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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

Nota: Quero acredite ou não em milagres, esta ficção aconteceu.

vivaterra.org.br

 

No momento em que estava sentado à frente do seu patrão, José, lembrou-se do dia em que foi pescar com o seu avô. O patrão, António Oliveira que o mandara chamar ao seu gabinete, tinha-o mandado sentar-se e olhava-o como se o quisesse fuzilar. Disparou:

-Senhor José, mandei-o chamar para lhe dizer que vamos dispensar os seus serviços nesta empresa.

-Acorda Zé, disse o avô com uma entoação firme, mas suave.

-Não percebo, replicou José, meio atordoado pela saraivada de palavras saídas da boca do patrão.

-O que lhe estou a dizer, continuou Oliveira num discurso que parecia ensaiado, é que vai deixar de ser nosso colaborador.

-Acorda Zé que hoje fazes anos, repetiu o avô, num tom mais ríspido.

-Continuo a não entender, afirmou José com uma ligeira tremura na voz. Afinal não sou eu o melhor vendedor desta loja de electrodomésticos? Afinal não fui eu que ganhei recentemente o prémio por ter vendido mais de máquinas de lavar?

-Acorda Zé, que hoje fazes anos e temos que ir pescar,gritou o avô, abanando energicamente a cama de ferro onde o neto persistia em dormir.

-Pois senhor José, acontece que tenho informação que na semana em que é responsável pelo stand, a exposição de materiais vira uma bagunça, continuou Oliveira dando alguma ênfase à sua estudada arenga discursiva e sem o mínimo interesse em entabular qualquer diálogo.

-Mas senhor Oliveira, desculpe discordar, afirmou José finalmente desperto do seu adormecimento. E mesmo que assim fosse, diga-me uma coisa: contratou-me como vendedor ou como arrumador de exposição?

-Levanta-te José, já tenho as pescas preparadas. Temos de chegar à ribeira antes de nascer o Sol.

-Só me falta perguntar-lhe e parecia aliviado por estar a terminar aquele discurso previamente preparado - de quanto tempo precisa para encontrar outro caminho.

-Nenhum, disse José secamente.

-Nenhum? Notava-se que Oliveira tinha esgotado o reportório ensaiado e não conhecia aquela deixa.

-Pode mandar fazer as minhas contas, rematou José que começava a ficar embaraçado com o embaraço do patrão. Depois passo por cá para receber. Conversa acabada. Passe bem.

José dirigiu-se à sua secretária e retirou alguns objectos pessoais, perante o olhar pasmado dos colegas. Com algum azedume mas sem raiva esclareceu:

-Estou a recolher as minhas coisas, pois acabo de ser despedido por um mentecapto. Mas, ao fim e ao cabo, estou-lhe grato, pois intuí que quando nos fecham uma janela é porque a vida nos quer abrir uma porta. Foi um prazer trabalhar com vocês. Sem sentimentalismos a vida continua.

José saiu da loja e caminhou no empedrado de calçada portuguesa da longa avenida. Um discreto lusco-fusco estava a instalar-se sem pedir licença. Os candeeiros de iluminação pública abriam os seus olhos de luz ofuscando à nascença o débil lusco-fusco. José começou, naturalmente, a abstrair-se daquele ambiente artificial e viu-se a descer um áspero caminho que ladeava uma caudalosa ribeira no inverno.

-Mexe-me essas pernas Zé, incentivava o avô estugando a sua passada larga e rápida para a sua idade. Estamos quase a chegar às pernadas.

José entrou como era habitual numa taberna sem nome, onde refeitava muitas vezes. Sentou-se numa mesa tosca de madeira e esperou ser atendido.

-Já chegamos e conseguimos o melhor lugar de pescaria desta ribeira, desabafou o avô, enquanto pousava o cesto de cana e uma pequena lata ferrugenta onde transportava o isco.

Estavam numa pequena falésia, na confluência de duas ribeiras, que tinham talvez por capricho da natureza resolvido juntar-se e continuar o percurso até ao grande rio, de mão dadas, para o enfrentar com mais confiança.

-Senhor José, perguntou o taberneiro da taberna sem nome: O que vai comer hoje?

-Zé, traz-me a lata das minhocas para colocar o isco no anzol, ordenou o avô.

Quando se preparavam para lançar a pesca nas águas ludras da ribeira, aproximou-se recortada, no raiar do dia, uma figura tão silenciosa que quase passava despercebida. Zé reconheceu-a pela sua imagem peculiar. Era, nem mais nem menos que o descalço, um cidadão que temporariamente demandava aquelas paragens com os seus apetrechos de caldeireiro. Nunca andava calçado, para poupar os seus parcos proventos para uma alimentação frugal e bem regada, mas os seus pés tinham adquirido uma dura sola natural. Enquanto estava sóbrio, deitava uns gatos numas bilhas rachadas, tapava uns furos nuns tachos furados, mas o que deliciava o Zé era a sua alma de artista, quando dava asas à imaginação e desenhava na chapa de zinco deliciosas figuras.

-Hoje, disse José ao taberneiro da taberna sem nome, apetece-me um peixinho.

-Bom dia disse o Descalço, vou tentar a minha sorte ali mais para baixo.

-A água está muito barrenta. Não me parece bom dia para pescar, sentenciou o avô como experimentado pescador.

O avô enfiou com destreza as minhocas nos anzóis. E com paciência foi explicando ao neto como devia utilizar a pesca. As minhocas rabeando, freneticamente, mergulharam na água fria do pego.

-Então já escolheu Senhor José? Perguntou o taberneiro da taberna sem nome.

-Acorda Zé, gritou o avô. O peixe está a picar na tua pesca. Puxa a cana como te ensinei.

Zé sentiu então um puxão contínuo como se alguém lhe quisesse roubar a pesca. Com um movimento certeiro para principiante, atirou a linha para trás de si. Olhou e viu um peixe escamoso e prateado que procurava desesperadamente libertar-se. Agarrou-o e conseguiu soltá-lo do anzol, mas este com desesperados esticões escorregou-lhe da sua pequena mão e num salto acrobático quase voltava ao seu habitat. Valeu a atenção do avô que com uma ligeireza juvenil o agarrou atirando-o para dentro do cesto e exclamando no meio de uma sonora gargalhada.

-Gaita Zé, nem no dia dos teus anos deixas de ser desemaranhado? Só tens habilidade na ponta da língua?

-Quero um carapau assado com molho à espanhola, disse José ao taberneiro da taberna sem nome, enquanto reflectia sobre a sua suposta falta de jeito para actividades manuais.

Zé ignorou a provocação do avô e repôs a pesca na água. Ainda não se tinha desfeito o remoinho provocado pelo impacto e já outro peixe se deixara prender na barbela do anzol. E depois outro e outro e outro e outro….Quando o cesto estava a ficar atulhado de peixes o avô disse:

-Hoje os peixes não querem nada comigo, nem um único caiu na minha pesca, mas fizemos uma boa pescaria. Podemos regressar.

-Aqui tem o seu carapau grelhado senhor José. Está mesmo fresquinho. Bom apetite, desejou o taberneiro da taberna sem nome.

Ao retomar o caminho de volta reencontraram o Descalço que caminhava silencioso e conformado, sem um único peixe.

-Vejo que encheram o vosso cesto, constatou o caldeireiro.

-Eu também não pesquei nada. Os danados caíram todos na pesca do moço. Se não fosse republicano e ateu, até pensava que era milagre. Mas o fedelho merece, pois só se faz onze anos uma vez.

-Que os faça com saúde, disse o Descalço afastando-se resignado com a sorte madrasta que era a sua mãe.

-Avô, avô… temos tantos peixes, que podemos dar alguns ao senhor Descalço, arriscou o neto.

-Está bem, afinal tu és o aniversariante e o verdadeiro pescador.

O avô atirou um punhado de peixes para o balde do caldeireiro “ leve para o seu almoço”.

-Obrigado, assim já aconchego o estômago.

José e o avô despediram-se do Descalço e regressaram à povoação para preparar a refeição daquele dia especial.

-Zé, chamou o avô, anda almoçar, o peixe já está assado.

-Então senhor José, gostou do peixinho, perguntou o taberneiro da taberna sem nome, para cumprir o ritual de bom vendedor.

-Muito, muito, respondeu José sentado numa mesa tosca de uma taberna sem nome, enquanto pensava no dia em que o Zé tinha feito onze anos e tinha recebido a melhor prenda de todos os seus aniversários.

 

 

Texto escrito de acordo com a antiga ortografia.

 

 

 

 

 

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