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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Caminha-se a passos largos para mais um Natal. O frenesim sente-se nos espaços comerciais. As decorações feéricas são bengalas que não nos deixam  ignorar. A música que já temos gravada na memória monopoliza os espaços. Àrvores decoradas, luzes e luzinhas piscantes perturbam o sono das noites. Gentes apressadas atopelam-se, invadem lojas, e carregam sacos coloridos. O Natal capta os corpos e embebeda as mentes. É o espírito natalício: amor e paz embrulhados em consumo.

As famílias começam a pensar na consoada: muita comida, muita bebida, servidas em taças de harmonia. Esquecem-se discordâncias e desentendimentos. Uma trégua nas agruras do quotidiano. Uma pausa na realidade. Depois a vida continua.

O 25 de Dezembro comemora, a nível religioso, o nascimento de Jesus. Simbolicamente significa a libertação da humanidade dos pecados que acumulou. A mensagem que transmite é a de um mundo livre de opressão e iniquidade durante todos os dias do ano. A festa do pai Natal, com o seu cortejo de consumo condicionado, assemelha-se mais a uma comemoração pagã. Legítima mas pagã. Este espírito natalício não se enquadra no sermão da montanha.

MG

 

A manhã do dia um de Dezembro de 1640 estava fria e um pouco enevoada . Parecia ser mais um dia como tantos outros na vida do país ocupado. Na palácio do governo, a representante de sua alteza real Filipe IV , a duquesa de Mântua, preparavam-se para iniciar mais um dia de governação. Mas iria ser um dia diferente, o primeiro do renascimento da independência nacional.

Às oito horas, começaram a colocar-se, discretamente, junto do Paço os conjurados, como tinha ficado acordado. Era um grupo pequeno de cerca de quarenta nobres. Quando o relógio da Sé marcou nove horas, saíram dos coches, desmontaram dos cavalos, dirigiram-se com determinação para o Paço, dominaram os desprevenidos guardas, entraram no gabinete do espantado secretário da duquesa, Miguel de Vasconcelos. Um tiro certeiro demitiu-o de imediato, enquanto a duquesa, atordoada pela surpresa entrava na sala para ser imediatamente detida. Ao mesmo tempo que atiravam o corpo exangue do secretário para a rua, D. Miguel de Almeida de espada nua nas mãos gritava, com a voz algo embargada pela emoção, para o povo que se começara a juntar:

-Liberdade portugueses! Viva el-rei, D. João o Quarto.

Nesse longínquo dia 1º de Dezembro Portugal voltaria a ser um país soberano. No entanto, a consolidação da independência custaria ainda muito suor e sangue. Só passados vinte e oito anos de luta armada e diplomática foi celebrado o acordo de paz com Castela. Em 1910 os republicanos que tinham derrubado a monarquia decretaram, ironicamente, o dia 1.º de Dezembro feriado nacional.

Hoje, um século depois, perdeu essa condição por deliberação de patriotas de pin na lapela e apenas para cumprir determinações de potências estrangeiras, que com a total conivência dos governantes actuais, cativaram em parte a nossa soberania.

A restauração da independência foi um episódio sem o qual Portugal como pais independente não existiria.  E quem pensa que é dado adquirido está enganado. Haverá sempre quem esteja disposto a aliená-la por dez reis de mel coado. Daí que a manutenção de uma nação soberana seja uma luta constante. Daí que os símbolos que marcam essa luta, como o 1.º de Dezembro ou outras, sejam fundamentais para manter a unidade nacional. Aliená-los a troco de um suposto prato de lentilhas é uma traição aos restauradores. A essência de uma nação na está na economia mas na cultura. Por isso, o 1º de Dezembro, voltará a ser feriado. Quando esta gente sem brio, sem dignidade, sem firmeza, sem competência e sem patriotismo se for embora. Falta cada vez menos..

05 Dez, 2014

Escrever sobre nada

Vou escrever sobre nada ou usando outra formulação sobre coisa nenhuma. Exercício deveras difícil, senão pretensioso. Depois de escrever a propósito de quase tudo, começa a faltar, ao escrevente, assunto que mereça uma linhas. Cansei-me. Sobretudo em tempos de verborreia desenfreada. Em que não há bicho careto que não bote faladura em letra de imprensa. Nos jornais, nas revistas, nos sites, nos blogues e nesse viveiro opinativo que se chama facebook. As opiniões pululam como cogumelos, domesticados, selvagens, venenosos. E nem sequer prestigiam o debate ou a reflexão. São tratados de assertividade, de soberba, de insensatez, de insultos, de mau gosto, embrulhados em prosa bárbara. A cultura de massas expressa em texto público chegou ao povo. O uso do verbo, pela plebe, instaura o populismo discursivo.

Alto e para o baile. Propus falar do nada e já vão resmas de frases a matraquear opniões pessoais sobre alguma coisa. Concentremo-nos no nada. Mas afinal o que é o nada? Existe? Se é nada, não existe, e se não existe o que se pode dizer? Nada! Voltamos ao início. Concluo que esta tentativa não passou de um passo em falso. No nada. Contudo um passo. Fraca consolação.

Admito que mentes brilhantes o consigam fazer. Vem-me à memória um exemplo: o do  comentador Marcelo. Com efeito, ainda recentemente o ouvi fazer referência, a afirmações de uma jovem, sobre acontecimentos a que teria assistido na Assembleia da República. Pelo que veio a lume, a tal jovem, não esteve nesse local e não os podia ter presenciado. Nesse sentido não teriam existido. A ser assim o professor esteve a falar de nada. Aí está! E outros exemplos poderia dar sobre temas que alimentam o imaginário da comunicação social. Mas não dou para não me desviar do assunto proposto.

Afinal pode-se falar de nada. Começo a perceber. Se calhar aqueles que escrevem sobre tudo e mais umas botas, a propósito ou a despropósito, estão a falar de coisa nenhuma. Ou, ao invés, será que estão a dizer nada enquanto peroram sobre tudo? Vai dar ao mesmo. Desisto. Operação falhada. No fim desta pretensa não-crónica o que se aproveita. Nada!

 

MG

  

 

   

O tele-comentador Marcelo Rebelo de Sousa, apresentou no seu sermão dominical, o conteúdo de uma carta apresentada por uma aluna de escola secundária, que teria visto os deputados da nação a ver "jovens avantajadas" nos seus computadores na Assembleia da República. Ao que consta, em desmentidos, a dita aluna não esteve na Assembleia no dia referido, nem em qualquer durante a discussão do Orçamento.

Se Marcelo dá espaço informativo a uma carta que que relata uma visita inexistente, significa que noticia acontecimentos sem os comprovar. Das duas uma: ou é crédulo ou é tanso. Ou ,o que é mais grave, alinhou com uma mentira que despretigia a função parlamentar. Que uma jovem inconsciente o faça numa atitude de irreverência saloia, vá que não vá. Que o sénior Marcelo embarque neste embuste brada aos céus. A não ser que o comentador acredite que isso aconteça e considere a casa da democracia um antro de depravação sexual.

 

ps mas por que raio é que os ilustres deputados estavam todos a ver jovens avantajadas? não haveria nem um que tivesse outros gostos estéticos? essa formulação não dava para desconfiar?   

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