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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

06 Abr, 2012

Do not disturb

A norma é a bitola em que todos nos encaixamos para viver em sociedade. Mas sendo iguais, todos temos diferenças. E é nessas diferenças que aqui ou acolá nos afastamos da norma. Uma das minhas idiossincrasias é "lagartar" na cama  até altas horas. A outra é continuar a "lagartar" no banho com a água a escaldar até pelar o lombo e ficar quase derretido.

 

Quando isto acontece paredes adentro vá que não vá. Quando este vício se prolonga num quarto de hotel a coisa pode complicar-se. Foi o que aconteceu recentemente quando deixei correr a "lagartice" sem colocar na porta aquela tarjeta de cartão onde se lê "do not disturb". Usufruía deliciado do longo duche quando entra inesperadamente no quarto uma empregada da limpeza que não tinha sido convidada. Vi-a aproximar-se através do vidro fosco. Ao entrar na casa de banho apercebeu-se da minha presença, estacou surpreendida e exclamou num português com pronúncia russa " desculpa sinhor...eu toquei e ninguém respondeu". Deu meia volta e saiu discretamente.

 

Enquanto recuperava do susto de não ter mostrado as minhas adiposidades da idade e da má vida graças à opacidade do vidro, ouvi o som de uma sirene e logo  fui invadido por estranha sensação. Borrei a pintura, pensei, tanto quanto é possível pensar sob estado de pânico.Dei comigo a imaginar-me acusado de assédio e a ver entrar  os rapazes da GNR, determinados a enfiar-me, algemado, numa carrinha celular. Pior. Imaginei-me a morrer de vergonha perante os olhares curiosos de ocasionais passantes. Muito pior. Vi-me observado pelo longo olho de câmaras de televisão e a ser julgado, publicamente, como um perigoso "assediosista", um obsessivo mulherengo.

 

Mas o som da sirene foi-se afastando do meu horizonte. O barulho da água a cair voltou a tornar-se dominante. Saí do duche, vesti-me e saí do quarto. Junto à porta estava a empregada de quartos. Com um sorriso amarelo de funcionária modesta e séria voltou a desculpar-se. Faço-me passar por inglês (há sempre muitos) e dá estatuto: "No problem", digo enquanto me afasto rapidamente aliviado. Afinal não entendo tanta preocupação. Afinal nem isto  é a América, nem eu sou chefe do FMI e muito menos candidato presidencial. Afinal não estou numa suite de milhares de dólares.

Quando muito continuam intactas as minhas pretensões a presidente da Junta de freguesia. A final aqui tudo funciona em escala mais reduzida. Até os lapsos são lapsozinhos. Os Gaspares são gasparzinhos. Os subsídios de férias e Natal são subsidiozinhos, porque que pelo que consta, passinho a passinho,  não voltam a ser repostos. Mas sobre isto não me quero pronunciar para não ficar entediado. Prefiro viver a minha fantasia do falso assédio.

MG

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