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A rapariguinha da livraria

por Naçao Valente, em 31.01.17

Para o leitor compulsivo entrar numa livraria é como para o crente religioso entrar na sua igreja. Com respeito e devoção. Percorre os altares, no caso prateleiras, Presta veneração aos santos, ou seja aos livros e aprecia os milagres que fazem na mente dos fiéis, os seus leitores. De quando em vez, arranca um livro à pasmaceira do seu dia-a-dia e consulta-o, porque o livro gosta de ser folheado e de partilhar com o leitor a sua intimidade. Acredito que livro sem leitor vive triste e aborrecido.
Depois da minha visita às estantes e de tirar do seu sono um ou outro exemplar, faço a minha opção, vejo se nos sentimos bem um com o outro e dirijo-me ao altar, digo caixa, para concretizarmos a relação, sempre por intermédio de um sacerdote ou sacerdotisa, a quem pago os respectivos emolumentos. Mas hoje, antes de me decidir, assolou-me o espírito uma dúvida que precisei de esclarecer. Dirigi-me à menina da caixa, que verdade seja dita, estava a concluir um contrato com outro cliente, Mas a minha questão era simples, coisa de sim ou não e arrisquei perguntar, infringindo a cerimónia em curso. A rapariguinha olhou-me de soslaio e disse: -“aguarde, pois estou a atender este senhor”.
Amochei. Que mais podia fazer. Eu sou prático e não gosto de complicar. Eu não, mas o meu outro eu, um pouco mais rebelde, e que vive escondido dentro de mim, logo começou a especular.


-Mas porque carga de água esta pitonisa de tranças pretas, não me diz sim ou não, obrigando-me a ficar a secar sem necessidade? Vendo as coisa pelo prisma que me é favorável, digo que se calhar engraçou com os meus lindos olhos e que me quer-me manter aqui em observação. Mas vendo as coisas do avesso, como numa pirâmide invertida, pode querer castigar-me por ousar interrompê-la no seu mister. Até me imaginei a captar o seu pensamento:-“aguente aí ó cota atrevido. Já tem idade para aprender a respeitar as precedências e a esperar pela sua vez".

.
Passado algum tempo o tal que vive escondido atrás das aparências, deu de frosque e foi refugiar-se nas páginas de um livro que, ao menos, esse nunca contesta. Quem o acolheu foi o escritor Mário Vargas Llosa, que aprecio na arte de bem pensar e melhor dizer. Estava ali um exemplar, meio oferecido, a fazer-me olhinhos, por acaso, o primeiro do autor e que ainda não li. E diz-se, na galeria dos lugares comuns, que não há amor como o primeiro, nem luar como o de Janeiro. Mas isso não sei porque, mês acabado, não lhe pus a vista em cima.
Quem me pôs a vista em cima, ou melhor os “olharápios” pintados de azul celeste, lindos, foi a rapariguinha da caixa, que se aproximou sorrateira. –Peço desculpa. O que desejava? Que óptimo livro que está a observar, que grande escritor, adoro”! Pois, balbuciei, para logo ser interrompido pelo eu clandestino


_o que tu queres, ó serigaita, sei eu, ou por outro lado penso que sei, o que não sendo idêntico vai dar ao mesmo. Vens-me agora com a tanga da conversa fiada, armada em gata , à espera que lhe façam festas que lhe ericem o pelo”.


-Pois, senhorita tem muito bom gosto, consegui dizer antes do intrometido me embaraçar, de novo, o discurso de conveniência.


“ Bom gosto? O que ela tem é um bom corpinho, nem muito gordo, nem muito magro, nem muito alto nem muito baixo. Na conta. Deixa-te mas é de literatices, ó palerma, afina o paleio e vê se a convidas para tomar um “shope”. Há tontas que se deixam levar por umas larachas. Aproveita. Não tens a vida toda.


-Então, mas qual era a dúvida? Insistiu a rapariguinha. –Nada, respondi, já está esclarecida. Vou levar este livro. Interessa-me. Tenho um fraquinho por este escritor, no que diz respeito à sua escrita, bem entendido.


“E também começo a ter um fraquinho pela senhorita, assim como uma chama que começa a crescer, a crescer” acrescentou o eu alternativo.


O que vale é que o bisbilhoteiro, só tem meios de pensamento, mas não tem formas de expressão, senão estava o caldo entornado. Paguei. Saí na companhia dos “Cachorros” . A rapariguinha da livraria, com os seus olhos de mar, o seu corpo de sereia, o seu peito de onda de surf, ficou na livraria com o meu eu escondido. O que se passou depois não sei. O que sei é que fiz o meu papel de cronista do
cota-diano.

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A Bela Adormecida

por Naçao Valente, em 05.07.16

Confesso que tenho um vício incurável. Sou caidinho pela cidade Invicta. De tal modo, que sempre que posso e as forças o permitem, dou corda às tamanquinhas e lá vou dar de beber à dor da saudade. Depois de me instalar com armas e bagagens, vagabundeio, ao acaso, pela parte histórica. Entre os Clérigos e as Fontainhas, entre a Ribeira e a Trindade, deleito-me com a simpatia das gentes, os cheiros, as cores que dão à cidade a sua personalidade. Muitas vezes, dou por mim a subir à cosmopolita Santa Catarina cheia de desvairados idiomas. Aí entro no Majestic, para tomar um café, mas nem sempre, pois custa-me os olhos da cara, salvo seja, e eu não ganho em dólares. De quando em vez,  passo pela FNAC que não se integra na tipicidade da cidade, mas cumpre o seu papel de prestador de serviço cultural. Bem inserido no espírito da cidade está a livraria Lello, mas deixei de lá entrar desde que entrou no roteiro turístico, o que me obriga a aderir à fila de visitantes.

Na minha recente visita, e retomando o fio à meada, fui dar uma espreitadela na FNAC, nos livros que ali habitam e nas pessoas que neles vivem, ou que como eu, ali estão de passagem. Depois de uma olhada nas estantes, não pude deixar de reparar numa dama semideitada numa espécie de chaise longue, e numa pose que me pareceu adormecida. Conjugando o seu estado com a sua beleza logo me pareceu que podia estar perante a Bela Adormecida. A sua face, serena. até me fez lembrar a Aidinha da história de um tal Estripador da Régua que li em tempos idos. Comparações à parte, o certo é que, me senti com vontade de acordar a Bela moça, mas faltou-me a coragem. E se alguém duvidar  da plausibilidade da história, porque a princesa já foi acordada em devido tempo, lembro que está constantemente a dormir e a ser acordada no livro onde habita. daí que, pode sempre haver mais um remake.

O problema é que não encaixo no enredo, pois não nasci com a condição de príncipe, quer no espírito quer na forma. Sou talvez mais tipo sapo, também vitima de algum feitiço, e talvez precisasse de uma princesa que me transformasse num elegante personagem de novela. Logo achei a hipótese impossível, pois esta situação pertence a outra história. Reformulando, quem sabe se cruzando as duas, se achasse um consenso que beneficiasse ambas as partes, ou seja, eu acordava a Bela e uma vez acordada, a charmosa descobria o príncipe que há em mim. E assim viveríamos felizes. Nem precisava ser para sempre, porque se podia tornar aborrecido. Bastava ser nas vezes em que eu visitasse a cidade que escolheu o nome da nação, e que por isso. é padrinho e madrinha de todos nós. Assim se cumpria o conto de fadas.

Como não há Bela sem senão, não houve conto de fadas. Lamento. Enquanto alimentava a indecisão, tocou-me no ombro uma fada o lar, de que me tinha esquecido no meu devaneio e me interrompeu do sonho acordado. "Ala que se faz tarde". Contrariado deixei a Bela no seu sono e à espera do seu salvador. Quando voltar a Santa Catarina quem sabe se ainda ninguém a acordou, pois guardado está o bocado para quem o há-de comer. Para já, e para compensar, vou comer uma francesinha.

 

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Gunter Grass e Eduardo Galeano

por Naçao Valente, em 14.04.15

Resultado de imagem para eduardo galeano frases  Mesmo os livros maus são livros e por isso sagrados

                                                                                                           Gunter Grass

 

 

 

O que têm em comum Gunter Grass e Eduardo Galeano? Nasceram  em continentes diferentes. Viveram realidades diversas. Tiveram percursos de vida ímpares. Apesar de todas as diferenças, comungam do mesmo amor às artes, da mesma entrega à escrita. Seguramente venderam a alma aos livros. Comprovadamente caldearam-se em inícios de vida atribulados e difíceis, mas ricos das experiências que permitem ficcionar o real, sem o desfigurar. Parafraseando Galeano "não são feitos de átomos mas de histórias".Partiram no mesmo dia para parte incerta. No entanto, continuam por aí, pois são feitos de histórias.

MG

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Arquivo da saudade I (Parêntesis)

por Naçao Valente, em 14.01.15

Nesta rubrica vou recuperar os melhores textos que aqui escrevi (escolha minha). Este foi escrito há dois anos, num dia de rara inspiração. 

 

Porque me deu na bolha fui passear os calcantes para o Shopping e como quem não quer a coisa entrei na FNAC (passe a publicidade) para pastar os olhos pelas novidades literárias. Agarrei num livro quase ao acaso e sentei-me entre uma senhora bem posta e um cavalheiro com facies(passe o estrangeirismo) indiano. Cada um deles, com os olhos pregados numa página de um livro ocasional. Nos lugares da frente, uma fila de leitores quase todos equipados com umas apropriadas lunetas na ponta do nariz, saboreavam concentrados páginas de prazeres virtuais.

 

Abri ao acaso o livro, escrito por um tal Gonçalo M. Tavares ( na badana muito premiado) e vi-me envolvido numa história com um cabrão de um guia anão e intelectual (descrição do autor) que  vociferava contra a geometria da catedral da Cidade do México, pondo os cabelos em pé aos visitantes ocidentais, alguns já motivados para tirar o raio do anão (expressão minha) de cena ,quando a visita acabou(e ainda bem). Virei a página e do anão nem rasto. Ia começar outra história no mesmo cenário citadino. Agora era um menino de onze anos que queria à viva força casar-me com a mãe ,que pelos vistos, não tinha marido. E sem ter tempo para respirar fundo, já me apresentava a dama em lingerie e dizia "é este. é este". Tirem-me desta história pensei em voz alta, sem que os leitores envolventes sequer pestanejassem. Apenas um cidadão, sentado em frente, misto de ancestralidade e modernidade (passe a indiscrição) com um boné tradicional a emoldurar uma aparada barba branca e calçado com uns ténis Nike (que se lixe a publicidade) me olhou de soslaio por cima do seu livro de artes culinárias. Isto cada tiro cada melro, pensei, pois mal virei a página já estava envolvido noutra aventura, ao procurar proteger um rapaz que apedrejara um ecrã de cinema, na altura em que o herói ia beijar a rapariga (não interessa o motivo), causando um olho negro no actor/personagem e um rombo na tela. E não fora um jovem amigo ocasional, poderia ter levado um tiro do assanhado proprietário do cinema, que ameaçava o pirralho de revólver engatilhado. Tiro-me já deste filme antes que seja tarde. Recusei mudar de página, fechei o estranho livro e li de supetão a capa. Em letras salientes dizia: Canções Mexicanas ( passe a divulgação). Levantei-me do concílio de leitores e devolvi o livro à estante. Noutro dia talvez volte a enfrentá-lo, num qualquer Shopping (com toda a descrição) numa qualquer livraria (nada de publicidade) porque este é um dia de parêntesis na rotina ronceira da puta da vida.

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Parêntesis na puta da vida, porque hoje é sábado

por Naçao Valente, em 16.08.14

Porque hoje é sábado fui passear os calcantes para o Shopping e como quem não quer a coisa entrei na FNAC (passe a publicidade) para pastar os olhos pelas novidades literárias. Agarrei num livro quase ao acaso e sentei-me entre uma senhora bem posta e um cavalheiro com facies(passe o estrangeirismo) indiano. Cada um deles, com os olhos pregados numa página de um livro ocasional. Nos lugares da frente, uma fila de leitores quase todos equipados com umas apropriadas lunetas na ponta do nariz, saboreavam concentrados páginas de prazeres virtuais.

 

Abri ao acaso o livro, escrito por um tal Gonçalo M. Tavares ( na badana muito premiado) e vi-me envolvido numa história com um cabrão de um guia anão e intelectual (descrição do autor) que  vociferava contra a geometria da catedral da Cidade do México, pondo os cabelos em pé aos visitantes ocidentais, alguns já motivados para tirar o raio do anão (expressão minha) de cena ,quando a visita acabou(e ainda bem). Virei a página e do anão nem rasto. Ia começar outra história no mesmo cenário citadino. Agora era um menino de onze anos que queria à viva força casar-me com a mãe ,que pelos vistos, não tinha marido. E sem ter tempo para respirar fundo, já me apresentava a dama em lingerie e dizia "é este. é este". Tirem-me desta história pensei em voz alta, sem que os leitores envolventes sequer pestanejassem. Apenas um cidadão, sentado em frente, misto de ancestralidade e modernidade (passe a indiscrição) com um boné tradicional a emoldurar uma aparada barba branca e calçado com uns ténis Nike (que se lixe a publicidade) me olhou de soslaio por cima do seu livro de artes culinárias. Isto cada tiro cada melro, pensei, pois mal virei a página já estava envolvido noutra aventura, ao procurar proteger um rapaz que apedrejara um ecrã de cinema, na altura em que o herói ia beijar a rapariga (não interessa o motivo), causando um olho negro no actor/personagem e um rombo na tela. E não fora um jovem amigo ocasional, poderia ter levado um tiro do assanhado proprietário do cinema, que ameaçava o pirralho de revólver engatilhado. Tiro-me já deste filme antes que seja tarde. Recusei mudar de página, fechei o estranho livro e li de supetão a capa. Em letras salientes dizia: Canções Mexicanas ( passe a divulgação). Levantei-me do concílio de leitores e devolvi o livro à estante. Noutro sábado talvez volte a enfrentá-lo, num qualquer Shopping (com toda a descrição) numa qualquer livraria (nada de publicidade) porque este é um dia de parêntesis na rotina ronceira da puta da vida.

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Sobre o amor, aos livros, às mulheres e ao vinho

por Naçao Valente, em 26.07.14

Este fim de semana tive uma recaída e voltei ao shopping. Confirma-se. Por mais que resista o criminoso volta sempre ao local do crime. Desta vez, como sempre caí numa livraria. Entro nesse sitio, como é lógico, para ver livros, mas gosto também da envolvência. Nesta visita senti-me perdido como um náufrago a afogar-se num mar de barras de ouro. Nem vivalma circulava por ali. Livros sozinhos, tristes, solitários, esquecidos em prateleiras, sem uma mão amiga que lhes faça um afago, sem um olhar que dê vida a letras, palavras e frases tirando-as da sua letargia, roubando-as da comodidade do papel onde repousam e recriando estórias que querem contar. Nem um brilho de um olhar com trocar fugidios cumplicidades. Será da crise? Será medo da troika? Será que a cultura se levanta como um perigo para o reino cavernoso da austeridade? Saí desiludido.

 

Rumei a outras paragens. Entrei, consciente dos perigos, no hipermercado. Aqui sim, voltei a cruzar-me com gente de carne e osso ( às vezes bem mais carne) gente aparentemente feliz sem livros. Carrinhos cheios de tudo e de nada. Necessidades e superfluidades. Cruzei-me com uma dama que passou como uma nuvem passageira (passe o pleonasmo) envolta num longo e alvo vestido rendado, que me prendeu a atenção.  Trocamos um olhar tão ocasional, tão fugaz como a luz de um pirilampo. Continuou na direcção da secção de roupa feminina. Enterneci-me com uma jovem que discreta e tímida agarrou um livro e o transportava, da livraria do hipermercado, com a ternura de quem segura um bebé. Deus a conserve. Os meus olhos, esquecidos da dama fugidia, apaixonaram-se pela capa de um livro que me chamava. Chama-se Barca Velha. Barca Velha é também nome de vinho. Que junção fabulosa! Há lá coisa melhor, casamento tão perfeito? Literatura e vinho ou vinho e literatura. Estou recompensado.

 

O livro Barca velha foi escrito por Ana Sofia Fonseca, uma jornalista que alia competência a um belo palminho de cara. (não vem ao caso mas não consigo evitar a observação) Inteligência, beleza e bela escrita eis a rosa que fecha o ramalhete. Ana Sofia Fonseca conta a história deste vinho nascido em 1952. Da terra que o gera, do Douro que o amamenta, da gente que o alimenta com o suor do seu rosto, da alquimia que o embala desde o mosto até à garrafa que o encorpa, do amor do seu criador, Fernando Nicolau de Almeida. O homem que antes de Saramago inventou o homem duplicado: austero na educação dos filhos a quem impunha regras e restrições rigorosas, como não puderem frequentar os espaços dos adultos. (quando o faziam trajavam a rigor) De tempos a tempos fazia-se desaparecer para dar lugar a um suposto irmão gémeo que vivia no Brasil e que fazia a sua aparição na proa dum rabelo vestido de caqui e chapéu colonial . Esta personagem exótica era o alter-ego de Fernando Nicolau de Almeida. Trazia consigo a inversão de comportamentos. As crianças com ele frequentavam todos os espaços ,desarrumavam, saltavam pelas cadeiras, faziam as maiores tropelias. Um regabofe. O que a força do amor filial inventa para ultrapassar convencionalismos? 

 

Pousei o livro e as suas encantadoras histórias, sonhei com o vinho não disponível neste local e portador de um preço proibitívo para muitas bolsas. (já há oito anos que não aparecia à venda) Saí da catedral do consumo dando asas à imaginação. Quem sabe se um dia não me sento em vale Meão com o  Douro no horizonte, a saborear curiosas histórias com um copo cheio de Barca Velha e ao lado da jornalista Ana Sofia Fonseca. Impossível? Não dizem que o sonho comanda a vida.

 

MG

 

 

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Pensei que aceitasses "que trocássemos umas ideias sobre o assunto". Disse-o com a esperança de merecer alguma atenção do escritor Mário de Carvalho. "Era bom", seria a resposta esperada. Eu sei que ele é o autor único e indivisível e eu apenas um, entre milhares de leitores. Mas também li, seja ceguinho se não li, que um livro uma vez parido, deixa de ser apenas de quem o gerou, para ser de todos, os que o de corpo e alma, o manuseiam. Um pouco como um filho, que depois de sair da barriga da mãe, se torna  cidadão do mundo e de certo modo, propriedade da nação, para o a que der e vier.

E é nesse sentido, que ouso invadir o lugar de conforto do autor, e perturbá-lo no seu solilóquio. Primeiro senti-me agastado, por este, só ao fim de dezoito páginas de descrição contestável de ambientes, introduzir na história as personagens. E ainda mais agastado fiquei quando me pespegou, no focinho, que o fazia deliberadamente, como um recurso anti-criativo. E por falar em recurso, ainda me atira com um discurso sobre o uso da analepse. Porra pá! Não seria mais civilizado aplicá-la, como fazem todos os outros? Não deve o criador usar as figuras de estilo que lhe der na mona, sem ter de explicar e justificar a sua utilização? Sobre o assunto, gostaria que trocássemos umas ideias. E por falar em figuras de estilo, estou carente de conhecimento sobre a captura das metáforas, pelos fazedores de poesia e pela razão de esta não o ser se não tiver sido emprenhada por essas figuras. Do mesmo jeito, mas num contexto mais abrangente, nem entendo o papel castrador dado às regras gramaticais. Mas que crédito se pode atribuir a uma Senhora que está sempre a mudar. Agora diz que é tlebes, mas em tempos foi generativa e não quero ir mais aquém, nem predizer mais além, para não falhar na previsão.

Pois, gostaria que trocássemos umas ideias. Sim, porque uns são filhos da mãe e outros filhos da outra. Ou seja, uns podem mandar a dita para as urtigas e são um génio e outros, se o fizerem, são acusados de maltratar sua excelência. Não entendes? Eu explico: se eu colocar uma vírgula entre o sujeito e o predicado, aqui d'el rei que cometi erro grave sem perceber porquê. Afinal, porque raio o desgraçado do sujeito e o infeliz do predicado têm de passar a vida separados por um muro. Bem,  mas quando o grande Saramago resolveu escrever sem passar cavaco à pontuação, aleluia que é inovação. É o que digo: dois pesos e duas medidas. Se um obscuro escriba falhar na utilização de maiúsculas, está a ofender a santa gramática. Agora quando o Valter Hugo Mãe não as usa a seguir aos pontos, merece encómios. Deve ser por essas e por outras, que o dito cujo, não aprecia os meus contos no concurso FNAC onde é júri, já que entre mil nunca ficaram nos dez melhores. Dá próxima vez vou dar tratos de polé à dita cuja.

A não ser que trocássemos umas ideias sobre o assunto, porque os personagens principais, (ou serão secundárias?), passam a vida entre analepses, a não fazer coisa nenhuma. E como é que um bibliotecário, com uma vida de merda, um filho preso por tráfico de droga, e que quer entrar para o PCP, um velho professor comunista, divorciado, e com uma filha armada em missionária, a apanhar picadas de mosquito, que quer sair do PCP, uma tipa que pensa que é jornalista e que se mete na cama do Professor (quando tem P grande) para que lhe componha a entrevista a Agustina Bessa Luís, (entre outras) de que não percebeu pevide e dois burocratas do PCP, que descobrem que o bibliotecário andou na juventude a rasgar cartazes do partido e a escrever em jornais de província, artigos contra o KGB, acabam a história como a começaram. O comunista continuou a ser o militante que não queria ser, a jornalista que deixou de o ser quando se levantou da cama do professor e o bibliotecário que não conseguiu entrar para o partido, suprema humilhação. Ao fim e ao cabo nem mortes, nem traições, nem adultérios, nem porrada de criar bicho, nem uma verdadeira cena de sexo. Nem percebo como cheguei ao fim desta história, mas sei que queria era que o fim não chegasse porque "Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto".

 

MG

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Não tenho emenda. Mesmo depois de justamente "admoestado"  por zeladores da vida ao ar livre fui novamente enfiar-me num Shopping. Mas ao menos tenho a atenuante de que estava a chover. E como não podia deixar de ser enfiei-me numa livraria (do mal o menos) que não vou nomear ( para não fazer publicidade).Como ando a descobrir o grande escritor brasileiro Ruben Fonseca (mea culpa, mas há tantos para descobrir) agarrei no seu romance intitulado "O seminarista" (merece divulgação) e sentei-me a folheá-lo. Achei o título curioso, porque por cá nós também tivemos um seminarista que nos governou cerca de quarenta anos e ainda me torrou a paciência. Comecei a ler o livro do Ruben ( a escrita dá-nos  estas liberdades de tratamento) apercebi-me que o personagem principal, designado como o Especialista se assumia como matador profissional e nos ia contando como despachou alguns sujeitos a troco de bom pagamento. Mas dizia ele, o matador, que eram todos tipos ruins  e o certo é que este ex-seminarista nunca tratou mal nenhuma das avezinhas do céu. Achei então que tinha muitas semelhanças com o nosso seminarista que também deu carta branca aos seus algozes para tratar da saúde aos perturbadores da sua ordem. Tudo a bem da nação. Não sei se gostava das aves do céu, mas sei que protegia as da terra, pois consta que criava galinhas no quintal do palácio do governo.

Entretanto, sentaram-se ao meu lado, à direita e à esquerda, duas damas jovens e bem apresentadas. Ainda trocámos uns olhares ocasionais e fugazes (sem qualquer intenção acho) e voltámos a embrenhar-nos nas nossas leituras. A esta altura já o Especialista tinha acumulado um bom pé de meia e podia dedicar-se às suas paixões, a poesia e as mulheres, tendo até começado um relacionamento sério com uma jovem de nome "Kristner" que parecia transportar para a acção algum mistério. Voltei a trocar olhares menos fugazes (não tem mal),com as damas, mas antes de começar a pensar coisas lembrei-me que já não sou nada jovem (a não ser em espírito) e que a natureza ingrata não me dotou com um corpo de Adónis, olhos azuis e cabelo louro com reflexos vermelhos ou com a pinta de um actor dos anos 50. (Gregory Peck, por exemplo) Antes pelo contrário, pensei, sou mais tipo Sarkozy, Berlusconi (salvo seja) ou Dustin Hoffman ( num registo cinéfilo). Para não haver tentações estava na hora de zarpar e devolver o livro ao seu repouso. Mas hei-de voltar, pois estou mortinho por saber como vai o Ruben tratar o seminarista (o nosso já não incomoda). Com bom ou mau tempo hei-de ir a uma livraria de rua (quem sabe se a Lello). E porque vem aí o fim de semana vou-me embebedar de futebol. (Benfica -Sporting para acabar em alta). Sim, porque depois volta a apagada e vil tristeza, com comentadores a chamarem-me preguiçoso e gastador e as agências de vigarice(chamadas de rating) a dizer que sou lixo.

 

MG

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Sobre o amor aos livros, ao vinho e a caras lindas.

por Naçao Valente, em 18.06.12

Este fim de semana tive uma recaída e voltei ao shopping. Confirma-se. Por mais que resista o criminoso volta sempre ao local do crime. Desta vez, como sempre caí numa livraria. Entro nesse sitio, como é lógico, para ver livros, mas gosto também da envolvência. Nesta visita senti-me perdido como um náufrago a afogar-se num mar de barras de ouro. Nem vivalma circulava por ali. Livros sozinhos, tristes, solitários, esquecidos em prateleiras, sem uma mão amiga que lhes faça um afago, sem um olhar que dê vida a letras, palavras e frases tirando-as da sua letargia, roubando-as da comodidade do papel onde repousam e recriando estórias que querem contar. Nem um brilho de um olhar com trocar fugidios cumplicidades. Será da crise? Será medo da troika? Será que a cultura se levanta como um perigo para o reino cavernoso da austeridade? Saí desiludido.

 

Rumei a outras paragens. Entrei consciente dos perigo que se correm no hipermercado. Aqui sim, voltei a cruzar-me com gente de carne e osso ( às vezes bem mais carne) gente aparentemente feliz sem livros. Carrinhos cheios de tudo e de nada. Necessidades e superfluidades. Cruzei-me com uma dama que passou como uma nuvem passageira (passe o pleonasmo) envolta num longo e alvo vestido rendado, que me prendeu a atenção. (tenho este defeito) Trocamos um olhar tão ocasional, tão fugaz como a luz de um pirilampo. Continuou na direcção da secção de roupa feminina. Permaneci na livraria do hipermercado. Enterneci-me com uma jovem que discreta e tímida agarrou um livro e o transportava com a ternura de quem segura um bebé. Deus a conserve. Os meus olhos, esquecidos da dama fugidia, apaixonaram-se pela capa de um livro. Chama-se Barca Velha. Barca Velha é também nome de vinho. Que junção fabulosa! Há lá coisa melhor, casamento tão perfeito? Literatura e vinho ou vinho e literatura. Estou recompensado.

 

O livro Barca velha foi escrito por Ana Sofia Fonseca, uma jornalista que alia competência a um belo palminho de cara. (não vem ao caso mas não consigo evitar a observação) Inteligência, beleza e bela escrita eis a rosa que fecha o ramalhete. Ana Sofia Fonseca conta a história deste vinho nascido em 1952. Da terra que o gera, do Douro que o amamenta, da gente que o alimenta com o suor do seu rosto, da alquimia que o embala desde o mosto até à garrafa que o encorpa, do amor do seu criador, Fernando Nicolau de Almeida. O homem que antes de Saramago inventou o homem duplicado:

austero na educação dos filhos a quem impunha regras e restrições rigorosas, como não puderem frequentar os espaços dos adultos. (quando o faziam trajavam a rigor) De tempos a tempos fazia-se desaparecer para dar lugar a um suposto irmão gémeo que vivia no Brasil e que fazia a sua aparição na proa dum rabelo vestido de caqui e chapéu colonial . Esta personagem exótica era o alter-ego de Fernando Nicolau de Almeida. Trazia consigo a inversão de comportamentos. As crianças com ele frequentavam todos os espaços ,desarrumavam, saltavam pelas cadeiras, faziam as maiores tropelias. Um regabofe. O que a força do amor filial inventa para ultrapassar convencionalismos? 

 

Pousei o livro e as suas encantadoras histórias, sonhei com o vinho não disponível neste local e portador de um preço proibitívo para muitas bolsas. (já há oito anos que não aparecia à venda) Saí da catedral do consumo dando asas à imaginação. Quem sabe se um dia não me sento em vale Meão com o  Douro no horizonte, a saborear curiosas histórias com um copo cheio de Barca Velha e ao lado da jornalista Ana Sofia Fonseca. Impossível? Não dizem que o sonho comanda a vida.

MG

 

PS E o amor à selecção nacional continua bem vivo na alma portuguesa. Que haja alguma coisa que levante o ânimo da nação, que hoje se arrasta pelas ruas da amargura da mediocridade que nos governa.

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Parêntesis (Porque hoje é sábado)

por Naçao Valente, em 07.01.12

Porque hoje é sábado fui passear os calcantes para o Shopping e como quem não quer a coisa entrei na FNAC (passe a publicidade) para pastar os olhos pelas novidades literárias. Agarrei num livro quase ao acaso e sentei-me entre uma senhora bem posta e um cavalheiro com facies(passe o estrangeirismo) indiano. Cada um deles, com os olhos pregados numa página de um livro ocasional. Nos lugares da frente, uma fila de leitores quase todos equipados com umas apropriadas lunetas na ponta do nariz, saboreavam concentrados páginas de prazeres virtuais.

 

Abri ao acaso o livro, escrito por um tal Gonçalo M. Tavares ( na badana muito premiado) e vi-me envolvido numa história com um cabrão de um guia anão e intelectual (descrição do autor) que  vociferava contra a geometria da catedral da Cidade do México, pondo os cabelos em pé aos visitantes ocidentais, alguns já motivados para tirar o raio do anão (expressão minha) de cena ,quando a visita acabou(e ainda bem). Virei a página e do anão nem rasto. Ia começar outra história no mesmo cenário citadino. Agora era um menino de onze anos que queria à viva força casar-me com a mãe ,que pelos vistos, não tinha marido. E sem ter tempo para respirar fundo, já me apresentava a dama em lingerie e dizia "é este. é este". Tirem-me desta história pensei em voz alta, sem que os leitores envolventes sequer pestanejassem. Apenas um cidadão, sentado em frente, misto de ancestralidade e modernidade (passe a indiscrição) com um boné tradicional a emoldurar uma aparada barba branca e calçado com uns ténis Nike (que se lixe a publicidade) me olhou de soslaio por cima do seu livro de artes culinárias. Isto cada tiro cada melro, pensei, pois mal virei a página já estava envolvido noutra aventura, ao procurar proteger um rapaz que apedrejara um ecrã de cinema, na altura em que o herói ia beijar a rapariga (não interessa o motivo), causando um olho negro no actor/personagem e um rombo na tela. E não fora um jovem amigo ocasional, poderia ter levado um tiro do assanhado proprietário do cinema, que ameaçava o pirralho de revólver engatilhado. Tiro-me já deste filme antes que seja tarde. Recusei mudar de página, fechei o estranho livro e li de supetão a capa. Em letras salientes dizia: Canções Mexicanas ( passe a divulgação). Levantei-me do concílio de leitores e devolvi o livro à estante. Noutro sábado talvez volte a enfrentá-lo, num qualquer Shopping (com toda a descrição) numa qualquer livraria (nada de publicidade) porque este é um dia de parêntesis na rotina ronceira da puta da vida.

 

MG

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