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Nação valente, ao sul

Odeleite Cabeça do dragão azul

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20 Ago, 2011

O Cirano de Valongo

 

Nas minhas deambulações por esse Portugal desconhecido fui parar à cidade de Valongo na periferia do grande Porto, terra, como tantas outras, onde se passa como cão por vinha vindimada a caminho de grandes ou médias metrópoles. Por lá fiquei dois dias, respirando o ar valonguense e tentando sentir o pulsar próprio de uma localidade já muito descaracterizada pela globalização cultural. E pude perceber ainda alguns laivos da sua genuidade, nalgum comércio tradicional, no património e nos resquícios da indústria, com destaque para a extracção de ardósia desde o século XIX.

Durante a minha estada nesta milenar povoação (anterior à ocupação romana) lembrei-me do Marques, um soldado da nação que conheci numa bataria(1) do Regimento de Artilharia de Costa da Trafaria, no início dos anos setenta. O Marques, como todos os outros militares, tinha para além do nome oficial a habitual alcunha. Era conhecido como o Nariz (epípeto que não lhe causava qualquer complexo), devido ao enorme apêndice nasal que lhe ornamentava o rosto. Se os conhecimentos literários daquela juventude militar fossem outros ter-lhe-iam chamado com mais romantismo, o Cirano de Valongo.

Esta, como outras almas com as quais nos cruzamos, acidentalmente, ao longo da vida, esfumou-se depois de ter passado à peluda e regressado ao seu rincão natal. Enquanto calcorreie as ruas da povoação e frequentei os seus locais públicos, fui olhando para os caras mais envelhecidas pela inexorável marcha do tempo, para ver se delas se projectava algum facundo nariz. Em vão. Acabei por abandonar Valongo um pouco desiludido, pois ia com intenção de ajustar contas com o Cirano da terra, pela vergonha, susto e desprestígio que me fez passar, enquanto substituto do comandante do pequeno aquartelamento. Pois não é que o Marques, durante um serviço de sentinela nocturna, adormeceu no seu posto, no momento em que o dito comandante, quase sempre ausente, resolveu invadir o quartel depois de uma noitada de mulheres e copos e não vendo vivalma que o impedisse desatou aos tiros pondo toda a gente em polvorosa.

Não pude desta vez levar a cabo o meu projecto de ajuste de contas, mas tenho intenção de voltar a Valongo e nessa vez quem sabe.

 

MGImagem retirada de afamaran.zip.net e que me faz lembrar o Marques 40 anos depois.

 

1-Pequena unidade militar composta por peças de artilharia de defesa costeira e respectiva guarnição.

 

 

 

 

 

 

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