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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

08 Set, 2013

Sem tema

Porque se escreve sem receber puto? Avanço uma explicação decerto contestada por muito "escriba". Escreve-se (ou há quem escreva) para alimentar o ego. Se escrever não é tarefa fácil, escrever por escrever dá que pensar. Quantas vezes, o protagonista da escrita fica sem tema, mas mesmo assim força a cachimónia, torra os neurónios na procura do dito. E pronto, puxa do verbo, encaixa umas frases, bota uma qualquer sentença sobre um qualquer assunto. Possivelmente borrou a pintura mas satisfez o ego. E quando aliado à falta de tema, a inspiração nem lhe morde as canelas, sai mamarracho literário. Mas a escrita tem que avançar mesmo que a inspiração dê de frosque. Substitui-se inspiração por transpiração e nasce o texto transpirado. Modesto mas limpinho. Ausentou-se a criatividade ficou a persistência. Tanto esforço, tanto suor e não se recebe puto!
Recebe-se pois, dizem sempre os positivistas. Nem só de pão vive o homem.  Também vive do prazer do espírito, do gozo de dizer e ser escutado, da consolação de ser lido. Pouco? Que importa? A quantidade não se gemina com qualidade. Podem ser poucos, mas são os que nos entendem. Podem ser poucos mas é um privilégio tê-los. Com este simples pensamento linear dá-se graxa à auto-estima, e afaga-se o ego. É bom ser positivista. 
E quando se é positivista todos os santos ajudam, e talvez por isso quantas vezes as teclas do teclado (passe o pleonasmo) ganham vida própria e debitam textos dignos de figurar em antologias! É como se a criatura tomasse o freio nos dentes e superasse o seu criador Acontece, curiosamente , que essas "obras primas" da escrita, que parecem ditadas por musas que encarnam em testas de ferro ocasionais, são os que costumam passar despercebidas a leitores, avaliadores e comentadores. Porquê? Será que não se enquadram nos estereótipos que os condicionam?
  Qual é o sentido deste discurso. Deveria ser um discurso aberto, sem tema e sem inspiração, rolando sem objectivo e sem rumo porque apenas sem rumo tem pernas para andar e razão para existir. Mas se continuar ad infinito, talvez se enrodilhe numa verborreia esquizofrénica. Precisa de um ponto final. Nem sei porque foi escrito. Talvez tivesse ficado provado que se pode escrever sem tema, sem inspiração e sem receber puto. Ficou a experiência e o prazer positivista de dar vida  e espaço a alguma musa desinspirada, mas com direito a protagonismo.  MG