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Capitães de Abril

por Naçao Valente, em 25.04.18

Capitães do meu país

Soldados da minha terra

Viram o povo infeliz

E com paz fizeram guerra.

 

No alvor da madrugada

Acordaram a cidade

E sem nunca pedir nada

Ofereceram liberdade.

 

No força que idealizaram

Esperança de mil cores

Quando as armas dispararam

Delas saíram flores.

 

E no seio da revolução

Nasceu uma democracia

 E com ela a convicção

Que é real a utopia.

 

E quem nunca viu Abril

Nem sabe a revolução

Urdiu artimanhas mil

Subjugou a nação.

 

É tempo de ir para a guerra

E levantar a cerviz

Ó gentes da minha terra

Capitães do meu país.

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publicado às 22:14

Os homens também choram

por Naçao Valente, em 23.03.18

Por um acaso, por uma daquelas reminiscências inexplicáveis, que de quando em vez no batem à porta, vi-me transportado para os tempos longínquos da juventude, quando tive de ser militar à força. Por acaso ou obra do destino, fui parar a regimento de Artilharia de Costa, único que não dava mobilização para a guerra colonial, e no âmbito desta unidade a um pequeno aquartelamento de defesa da costa atlântica, no alto da Trafaria. Ali estava um destacamento de cerca de duas dezenas de homens, a tomar conta de uns canhões a precisar de reforma e que se fosse o caso não defendiam porra nenhuma.
Também por vontade do destino, fui encarregue do comando daqueles militares, por delegação do Primeiro-sargento Martins, conhecido como Penamacor, responsável no terreno, mas  que andava metido em guerra de alcova com a mulher do seu melhor amigo, e cujo campo de batalha era o vale de lençóis. Todos o sabiam com excepção do dito cujo, dando razão ao ditado “o corno é o último a saber”.
Ali estive cerca de dois anos a lidar com mancebos de várias regiões do país, numa autêntica idiossincrasia nacional. Ali estava o Rajão, um pescador da Póvoa de Varzim, alto louro e um pouco boçal, que me fazia lembrar um viquingue de tempos idos.  Armado em cozinheiro improvisado, tinha a tarefa de alimentar a preceito os bravos artilheiros. Fazia um curioso par com Zé Sapateiro, português de Braga, que tinha uma paixão assolapada por uma cachopa do Minho, alimentada através de uma intensa actividade epistolar. Por portas e travessas alguém conseguia ter acesso ao conteúdo dessas cartas, que eram lidas em público para gaudio da rapaziada do quartel. É que naquela linguagem vernácula, palavra sim palavra não, estas cresciam tanto que ganhavam o estatuto de palavrão. E metiam a um canto as cartas de Soror Mariana.
Da teoria à prática o "Passatempo", vindo do Algarve profundo, saia do quartel pela calada da noite, e como lobo esfaimado, descia ao povoado mais próximo, Costa da Caparica,  onde por bares e cafés dava, para usar a sua expressão, “caça aos picolhos”, que traduzido queria dizer, homens com tendências sexuais fora da norma, da moral e dos bons costumes. E de lá trazia uns trocos nos bolsos, para alimentar o vício do tabaco. Que podia fazer com o fraco pré que recebia do exército?
Já o "Avozinho", cidadão que andara a fugir ao serviço durante anos e anos, trazia para aquele universo militar uma nota dramática. Caçado pelo exército quando tinha trinta e sete anos, casado e com filhos para sustentar, era uma montra de lamúrias. E quando menos se esperava caia num choro convulsivo( um homem também chora)  que até  entristecia as pedras da calçada. Um dia lá o libertaram do degredo e voltou para junto da família perdida.  Um alivio para ele e para nós. Em contraponto o Barreto, moço de forcados, ribatejano, conseguia estar sempre ausente “dispensado” pelo exército a um grande agrário e quando aparecia punha os cabelos em pé a todos os camaradas.
Mas quem não me sai da lembrança é o Marques de Valongo, e de alcunha o Nariz, devido ao enorme apêndice nasal com que a natureza lhe adornou o rosto. Merecia-me alguma simpatia, pois quando chegava a meia noite avisava-me, que na rádio da sala de convívio, estavam a dizer mal do governo de uma rádio de Argel. Desbaratou todo esse crédito, quando na sua tarefa nocturna de sentinela, a altas horas, abandonou o seu posto, tirou as botas e deitou-se com o fuzil na sua caminha, precisamente na noite em que o Primeiro-sargento, bem comido e melhor bebido, invadiu o quartel aos tiros e por ali entrou sem que ninguém lhe tolhesse o passo.
E meus amigos, só eu sei o que passei para convencer o “primeiro” a não fuzilar tudo o que mexia. A única coisa de que ainda me arrependo é não ter dado dois tabefes ao Marques, mas receei que não lhe descobrisse a face escondida na grandeza do nariz.
 O “primeiro” de tanto disparar, meteu filho no útero da mulher do amigo, as coisas descambaram, o marido enganado tornou-se fera ferida e o sargento foi recambiado para a selva africana. No dia em que se veio despedir, para além das palavras, que esqueci, deu-me um apertado abraço e partiu com os olhos rasos de lágrimas, sim que um guerreiro do mato  também chora. E antes de partir entregou-me o Diário do Governo,  onde estava publicado o seu último acto naquela unidade: um detalhado louvor sobre a minha acção sob as suas ordens. O tempo passou e deixou as suas marcas. E se houvesse viagens no tempo ia a uma agência comprar uma viagem para esse tempo que persiste na memória. Que mais não fosse para dar os merecidos tabefes  no Marques de Valongo.Talvez ao menos chorasse lágrimas de crocodilo.

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publicado às 23:43

ou seja esta crise que nos rouba os dias tem muitas explicações ou seja uns dizem que foi por causa dos especuladores do Leman Brothers ou seja uns tipos que fizeram falcatruas com o dinheiro que outros ganharam enquanto alguns asseguram que teve a ver com o despertar da China ou seja porque os empresários levaram para lá  as suas empresas para explorar mão de obra barata ou seja para aumentar mais o seu pecúlio desindustrializando  a Europa ou seja puseram-na a consumir made in China com o dinheiro que não tem ou seja levaram-na individar-se ao mesmo tempo que sacudiam a água do capote dizendo que esta desregulação se deve às dívidas dos países do Sul eternos calões gastadores compulsivos ou seja que viveram e vivem acima das suas possibilidades ou seja agora têm que pagar o pato vomitar o que andaram a comer a mais ou seja têm que colar a barriga às costas.

 

ou seja esta história não começou ontem ou seja é eternamente recorrente ou seja já era assim nos alvores da humanidade quando uns tipos mais espertos se apropriaram da riqueza que a maioria produzia inventando a primeira máquina de fazer pobres ou seja escravos que se têm reproduzido pelos séculos dos séculos com diferentes nomes ou seja na Idade Média eram servos no advento da sociedade industrial eram proletários, nos tempos que correm povo unido ou seja só mudam as moscas a merda é a mesma ou seja as ideias de tanto rechauchutadas  cansaram-se de ser ideias

 

ou seja seja qual for a época produzimos riqueza para benefício de uma minoria que com ela vive à grande ou seja em qualquer sistema em qualquer regime somos f*** e mal pagos  e para onde nos viremos não há volta a dar ou seja vêm ditadores, vêm salvadores, vêm democratas vêm esquerdistas de cravo ao peito ou seja pontas visíveis do iceberg explorador e especulativo criado para nos fazer pobres com uma refinada eficiência ou seja fundando por exemplo paraísos fiscais para assegurar o suor e o sangue que nos chupam inventando agências que nos avaliam e nos chamam lixo para nos sacar ainda mais  na exemplar forma de nos colocar na nossa eterna condição de escravos eufemisticamente designados de cidadãos livres.

 

ou seja mesmo sendo um optimista e depois de ler teorias e mais teorias concluo que não vejo maneira de sair disto ou seja vire-me para onde me virar, ou seja para comunistas, socialistas, liberais etc ou seja sempre me vejo a apanhar as migalhas que caem das fartas mesas da vilanagem ou seja sempre me vejo condenado a ser uma peça da máquina de fazer ricos ou seja   e como não tenho mais latim para gastar porque as palavras estão gastas de tanto serem escravizadas e não quero ser acusado de me apropriar das palavras dos pobres aqui as liberto à sua sorte sem regras de pontuação ou seja façam o que vos der na real gana libertem-se do pragmatismo dos prosadores baralhem as metáforas dos poetas ou seja não queiram ser peças da máquina da literatura elitista que eu não tenho opção e vou regressar ordeiramente ao meu lugar na máquina dos explorados que é onde deve estar quem tem que cumprir a sua missão de fazer ricos  

ou seja cinco anos depois mudaram algumas aparências, como sempre acontece, mas a essência permanece e permanecerá. E apesar de ir por esse mundo fora, Europa incluída, um ressurgimento de demónios, disfarçados de salvadores,  que querem controlar a máquina para a programar para  uma escravização à antiga, sim que esta pode  ser pior, estou satisfeito por ver o meu país, nesse contexto, como uma pequena ilha de esperança.

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publicado às 22:54

Ofélia

por Naçao Valente, em 08.03.18

No dia de santo António

Nasceu Fernando Pessoa

E o seu primeiro pensamento

Foi p´ras moças de Lisboa
 

 No arraial em Lisboa

Cruzou olhares com Ofélia

E num repente… amou-a

E ofereceu-lhe uma camélia

 

No Porto, no são João

Voltou a sentir-lhe o cheiro

Terno pegou-lhe na mão:

Eu sou Alberto Caeiro

 

Quando são Pedro chegou

Com as chaves da paixão

A Ofélia até pensou

Em abrir-lhe o coração:

 

Embora não o  sabeis

Não sou um homem casado

Chamo-me Ricardo Reis

Em medicina formado

 

Estando triste a bela Ofélia

Perguntou a são João

A que homem da camélia

Tinha dado o coração

 

E o santo lhe respondeu

É poeta e fingidor

Finge o amor que te deu

Porque não vive o amor

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publicado às 22:30

Conversa de dentista

por Naçao Valente, em 03.03.18

Dia de dentista. Uma massa que cai, uma falha no sorriso, as palavras que escapam pelo buraco, aberto no centro da boca. Fazer o que? Aguentar. Antes, ainda tinha as mãos delicadas de uma dentista a manipular as brocas. Mas a jeitosa foi para Holanda e deixou-me em estado de orfandade. Agora, quando me esparramo naquela cadeira, tenho à frente um doutor barbudo. A única coisa que temos em comum é a paixão pelo mesmo clube. Nos preliminares  do trabalho, dá-me dois dedos de conversa sobre os jogos, as tácticas, as arbitragens. Tudo o que se discute até à exaustão em programas de televisão em hora nobre.

Entrei no consultório e fui recebido com um sorriso pelo doutor e pela sua assistente. Aparentemente estava a correr bem. Pergunta da praxe:
-Então em que posso ser útil, disse o doutor Esperança
Limitei-me a abrir a boca.
-É pá, sem esse dente,  parece mesmo um arrumador de carros.
Risos da Assistente. Afinal, enganei-me, quando pensei que ia correr bem. Então o gajo, quer dizer o doutor da mula ruça, confunde-me com um arrumador de viaturas, e di-lo nas minhas fuças. É para isso que lhe pago, e bem. Ultrapassou o espectável. Eu tenho respeito por todas as profissões, incluindo a dita cuja. Mas todos sabem que essa está associada a drogas leves, médias e duras. Ser arrumador vá que não vá, agora consumidor de produtos proibidos, deixou-me à beira da apoplexia. Sou um cidadão respeitador das leis da República. Já não tenho idade para isto. Limitei-me a  fazer um sorriso amarelo. Ao fim e ao cabo ele é que tem as brocas. Acondicionei-me e nem um grama de conversa sobre futebol lhe dei. Que vá fiar borra para o raio que o parta.

O pior estava para vir. O doutorzinho depois de olhar para a minha ficha, continuou no mesmo registo:
-É pá, nasceu na década de quarenta. Tem x anos, já tem a idade até à qual eu espero viver.
A idade até à qual eu espero viver? Mau, mau. Querem ver que o finório me acha já fora do circuito. Uma espécie de múmia ressuscitada. Tudo é possível nesta vida. Bem, eu juro que vi um defunto que saiu do palácio de Belém, e julga que está vivo, ou então, é um holograma. Ainda há pouco apareceu armado em escritor de assuntos de maus costumes, maus fígados e piores bofes. Literatura top. Por enquanto não é esse o meu caso. O doutor continuava imparável:
-Tenho uma doença muito grave. Tenho tensão alta. Agora o senhor ainda vai chegar aos cem
Tensão alta? Isso hoje é um distúrbio controlável. Portanto ele que se cuide. Apesar de me considerar fora de prazo, um fantasma a arrumar carros, entre duas passas, desejo-lhe longa vida. Mas se a sua previsão se concretizar não estou preocupado. Dentistas há muitos. A estória de chegar aos cem, pelo dentista, numa de dar uma no cravo e outra na ferradura, fez-me recordar coisas que tinha esquecido, e que se passaram  quando ainda era jovem.

Estava num período mó de baixo, quando me passou pela cabeça consultar um Quiro Astrólogo, que descobri num anúncio de jornal. O indivíduo, estudou-me as linhas da mão, mediu a linha da vida com um transferidor e depois, assertivo, sentenciou: “casamento garantido no ano tal, doença grave na idade Y e esperança de vida até aos X anos. Tudo comprovado com certidão passada e assinada. Fiquei agradado. Para mais, ainda me restavam quarenta anos deste lado da barricada. O problema é que o que antes era muito tempo, é agora cada vez menos. Estou mais inclinado a esquecer o Astrólogo e aplicar a expressão “só Deus sabe”. E que não se meta o dentista em adivinho para emendar a mão. Cem anos não são nada no oceano do tempo.
Chegou a hora de abrir a boca e ficar calado. Enquanto punha molde, tirava molde, a  conversa mudou de alvo e prosseguiu com a diligente assistente.
-Ó Ercília, você tem que se cuidar, está cada vez mais curvada. Eu até tenho visto, na televisão, o anúncio de um colete que põe os corcundas direitos que nem um fuso. Ou então, porque não vai para a ginástica correctiva.
-Nem pensar doutor, disse ela, sempre a rir. É um problema de família. Com a idade todos ficamos assim. Ninguém foge ao seu destino.
Às tantas, a Ercília deve pensar que é descendente de algum corcunda famoso, talvez do de Notre Dame, que se tornou conhecido nas páginas do livro de Victor Hugo. Mas aposto que não foi aí que ela o conheceu. Mais certo ter sido no filme de Walt Disney, que deve ter visto na juventude, numa sala de cinema, de mão dada com o seu namorado “ó mor aquele ali parece mesmo o meu avô”
-Senhor José, disse o doutor Esperança, cuspa e bocheche, por hoje está despachado. Volte daqui a quinze dias para continuarmos o trabalho.
Despedi-me e saí sem dizer palavra. Nas grandes tormentas, uma pequena saída limpa, é como uma vitória. Senti-me livre e feliz. Tinha estado à beira de ser arrumador, fantasma, e possivelmente corcunda, e pior,  não poder escrever a crónica do
Cota-Diano

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publicado às 22:49

Fui às meninas

por Naçao Valente, em 20.02.18

As meninas estavam referenciadas, como altamente competentes no seu mister. Marquei o encontro por telefone. Apresentei-me à hora combinada. Toquei à campainha do número 69 de um espaço dúplex. Abriu a porta uma menina de grandes e profundos. olhos pretos. Fixei  o tamanho desmesurado das pestanas. Pestanejou.
-Olá, disse. Chamo-me Diano…
-Oi, disse a moça, com sotaque abrasileirado.. Estávamos à sua espera. Seja bem-vindo. Faz favor de entrar. Sente-se e espere um momento.
Fiquei à espera numa salinha, com ar acolhedor. Paredes de cores neutras, uma pequena secretária, um maple de aspecto confortável, onde me sentei. A menina com ar de mestre-de-cerimónias pegou num telefone e anunciou.-
-Podes vir. Já chegou o cliente.
Pouco depois apareceu outra moça. Chamou-me a atenção, o cabelo curto, e cor de fogo Ao aproximar-se notei algo invulgar. Os olhos tinham cores diferentes. Um era azul mar, o outro, um azul mais esverdeado.
Olá, é o senhor Diano. Que curioso. Eu sou Diana, mas todos me tratam por Di. Acompanhe-me.
Segui a menina por um corredor com várias portas. Introduziu-me num espaço com uma cama, uma cadeira e uma pequena mesa.
-Esteja à vontade, disse Di, com um aberto sorriso que deu para ver uns dentes bem alinhados. É a primeira vez?
Não menina Di, retorqui. Ou melhor, aqui neste lugar é a primeira vez. Como é óbvio, já tenho idade suficiente por ter de passar por estas experiências.
-Okey, Diano. Pode despir-se e deitar-se. Vamos começar por uma massagem relaxante. Depois vai sentir a temperatura a subir um pouco. Faz parte.
O pudor é uma maldição que se nos cola à pele há gerações. E por mais modernista que queiramos ser, não lhe conseguimos fugir  Despir-se  perante estranhos causa sempre algum constrangimento. É certo que me tinha preparado. Tomei um banho com sais perfumados, mas com toque masculino, como deve ser. Untei-me com cremes para apresentar a pele sedosa, mas hesitava. A expressão serena da moça descontraiu-me. Aproximou-se para me ajudar. Reparei então nas suas mãos, pequenas e finas, com umas unhas bem tratadas. Talvez unhas de gel, decoradas com variados motivos. Vestia uma espécie de bata, discretamente cintada e abotoada a frente. Decerto adequada à função.
-Prefere que me deite de costas ou de frente? Perguntei
- Para começar fica de barriga para baixo, temos qua aliviar a tensão lombar. Sem isso nunca se consegue atingir a descontracção física e mental para um bom desempenho. Depois vamos mudando para outras posições.
Debruçou-se sobre mim e começou a sua tarefa. Estava a ficar agradado. Parecia-me estar nas mãos de uma verdadeira profissional, bem preparada para a sua função. E que mãos, posso dizer. Foram percorrendo, com sabedoria, a pele e os músculos como se os conhecessem na intimidade. A continuar assim talvez o nirvana estivesse próximo. Fechei os olhos e deixei-me levar. Nestas coisas, palavras só atrapalham. Apenas ouvia a sua respiração. Apenas sentia o  discreto perfume da sua juventude.
-Está a ficar mais aliviado, perguntou Diana
-Quase aliviado. Está a ir muito bem. Pode continuar.
Quando terminou, abri os olhos e vi Diana sorridente e confiante no seu trabalho.
-Venha amanhã à mesma hora.
-Já amanhã? Outra vez?
-Claro, cavalheiro. Nestas coisas o mínimo são dez dias seguidos. Vai ver que aguenta.
Depois do que se passou, tenho de confiar na Diana. Garanto que saí mesmo muito aliviado. E recomendo o serviço das meninas, a quem precisar. Uma tendinite não é pera doce. E agora até já posso voltar a teclar para escrever a crónica do
Cota-Diano

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publicado às 22:21

Tempo de comboios

por Naçao Valente, em 15.02.18

No comboio dos atrasos vai gente que a gente esquece
Vai quem nunca chega a horas e às vezes nem aparece
Devagar devagarinho eu conheço tantos casos
De quem passa a vida inteira não comboios dos atrasos

                       Sebastião Antunes

No tempo, quase mítico, em que os comboios chegavam até a sitos recônditos de Portugal, eu fazia viagens com minha avó. Para ela, eram viagens de saudade para rever os filhos e os outros netos, que as distâncias, hoje curtas, tornavam difícil. Para mim, ainda não cota, nem diano, ia pelo prazer de sair daquele horizonte limitado, por serras que nos encerravam num microcosmos, só quebrado pelas ondas hertzianas, que moravam na taberna (chamada venda) do Armandinho, digo senhor Armandinho. (dobra a língua dizia a avó)
Saíamos, na velha camioneta, quando a luz jorrava por detrás dos montes, onde fora repousar das agruras de um dia duro. Depois de horas de sobe e desce, onde parecia que os serros é que se deslocavam, chegávamos à antiga Pax Júlia romana, hoje dita Beja. Aí repousávamos numa pensão familiar, onde os hóspedes transitórios seroavam contando histórias de vida, algumas mirabolantes, que muito me encantavam.
Ao romper de mais um dia íamos até à estação ferroviária, onde as locomotivas, expelindo fumo, como fumador viciado, se preparavam para rebocar carruagens cheias de vidas em movimento. Anciãos com os seus fatos de serrobeco, velhas senhoras com os seus longos vestidos de chita, e o inseparável lenço na cabeça, algumas damas de ouro e alguns valetes aperaltados, dividiam-se no cais para tomarem o seu lugar. Nós íamos na carruagem de terceira, com bancos de pau envernizado. Outros iam em segunda ou em primeira de acordo com as suas posses, mas todos partíamos e chegávamos à mesma hora.
Quando o chefe da estação levantava a bandeira e soprava um apito estridente para dar a partida, aquela geringonça, gemia num som de ferros que se afagavam, e arrancava aos solavancos como se tivesse pouca vontade de ir a algum sítio. Depois, a pouco e pouco, “pouca terra, pouca terra”, ganhava confiança e velocidade, deixando espantada a passarada, que pousava sem pagar bilhete no seu telhado. O fumo saído da chaminé da máquina, escorria ao lado das janelas, sobre as quais era proibido debruçarmo-nos. Um vendedor de tecidos, muito viajado, entretinha os outros passageiros, com as suas aventuras ferroviárias. Uma delas deixava-me, na minha ingenuidade verdadeiramente  assustado. Dizia o fulano, que um dia o comboio se incendiou, e que teve de saltar pela janela, mas acentuava, só depois de atirar o fardo de fazendas, a sua riqueza e porque isso sim tinha que se salvar.
Na nossa viagem tínhamos de mudar pelo menos duas vezes de comboio, informação que a minha avó, semianalfabeta, mas muito desenrascada, conhecia a preceito. Nunca se enganou, num transbordo. A técnica dela era simples: quando chegava a uma estação de mudança, perguntava a um funcionário, a que horas e em que linha parava o nosso comboio. Recebida a resposta, voltava a fazer a mesma pergunta a outros ferroviários. Não haja dúvidas, método científico infalível. Só depois de testar a informação, várias vezes, com o mesma  resposta estava garantido o resultado.

Neste comboio, ronceiro, não havia muitos atrasos, nem gente que andava sempre atrasada. E se em cada estação mudavam as pessoas continuava a mesma convivência simples e despretensiosa. Era um país sem pressas, que ali viajava, mas que chegava sempre a qualquer lugar. Não havia cotas e muito menos dianos. Havia velhos, moços, de todos os géneros e feitios , bias, tós, chicos, manéis, zés, como este escriba, com pouco ou nenhum tempo,  para estados d`alma depressivos. Palavra de escuteiro do
Cota-diano
E para quem gosta de uma canção tradicional, aqui vai o link: o comboio da Beira Baixa:

 

 

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publicado às 21:47

Campeões

por Naçao Valente, em 11.02.18

 

IC2H40D3.jpgImagem Sapo

 

 

Nós portugueses temos uma história rica de êxitos. Vejam-se alguns exemplos: Afonso Henriques deu tareia na mãe quando esta andava de mesa e pucarinho com um tipo lá das "galizas"; Nuno Álvares Pereira deu uma coça de criar bicho nos Castelhanos, quando achavam que nos iam dar uma cabazada; João IV ganhou a guerra aos espanhóis num "campeonato" a  várias mãos; e até os franceses levaram para contar, quando nos quiseram tirar a "taça"; na expansão marítima fomos os primeiros no mundo. Em todas estas provas fomos campeões. Temos estofo de campeões, mas não acreditamos. Temos de começar a acreditar.

Os rapazes do futebol de cinco, agora futsal, deram hoje aos espanhóis, que são e sempre foram mais que nós, uma lição de vontade de ganhar. Ficaram a saber com quantos paus se faz uma canoa. Somos um país pequeno em dimensão, mas com uma alma tamanho do mundo. Quando queremos fazemos, porque sabemos fazer. Muito bem malta do futsal, o mundo está aos vossos pés. Portugal rima com campeão.

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publicado às 00:07

Crónica para a Marta, que não a lerá

por Naçao Valente, em 08.02.18

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Depois da má experiência com a visita ao massagista redimi-me e voltei às meninas. As mãos das meninas da fisio são muito mais delicadas. Desta vez fui recebida pela Marta que me inspirou e a quem dedico esta crónica que nunca lerá. Não porque não queira mas porque não tem tempo, e porque não sabe que escrevo e publico no Escritartes, que fez dez felizes anos. A Marta é uma moira de trabalho. Quase só trabalho.No centro de fisioterapia, onde labora, não tem mãos a medir. Anda entre gabinetes numa roda viva. Tão esguia que parece transparente. Tão rápida que quase não se ve. Tão discreta que não sei se existe.
-Bom dia senhorita Marta
Entre para o gabinete 1. Já vou aí, diz uma voz saída de um dos vários gabinetes.
Despojo-me dos trapos que encobrem as adiposidades e imperfeições da pele curtida por muitos anos de labuta diária. Quando a Marta chega, formosa mas apressada, já estou preparado para a sessão de restauro. Enquanto as suas delicadas mãos afagam com saber os músculos rebeldes, cantarola uma melodia que ouve no som ambiente. E vai relaxando o corpo e o espírito Uma moleza doce começa a invadir-me. Terminada a massagem, a Marta põe-me umas placas  quentes no lombo, e liga-me o braço à corrente eléctrica.
Senhor José diga se está de mais?
Cuidado Marta não vim cá para ser electrocutado. Reduza lá isso.
E aí vai ela a correr para outro paciente. Pouco sei sobre a Marta. Em pouca conversa ou em conversas cruzadas, sei que gosta de cozinhar e faz muito bem bolachas, que tem um irmão bombeiro, que estando de baixa na altura dos incêndios foi pedir alta que não lhe foi concedida, e ficou muito triste.
-Feita apenas de voz a Marta pergunta: -Senhor José se as placas estiverem muito quentes, avise-me
-Está mesmo muito quente senhorita.
-Já lhe vou pôr mais toalhas.
-Fico à espera, mas veja se chega antes de eu estar assado para o jantar.
Entretanto aproveito a boleia do calor, fecho os olhos e quando dou por mim estou nos braços de Morfeu, até as mãos delicadas da fisio me resgatarem do mundo dos sonhos.
-Por hoje está despachadinho, senhor José
-Quer dizer que amanhã há mais. Cá estarei.
Parto para outra, enquanto a Marta é engolida por um qualquer gabinete. Nos dias seguintes a cena repete-se. Até já a assumi como uma rotina onde a soneca é a cereja em cima do bolo.
Mas nada se pode dar como adquirido e o que é bom nem sempre dura. Eis que chega uma nova paciente. Ocupa o gabinete que fica ao lado do meu, e deu logo para perceber que tinha a síndrome da tagarelice. Talvez por não se ter apercebido, que a cortina de plástico que faz a divisória, não tem insonorização, não deu descanso à língua, aos ouvidos da Marta, aos meus e aos de quem não seja surdo. Num abrir e fechar de olhos pôs a vida a nu. Assim fiquei a saber que era professora, quarentona, que não há jovens nas salas de professores e que ia a banhos para Monte Gordo.
E a Marta:  pois…sim…eu quando vou à praia…não gosto de lagartar ao sol…
 Quero lá saber da vida da gralha?  De quantos namorados teve, de quantas vezes faz sexo, de qual é a melhor posição. Ou se foi manjar a um estrela Michelin do chefe Avilez, se foi muito feliz em Veneza, se usa bikini ou gola alta, se viaja muito. Quero lá saber? O que eu quero é dormir. Meu rico soninho.
E a Marta: pois…sim…eu gosto de cozinhar e sem demérito faço um arroz de marisco de lamber os beiços.
Perguntei à Marta quantos sessões faltavam para acabar o tratamento.
-Faltam cinco, senhor José.
Dispenso. Acho que já não preciso.
Fosse porque tinha que ser ou por milagre o facto é que fiquei muito melhor. Até ver não vou precisar da fisio. E se voltar a precisar, espero que a gralha tenha ido para as Selvagens falar com as cagarras. Mas agora ainda admiro mais a Marta. Não só pelas suas mãos de fada, pela sua faceta canora,  mas pela pachorra com que foi dotada para as agruras dos cota-dianos

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publicado às 23:28

Conversa de chacha

por Naçao Valente, em 02.02.18

Há quem diga que a idade está na cabeça, mas o corpo passa ao lado de teorias e segue a normal marcha da natureza. Por mais que diga ao meu que não seja queixinhas, que não se deixe abater por uma dorzinha aqui, uma ardor acolá, um mal estar “acoli”(aiaiai) não me ouve. Não ouve mesmo. Vai daí, por mais que diga ao meu ombro que não ligue ao protesto dos tendões, e ao seu choradinho, o facto é que não se cala. É pior que bebé chorão. E tanto me chateou que lhe fiz a vontade e levei-o ao massagista. Estava sentado na sala de espera, com direito a senha e a ecrã plano de televisão, quando saiu do gabinete de massagens um paciente seguido do de um matulão “praí” de um metro e noventa. Reparei nas manápulas que saiam das mangas da bata branca. Era o homem das massagens. Mandou-me entrar e depois de um breve diálogo pediu-me para me deitar, em cima de uma marquesa. -Dispa-se, deite-se de bruços e imagine que está em cima de uma marquesa de verdade, disse Nada mal para começo de tratamento. O cavalheiro mostra sentido de humor, embora brejeiro. Aceito, como processo de descontrair o paciente e criar proximidade. Palavras não eram ditas comecei a sentir a delicadeza das manápulas no meu lombo. Pancada de criar bicho. Aguenta por seres queixinhas, disse no recesso da intimidade corporal. Até a marquesa gemeu, mas foi de dor. -É pá, a sua coluna tem mais curvas que a estrada do Sabugueiro. Ainda é muito novo para estar neste estado. Agarra-me no braço puxa, puxa, roda, roda, de tal modo que este parece uma ventoinha a sair do eixo. Será que ainda está agarrado ao corpo? -Não sou assim tão novo, respondi timidamente. Pelo menos já tenho idade para ter juízo e não me meter nestas alhadas, pensei… -O quê? Não lhe dava essa idade! Se tirar as banhas e pintar o cabelo, até parece um jovem. Sabe o que lhe digo? Saia do sofá, vá caminhar, olhe para as gajas, para as novinhas claro, vai-se sentir melhor. O braço ainda está no seu lugar. Até ver. E vem mais pancada. Agora dá-me um apertão tão forte na carcaça que senti que o esqueleto se separava da musculatura. Se é que ainda tenho esqueleto no verdadeiro sentido do termo. -Pois é…coluna toda empenada…é uma pena. Caminhe…olhe para as tipas…velhas não…faça sexo…endireita a espinha e outras coisas, como o ânimo, bem entendido, sentencia o massajador. Nem dou troco à conversa. Palavras para quê? Quero é que o matulão acabe para sair dali, mas continua e volta ao braço, Roda, roda, roda, roda Roda, roda, sem parar Tanto roda, tanto roda, Que ao lugar há-de voltar Porra, além de torturador também é versejador. Deixo-me levar na onda para ver se o tempo passa. Mentalmente vou dizendo, Soda, soda, soda, soda Soda soda sem parar Deixa-me o braço num oito E ainda tenho que pagar Quando nada o fazia prever, volta o apertão da ordem. Desta vez penso que me vão sair as miudezas pela boca, mas vá lá, ainda conseguiram voltar ao seu sítio, ou quase. -É o que lhe digo comece por caminhar cinco quilómetros, dez quilómetros e depois sexo. Tem que ser, você parece um puto, tem que viver como tal… -Puto que o pariu. Quilómetros e quilómetros de sexo. Mas onde é que eu estou? Numa sala de massagens, numa câmara de tortura, ou num consultório de sexologia? A medo arrisco dizer: “não se atrase, tem muita gente à espera”. -Terminámos e não se esqueça dos meus conselhos. Aplique a minha receita e não se arrependerá. Uff! Vamos lá ver, se ao menos consigo caminhar. Quanto ao resto logo se vê. Há, se alguém tiver um corpo queixinhas, ou achar que exagero, tenho o cartão do fulano e recomendo.

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publicado às 22:10




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