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O livro proibido de Saraiva

por Naçao Valente, em 16.09.16

José António Saraiva é um arquitecto que nunca arquitectou nada. Nem uma casota para cão. Ainda bem para o cão. Não sei como, nem me interessa, armou-se em jornalista e assim ganha vida. Depois de sair do Expresso, fundou o Sol. Um fiasco. Falido vai sobrevivendo com dinheiro angolano, e fazendo o seu papel de tablóide semanal. Enfim,a vida custa a todos e cada qual ganha-a como pode.

Não se conhece ao arquitecto enquanto escritor qualquer obra relevante. No entanto, vai agora lançar um livro "Eu e os políticos" que segundo consta aborda a vida de alguns políticos na intimidade. O autor assume o papel de voyeur espreita pela fechadura e conta o que se passa no remanso da alcova. São várias as vitimas da devassa, umas vivas outras mortas. Diz quem teve acesso a esse big brother em versão letra de imprensa, que estamos perante uma abordagem degradante da vida alheia. Protagonismo e dinheiro, para si e para a sua editora, (Gradiva) são a razão ser da "porno chachada". Mas revela sobretudo a incapacidade do autor em firmar-se como um escritor sério.

António José Saraiva, pai deste "escrevedor" foi um grande estudioso da literatura. Deixou obra de relevo publicada,e hoje referência para o estudo da nossa literatura. Tem um percurso pautado pela competência, pelo rigor, pela inovação, pelo bom senso. Tem lugar garantido na história. Merece a minha gratidão e o meu respeito. Quem sai aos seus não degenera. Pelos vistos este filho da mãe (e do pai) degenerou.

   

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As 50 sombras da nação

por Naçao Valente, em 20.02.15

Quando o dia se deita e a noite explode em escuridão, as sombras de Grey invadem os virtuosos lares de gente comum, e o sexo rola por detrás de janelas fechadas à curiosidade dos bigbrodistas. De norte a sul do país do sol, milhões de homens querem ser "greys", fazendo ranger as molas dos colchões, mais ou menos ortopédicos,numa sinfonia de gemidos. As mulheres querem aproveitar a vaga de fundo, a maré viva,  para viver acima das suas possibilidades, de país pobre. E sonham com  essa vertigem antes que a troika dos costumes, nos ponha o freio nos dentes, e o cinto de castidade em vez de fio dental. O que faltava era que depois da austeridade viesse a assunção da castidade. E aí tínhamos o sexo restrito a 50 sessões mensais, sorteadas na tv, entre os parceiros, com voto autenticado pela maioria. E ainda se criava um novo espectáculo para ver os vencedores receberem a chave do cinto qa ser aliviado uns furos.

Mas sexo à parte, divagações absurdas em pano de fundo, o país do sal e das conservas está assombrado por nuvens cinzentas, que o cobrem de sombras escuras,  o nosso quotidiano. Cobrem porque nem sempre cobriram. Podia referir o erotismo do passado, com os reis a fazer filharada nas suas deslocações por toda a nação. Duvido até que exista portuga que não tenha sangue real. Nem que seja em valores diminutos. Mas a população não lhe ficou atrás,. indo por esse mundo fora na ânsia de descobrir mulheres de cores variadas. E nunca negou fogo, nem recusou a nobre função, de em corpo e espírito, cumprir a missão de esbatimento de fronteiras sexuais. E não me custa admitir que os genes tugas, vivam muito para além da lingua portuguesa, em todos os quadrantes planetários. Comparado com esta orgia de sexo, as Sombras de Grey são uma história para crianças.

Passaram os tempos gloriosos do Império. A decadência moral invadiu o povo lusitano. Vivemos tempos de grande retrocesso. Na mais alta magistratura temos o homem que, contrariamente aos seus egrégios avós, nunca fez chichi fora do penico. E ainda bem, que estirpe da sua qualidade dispensamos. Já a gente da governação castrou-se para servir a Merkel. São um grupo de eunucos que assistem ao harém da abundância alemã, submissos, indiferentes, sem se lhe levantar um pelo púbico. Amarram-se e chicoteiam-se para agradar ao senhor Schaulbe A vida e o que tem de bom passa-lhes ao lado. A grande riqueza da nação, o capital humano, o poder fálico, murchou no Outono do empobrecimento.

As sombras da nação não são cinquenta. São imensuráveis. É uma única sombra que cobre todo o território. Assim o país do Sol, do Sal e do Sul está cativo de cinzentismo. O sexo envergonhado é procriação na nação do prazer insonso, deslocado para outros azimutes. Para ser mais claro e libertar a palavra do dia sem luz, a nação do sexo viril, vive num limbo onde pode usar com propriedade o título do país fodido. Bem e depressa.

 

MG  

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Fim de semana alucinante

por Naçao Valente, em 25.11.14

Aquele país imaginário ou imaginado estava uma pasmaceira. Os seus habitantes sofriam de uma estranha doença. Vegetavam como zombies numa espécie de sono encantatório. Havia até quem admitisse que estavam sob o domínio maléfico de uma bruxa má. Tentaram-se vários esconjuros. Aplicou-se a receita tecnoforma sem resultado. Colocara--se num labirinto. A pasmaceira persistia.            

Até que alguém,não identificado, presentou uma solução radical. Tratava-se de os exorcizar todos os males com um animal feroz. Acendeu-se o Sol, ou dito de outra forma fez-se luz. Mas onde encontrar esse animal,num país amorfo de carneirada, incluindo os lobos disfarçados? Até que alguém, não se sabe quem, sugeriu que se podia imaginá-lo. E imaginou-se um que não destoava de um país imaginário.

A etapa seguinte consistia em arranjar um domador. Alguém, há sempre alguém, disse que conhecia um que por caso até era o único. Tinha o perfil ideal. Fora gerado acima de qualquer suspeita. Havia quem garantisse que teria sido gerado sem pecado, embora não fosse filho de um carpinteiro e de uma virgem. Mas era filho de um mensageiro da manhã e de uma dama de pés de cabra. Era de uma pureza de desafiava a essência do conceito. Não se lhe conhecia um deslize. De certo não fora conspurcado pelo pecado original das fraquezas do género humano. Os cidadãos de um país sem cidadãos, curvavam-se  perante a santidade do justiceiro. À justiça o que é da justiça disseram em coro. Infalível.

 

Chegou a hora de montar o circo. O espectáculo estava pronto. Estava na hora de acordar o povo pasmado. Ia começar um fim de semana alucinante. O animal feroz, inventado, desceu dos céus como um cavaleiro do apocalipse, sem visto Gold. O domador puxou do longo chicote justiceiro e domou com pompa e circunstância o animal. Sacou-lhe as garras roubadas a outros animais. Soaram as trombetas. O povo acordou estremunhado. Do espanto passou à euforia. As emoções estavam ao rubro. Aleluia. O encantador de consciências estava domado. O reino salvou-se.

Na arena imaginada o povo rejubilava. Depois de um longo sono vivia a realidade virtual. Abata-se, esfole-se. Acabaram-se as nossas agruras.A multidão alucinada queria mais. Mas o domador imaculado consultou o deus menor que adora e decidiu: o animal feroz vai recolher aos curros. Precisamos dele porque o espectáculo tem que continuar. Este é apenas o primeiro acto.

 

PS aplique-se o lugar comum: não se pode estabelecer qualquer semelhança destes não factos com a realidade. 

 

MG

 

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Encontros imediatos de terceiro grau

por Naçao Valente, em 11.09.14

Naquela manhã fria de 1971, o meu FIAT coupé, teve um encontro imediato de terceiro grau, com um velho volkswagen carocha que ia no sítio errado à hora errada. Tinha saído pouco antes do apartamento J.Pimenta (pois pois J. Pimenta) com a Leonilde que comigo partilhava a habitação em Paço De Arcos. Ao entrar, intempestivamente, na marginal, não respeitei a prioridade e pronto, bate chapas e tinta robbialac.

A culpa, em parte foi da Leonilde, uma colega/namorada problemática, que me punha os nervos em franja. Mas aconteceu e não valia a pena estar a chorar sobre o leite derramado. Tinha que resolver o acidente e para isso convinha despachar a Leonilde. A solução, parece que caiu do céu, quando parou junto a nós um bólide chamado Porsche. De imediato me dirigi ao condutor que viajava sozinho e lhe pedi boleia para a Leonilde. Ainda o pedido não estava aceite quando me deu um feroz arrependimento. Então não é que o personagem que me ia transportar a minha namorada/colega era o Caldeira, que não via desde os tempos comuns do serviço militar. Na minha memória acenderam-se as luzes que me fizeram ver em 3D o filme do ano de 1967 em Tavira.

Foi lá que  fiz a recruta militar. Nessa época, o quartel era um viveiro de juventude, que muito animava ass ruas tortuosas e pejadas de igrejas da cidade. Quando nos deixavam transpor a porta de armas, saíamos  aprumados com a nossa farda número um e com as grandes botas cardadas  que nos punham nos pés, marchávamos com ar gingão para atrair os olhares das moças que, atrevidas e curiosas, nos espreitavam debruçadas nos parapeitos das janelas. Depois de algum tempo de clausura e aplicação militar, sem a presença de um sorriso feminino, aqueles risos, às vezes trocistas, eram como uma bênção para a nossa solidão do charme das formas femininas.

 

Depois de regressarmos da passeata e durante a refeição da noite, aproveitávamos para falar das experiências desse regresso à normalidade. Embevecia-me, particularmente, com as aventuras do Caldeira, que era natural de Alcabideche. E porque um homem não é de pau, para além da mulher que deixara, saudosa, à espera, gabava-se de se ter envolvido com umas moças de Tavira e afirmava que até estava de cama e pucarinho com uma dama divorciada. Ora para quem não conseguia molhar a sopa, o sucesso do Caldeira com as damas, causava-me alguma inveja, mas não conseguia-deixar de o admirar.No dia em que, acabada a recruta, partimos para outros destinos, e enquanto observava as janelas fechadas, imaginei-me a a ver por detrás das cortinas, damas chorosas pela perda do Caldeira de Alcabideche.

 

 Por ironia do destino eu e o Caldeira fomos transferidos para a mesma unidade militar sediada em Alcabideche. Eu, Félix Lagos, e o grande sedutor tínhamos sido colocados no Regimento de Artilharia de Costa, única unidade que não dava mobilização para a guerra colonial . Nunca percebi porque recebi essa benesse, mas o meu companheiro, disse-me que  era protegido de uma alta patente militar. No novo quartel, fizemos juntos a especialidade. Ele ficou a cumprir o serviço militar na sua terra natal e muitas vezes no aconchego dos seus lençóis e a mim coube-me rumar a outras paragens, por curiosidade bem mais agradáveis. Não voltei a vê-lo desde esses meses em que convivemos no serviço militar.

 

Depois de ter arrumado as galochas, desenvolvi a minha profissão em Lisboa. Após conhecer a Leonilde, passei a residir, com ela, no seu apartamento de Paço de Arcos. Naquela manhã, fria e nevoenta, em que o meu coupé se atirou ao carocha, fazíamos a viagem para a capital, onde íamos iniciar mais um dia de trabalho. Quando, depois do acidente, o Porsche, se aproximou, até pensei que era um craque de futebol de um clube grande. Quando olhei para a cara do ocupante até exclamei; “caramba eu conheço esta fronha, mas não me recordo do nome”. Aí o fulano olhou-me e disse com ar algo enjoado. “é pá, mas tu és o Félix Lagos”. Foi então que se me abriu a carola. O gajo era, nem mais nem menos, que o engatatão do Caldeira. A nossa relação foi apenas conjuntural. É tipo com quem não vou à bola. Aliás nunca jogámos no mesmo campeonato. Fui directo ao assunto:” estou acidentado, se vais para Lisboa podes levar a minha namorada?” “Claro, disse num tom que me pareceu um pouco amaneirado.

 

Uma desgraça nunca vem só, pensei. Já não me basta a chatice do abraço entre as viaturas. Agora dá-se um encontro de terceiro grau, imediato ou não, entre a Leonilde e o garanhão do Caldeira. O homem das mulheres, ainda  me rouba a namorada/amante/companheira. Ao chegar ao local de trabalho perguntei à Leonilde: "Então, o correu tudo bem? O rapaz do Porches não te deu nenhuma “cantada”? “Não. E é pena, porque o moço é um bom pedaço, eu ainda puxei por ele, mas conversa puxa conversa descobri que o homem é florzinha, ou seja, gosta mais dos belos corpos masculinos e nem tinha sido preciso confessá-lo, pois os seus maneirismos não enganam ninguém”. Fiquei boquiaberto. Como foi possível lidar algum tempo com o fulano sem uma leve suspeita. Só então percebi que aquela fanfarronice das conquistas não passava de uma forma de esconder a sua verdadeira vocação sexua,l num meio que poderia ser-lhe hostil. Naquele momento, respirei de alívio, por a Leonilde não ter caído nos braços do Caldeira. Acabaria por cair nos braços de uma hospedeira de bordo que conhecemos numa viagem à Madeira, mas isso são contas de outro rosário.

 

MG

 

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Sem anos de solidão

por Naçao Valente, em 18.04.14

imagem net

 

 

" O primeiro da estirpe amarrado a uma árvore e o último comido pelas formigas". Eis a síntese da saga dos Buendia. No palco de Macondo que criaram e onde se desenvolveu a sua "estória". Ali se cruzaram as realidades de uma Colômbia dilacerada por infindáveis conflitos. Ali se fez e se desfez um progresso de redenção e destruição. Ali se inventaram sonhos, se realizaram magias e se cumpriu o "evangelho" de destruição de Melquíades.

 

Das cinzas de Macondo, ou melhor Aracataca, renasceu o "amor em tempos de cólera". O amor entre Florentino e Fermina sobreviveu aos anos de solidão e triunfou no ocaso das suas vidas, em plenitude. Já o velho coronel das guerras civis esperou até ao fim dos seus dias, por uma prometida recompensa do Estado. Dia após dia esperou a ansiada carta que nunca recebeu.

 

"O Outono do Patriarca" chegou ao fim. Morreu numa quinta-feira santa, sem anos de solidão. Decerto ressuscitará no sábado aleluia, porque as estirpes nascidas para dar vida às vidas, são eternas, e precisam de "viver para contá-las" mesmo quando morrem de uma "morte anunciada" numa crónica com a marca de Gabo.

 

PS: A minha relação com os "Cem anos de Solidão" foi além da simples leitura. Na concretização de um trabalho colectivo, na universidade, tive de descobrir a partir do romance de Gabriel Garcia Marquez, parte da história da Colômbia. Ir da ficção para a realidade foi uma agradável experiência que hoje continua viva na minha memória e que anos mais tarde tive o prazer de ver, em alguns aspectos, confirmada em "Viver para contá-la".

 

MG

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David e Golias (Histórias do quotidiano)

por Naçao Valente, em 15.10.13

 

 

Deixei de viver na capital há mais de trinta anos. Contudo, de tempos a tempos desço ao povoado, como costumo dizer, para tomar um banho de cosmopolitismo e matar velhas saudades. Na minha última visita deambulava pela praça dos Restauradores quando um desconhecido me abordou com um sotaque que me pareceu familiar:

-Tu não és o Carlos Antunes?

-É como me tratam. Com quem estou a falar?

-Eu bem me parecia. Não te vejo desde os anos setenta mas reconheci-te de imediato. Estás na mesma, parece que os anos não te fizeram mossa. Eu sou o João. Fomos hóspedes na casa da dona Conceição.

-Claro, o João Saramago. Quem diria. O corpo disforme, o cabelo escasso, a voz arrastada. Caraças. O que é feito do João garboso, atlético, trigueiro natural como marca do seu Alentejo? Onde está o sedutor que se gabava das suas performances durante as intermináveis noites com a namorada. Porque raio nos castiga assim a puta da vida.

-Caramba pá, o tempo esqueceu-se de ti, continuou João. Até parece que vendeste a alma à juventude eterna. Qual é afinal o teu segredo?

-É muito simples, respondi. Saí há muito do bulício da cidade. Vivo na parvónia: sossego, ar puro, vida saudável; além disso sou um solteirão empedernido, não tenho mulher para me torrar a paciência, nem filhos para me fazerem cabelos brancos.

-Pois eu, Carlos, casei muito novo. Como sabes tive de juntar os trapinhos à pressa com a Virgínia a minha primeira e única namorada, porque ficou prenha apesar de todos os cuidados que tínhamos. Será que a reconheces? Está aqui ao meu lado.

Lembrava-me, claramente, desse casamento. Fui convidado mas não estive presente. Tinha as minhas razões. Não havia dúvida. Estava ali a mesma Virgínia: a mesma beleza selvagem, o mesmo rosto que roçava a perfeição, apenas mais flácido, os mesmos fascinantes olhos azuis, apenas com menos brilho. Como não reconheceria Virgínia depois do que nos aconteceu num fim-de-semana alucinante.

Tudo começou quando o Joaquim, um outro hóspede, me convidou a ir passar o sábado e o domingo à casa praia de uma amiga da namorada, chamada Leonor. A Leonor que conheci numa passagem de ano, era uma quarentona desinibida e viúva de afectos. Aceitei o convite. E lá teria ido se a “mamãe” Conceição como a tratávamos não se tivesse metido no caso, com as suas “finas” ironias, durante o jantar. “Então senhor Carlos quando é o casamento?” Embaraçou-me. Sou discreto, não gosto de ver a minha vida nas bocas do mundo. Previ que o assunto teria novos capítulos, com muitos pormenores. Não tenho estofo psicológico para aguentar insinuações. Admito a minha fraqueza. Dei o dito pelo não dito. Arranjei uma desculpa esfarrapada. Pus-me de fora.

Contudo, o Joaquim não quis deixar a Leonor a servir de pau-de-cabeleira e arranjou uma alternativa. E quem estava mesmo à mão? Nem mais nem menos que o garanhão do João Saramago. O João não se limitou a aceitar. Teve de dar espaço à sua habitual bazófia: “ela só vai ganhar com a troca. Nunca teve na cama ninguém tão bem artilhado. As réguas da escola que tinham vinte centímetros não chegavam para mo medir”. Se já estava em baixo a soberba do João pôs-me mais pequenino que um verme. Mas a vida quando menos se espera dá cambalhotas surpreendentes. Mal sabia eu que o melhor estava para vir.

Naquele Sábado ia sair depois do jantar para afastar as teias de aranha que me povoavam a mente quando “mamãe” Conceição me chamou:

-Senhor Carlos espere, tem aqui um telefonema. Atendi.

-Está, disse uma voz tão distante que parecia que vinha do além.

-Estou!

-Fala a Virgínia. Desculpa se incomodo. O João disse-me que ia ao Alentejo visitar os pais e aqui na casa onde estou hospedada está tudo de fim-de-semana e até a patroa foi ver uns familiares. Estou um pouco abandonada e aborrecida. Se não tens nenhum compromisso convido-te para ir ver um filminho.

-Era mesmo isso que ia fazer, disse procurando esconder a surpresa. Onde nos encontramos?

Montei-me no meu velho mini e apanhei a Virgínia Junto à fonte luminosa quando ainda tinha luz e água. Perguntei-lhe: tens algum filme em mente? Escolhe tu, respondeu. Estava meio bloqueado. As mulheres encabulam-me. Por isso deixei rolar o mini pelas ruas da cidade. E só deixou de rolar quando na praça dos Restauradores, junto ao cinema Condes, foi parado pela traseira de um carro estacionado. Ainda não consigo explicar como aconteceu. Ou me distraí com o cartaz “DAVID E GOLIAS” ou me perturbei com a beleza da companhia inesperada. Raio, isto não começa bem, murmurei. E agora? Perguntou Virgínia. Agora bate-chapas e tinta…A Virgínia deve ter percebido a minha perturbação. Fez uma fuga para a frente: vamos esquecer o filme; vamos tomar um drink e bater um papo; concordas? Bater um papo é coisa a que não resistia, naqueles tempos revolucionários. Aonde? Perguntei Na minha casa, respondeu. Engoli em seco. Deixei-me levar, o que podia fazer? Não sei dizer não a uma dama. Sou mesmo um fraco.

Percorremos um corredor até uma salinha com um sofá, um televisor e um velho piano de cauda.

-Uau, aqui mora gente fina? Disse  para quebrar o silêncio.

-A menina Amélia foi uma menina bem. Na juventude aprendeu a tocar piano e a falar francês. Quando os pais morreram estava solteira e sem profissão. Agora para sobreviver aluga quartos. Põe-te à vontade, Senta-te que eu já venho.

Quando Virgínia regressou caiu-me o coração aos pés. A moça vestia uma curta e transparente camisa de noite que deixava ver roupa interior com bolinhas amarelas. Até parece que ainda estou a ver. Sentou-se ao meu lado. Procurei manter a serenidade enquanto pensava: “como vou sair desta?" Lancei um assunto:

-O que achas do governo Vasco Gonçalves? Parece que os “comunas” estão a pôr-nos  a pata em cima. Ainda mal saímos de uma ditadura e estamos quase a entrar noutra…

-Não percebe nada de comunas. Sou mais de põr a pata em cima, respondeu Virgínia. Sem me dar mais nenhuma  “deixa”  agarrou-me e pespegou-me  um beijo na boca que me fez ver estrelas. Quando parou para respirar consegui dizer:

-Que se passa Virgínia, porque fizeste isto?

-Não me digas que não gostaste?

Sou um fraco. Não consigo pregar uma mentira, mesmo piedosa. Fui sincero:

-Claro que gostei. Mas, por acaso, tu não és a namoradinha de um amigo meu? Ou por acaso vocês estão zangados e estás carente  de afecto?.

-O teu amigo, esse grande cabrão, disse aumentando o tom de voz,  está agora a “chifrar-me” com uma coroa desavergonhada, possivelmente embalados pelas ondas do mar.

-Ó Virgínia , tu sabias?

-Claro que sabia. Achas-me com cara de tansa? Mas isso agora não interessa nada. Nâo estamos em revolução? E mulher na revolução  é biombo de sala? Liberdade, igualdade, amor livre  é exclusivo de macho?

Senti que estava a ser usado e a praticar pecado venial com mulher de outro, mas não fui capaz de resistir. Apeteceu-me fugir, mas não o fiz.Sou mesmo um fraco.  Deixei-a despojar-me da pouca roupa que vestia e sem saber como fui parar à sua cama no escurinho do seu quarto. Foi uma noite interminável. Numa coisa o João tinha razão: a moça tinha estofo de maratonista e vi-me e desejei-me para a acompanhar até à meta.

O dia tinha começado há muito quando acordámos. Apenas me lembrei de dizer:

-Espero não te ter desiludido. Estás habituada a andar num grande carrão e hoje tiveste de te contentar com um mini.

-Foi uma noite inigualável e irrepetível. O que interessa é a eficiência. Grandes para quê, meu amigo?

 

Amigo Carlos, disse João, nem estou em mim. Nunca imaginei que te iria encontrar  trinta anos depois. Mas ainda não apresentei a nossa melhor produção, a Olinda, que já está uma mulher, quase a sair doutora.

 Olinda fazia jus ao nome. Era linda de morrer. Mas o mais curioso é que me pareceu ter voltado aos anos setenta, ao tempo da juventude de Virgínia. O mesmo corpo esbelto, o mesmo rosto no qual apenas destoavam uns luminosos olhos castanhos. Cumprimentei-a:

-É muito bonita menina. Tem a quem sair. Vocês de facto esmeraram-se.

-Apenas destoa na cor dos olhos, eu tenho os olhos verdes e a Virgínia os olhos azuis.

-Às vezes vão buscar essas características a antepassados remotos. Nem tudo pode ser perfeito. Acontece amigo João

.

Acontece senhor Carlos, disse “mamãe” Conceição mal entrei.

O quê, dona Conceição?

-Ainda não sabe? O truca-truca do nosso João com a Leonor correu mal. Foi uma noite interminável. A batalhar, a batalhar e o coiso a dar sempre nega atrás de nega. A Leonor bem ajudou com toda a sua experiência e nada. Eu acho que foi castigo por ter deixado a namorada, uma moça tão linda, abandonada e triste. Deve ter passado um fim de semana interminável. “Pois passou“, comentei em surdina , “e pela boca morre o peixe, mas ainda bem que não fui eu o cordeiro, pois  já estava a prever isto, fosse qual fosse o resultado ou não conhecesse em a “mamãe”.  O que está a dizer senhor Carlos? Nada, nada, dona Conceição, enquanto ia saindo de fininho da conversa.

 

-A conversa ainda só está no início mas estamos com pressa. Vamos assistir a um concerto. Dá-me o teu contacto, Carlos. Assim que a Olinda sair doutora vou dar uma festa de arromba e já estás convidado… não é Virgínia?

Olhei para Virgínia. Vi um certo brilho nos seus olhos. Estarei presente com muito gosto, disse. O que posso fazer? Não sei dizer não, especialmente à Virgínia. Esta fraqueza nasceu comigo e comigo viverá. Despedimo-nos. Enquanto me afastava revi de novo Olinda. Perseguia-me uma interrogação. Mas onde é que já vi estes olhos castanhos? Quando passava junto ao ex-cinema Condes fez-se luz no meu espírito. Eureka.” Vejo estes olhos sempre que me olho no espelho”. Bolas! Agora tenho razões de sobra para voltar, pois é evidente que o pequeno David venceu Golias mais uma vez.

MG

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Histórias do quotidiano

por Naçao Valente, em 21.09.13

Odisseias.ccom

 

 

Romeu e Julieta-happy end    IV

 

No episódio anterior Romeu com o objectivo de se preparar para conquistar a sua amada, resolveu começar a fazer a sua iniciação sexual com uma boneca insuflável. A experiência não correu bem... 

 

O inspector Marco Shakespeare  estava a dormitar no seu banho diário com sais relaxantes , prática que herdara da costela inglesa da mãe,quando  o telefone tocou

-Estou…

-Desculpe inspector, fala do piquete nocturno…surgiu uma situação urgente. Um indivíduo identificado ligou-nos e diz que está a assistir  do seu apartamento ao assassinato de uma mulher nua. Podemos estar perante o “enguia” o procurado raptor de prostitutas…

- Foda-se agente Damião…tira-me da minha sessão zen por causa de um telefonema…acha que o “enguia “ se punha a jeito de ser apanhado…

-Inspector sigo as suas instruções: nunca se menospreza uma pista por mais irrelevante que pareça.

-Ok. Prepare uma equipa para actuar de imediato.

Quando acabou de devolver a peça de latex à sua embalagem, a campainha do T0 de Romeu tocou freneticamente. Enfiou a pequena embalagem no fundo do roupeiro e foi abrir a porta. Um latagão de um metro e noventa apontou-lhe uma arma: “Levanta os braços e mantem-te quieto. Pode entrar inspector, o suspeito está controlado”  Romeu emudeceu. Uma fraca figura embrulhada num  sobretudo de tweed verde e com um crachá na mão esquerda disse: “onde está o corpo da mulher assassinada?”. “Mulher, qual mulher”, conseguiu balbuciar Romeu em pânico:”deve haver algum engano” . Qual engano, qual carapuça, recebemos uma denúncia de um vizinho…Agente  Damião  faça uma busca ao apartamento", disse o inspector , acenando  o crachá.

O agente Damião, de alcunha o Buldozer revirou tudo. “Não encontrei nenhum corpo, nem qualquer vestígio de crime, inspector”. “Era o que eu pensava. Deve ser fantasia de algum lunático paranóico”, afirmou Shakespeare procurando eclipsar-se dentro do sobretudo  , apertando violentamente o crachá. “As nossas desculpas  senhor? …Romeu, conseguiu balbuciar o suspeito, recuperando a voz”.

Ao sair do apartamento o inspector  dirigiu o foco de uns olhos verdes pequeninos para o Buldozer e sentenciou: “nunca se esqueça Damião uma pista, mesmo absurda é sempre   uma pista. Um indício é sempre um indício. O homem está todos esgadanhado.  Vamos mantê-lo debaixo de olho.

 

Continua

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Escrever no vento

por Naçao Valente, em 07.08.13

 

 

Palavras, palavras, palavras. De muitas palavras se faz a blogosfera. Palavras de elites da escrita. Palavras de milhares de cidadãos anónimos. O ciberespaço liberalizou a palavra, "igualitarizou" as ideias. Aqui todos podem exprimir-se, todos podem colocar opiniões, todos podem publicar textos mais ou menos literários. É o comunismo da escrita. O acesso da plebe à expressão do pensamento em letra de forma.A escrita dos blogues e nos sites não passa porem de uma imitação de democracia literária. A literatura que permite retorno imediato  e que ficará para memória futura continua a residir na velha galáxia de Gutemberg. E esta continua a funcionar no ciclo fechado de uma elite de nobre.

 

 Escrever no ciberespaço é como escrever no vento. É uma escrita efémera que uma brisa contínua vai arrastando do horizonte visível. É uma espécie de estrela cadente que pode brilhar intensamente por uns instantes mas depressa se transforma num obscuro buraco negro. O ciberescritor publica assim as crónicas que nunca escreveria, tira das gavetas da memória os contos que ali estavam condenados a uma inexistência eterna, reflecte o que não seria reflectido, exprime emoções, intimidades ,nas imagens paridas em textos poéticos. Inspiração, transpiração de vogais, consoantes, artigos, adjectivos, verbos, conjunções que não sairiam da gramática. Palavras, frases, períodos, parágrafos, texto, que não sairiam do dicionário. Pontos, exclamações, interrogações sem utilidade. Quase trabalho de Sísifo num constante vaivém para uma breve visibilidade. Vale a pena? O ciberescritor sai da penumbra do anonimato a que estava destinado. Ganha fiéis ou ocasionais leitores. Partilha a sua criatividade com os seus pares que reconhece e por quem é reconhecido. À margem ou no cerne labuta entra em pequenas redes de afectos. Já não é um número indefinido das estatísticas populacionais. É um entre mil ou mais que escreve sabendo que alguém vai ler. Pequena ou grande e única compensação? Quem pode dizer! Quem pode saber se o vento na sua galopada imprevisível não é dotado de memória? Quem sabe?

 

MG

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Por dentro dos livros, por fora da vida

por Naçao Valente, em 07.07.13

Parêntesis na novela mexicana em que se tornou a política em Portugal. Parêntesis nas banalidades que escrevo e leio sobre isso, com mais ou menos destaque. Parêntesis no discurso do medo, como forma de perpetuar no poder um governo incompetente. Parêntesis nos sound bites do "é tudo igual" ou a "alternativa socialista é a mesma coisa" que contestando o que está o apoia objectivamente. Parêntesis. Período de nojo. 

 

Resta-me escrever sobre coisas que não interessam mesmo nada a ninguém. Como sobre o facto de eu ter, muitas anos depois, voltado à Universidade. Pois voltei. E voltei, com coerência, porque nunca disse que voltar era irrevogável. Palavra que nunca disse, nem direi, enquanto tiver vergonha na cara. O certo e garantido é que voltei e gostei de ter voltado. Sinto-me muito bem e chega. O que lá faço ou deixo de fazer é assunto irrelevante. De uma forma geral faço o que faz qualquer frequentador daquele espaço. Por exemplo, vou até ao bar, peço o meu café, sento-me a ler as notícias de um jornal gratuito (a vida está difícil) e/ou descontando as distracções que são muitas vou folheando um livro. Um dos livros em que me embrenhei nessas estadias no bar, foi "A Sala Magenta" de Mário Carvalho, prémio Fernando Pessoa 2009. A história gira à volta das reflexões de  um realizador de cinema "intelectual" já entradote nos anos e chamado Gustavo.

 

As suas fitas premiadas em festivais de cinema do quarto mundo, rodaram em sala vazias. E aí não posso deixar de fazer comparação com a minha estulta pretensão de querer ser escritor, convencido que escrevo  coisas que podem interessar a alguém. Nem no Botswana.Uma treta. Mas depressa fujo à angústia de baixar o ego, quando levanto os olhos do referido livro e os mergulho nuns encantadores  olhos castanhos, onde me refresco por uns breves segundos. Mas, carregadas baterias, volto à sala magenta, local de festas de Maria a mulher da vida do Gustavo, que todas as noites o recebia e todas as noites o escorraçava como cão vadio, depois de lhe dar comida. Esta estranha atracção por Maria, que nem era boa de cama, não impedia Gustavo de se perder nos leitos de outras mulheres, ocasionais e passageiros. Desde a mulher do crítico social Silvério que se ia deitando com este e com aquele a pedido do marido para lhe contar as experiências, até à insonsa Marília com que fazia sexo mole. Quando preciso de respirar e levanto os olhos das vidas de papel impresso, para  voltar aos olhos castanhos que tinha deixado em banho Maria, já eles estavam ocupados a olhar para um marmanjão com ar de pára-quedista. Sem hipótese. Ainda passei o olhar por uns fugidios olhos ingenuamente azuis, mas célere regressei à vida plasmada em letras impressas. Na literatura e na vida o sonho não tem limites. Se outra razão não houvesse esta é suficiente para estar na Universidade.

 

Como nos filmes premiados sem espectadores do realizador Gustavo, perdidos de olhos em olhos, deixamos passar o tempo, até acabarmos como ele, com um pé (ou outra coisa qualquer) engessado e preso por misericórdia na casa de uma irmã, Marta, professora aposentada e desquitada de um professor de matemática que, num último arroubo de juventude, foi atrás da aritmética de um lambisgóia de tenra idade. E eu que nem sou de matemática, apenas vou tirando medidas, enquanto passeio o olhar pelas muitas lambisgóias que dão cor ao bar.

Gustavo, na vivenda que a irmã comprou nas margens da lagoa Moura, no Alentejo profundo, vai partilhando com ela e com os eventuais leitores, as recordações de um passado sem futuro, num presente de bucolismo rural tardio. Numa reflexão em que a vida, feita de pequenos nadas, termina num nada absoluto. Na viagem entre a ficção e a realidade, perco-me na terra de ninguém e já não sei se aqueles olhos verdes em que me banho, não serão as águas da lagoa moura pejadas de belas sereias. E já não sei se estou por dentro do livro e por fora da vida ou vice-versa. E num arroubo de lucidez, caio e mim, e não percebo porque perco tempo com esta história, que nem interessa ao menino Jesus, enquanto o país, onde nasci, está a afogar-se numa lagoa de lágrimas contidas.  

 

MG  

 

 

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D. Quixote de Boliqueime

por Naçao Valente, em 05.07.13

O filme da série B continua.Portas e Passos continuam a brincar aos governos. Entretanto que faz Sua Excelência o senhor Presidente da República Aníbal Cavaco Silva?  Está reunido com economistas para discutir o período pós-troika. Mas o que é período pós-troika?  Uma situação que não existe, nem existirá, possivelmente, tão cedo. Por outras palavras, sua Excelência combate moinhos de vento. Este Presidente assume-se como um D. Quixote de má literatura. O problema é Portugal não é um país real e não uma ficção de maus argumentistas. O problemas são pessoas de carne e osso e não personagens de opereta bufa. Quando é que se coloca um the end nesta fita.

 

MG 

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