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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

17 Jan, 2015

A preto e branco

O governo é daltónico. Se não é, imita muito bem. O teste das cores não engana. Logo após a posse pintou o país a preto e branco. Ou dito de outra forma em bom e mau. O passado era mau e o seu presente era bom. O primeiro era despesismo o segundo era poupança. Os velhos são cigarras, os novos são formigas.Para abreviar, depois veio o banco bom e o banco mau e agora, pasme-se, há sindicato bom e sindicato mau. Pormenorizando, os sindicalizados dos sindicatos que renunciaram à greve na TAP têm garantia contra despedimentos, os outros nem por isso. Ministro da Economia dixit. Disse está dito. Disse e desmentiu. Quem ousa dizer que isto não é daltonismo. Duplo daltonismo, o das cores e o dos irmãos Dalton. Está fora do policromismo e fora da lei.

MG

Nesta rubrica vou recuperar os melhores textos que aqui escrevi (escolha minha). Este foi escrito há dois anos, num dia de rara inspiração. 

 

Porque me deu na bolha fui passear os calcantes para o Shopping e como quem não quer a coisa entrei na FNAC (passe a publicidade) para pastar os olhos pelas novidades literárias. Agarrei num livro quase ao acaso e sentei-me entre uma senhora bem posta e um cavalheiro com facies(passe o estrangeirismo) indiano. Cada um deles, com os olhos pregados numa página de um livro ocasional. Nos lugares da frente, uma fila de leitores quase todos equipados com umas apropriadas lunetas na ponta do nariz, saboreavam concentrados páginas de prazeres virtuais.

 

Abri ao acaso o livro, escrito por um tal Gonçalo M. Tavares ( na badana muito premiado) e vi-me envolvido numa história com um cabrão de um guia anão e intelectual (descrição do autor) que  vociferava contra a geometria da catedral da Cidade do México, pondo os cabelos em pé aos visitantes ocidentais, alguns já motivados para tirar o raio do anão (expressão minha) de cena ,quando a visita acabou(e ainda bem). Virei a página e do anão nem rasto. Ia começar outra história no mesmo cenário citadino. Agora era um menino de onze anos que queria à viva força casar-me com a mãe ,que pelos vistos, não tinha marido. E sem ter tempo para respirar fundo, já me apresentava a dama em lingerie e dizia "é este. é este". Tirem-me desta história pensei em voz alta, sem que os leitores envolventes sequer pestanejassem. Apenas um cidadão, sentado em frente, misto de ancestralidade e modernidade (passe a indiscrição) com um boné tradicional a emoldurar uma aparada barba branca e calçado com uns ténis Nike (que se lixe a publicidade) me olhou de soslaio por cima do seu livro de artes culinárias. Isto cada tiro cada melro, pensei, pois mal virei a página já estava envolvido noutra aventura, ao procurar proteger um rapaz que apedrejara um ecrã de cinema, na altura em que o herói ia beijar a rapariga (não interessa o motivo), causando um olho negro no actor/personagem e um rombo na tela. E não fora um jovem amigo ocasional, poderia ter levado um tiro do assanhado proprietário do cinema, que ameaçava o pirralho de revólver engatilhado. Tiro-me já deste filme antes que seja tarde. Recusei mudar de página, fechei o estranho livro e li de supetão a capa. Em letras salientes dizia: Canções Mexicanas ( passe a divulgação). Levantei-me do concílio de leitores e devolvi o livro à estante. Noutro dia talvez volte a enfrentá-lo, num qualquer Shopping (com toda a descrição) numa qualquer livraria (nada de publicidade) porque este é um dia de parêntesis na rotina ronceira da puta da vida.

14 Jan, 2015

A bala e o lápis

Ao longo da história da humanidade o papel da bala e do lápis têm lugar assegurado. A bala destrói. O lápis constrói. A bala simboliza a morte, o lápis a vida. O lápis é a ferramenta do pensamento, a bala o seu cadafalso. Na longa evolução humana a bala pode ganhar batalhas, mas o lápis ganha a guerra. E se assim não fosse já não haveria humanidade.

O lápis vence a bala, título da contracapa do Charlie Hebdo.

 

 

No dia 14 de Fevereiro de 1996 foi eleito Presidente da República Portuguesa o dr. Jorge Sampaio. Pode parecer um acontecimento irrelevante. Mas não é. O dr. Jorge Sampaio foi o último Presidente da nação portuguesa. Explico: desde que Jorge Sampaio terminou o seu mandato temos apenas um ocupante do palácio presidencial. Não é, não foi e nunca será Presidente da República. É, quando muito, presidente da nação PSD. Embora tivesse sido eleito por um universo que ultrapassa o mundo laranja, sempre se assumiu na prática como o presidente de uma facção. E será nessa condição que ficará na história. Durante o seu mandato a história, registará, os anos sem presidente.

MG

10 Jan, 2015

Escreva

A escrita dá asas ao pensamento. Sem elas as ideias morriam solteiras. Sozinhas na sua solidão. Perdidas num deserto sem oásis. Com asas o pensamento rompe o espaço e o tempo. Ganha eternidade. Escrever é um acto de libertação, uma forma de driblar o pecado original.

Antes da escrita, o pensamento era pedaços de memória, dispersa e desconexa. Nascia e morria com o pensador. Apenas restavam fragmentos dispersos da sua reflexão. O mundo terá nascido de uma ideia de um Criador. Mas o mundo que intuímos é uma criação da escrita. Esta é a criadora do mundo real, porque esse mundo é o mundo das ideias. Bem o percebeu, há milénios, Platão.

Mas a escrita eterniza-se em suportes materiais. Desde as placas sumérias, até ao papel, passando pelo papiro, teve um longo percurso. Desde escribas oficiais, até profissionais da escrita, passando por copistas empenhados aumentou as asas. Estas foram crescendo dando vida a cada vez mais ideias.

Hoje atingiu a plena liberdade. As chamadas redes sociais trouxeram o direito de escrever a todos os que quiserem que o seu pensamento viva para sempre. A democracia da expressão é direito. Mais, é um dever. Exerça-a, portanto, em consciência. Escreva. Bem ou mal, com racionalidade e com emoção. Não negue a nenhuma ideia as asas que a tiram do inferno do esquecimento. As minhas ideias, as suas ideias, todas as ideias, presentes, passadas e futuras, são a garantia da continuidade da civilização. É que ainda há quem queira tirar as asas às ideias. Ainda há quem queira cortar a raiz ao pensamento. Não permita. Escreva! 

MG

 

 

E depois do Adeus

Levantei-me às sete horas e dirigi-me à cozinha para tomar o pequeno-almoço. Fazia este ritual todas as manhãs quase de olhos fechados. Tomei uma chávena de cevada quente, preparada pela dona Mariazinha e acompanhada, invariavelmente, por pão com margarina vaqueiro. No balcão da cozinha, um antigo rádio de válvulas, estava sintonizado na emissora nacional. Como todos os dias. O único tom dissonante vinha som emitido pela telefonia. Difundia estranhas canções que não me lembrava de ter ouvido.

Grândola vila morena terra da fraternidade

De quando em vez interrompia a música para passar um comunicado de um autodenominado movimento das forças armadas

Aqui posto de comando…

Era um dia de primavera onde conceito de estação do ano se confundia com o conceito político de primavera Marcelista. Senti que uma nova primavera estava em movimento. Fiquei expectante, e contrariando a sugestão do comunicado dos militares resolvi sair de casa e dirigir-me ao meu local de trabalho.

Apanhei, como sempre, o carro eléctrico 24, tão ou mais sonolento que a minha pessoa. Nos passeios caminhavam como formigas atarefadas, transeuntes indiferentes a qualquer possível alteração nas suas rotinas. Sentei-me no banco onde já tinha lugar cativo. Abri o livro que me transportava para paisagens mais agradáveis durante a viagem. Ao meu lado sentou-se outro passageiro da madrugada. Durante o percurso apercebi-me que estava a partilhar a minha leitura. Os seus olhos sorviam gulosamente as letras acantonadas naquelas páginas. Fiquei confortado por alguém estar sintonizado com os meus gostos literários. Abstrai-me da leitura e mostrei-lhe o título do livro. Disse que tinha tomado nota e agradeceu-me. William Reich e “Escuta Zé Ninguém” tinham ganho mais um leitor. Possivelmente mais um zé-ninguém, com consciência da nossa pequenez.

“Não são os maus conselhos os responsáveis pela sua desgraça persistente, mas sua própria pequenez”

Às oito horas entrei no departamento de análise de dados de circulação, da empresa onde trabalhava. Na sala só estava o Chefe, o primeiro a chegar e o último a partir. Cumprimentei-o por cortesia. Sentei-me na minha secretária junto à janela que tinha vista para o rio. Espraiei o olhar pelas gruas do porto. Um cargueiro que trazia no seu bojo sabe-se lá o quê, deixava que estivadores num vaivém coordenado lhe esvaziassem as entranhas. A minha observação foi interrompida pela entrada da menina Maria Ana. Quando chegava não deixava ninguém indiferente. Pelo porte altivo, pelas formas generosas, pelo vestuário arrojado, pelo perfume forte que a precedia como um cartão de visita. O Chefe levantava os seus olhos sexagenários, libertava-os das lentes graduadas e espreitava por cima dos aros massa, com cucupidez os seios prenhes de desejo da menina Maria Ana. Ao apertar-lhe a mão, o Chefe, levantava-se numa espécie de mesura e tinha dificuldade em segurar os olhos dentro das órbitras. Parecia que gostariam de viver, permanentente, naquelas mamas. Ao regressar da últimas férias a menina Maria mostrou a todos os colegas as suas fotos tiradas numa praia indefinida. O Chefe quase teve uma apoplexia. Correu mais tarde –boato ou realidade- de que o Chefe pedira, com o máximo sigilo, a uma funcionária intima da Ana, para lhe conseguir uma fotografia onde as mamas desafiavam a solidez do biquíni.

Nesse dia de Abril fomos executando as tarefas determinadas. As conversas seguiram o rumo de todos os dias normais. Mas, para mim, não era assim. Ansiava pelo fim do trabalho. Às dezasseis horas dirigi-me para a zona onde decorriam as operações militares. Subi a rua do Carmo. Gente apressada circulava pela calçada. Ao aproximar-me do largo com o mesmo nome, vi soldados imberbes acantonadas nas esquinas, acompanhados por metralhadoras e morteiros. Reparei que os canos das espingardas exibiam cravos. Impressionou-me o contraste entre a escuridão do metal e a luminosidade do vermelho.

Em frente do quartel da GNR estacionavam tanques. Uma multidão enchia o espaço. As árvores, nuas de pássaros, estavam ocupadas por pessoas sem asas, mas que sonhavam voar para outra realidade. Um capitão, dessa outra realidade, em cima da chaimite, exigia a demissão do senhor Presidente do Conselho. A situação arrastava-se. O comandante da força mandou os seus homens disparar. Uma saraivada de balas esburacou as paredes e introduziu-se, no interior do quartel, sem autorização, desflorando vidraças. A multidão continuava impávida e não arredava pé. Os soldados tinham como missão principal conter a multidão fora do perímetro de actuação. Às dezoito horas, o que restava do regime, rendeu-se. Veio um general para receber o poder não cair na rua. Mas o poder estava na rua.

Eufórico, integrei-me num grupo eufórico, que seguia para a sede da DGS. Gritavam palavras de ordem:

O povo unido nunca mais será vencido,

Morte aos pides,

A rua da DGS estava repleta de gente. Exigiam a rendição da polícia politica que continuava firme no seu posto. Subtilmente, um cano de metralhadora, espreitou por uma das janelas. Descarregou fogo e morte. Quando as balas voaram na direcção dos manifestantes pacíficos, um jovem excitado passou à minha frente. Parou, dobrou-se e caiu. A minha roupa recebeu salpicos do sangue que saía do seu corpo. Como ele caíram mais alguns. Fugimos dali. Lembrei-me dos anos da guerra, quando éramos atacados em emboscadas pelo inimigo. Mas isto foi pior. Estávamos indefesos. Apenas queríamos um país livre. A mancha vermelha simbolizada pelos cravos foi regada com sangue inocente.

Cheguei a casa com uma estranha sensação de alegria e tristeza. Um contentamento descontente, como disse o poeta. A dona Mariazinha ,ao ver-me entrar, ficou estarrecida.

-Mas está ferido?

-Felizmente não. Fui salvo por um escudo humano. Estou bem. E a senhora em breve poderá ver o seu filho em liberdade.

Naquela primavera de 1974 vivi dias muito intensos. Não consegui ficar indiferente. Increvi-me num pequeno partido de esquerda, a FSP. Era dirigida por um revolucionário romântico, proveniente dos católicos progressistas, e que conhecera num protesto contra a ditadura na capela do rato. A actividade política absorvia-me. Foram tempos de grande entrega. Conheci gente que queria ajudar sem exigir nada em troca. Não era carreirista. Havia vida para além da política. Também convivi com outros, então desconhecidos, que haviam de vir a exercer altos cargos na estrutura do Estado. E fizeram por isso. São contas de outro rosário.

Continuei a exercer a minha actividade profissional. Na sala de trabalho respirava-se mais alegria. O Chefe, à espera da reforma, usava e abusava de um frase tipo para se referir ao futuro: “quando chegar o meu vinte e cinco de Abril, é que serei livre”. A menina Maria Ana estava cada vez mais espampanante. Um dia, levantou-se da sua secretária, que ficava ao lado da minha, aproximou-se e colocou uns gráficos à minha frente. Disse:

-Ó democrata (era assim que me tratava, por causa da minha actividade política) podes ajudar-me a esclarecer uma dúvida?

Ao mesmo tempo encostou a sua anca farta à minha cadeira e deixou que as mamas pousassem no meu ombro. A sua cara deslizou descuidada pela minha barba de pretenso revolucionário. Dos seus lábios salientes adivinhei um sabor indescritível Tive a sensação que circulação sanguínea estacionou no rosto. Um calor abrasador ruborizou-me as faces. Pensei que os pelos faciais se iam incendiar. Tive vontade de a deitar na secretária, como fazia um detective de romances policiais, chamado Ross Pin, às suas garotas. Respirei fundo. Olhei de soslaio para o Chefe. Senti o impacto dos seus olhos como setas envenenadas. Sacudi delicadamente a menina Maria Ana.

-Volta ao teu lugar, disse. Vou analisar e depois dou-te a resposta. E darei. Nunca deixo cair uma promessa.

Saí da empresa e caminhei durante uma hora à beira do rio. Uma brisa suave refrescou-me as ideias. Precisava de reflectir. A mente não me ajudava a encontrar uma saída. Entre a imagem do Chefe e o corpo da menina Maria Ana não lobrigava uma terceira via. Recorri à memória de cinéfilo e lembrei-me de “tudo o vento levou”.

- Amanhã penso nisso.

Ao regressar à hospedaria tive uma agradável surpresa. O Toni tinha aproveitado a amnistia que o novo governo tinha concedido aos desertores, e ia regressar para visitar a mãe. Devia chegar a qualquer momento. A mesa do jantar tinha mais um prato. Não seria suficiente. O Toni chegou com companhia. Abraçou a mãe e disse:

-Trago-te uma surpresa!

- Não me digas que trazes uma francesa?

--Negativo. Trago um espanhol. Espero que o trates bem. Entra Paco.

. Do escuro do patamar saiu como um D. Sebastião, o avantajado Paco Caballero.

-Como es la senhorita?

-Tomei a decisão de trazer o Paco que nunca tinha saído da raia e queria conhecer Lisboa. Era o mínimo que podia fazer, para retribuir o que fez por mim. Mãe, trata-o bem.

-Seja bem-vindo, disse Mariazinha, sem conseguir evitar um ligeiro rubor.

-Ao chegar ao meu local de trabalho tive uma surpresa anunciada. A expressão facial do Chefe, aquando do episódio com a menina Maria Ana, previa borrasca. A minha secretária fora deslocada para longe dos seios que o obcecavam. Perguntei-lhe:

-Porque mudou a minha secretária. Respondeu:

- No lugar onde estava influía no seu rendimento profissional.

Considerei-me desconsiderado mas amochei. Não valia a pena alimentar uma discussão com um indivíduo perturbado por mamomania. Sentei-me no meu novo lugar. Conversa acabada.

A pesar disso, iniciei uma espécie de pré-namoro com a menina Maria Ana. Quero dizer que, não era carne nem era peixe, nem sim, nem sopas. Íamos ao cinema ver filmes tipo Lagoa Azul. Curtíamos o sol à beira-mar. Jantávamos em restaurantes discretos. Sempre acompanhados do seu irmão. Pelos vistos, a dama queria dar uma de moça recatada, à procura de aconchego para o futuro.

Em determinada altura comecei a estranhar a sua ida ao gabinete do director, o engenheiro Casanova, um pinga amor, solteirão, que se deslocava num MG descapotável de dois lugares, em qualquer estação do ano. Eu sabia que ela ia em funções profissionais. O que se tornou anormal foi o aumento das visitas para despacho. Também o Chefe começou a questionar tal vaivém. Um dia seguiu-a. Entrou de supetão no gabinete e ficou chocado. A menina Ana estava a despachar no colo do engenheiro e sem a presença do irmão. Talvez por falta de cadeira. Seja como for, o acontecimento começou a circular à boca pequena pelo departamento.

Tirei uma conclusão imediata: a Maria Ana sonhava alto e jogava em vários tabuleiros. Claro que se tivesse sido menos dotada de dotes físicos e um pouco mais de raciocínio lógico, teria percebido, que com aquele cavalo não saia do estábulo. Pela parte que me tocava não estava disposto a ser o burro que carrega. Concentrei-me de novo no estudo para me abstrair. Matriculei-me numa turma de preparação AD-HOC, para me candidatar ao ensino superior.

Continua

07 Jan, 2015

Somos Charlie Hebdo

A humanidade deparou-se com mais um ataque bárbaro. Como em ataques semelhantes, indivíduos sem rosto e sem identidade, massacraram cidadãos inocentes. Gente sem escrúpulos, sem religião, sem cultura, sem valores, mostraram o lado mais negro do género humano: a bestialidade. A abominável violência que praticaram não tem explicações lógicas. É fruto de mentes a raiar a loucura.

A civilização ocidental tem milhares de anos de evolução humanista, duas décadas de assunção da liberdade, e outros tantos de luta pela igualdade de facto. Os que não aceitam o direito do homem a ser livre, gostariam de fazê-lo regressar aos tempos do obscurantismo. Mas a conquista da liberdade, de pensamento e de expressão, já está inscrita no ADN da humanidade. E estes actos de violência gratuita acabarão por reforçá-la.

A resposta está ser dada espontaneamente por milhares de cidadãos em todo o mundo. Neste processos mostramos que a barbárie não passará. A liberdade hoje chama-se Charlie Hebdo. Mas esta demonstração de defesa dos valores humanistas precisa de ir mais além. Precisa de uma reflexão sobre como lidar com este fenómeno. Tem de se reformular a política de armamento bélico em detrimento de investimento, em sistemas de segurança e informação, que visem acompanhar de perto estes movimentos de fanatismo. As populações não podem estar na mira de assassinos, que usam a nossa liberdade para a procurar destruir.

MG

07 Jan, 2015

Dia de reis

A vida às avessas eis a simbologia que se pode extrair da adoração de um menino pobre por três Reis. Ricos e poderosos, saem dos seus palácios e caminham guiados por uma estrela, para oferecer riquezas terrenas a um desconhecido nascido na pobreza de um estábulo. E para além da crença ou da não crença na sua divindade, a cena da natividade constitui uma lição, nunca aprendida por muitos, de que todos somos pó da mesma estrela. Muitos reis brilharam como fogo fátuo. Vieram e foram, sem deixar rasto visível. Mas os três Magos ,como o Menino, continuam a viver na memória e no coração dos povos, como protagonistas de uma revolução de pensamentos e valores que esteve na génese de uma cultura de tolerância, solidariedade e respeito pela dignidade humana. Os Magos estão hoje enraizados nas tradições populares, como a do cantar os reis, onde se diluem. Como há dois mil anos, sem clivagens sociais. Em tempos de retocesso humanista convém não esquecer. Bons reis.

 

MG

06 Jan, 2015

Cantar os reis

 
 

  Hoje é dia de reis. Não daqueles reis que ao longo dos séculos criaram ou destruiram paises, não daqueles reis de ceptro e coroa, hoje em vias de extinção, mas dos verdadeiros reis, os guardiões da sabedoria e dos valores do espírito e que se enraizaram nas tradições da religiosidade popular.

Aqui divulgamos e recordamos uma tradição popular existente no concelho de Alenquer, designada como "Cantar dos Reis" e constituída por  por uma linguagem pictórica e coral. .Para o efeito e com a devida vénia,vamos servir-nos de um roteiro intitulado, Concelho de Alenquer, Subsídios para um roteiro de Arte e Etnografia, volume 2.

Escrevem os autores: " Quem percorre o nosso concelho, com frequência, já deve ter reparado nuns desenhos característicos pintados, nas paredes, ornando, lateralmente portas de casario. è costume pintarem-se estrelas,flores, corações e vasos...para uma melhor compreensão dos conteúdos de linguagem do canto e da pintura dos Reis, apresentamos separadamente cada uma das suas linguagens".

Zeca

       

 

     

 

O ano velho partiu sem deixar saudades. O novo ano chegou cheio de incógnitas e de previsões. Se formos optimistas esperamos que possa ser melhor. Se formos pessimistas torcemos para que não seja pior. O que sendo improvável é possível. Contudo, o ser pior, não se deve a uma fatalidade. Fatalidades são coisas que não conseguimos controlar, porque estão fora do nosso alcance. Fenómenos da natureza, mistérios da divina providência.

Mas podemos controlar aquilo que criámos e dirigimos. Por exemplo, criamos riqueza e podemos distribui-la de forma mais equitativa. Por exemplo, poluímos irracionalmente e podemos ser mais ecológicos. Por exemplo, geramos conflitos pessoais, colectivos, institucionais, internacionais e está na nossa mão evitá-los, Por exemplo, aumentamos pobreza e era fácil diminuí-la. Podemos escolher lideranças políticas competentes e motivadas pelo interesse geral, mas continuamos a escolher demagogos, oportunistas e populismos, quando não coisas piores. Podemos, sem qualquer conotação política, mas abdicamos desse poder. 

2015 poderá ser mais do mesmo. Também poderá ser diferente se nós quisermos. O problema é que não queremos. Aceitamos a exploração, a desigualdade de direitos, a organização da sociedade, a repartição da riqueza como fatalismos. Não são. Mas só deixarão de o ser quando tivermos consciência do nosso poder. Até lá, ano após ano, não sairemos do muro das lamentações. Até lá, o ano novo não passará de uma comemoração meramente simbólica.

MG

 

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