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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Fetiche da gabardine

 

Foi o dia mais longo da minha vida. Tinha assumido compromisso de me encontrar com a Maria Alice. Vou não vou, eis a questão que me consumia. As horas passavam lentas e pesadas. E estranhamente pareciam arrastar-me, depressa de mais, para um destino imprevisível. São estranhos os caminhos da mente. Bem a puxava para fora dessa voragem, sem sucesso.Vi-me a descer a velha Calçada de Carriche. Passei pela Odivelas, do velho convento joanino, como um autómato. Quando cheguei à urbanização cidade nova.eram dezanove e quarenta e cinco. Estes bairros suburbanos adoptavam nomes de acordo com o espírito da época. Aventurei-me por entre prédios construídos a papel químico. A separá-los, ruas mal alcatroadas, e praças à espera de decoração. Fui seguindo o esquema no papel amarrotado, e visualizei o lote 10, da rua J. Estacionei, mas faltou-me vontadepara  ultrapassar a porta envidraçada de alumínio.

Resolvi, dar um passeio, pelas ruas desertas, como um forasteiro em terra desconhecida. Apetecia-me voltar para o carro e fazer o percurso inverso. Tinha a sensação, que se entrasse naquele apartamento, ali permaneceria como uma espécie de cativo do destino.

Vou não vou. A dúvida perseguia-me como um pesadelo retórico. O meu lado de bom samaritano, insistia com uma persistência angustiante:

-Vai. Melhor, tens que ir. Comprometeste-te e és homem de palavra. Utilizar a palavra em vão é sacrilégio. Se disseste sim é sim. Não desrespeites o valor da palavra. A honra é o sal da vida. Não desonres a tua consciência. Por outro lado, a tua obrigação começa e acaba neste encontro. O que vier a seguir é outra etapa.

Vou não vou. O receio das consequências pesa como chumbo, arrasto os pés em redor do quarteirão. A parte menos honesta do meu ser queria libertar-me.

-Não te deixes escravizar por pensamentos caridosos. Acima de tudo está a tua liberdade. Usaste- irreflectidamente a palavra sim. Mas ela não faz sentido sem a palavra não. Se for esse o teu desejo assume-o. Liberta-te da escravatura da semântica porque é disso que se trata. A honra é um conceito de personagens de séculos passados. Tu és um protagonista de enredos do século XX. Se não fores,o mundo continuará a girar. Fizeste-te por ti próprio, num percurso de dificuldades. Não te deixes amordaçar pelas regras da tua consciência.Pensa em meninos, nas noites sem dormir, nos dias em consultórios médicos, em fraldários, em angústias da juventude

Começava a estar exausto, numa luta sem fim à vista, que me separava em dois. Aproximei-me de novo da entrada. Olhei para o relógio de pulso de contrabando. Marcava oito horas e quinze minutos. Estava ligeiramente atrasado. A Alice já devia estar a interrogar-se sobre a minha chegada

Será que o Zé se perdeu nas ruas mal identificadas? Será que não fiz o esquema correctamente. Será que não vai honrar o compromisso? Será que sumirá mais uma vez? Tenho vinte e oito anos e continuo a cultivar a ingenuidade da infância? Parva e idiota? Porque nos deixamos arrastar por ilusões? Porque continuo à espera de quem mesmo estando nunca está? Ou estará a campainha avariada?

 

Vou ou não vou? O dedo hesita em carregar na campainha. Deixei de me ouvir. Dou o protagonismo ao instinto. Esse instinto animal que nos empurra sem filtros. O dedo liberto de constrangimentos morais empurra a tecla. Fico mais leve e quase levito até ao terceiro andar.

A Maria Alice recebe-me com o mesmo sorriso que me encantou na turma Had Hoc há muitos anos atrás. Muita água tinha corrido debaixo das pontes. Os rios sendo os mesmos já eram outros. Nós também. Mas no fundo éramos almas perdidas à espera de um rumo. Deixei-me conduzir até à sala.

Reparei que a Maria Alice vestia uma gabardine creme, a mesma que usara anos antes, quando nos perdemos durante um vendaval inesperado. Mas se a indumentária se adequava ao contexto daquela noite de chuva, não fazia sentido no ambiente onde nos encontrávamos. São impenetráveis os caminhos da mente. No entanto, na situação pareceu-me facilmente perceptível. Só podia ter um significado simbólico, numa espécie de retorno às nossas origens relacionais. Aproveitei a circunstância para quebrar o silêncio e entabular conversa:

-Mudança de planos Maria Alice? Afinal vamos jantar fora?

-Acaso não sentiste o odor? Não é para me gabar mas não deixo os meus dotes culinários em mãos alheias. Terás hipóteses de verificar. Quanto ao vestuário perceberás no momento certo. Vou servir a comida.

Acabei por admitir que se o odor cativava, o sabor era inebriante. Alice pôs na mesa um arroz de caril que qualquer chefe indiano não se importaria de assumir. Com sinceridade lembro-me de lhe elogiar o dedo para a cozinha, ao mesmo tempo que me veio à memória o ditado popular “pela boca se deixa apanhar o peixe” E naquele momento vi-me como um peixe que estava preso ao anzol. A Alice não sei se pelo efeito do vinho que acompanhava a refeição, desinibiu-se, e falava pelos cotovelos. Decerto que estava convicta que dominava a situação. Fomos falando de assuntos ocasionais. Disse que o apartamento lhe fora oferecido pelos pais que a quiseram compensar de a ter ficado com os avós quando emigraram para França. O pai foi a salto nos anos sessenta, passou clandestinamente as fronteiras, atravessou a pé os Pirenéus, viveu na barraca de um conterrâneo no Bidonville, passou por diversos serviços. Quando arranjou trabalho estável na indústria, voltou ao país para se legalizar, pagar ao empréstimo que pedira, para pagar aos passadores. Depois partiu acompanhado pela mulher. Denotava alguma mágoa por não a terem levado. Durante sobremesa, um delicioso arroz doce, os temas foram-se tornando mais espontâneos como se tivéssemos experimentado uma longa intimidade. Ajudei-a a levantar a mesa e como fim de conversa e forma de preparar a saída arrisquei um lugar-comum:

-Estava tudo muito bom. Foi um bocado bem passado.

A Alice olhou-me fixamente. Procurei desviar os olhos mas não consegui. Era como se estivessem presos por magnetismo. Percebi que ela estava a levar o combinado à letra.

-Quem disse que o repasto já acabou? Ainda estamos no aperitivo. Esqueceste-te do que propusestes no nosso encontro casual? Esqueceste-te que aceitei e que sou pessoa de palavra? E que há alturas em que as palavras só atrapalham?

Não me deu tempo de resposta. Segurou-me nas mãos indecisas, sem nunca desviar o olhar. Encostou-se suavemente e com a leveza que sempre lhe conhecera senti o calor dos seus lábios. . Depois foi desabotoando a gabardine creme que se afastou discretamente ,e senti a macieza da sua pele. Não vou dizer que não fosse agradável aquele contacto, mas tive a sensação que o filme se estava a passar-se ao contrário.Regra geral, não era assim que as coisas aconteciam no cinema, mas este não é a vida nem a sua imitação. Talvez seja antes a sua interpretação. Não tinha escrito aquele guião, nem escolhido cenário e o guarda-roupa. Que importava? O que se passou a seguir não é difícil de adivinhar. Acordei com uma réstia de sol nos olhos numa cama onde nunca dormira. Da Maria Alice apenas restava, esparramada na alcatifa de qualidade duvidosa, a gabardine creme, como prova, de que tudo não passara de um devaneio Não esperei muito para a ver entrar com um tabuleiro repleto de comida. Admiti que a coisa não estava a correr mal, nem me desagradava. Estava a perder um pouco da minha liberdade em troca de soberania partilhada. Ou talvez tivesse escorregado nas armadilhas do destino. Daquele destino. Porque da mesma forma que uma simples vírgula muda o sentido de uma frase, um acontecimento fortuito e banal, pode mudar o sentido de uma vida. Foi o que aconteceu.

Aquela gabardine creme funcionou e continuaria a funcionar como uma espécie de fetiche desde aquela longínqua noite invernosa. Só ela, gabardine, devia conhecer o desfecho da história. Em certo sentido somos escravos de símbolos. Atalhando caminho, o que se passou depois desta noite é quase irrelevante em termos de narrativa. Acordámos ter vida em comum. Concretizamos o compromisso, civilmente, com o beneplácito de dona Mariazinha e de Pablo Caballero, que nos deram o seu aval numa cerimónia sem história. Depois os anos foram passando. Os meninos cresceram. Iniciaram uma vida própria com altos e baixos. Como tantas outras. E voltamos a olhar um pouco mais para nós.

Continua

 

 

Ouvi-me com atenção mexilhões. Eu sei que estais habituados a bater na rocha, especialmente se o mar estiver agitado. Até ganhaste uma carapaça protectora e ainda bem senão já estáveis em via de extinção. Mas isso foi chão que já deu uvas. Se calhar, não entendeis a minha linguagem conotativa. É normal. Fostes criado para apanhar na tola e não a usar com racionalidade. Essa função foi destinada aos eleitos de que faço parte, com muito poucos como a D. Merkel, o Schaulble, e poucos mais. O que vos quero dizer, na vosso linguajar é que comigo já não sois os mais fodidos. Quem são perguntam vocês? Olhem e vejam. São essa camada de ricos e poderosos. Quais? Olhem os banqueiros, os políticos, que como podem ver andam todos numa fona. Não percebem? É fácil. Leiam o Correio da Manhã e o Sol. O quê? Os funcionários públicos? Os reformados? É verdade que se tiraram alguns direitos a esses. Mas deixai-me ensinar-vos na vossa ignorância: não são mexilhões, são moluscos, são uma cambada de gastadores inúteis a sugar-vos o sangue e o dos vossos descendentes. Ou seja lixam-vos e ainda se babam. Queriam comer-vos mas eu não deixei. Mas afinal quem são os mexilhões? Sois vós quando votais, porque tendes esse direito e deveis usá-lo a meu favor. E confiai na minha palavra. Eu sou Pedro e o que vos digo está dito. Ámen. 

MG

MG

02 Fev, 2015

Efeméride-Euro

 

 

O euro faz 15 anos. Nasceu no dia 2 de Janeiro de 1999. Portugal fez parte do grupo de progenitores. Teve uma infância dócil, mas tem tido uma juventude atribulada. O seu crescimento não se fez de forma harmoniosa. Embora não pareça os problemas que começou a causar têm raízes na sua infância. Ou seja pôs-se o menino no mundo sem estabelecer condições para que crescesse com segurança. Digamos que as valências básicas nem sequer entraram no tinteiro. Uniformidade política, fiscal e bancária. Os criadores prescindiram das moedas nacionais e hipotecaram parte da sua soberania e ficaram com a criança nos braços sem saber o que fazer. Para sobreviver exige cada vez mais sacrifícios. Mais a uns que a outros. Sobretudo ao mexilhão.

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