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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

E agora José?

 

Caí de paraquedas naquela turma de preparação para o ensino superior. Nem sabia o que ia lá fazer. Há razões que a razão desconhece. Talvez estivesse ali para preparar as provas de acesso, talvez quisesse ocupar tempo sem ocupação, talvez fosse determinação do destino. Quem sabe? Se calhar, nem Deus .As aulas tinham começado há algum tempo. Os outros alunos já se conheciam, mas eu, que não sou muito ousada, sentia-me um pouco à margem. Era uma espécie de patinha feia.

Um dos colegas que me prendeu a atenção foi o Zé. E por duas razões: tinha a sensação que o conhecia de qualquer lado e porque ele costumava dar nas vistas durante os debates. Na primeira aula de Filosofia a que assisti a propósito de filósofos pré-socráticos, o professor referia a oposição entre Parménides e Heraclito. O primeiro explicava o mundo como uma permanência e o segundo defendia a constante mudança. Ninguém consegue tomar banho duas vezes no mesmo rio, era um dos seus argumentos. Lembro-me que o Zé entrou na discussão desviando o assunto para a área politica. Dizia ele “ é o que se passa cá com a intersindical e com a UGT” .Uns querem ser os únicos os outros reivindicam o direito à diferença. Estávamos no chamado PREC e deu para ver que o Zé se assumia como ativista militante.

Notei que o Zé se sentava-se ao lado duma lambisgoia de grandes olhos e tão negros como carvão. Verifiquei que no fim das aulas saiam juntos com outros colegas, formando um grupo que se juntava no fim das aulas. Passado algum tempo , o Zé e a delambida deixaram de se sentar juntos. O Zé sentava-se na fila da frente e eu na última. Um dia o Zé virou-se para trás e pousou o olhar na minha pessoa sem pedir licença. Mas não me amofinei. Antes pelo contrário, deixei os meus olhos voar ao encontro dos seus. Enfeitei esse voo com o meu melhor sorriso. Depois subiu-me um calor dos pés para todo o corpo. E vi-me a questionar a minha lucidez “Maria Alice, Maria Alice, estás a desvalorizar-te”

Não sonhava que naquele ano de setenta e cinco ia haver um verão tãoquente. Na natureza e no dia a dia. Desiludi-me com a política partidário e com os pequenos e grandes interesses que a moviam, e dei de frosque. Tinha concluído o curso liceal e para melhorar conhecimentos matriculei-me no curso Hadoque para acesso à Universidade.

Essa turma era constituída por um grupo muito heterogéneo. Uns preparavam-se para os exames de acesso, outros nem por isso. Nessa situação encontrava-se Lígia Maria, que nos seus grandes olhos pretos, trazia a tristeza de uma relação terminada. Viúva de sentimentos, frágil de confiança, ganhou coragem para chorar no meu ombro. Que podia fazer? Acho até que sou feito da massa dos anjos. Com uma diferença é que ao invés dos ditos, acrescentara-me o sexo. Nessa dupla condição fui confortando a Lígia conforme podia e sabia. Depois das aulas que terminavam às onze, íamos até ao velho Império para estudar. Hoje virou igreja, mas naquela altura era cinema e um café cosmopolita. Tínhamos um pequeno grupo, que noite adentro, matava o tempo, num animado bate-papo, ao sabor das palavras que segundo se diz são como as cerejas. Além da minha pessoa e da menina dos olhos grandes, havia o António Feliz que tinha sido deixado em terra por uma hospedeira de bordo., e havia o Marinho que tinha vertigens e não gostava de corpos femininos porque eram muito sinuosos.

Como não há bem que sempre dure desentendi-me com a Lígia, nem me lembro

bem porquê. Possivelmente por ninharias. É por aí que começam os desentendimentos. De qualquer modo, ela tinha encontrado o tempo de equilíbrio e, se calhar, desejava um diabo que a desequilibrasse. Ingrata.

Comecei, então, a reparar numa novata, discreta, que se sentava na coxia da sala. Catrapiscámo-nos. No intervalo trocávamos umas ideias sobre os assuntos da aula. Transmitia alguma serenidade e ajudou-me a colocar na caixa das memórias esquecidas a menina dos olhos negros.

Quando a delambida se deixou de se sentar ao lado do Zé, enchi-me de coragem e aproximei-me com o pretexto de lhe pedir que me esclarecesse algumas dúvidas. Mas as minhas dúvidas não se prendiam com a matéria. Nem eu sei porque lhe estava a dar bola. Receava estar a ficar oferecida. Por outro lado estava certa quando me pareceu que já tinha visto o Zé. E tinha. Afinal trabalhávamos na mesma empresa, em secções e edifícios diferentes. Eu trabalhava na secção de pessoal onde lidava com processos de trabalhadores. Recordei-me que o processo do Zé tinha-me passado pelas mãos, e reconheci-o na fotografia. Mas ao vivo não desmerecia.

 

No fim do ano lectivo toda a turma se juntou para conviver incluindo os professores. O Império era o ponto de reunião. Fomos informados que iriamos para uma discoteca na zona histórica. Distribuímo-nos pelos carros disponíveis e quando me apercebi estava no carro do Zé. Só nós dois. Partimos para o local combinado. No decurso da viagem caiu um aguaceiro de criar bicho. Perdemo-nos dos restantes e enganámo-nos no percurso. Ao entrarmos na discoteca uma voz anunciava furiosamente. “A menina da gabardine creme e o cavalheiro de bigode não têm lugar. De facto, não cabia naquele sítio nem sequer uma agulha. Fizemos ouvidos de mercador e furámos por entre uma multidão anestesiada. Dos colegas nem havia rasto. Perguntamos ao porteiro se ali tinha estado um grupo numeroso. Disse-nos que sim, mas como não havia lugar tinham ido embora. Admitiu que o informaram do local mas não se recordava. Passámos a noite a subir a descer colinas de discoteca em discoteca, como passageiros perdidos na chuva. Era como procurar o Wally.

Ao dobrar da noite conferenciamos e decidimos desistir. Lembro-me de ter dito: “uma noite para esquecer” e de o Zé ter respondido, “talvez seja para recordar”. E foi.

Na noite em que me perdi com a Maria Alice numa Lisboa diluviana, enquanto os outros companheiros de estudo, estavam num aconchego seco e agradável, a deglutir uma saborosa bebida e abanar o capacete, como se dizia, tive a convicção que me começava a meter em sarilhos. Debaixo de um aguaceiro impiedoso , por ruas quase rios, perdemos o contacto. Mas porque raio os alarves não esperaram que chegássemos? E para além de ficar com a criança no colo, (salvo seja) quando nos voltámos a encontrar, ainda me acusaram de me ter afastado para desencaminhar a donzela. Uma ova. Não queria desiludir a moça que confiara na minha competência e fiz das tripas coração para levar a carta a Garcia. Senti-me um pouco ridículo , mas ao fim e ao cabo a ela não me pareceu muito aborrecida.

Primeira paragem: cabine telefónica. Procurar desesperadamente nomes de discotecas

E a Maria Alice à espera no carro

Segunda paragem: regresso à discoteca original para ler a lista ao porteiro, na esperança que se lembrasse de um nome que me orientasse.

E a Maria Alice à espera

Terceira paragem: discoteca Boa Noite. Entrar, sair e nada.

E a Maria Alice a seguir o delírio.

Mais e mais do mesmo. E a Maria Alice com uma paciência de santa.

Fizemos os exames de acesso à Universidade. Uma pequena parte da turma entrou para a Faculdade de Letras. Aproveitámos o balanço e constituímo-nos em grupo de trabalho. No primeiro tema que tivemos que desenvolver distribuímos tarefas e depois reunimo-nos para concluir. Quando a Maria Alice apresentou a sua parte, o António Feliz, que devia estar num dia não, arrasou o texto da moça. Imagino como ela se deve ter sentido, mas reagiu serenamente. Disse que se afastava do grupo, contudo deixaria o seu contributo se assim quisessem. Na sequência deste acontecimento desistiu dessa e de outras cadeiras. Ainda tentei que reconsiderasse. Em vão. Manteve-se firme. Deixei de a ver.

No ano a seguir à conclusão do curso, porque tive saudades do ambiente universitário e porque queria fugir à rotina da análise de dados, matriculei-me em duas cadeiras suplementares. Na empresa continuava entre a cruz e a caldeirinha, isto é entre o chefe e a menina Maria Ana. Para mais já não ia a despacho com o engenheiro Casanova.A versaão oficial era que o engenheiro tinha ido fazer uma actualização aos Estados Unidos. Numa outra versão constava que teria pediu transferência porque a menina Ana era muito exigente.

Fosse porque razão fosse a Maria Ana tentou reaproximar-se de mim. Lembro-me que, da minha janela, olhava para o cais e via os barcos parados. Senti que esse navio já tinha deixado o porto.

Entretanto começaram as aulas na faculdade. Ao sair de uma dessas aulas, deparei-me com uma figura discreta sentada ao cimo de uma escadaria. Ao aproximar-me visualizei uma dama esguia que vestia uma gabardine creme. Ao chegar mais perto pousei os olhos num rosto calmo com um leve sorriso.

-Alice? Como estás? O que fazes aqui ?

Estou a fazer tempo para a próxima aula.

E tu? Pensava que já tinhas terminado!

Terminei, mas vim fazer cadeiras extra.

E então pá, para além disso, que tens feito? Casaste, tens meninos?

Embatuquei. Durante uns segundos fiquei paralisado. Fugi à questão. Repliquei a pergunta.

-E tu? Casastes, tens meninos?

-Que eu saiba ainda não se podem fazer sozinhos.

Pasmei. Tanto tempo passado, A Maria Alice tinha evoluído na arte da sedução. Ou seria da provocação?

Não sou de fugir a desafios? Entrei no jogo

-Pois se são precisos dois estamos na conta certa. Porque não passamos à acção?

Pensei que tinha jogado forte. Preparei-me para as consequências. Das duas uma: ou a Maria Alice me dava um par de estalos, ou não me levava a sério, fazia-se de desentendida e seguíamos o nosso caminho.

-Porque não? Respondeu. A proposta só peca por tardia. Há muito que estou à espera. Sou paciente. Tenho-te seguido ou esqueceste-te que tenho o teu registo à mão de semear. Houve uma altura que pensei que a bruxa dos olhos negros te tinha seduzido. Mas pela tua ficha constatava que continuavas solteiro. Até me apercebi que foste coordenar o departamento de comunicação.

É verdade. Quando me fizerem o convite não hesitei. Há muito que pretendia deixar a secção de análise de dados onde era penoso ver o chefe cada vez mais ensimesmado. Algum tempo depois de saír chegou-me aos ouvidos que o chefe tinha tido acesso às mamas da menina Ana. E dizia-se que o chefe emagrecia e perdia a cor como um tecido má qualidade. Uma manhã chegou com ar abatido, sentou-se e esparramou-se em cima da secretária. Morreu no seu posto, sem nunca chegar ao seu vinte e cinco de Abril. Houve quem atribuísse culpas à saciedade da Maria Ana e a excesso de comprimidos azuis. Do que eu me livrei.

-Mas voltando à tua sugestão: Convido-te para um jantar. Eu mesma o preparo, no apartamento que comprei na periferia. Pode ser amanhã?

Engoli em seco. Não estava à espera de uma terceira hipótese de reacção. A garota mostrava-se atrevidota. Não quis dar parte de fraco. Ainda tinha um dia pela frente. Enquanto o pau vai e vem folgam as costas. Aceitei. Quem sabe se era bluf.

-OK. Amanhã conta comigo. A que horas?

Tirou uma folha de um caderno, escreveu um endereço e rabiscou um esquema que me entregou

-Aqui está. Espero-te às oito. Não te atrases para a comida não esfriar.

Despedimo-nos. Enquanto atravessava a nave até à saída, fui invadido por um turbilhão de ideias contraditórias. Se tivesse num jogo de xadrez tinha levado cheque mate. Por outro lado lembrei-me que .t eria que procurar um novo alojamento. A dona Mariazinha ia fechar a hospedaria. Recebeu uma proposta do Paco Caballero. Aceitou e ia viver com ele. Estava de partida para a Andaluzia. Dizia que aos cinquenta, se não montasse aquele cavalo, não passaria mais nenhum. Além disso era difícil resistir ao seu charme. Como é que se ia acomodar na vida dele, logo se via. Por isso se a Maria Alice me acolhesse ficava resolvido o problema. Mas não iria meter-me noutra alhada?

E agora José?

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