, a minha Maria Teresa levou-me para o quarto para me falar do seu passado. O Zé ficou na sala com a outra Maria. Sentámo-nos na borda da cama a folhear um álbum fotográfico. A Maria vestia uma mini-saia que lhe destapava metade do corpo miúdo. Está visto no que isto ia dar. Não havia escapatória. Fizemos sexo isto é demos uma e outra, até à saciedade.

Alto e para o baile, pausa na narração para fazer uma declaração de diferenças. Cada macaco no seu galho. Não me identifico com tal linguagem. Nunca escreveria fazer sexo, muito menos dar uma. Apesar de um pequeno deslize na infância, quando tive a estapafúrdia ideia de querer ser pai aos seis anos, curei-me. De quando em vez, batem-me umas reminiscências, mas são passageiras. Além disso, fui educado nos princípios da boa moral religiosa. Referir-me ia a esse acto, usando outra formulação. Por exemplo diria, fazer amor livre ou dar protagonismo ao império dos sentidos, sem barreiras. E cada um que tire as suas conclusões. Nessa linha de abordagem não vou descriminar o que fiz (ou não fiz) nessa noite com a minha Maria sem apelido para não a comprometer, onde quer que esteja. Nesta matéria fica a nebulosa para espicaçar a imaginação. Nos tempos que correm, quem gostar de pormenores tem à mão literatura adequada.

Passamos a frequentar a casa dessas namoradas, chamemos-lhe assim, e andávamos satisfeitos com a experiência. Um dia estávamos no nosso quarto um pouco aborrecidos com a pasmaceira da vida. Não tínhamos programado nada. Às tantas, por empatia, decidimos: vamos fazer uma surpresa às tipas, pois não estava previsto. Fomos. Em má hora. A minha cara-metade estava acompanhada por um garanhão de farto bigode, assim tipo de pegador de toiros. Abreviando, foi apanhada com a boca na botija e foi aí que me apercebi da qualidade da peça. Fazendo jus ao nome, a minha Maria era uma espécie de madre Teresa de Calcutá do sexo. Não podia ver um pobre com fome. Quero esclarecer que nem só de pão vive o homem A Maria Teresa tinha logo de praticar caridade. E praticava-a bem. Eu tinha tido o meu quinhão. Compreendi. Segui a minha vida.

O Zé manteve a relação com a Maria sem apelido, por mais algum tempo. Mas percebi que o caso não tinha pernas para andar. Só o Zé não percebeu. E embora as razões não fossem de ordem hardcore como as minhas, também foram bastante cabeludas. Eu saí inteiro, tal e qual como entrei, mas o Zé não. Passou um mau bocado. Nem me quero lembrar.

Continua