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Parêntesis (porque hoje é Domingo)

por Naçao Valente, em 22.01.12

Foi uma semana dura. E quando a coisa parecia compor-se com a assinatura do Acordo para a Exploração com o homem dos pastéis, cai-nos em cima a situação preocupante do nosso Presidente da República: uma reformazinha de alguns milhares de euros que não dão para as despesas, apesar de usufruir de cama, mesa e roupa lavada. Para não me angustiar mais, para a semana penso nisso. Como hoje é Domingo vou fazer um parêntesis e aproveitar este abençoado dia de Sol. Porque já dei muito para esse peditório, nem amarrado me apanham num Shopping,. nem numa livraria( e livros, népia e escritores, puf). Vou mesmo é respirar ar livre (já que ar puro é conversa)

Ao acaso vi-me na baixa de Lisboa a calcorrear as calçadas do Chiado. Aproveitei até para me encontrar com a minha amiga Lu (ex-colega de curso e quase conterrânea quanto ao local de origem). Encontramo-nos sempre em Janeiro, para trocar as prendas de Natal (nunca percebi porquê). Quando cheguei à esplanada da Brasileira já lá estava a Lu com o seu cabelo prateado de cor natural (parece que é agora moda entre as jovens pratearem-no) e com  o seu ar doutoral ( com toda a propriedade pois doutorou-se  nos poderes na velha Assíria). Sentei-me, bebemos um café, pusemos a conversa em dia (falamos da vida, da crise, da família…). Insignificâncias.

Entretanto o meu olhar e a minha mente desviaram-se para uma figura silenciosa de óculos redondos e bigode, sentado numa mesa ao lado. Mas de onde é que o conheço, pensei, enquanto a Lu continuava a arengar. Pois claro que o conheço, é o Pessoa, sem tirar nem pôr. Pensamento não era concluído, já se sentava numa cadeira ao seu lado, uma turista de calção e t-shirt e com umas grandes tranças louras. Tirada a foto para sempre recordar, outra se sentou perante o ar impávido do nosso bardo, no seu corpo de pesado e eterno bronze. E se na sua mensagem foi capaz de profetizar Portugal,

 

NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

Define com perfil e ser

Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer –

Brilho sem luz e sem arder,

Como o que o fogo-fatuo encerra. 

Ninguem sabe que coisa quere.

Ninguem conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ancia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro... 

É a Hora!

 

nunca imaginou esta função de modelo fotográfico ao lado de tantas Ofélias, que só gozou em espírito quando vivia num corpo de carne e osso. É a hora disse, desenquadrado da conversa, perante o espanto da Lu: é o quê? É a hora, disse voltando à realidade, de trocarmos as prendas, antes que nos proíbam o Natal.

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publicado às 19:50


2 comentários

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De golimix a 23.01.2012 às 19:53

=)
As segundas feiras (ou domingos à noite) são o momento do meu dia tirado para o seu "Parêntesis"! Durante o dia dei por mim a pensar, "ainda não fui ver o Parêntesis..."
E cá estou eu ;)
Estava à espera de uma ida à livraria, talvez à Lello, para variar, esperava ler a descrição que faria do cheiro da sua madeira e da magia que os livros ali possuem, com as mesmas palavras que têm noutras livrarias, mas que ali ganham uma dimensão diferente.
Nunca esperaria ver prendas trocadas em Janeiro!! Também faço isso com uma amiga minha, mas é mais no início do mês.
Boa conversa, essa que teve com o "nosso" Pessoa, quem nem imaginava as moçoilas que se sentariam ao seu colo!!
Boa semana e até ao próximo Parêntesis
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De Naçao Valente a 23.01.2012 às 23:39

Obrigado pela fidelidade ao Parêntesis. Também acho que na Lello há mais encanto, mas está longe geograficamente e de quando em vez, é preciso fazer um parêntesis nos livros. Mas lá irei. E quanto ao Pessoa quem sabe (há quem acredite ) se ele anda mesmo por aí a olhar para as moçoilas...
Boa semana

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