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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

velasardemsempreateaofim.blogspot.com

 

Nasci numa aldeia do interior. Cresci numa casa rústica, sem água, sem luz eléctrica. Fiz a instrução primária e excepcionalmente conclui o 1ºciclo dos liceus (actual 6.º ano). Rumei à cidade para fugir ao duro trabalho da agricultura de subsistência, que estava reservada à maioria da população. Entrei no mundo do trabalho, tinha cerca de doze anos.O meu primeiro vencimento foram cinquenta escudos em moeda antiga. Mais tarde, passei a ganhar duzentos escudos por mês. Não tinha contrato de trabalho escrito, não tinha direito a qualquer tipo de assistência médica e social. E assim foi até ser incorporado, obrigatoriamente no exército português, tendo como horizonte a mobilização para uma guerra  que dizimava  e estropiava a juventude da época. Cumprido o serviço militar, fui operário, vendedor em várias áreas, ferroviário e professor. Fui mudando de vida com trabalho, com esforço,  com sacrifício e levei três décadas a atingir a estabilidade. Muitos outros fizeram o mesmo tipo de percurso sem qualquer facilidade, dentro e fora do país.

 

 

Agora, quando quando ouço falar de uma juventude de quinhentos, vítima de todo o opróbrio, maioritariamente com formação universitária e com dificuldades profissionais mas, na generalidade, estabilidade económica garantida, eu pergunto: se esta é uma geração à rasca o que devo chamar aquela de que fiz e faço parte? Sem qualquer desprimor, só pode ter sido uma juventude muitíssimo à rasca e com com uma grande diferença: em vez de se lamentar, foi à luta pelo trabalho, pelo pão e pela liberdade, construindo no dia a dia o seu futuro, porque é a necessidade que aguça o engenho.

 

 

MG

 

PS- Para evitar interpretações dúbias, quero esclarecer que a análise comparativa que aqui apresento, não deve ser vista como uma crítica ao direito de manifestação seja de quem for. Por esse direito, também me orgulho de ter lutado, quando ele não existia e quando as condições da luta eram bem mais difíceis.

  Miniatura

 

Uma canção do grupo Deolinda e mais recentemente dos Homens da Luta, parece que acordou algumas mentes adormecidas para as virtualidades da música como forma de protesto. Não vejo nessas cantigas uma intencionalidade reinvindicativa. Vejo a inserção de temas do quotidiano numa produção inserida numa actividade profissional de cariz musical. Acabaram por ser ajustadas a situações concretas de certas camadas jovens e adoptadas, em conformidade, para expressarem o seu descontentamento.

Convém recordar, que a autêntica canção de protesto surgiu durante o Estado Novo e atingiu a sua plenitude na década de setenta com a revolução de Abril. Um abismo separa esta agora incensada  música, das canções de  intervenção de Zeca Afonso, José Mário Branco, Adriano, Fausto, Sérgio Godinho entre outros . É que os protagonistas da canção revolucionária usavam-na como uma arma, com a qual pretendiam intervir na luta política. Nesse sentido começavam por assumir uma posição ideológica que coerentemente defendiam, na vida e na música, porque a canção era a sua arma:

 

MG

 

10 Mar, 2011

Sem nobreza

 noticias.sapo.pt

 

 

Sua Excelência tomou posse para mais um mandato. Podia ter cumprido o protocolo, podia até ter feito um discurso de circunstância discreto apropriado à ocasião, mas não, como verdadeiro tuga, teve de dizer, estou aqui. Na sequência da atitude revanchista já demonstrada no discurso da vitória eleitoral, apresentou-se como o chefe de uma claque política e zurziu sem dó nem piedade, o seu adversário político.

 

A não ser que esta entrada de leão seja um faitdivers para marcar território, começa muito mal. Não começa como o Presidente de todos os portugueses, mas apenas como lider da sua clientela política. Esta atitude sem nobreza, sem grandeza, sem humildade e sem bom senso, mostra que não está à altura do cargo que desempenha, como tinha vindo a demonstrar.

 

Ao usar alguns factos negativos para atacar o governo que tutela, omitindo outros mais positivos e desenquadrando-os da conjuntura onde estão inseridos, desceu ao grau mais baixo da política, a demagogia. Ao criticar medidas orçamentais aprovadas com o seu aval, enveredou por sacudir a água do capote em total desrespeito pela responsabilização. Ao apresentar-se como o salvador da pátria da garra dos carreiristas, esqueceu-se que o seu percurso foi feito à sombra da carreira politica. Lembremos: depois de ocupar o cargo de primeiro ministro durante  os  doze anos em que caíram patacas da árvore da CE, apostou no betão, criou o Estado monstro, deixou destruir a agricultura e as pescas, manteve a indústria em stand bye e ainda teve tempo para endividar o pais. Os milhões que entraram a fundo perdido, perderam-se  sem deixar rasto.

 

Com este currículo, que autoridade tem para apontar o dedo a quem, mesmo cometendo erros, tem tentado manter o país à superfície num mar de difícil navegação, num período de vacas magras, enfrentando a maior e mais difícil crise do último século? Nesta difícil situação, o país precisava no mais alto cargo do estado, de um estadista, de um homem sábio e ponderado e nunca um rancoroso e azedo chefe partidário. O que diferencia a luta politica da chicana é ética, coerência e responsabilidade, especialmente quando se ocupa as mais altas magistraturas.

 

 

Zé Cavaco

 

 

 

 

08 Mar, 2011

Mais um dia

Hoje dei uma volta por alguns blogues e não vi nenhuma referência ao dia internacional da mulher. Será que está a formar-se a convicção que o dia da mulher, assim como o do homem, é desde que nasce até que morre! Aleluia!

 

MG

 

 

Aleluia

 

Era a mulher — a mulher nua e bela,
Sem a impostura inútil do vestido
Era a mulher, cantando ao meu ouvido,
Como se a luz se resumisse nela...
Mulher de seios duros e pequenos
Com uma flor a abrir em cada peito.
Era a mulher com bíblicos acenos
E cada qual para os meus dedos feito.
Era o seu corpo — a sua carne toda.
Era o seu porte, o seu olhar, seus braços:
Luar de noite e manancial de boda,
Boca vermelha de sorrisos lassos.
Era a mulher — a fonte permitida
Por Deus, pelos Poetas, pelo mundo...
Era a mulher e o seu amor fecundo
Dando a nós, homens, o direito à vida!

Pedro Homem de Mello, in "Miserere"
  no Citador

07 Mar, 2011

Expansões



 

O julgamento da boa ou má governação só é feita com total propriedade e um mínimo de isenção pela História. Com efeito, apenas um distanciamento considerável e mesmo este sujeito a alguma subjectividade, permite separar o trigo do joio. É neste sentido que hoje se incensam aqueles que foram responsáveis pela expansão marítima de quinhentos, mas na época é preciso dizê-lo, foram muito criticados por diversos sectores da sociedade.

 

Quando vejo e com toda a legitimidade fazer criticas à actual governação, procuro inseri-las nas clivagens politicas, sociais e até corporativas que dividem a sociedade, e por isso valem o que valem: são abordagens apaixonadas, transitórias, muitas vezes revanchistas, com margem elevada de erro de análise e sujeitas a incorrecções.

 

Pessoalmente, subjectivamente, estou convencido que esta governação com decisões certas e erradas,  passará  no juízo da História. Explico porquê: deixa uma obra considerável na renovação da produção de energia, com uma aposta  ganha na implementação de energias limpas e renováveis e está no caminho certo no investimento nos carros eléctricos. Noutra vertente e numa altura em que o eixo Berlim-Paris hegemoniza os destinos da Europa, marginalizando ostensivamente os pequenos países periféricos, é correcta a politica governativa de procurar diversificar as relações comerciais com países de outros continentes em franco desenvolvimento. Constitui um regresso ao passado numa perspectiva século XXI e com positivas repercussões no futuro. Salvaguardadas as devidas distâncias, podemos estar perante uma nova expansão, que se devidamente concretizada pode como a de quinhentos, libertar-nos dos horizontes limitados de uma Europa indefinida. É, em suma, a melhor forma de defender a autonomia e a independência fora de um  contexto de absorção subtil e mais perigoso que os que sofremos em séculos anteriores. E isto para além de interesses mesquinhos e imediatos merece ser valorizado.

 

MG

 

 

06 Mar, 2011

Entrudo

No tempo em que o Entrudo era Entrudo e não carnaval. No tempo em que o Entrudo era uma festa popular espontânea. No tempo em esta festividade não tinha sido apropriada pela sociedade de consumo como mais uma forma de realizar mais valias, havia o Entrudo chocalheiro, expresso nesta canção da Beira Baixa e na voz do Zeca Afonso.

 

05 Mar, 2011

Raiva

oscarvalhosdoparaiso.blogspot.com

 

Há dez anos num acidente que não podia ter acontecido a população de Raiva sofreu um decréscimo acentuado. Na noite fatídica da queda da ponte Hintze Ribeiro gente inocente ficou para sempre sepultada no leito do velho Douro. Ao fim de uma década a culpa morreu solteira, pois ninguém foi condenado pela responsabilidade de uma tragédia que tem rosto.

 

A Raiva que existe pela perda de vidas humanas não teve nenhuma compensação para o Conselho mais atingido, Castelo de Paiva. O que resta dessa hecatombe evitável, são duas pontes, uma restaurada e outra construída de raiz. As promessas de infra-estruturas para a região ficaram no papel e  até o apoio psicológico aos familiares das vítimas foi retirado. Assim a Raiva abruptamente dizimada só pode crescer.

 

MG

04 Mar, 2011

Vassalagens

O meu país tem oito séculos de história”, disse José Sócratesdepois do encontro com Angela Merkel

 

Tenho visto, ouvido e lido, acusar o  homem que ainda governa Portugal, bem ou mal, mas legitimamente, de ir prestar  vassalagem a Frau Merkel. Apesar de essa acusação carecer de substância e valer o que vale, é preciso lembrar que a política não é, nunca foi e não sei se alguma vez será, uma arte bacteriologicamente pura e eticamente irrepreensível. A politica é hoje e desde a sua infância na Grécia antiga, a arte do possível, numa mistura de atitudes que se plasmam com a própria natureza humana: compromisso, cedência, diplomacia, verdade, mentira, sagacidade...onde como escreveu Maquiavel, no Principe, os fins justificam os meios...

 

 

«Não passa muito tempo, quando o forte
Príncipe em Guimarães está cercado
De infinito poder, que desta sorte
Foi refazer-se o inimigo magoado;
Mas, com se oferecer à dura morte
O fiel Egas amo, foi livrado;
Que, de outra arte, pudera ser perdido,
Segundo estava mal apercebido.
«Mas o leal vassalo, conhecendo
Que seu senhor não tinha resistência,
Se vai ao Castelhano, prometendo
Que ele faria dar-lhe obediência.

 Lusíadas, canto III

 

O homem que liderava o projecto para fundar um país, de nome Afonso Henriques e cognome o conquistador, teve ao longo deste difícil percurso de fazer opções claras. Ou se mantinha num caminho de verticalidade ingénua e nunca seria rei, ou fazia cedências, assumia compromissos, aceitava vassalagens se queria vir a sê-lo.

 

 Foi com esta estratégia que prometeu obediência  ao poderoso Imperador Afonso VII, foi na mesma linha que de tornou vassalo da Santa Sé, a troco de umas libras de ouro. No primeiro caso, coube ao aio Egas Moniz honrar o compromisso, segundo a lenda, pondo a sua vida nas mãos do rei de Leão. No segundo, consta que uma vez conseguido o pretendido, não terá cumprido o acordo pelo menos integralmente.

 

Podemos considerar o comportamento descrito reprovável, mas não é assim que funciona a Real PolitiK. Possivelmente Portugal nunca teria sido uma nação, sem esta via menos ortodoxa. E penso que todo aqueles que se sentem portugueses, não consideram o fundador de Portugal um crápula, mas antes como um estadista que soube agir de forma correcta e lúcida nos momentos decisivos.

 

Zé Cavaco

 

Egas Moniz apresentando-se ao rei de Leão com a sua família - Painel de Azulejo na Estação de São Bento (Porto)

 

PS- Para que fique claro não se pretende aqui fazer qualquer comparação entre o actual e transitório primeiro-ministro e o primeiro rei de Portugal. Apenas se pretende chamar a atenção para a razão das vassalagens.

 

PS 2-"Quem tem poder na UE não são as cada vez mais fracas Instituições, mas a Alemanha. Neste caso até é positivo que Sócrates tenha ido dictamente à sede do poder" (adaptado) . Quem faz esta afirmação não sou eu, mas o deputado e comentador Pacheco Pereira, na Quadratura do Círculo.

 

 

 

03 Mar, 2011

Provincianismo

wehavekaosinthegarden.wordpress.com

 

Portugal nasceu de vontades colectivas restritas, mas colectivas. Portugal  cresceu com vontades cada vez mais alargadas. Portugal tem oito séculos ponto

 

Apesar de Portugal ser um desígnio assente numa maioria de vontades, sempre houve quem procurasse abortar o seu nascimento e sabotar o seu crescimento. Estiveram contra os infanções nas lutas contra o partido aragonês, estiveram do lado de Castela em 1383, estiveram com os Filipes em 1580, estiveram com as Forças napoleónicas no século XVIII. Estão sempre  contra Portugal, porque nunca o sentiram. Vogam ao sabor de interesses imediatos, de ideologias bacocas e ultrapassadas.

 

Estas forças, representam o espírito derrotista que esteve contra a expansão marítima, contra o liberalismo, contra o progresso fontista. Representam o Portugal soturno e provinciano, que considera os portugueses pequeninos, inferiores perante o estrangeiros,  incapazes de se auto governarem. Em momentos de esplendor desaparecem , regressam aos seus esconsos esconderijos. Mas quando surgem épocas de crise aparecem com as suas ladainhas de profetas de desgraça. Em vez de unir, dividem, em vez de ajudar  desajudam, em vez de moralizar desmoralizam. Estão em todas as classes, em todas as ideologias, em todas as capelas.

 

Mais uma vez, como hiena que fareja carne, estão visíveis e empolgados. Talvez seja desta que o país improvável que ousou querer ser nação, se dilua no grande mar do poder externo. Graças a Deus desejos não são realidades. Se assim fosse o país mais periférico da periferia não iria completar oitocentos e sessenta e oito anos.  

 

MG 

01 Mar, 2011

Quadras soltas


Ó i ó ai, Há já menos quem se encolha
Ó i ó ai, Muita gente fala e canta
Ó i ó ai, Já se vai soltando a rolha
Que nos tapava a garganta

 

A liberdade é como um vício suave . Depois de o experimentar não a queremos abandonar. E há quem por nunca a ter sentido comece a salivar quando sente o seu odor. É o que se passa com as gerações Internet dos países onde a liberdade tem estado enclausurada como um demónio ruim. Inebriados com o seu perfume virtual,  populações rigorosamente controladas, soltam amarras ancestrais e embarcam numa nova cruzada libertadora. Sem medo, sem organização, sem tabus. O que vai acontecer não sabemos, mas sabemos que nada será como dantes. Poderá ser já ou ser depois, porque a  liberdade é como uma dama, precisa de ser conquistada, com sensibilidade, inteligência e tirada das garras do sherif, com muita ousadia como nestas Quadras Soltas:

 

MG

 

 

 

 

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