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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Depois da fome, da guerra

Da prisão e da tortura

Vi abrir-se a minha terra

Como um cravo de ternura


E agora o povo unido nunca mais será vencido



Este poema de Ary dos Santos que foi canção ícone da revolução dos cravos é exemplificativo do exagero ingénuo dos poetas. Por duas ordens de razões: a primeira é que o povo nunca foi unido; a segunda é que sempre foi e continuará a ser vencido. O povo aqui visto como a classe produtora, aquela que produz a riqueza, mas que dela não é a maior beneficiária e sempre esteve dividido.


No caso da revolução de Abril, essa divisão foi evidente logo durante o PREC. De um lado estavam os partidários da instalação de outra ditadura, de rosto esquerdista, e do outro os defensores de um regime democrático parlamentar. Dessa luta que atravessou o verão quente de 1975, saiu vencedora  a solução democrática encabeçada pelo PS e Mário Soares, atrás da qual se escondia toda a direita envergonhada e assustada.


Logo os partidos da via comunista se renderam à democracia e se adaptaram aos novos tempos. O certo é que essa divisão inicial se manteve grosso modo com cambiantes. E o que se constata é que não é uma divisão entre ricos e pobres, entre exploradores e explorados. É uma divisão dentro da classe popular. E são os partidos que se reivindicam, com propriedade de representantes do povo, que o dividem. Para além disso, os partidos da direita, maquilhados de defensores do interesse popular,  conseguem arregimentar, contra-natura parte desse eleitorada.


Assim chegamos à situação actual. Passo a passo a direita dos interesses, com o apoio daqueles que explora, foi aumentando o seu poder. Hoje a arrogância da exploração já não se contenta em retirar direitos que foi forçada a ceder. Divide cada vez mais, atiçando divisões entre gerações ou entre público e privado. Hoje os detentores do poder ousam desrespeitar a própria democracia e as suas instituições. Anos depois de Abril o povo que nunca esteve unido, está cada vez mais dividido. E o mais preocupante é que ainda não percebeu que é um peão de brega nas mãos dos poderosos.


MG

Breve história das nádegas.Imagem net. Não é pornografia é arte

Odalisca morena de François Boucher, século XVIII

 

 

Há partes do nosso corpo que continuam a ser tabu. Pronunciar o seu nome é um anátema. Lembrei-me disto a propósito das declarações do Presidente do Sporting Bruno de Carvalho quando usou as nádegas como metáfora. Para a gente que bota discurso na comunicação social, caiu o Carmo e a Trindade. Aceitamos que é linguagem de carroceiro embrulhada em erudição técnica. Eu próprio não me revejo nessa fraseologia. Trata-se de uma opção pessoal. Mas daí a considerar crime de lesa majestade, de desprestígio do clube a que preside, parece-me um exagero. No fundo, literalmente falando todas as têm. E se as têm porque razão não se pode usar o seu nome para fazer analogias? Para mais, analogias que colam perfeitamente com a realidade que se quer retratar. Basta estar atento ao que se está a passar na triste novela das eleições da liga. Essa sim verdadeiramente pornográfica.

 

Analogias à parte, as nádegas, sempre foram motivo de atracção ao longo da história. E deixemo-nos de pudores, continuam a ser cartão de visita do género feminino, que as utiliza como forma de sedução. E foram até desde tempos antigos motivo de inspiração de poetas, prosadores e pintores. A nova história que começou a abordar as coisas do quotidiano ligadas à vida privada, também se debruçou sobre o assunto. Foi nesse sentido que Jean-Luc Hennig escreveu A breve História das Nádegas. Diz o autor:

 

Esta obra dá-nos uma visão, breve mas suficientemente ampla, de uma grande multiplicidade de representações das nádegas, ao longo dos tempos: a sua figuração na escultura grega clássica, na pintura florentina e libertina, na medicina legal do século XIX, na publicidade do século XX

"O leitor céptico ou reticente encontrará aqui um manancial de informações surpreendentes. Vai aprender muito.

 

As nádegas são pois uma componente de nós próprios. Quando os guardiões moralistas dos bons costumes, julgam as pessoas pela utilização da linguagem que consideram de mau gosto, fazem um exercício de cinismo púdico. E nessa parte sagrada de si próprios, nunca levaram umas boas "nalgadas" como me estavam sempre a prometer ainda menino e moço, ou nem sequer sentiram o gosto de um  um pontapé  no traseiro.  Mas ainda estão a tempo de o levar.

 

MG

 

 

 

 

 

 

 

O escritor catalão Ruiz Zafón criou no seu universo ficcional o cemitério dos livros esquecidos, situado numa Barcelona mítica do século passado. Nesse local, vivem os livros que desde o princípio da escrita foram sendo guardados para que, ironicamente, não se percam no esquecimento eterno. Os convidados a visitar essa estranha biblioteca, assumiam o compromisso de não denunciar o seu paradeiro e de se responsabilizarem por um desses livros.

 

Quando entro na feira do livro de Lisboa, sinto-me um personagem de Zafón numa visita ao seu cemitério dos livros esquecidos. Ali repousam milhares de livros. Muitos são figuras mediáticas de grande visibilidade, mas outros, tantos, estão completamente esquecidos, naquelas prateleiras, à espera que que alguém se lembre deles. Pois, há livros que, também, desesperam na sua solidão. E do silêncio das suas palavras mudas, clamam pelo carinho de algum passante. Choram, em silêncio, lágrimas de tinta. É certo que a maioria passa indiferente ao sofrimento dos livros esquecidos, quando não indiferente aos livros em geral. Outros visitantes fixam-se nos tops e nos livros, transitoriamente,  privilegiados, da galáxia de Gutenberg.

 

Um amante de livros, de todos os livros, não pode fazer descriminação. De uma forma ou de outra, todos tem em si um pouco da aventura humana de que somos herdeiros e continuadores. Essa memória que, apesar de momentos de descrença, nos faz acreditar que a utopia é possível. Admiro-os sem excepção e procuro prestar-lhe a minha homenagem e o meu reconhecimento. É, também, para isso que ali vou. Sem excepção, envolvo-me com todos eles. Mas pelos abandonados a uma letargia forçada, tenho um carinho especial. São muitos e não posso mimá-los a todos. Contudo, vou dando o meu contributo: pego-lhes com cuidado, folheio as suas páginas amareladas pelo tempo, recupero por breves momentos palavras, frases adormecidas, e sinto que ficam felizes. Depois ,interesso-me por algum (ou será ele que se interessa por mim?) e resgato-o da sua penumbra. 

 

Até ao próximo dia 15 de Junho os livros esperam por si no parque Eduardo VII.  Aguardam a sua visita. E se puder, retire pelo menos um do esquecimento, ou então evite que outros sejam colocados na marginalidade.

 

MG. 

06 Jun, 2014

Dia D

Veja.Abril.com.br

 

Dia D. Faz hoje setenta anos. Nas praias da Normandia sacrificaram-se milhares de vidas com a vida por viver. Jovens, alguns quase imberbes. Com abnegação e obrigação libertaram a Europa do pesadelo nazi. Devemos-lhe a nossa existência em liberdade. Devemos-lhe setenta anos de paz, de progresso e de um mínimo de bem-estar. Os homens que passaram por essa experiência traumática, perceberam que tinham que construir uma Europa diferente. Com avanços e recuos fizeram da UE um espaço de esperança, de cooperação de solidariedade.

 

Passaram setenta anos. O sacrifício de tantas vidas que recordamos pode estar a ser hipotecado. Os cavaleiros da xenofobia renascem das suas cinzas mal apagadas. Os canos das armas enferrujaram, mas já começam a soltar fumos inquietantes. O compromisso de unidade está a ser que quebrado por uma divisão norte/sul. Os órgãos da UE  estão esvaziados de poder concreto. A Alemanha impõe as suas decisões, transformando os países mais pequenos em meros vassalos. O projecto hitleriano do espaço vital está a desenhar-se, paulatinamente, sobre a soberania partilhada na união. O que a investida militar não conseguiu está ser conseguido pelo poder financeiro. É um jogo muito perigoso que arrastará a Europa para uma hecatombe. Os milhões de mortes de ambos os lados na Segunda Guerra não merecem. Setenta anos depois não se limitem a recordá-los. Respeitem-nos.

 

 

 

 

05 Jun, 2014

Fora da lei

A fronteira que separa um estado absoluto de um estado democrático é o primado da lei. Na lei geral chamada constituição, estão as normas que balizam acção dos poderes institucionais. No fundo, protegem os cidadãos de arbitrariedades. Quando se governa sem respeito pela lei, põe-se em causa o estado de direito. Entra-se no campo do poder totalitário. 

 

O actual governo de Portugal, eleito de acordo com as regras democráticas não tem mandato para governar à margem da lei. O facto é que o vem fazendo. Todos os orçamentos de estado que aprovou e aplicou, tiveram normas inconstitucionais. Mas não contente com a prática de ilegalidades ainda se arma em calimero. Dito de outra forma, faz o mal e caramunha. Ou seja depois de praticar o ilícito, atira-se com unhas e dentes a um órgão de soberania, que apenas cumpre a sua missão e que não controla. Falta-lhe ao respeito com o maior desplante.

 

A pressão dos credores, conhecidos como troika, não pode servir de desculpa. Ou vivemos num estado de direito ou num estado totalitário. Acima dos credores está a soberania nacional, estão os direitos dos cidadãos. Quando deixar de se respeitar a lei geral, estamos no reino dos fora de lei. Por outro lado, a actuação deste governo desta forma desabrida, coloca mais uma perplexidade. Onde pretende chegar?

 

MG   

Há três anos que somos governados por um governo ultra-liberal. Apesar da malfeitorias que fez a Portugal e aos portugueses vai cumprir a legislatura com a cumplicidade da Presidência da República. Está na hora de construir uma alternativa a este governo e à sua política. E quer queiramos quer não, não há alternativa sem o Partido Socialista. E já deu para perceber que com o PS de António José Seguro não vamos lá. Foi essa evidência que levou António Costa a sair da sua zona de confronto e a pôr em causa a liderança do partido. Não o faz, é minha convicção, por mera ambição pessoal mas pelo interesse do país.

 

Seguro, cada vez mais inseguro, na reunião da Comissão Nacional, fugiu à luta e à clarificação  da situação. Com alguma surpresa tirou um coelho da cartola, isto é, respondeu com um passe de mágica para iludir a opinião pública. Depois de ter blindado os estatutos de forma a inviabilizar qualquer Congresso Extraordinário sem a sua benesse, aplicou a estratégia do burro manhoso que faz que anda mas não anda. Este secretário-geral pode não ter uma ideia para o país, mas é mestre na arte da esperteza saloia. Como é que se podem propor eleições primárias quando os estatutos não o permitem? Está claro que o que se pretende é arrastar a situação para ver se ela prescreve. O que Seguro está a conseguir é travar a construção de uma alternativa à actual polítiva de destruição do país. Quem é o burro?

 

MG

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