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Museu do Cinema

por Naçao Valente, em 01.04.16

 

museu.png

 

Nos tempos do preto e branco, quando a NET nem sequer era uma miragem, havia na RTP um programa chamado Museu do Cinema. O cineasta António Lopes Ribeiro falava do cinema do tempo do mudo, com inteligência e humor, e o pianista António Melo acompanhava ao piano com música improvisada, as fitas seleccionadas. Lopes Ribeiro com a sua erudição, dava uma lição de cinematografia e calava-se para dar a palavra a Melo, que preferia substituir as palavras ditas pela mensagem sonora, construída pela simbiose entre os dedos e as teclas, para dar sentido às imagens. Mas espicaçado por Ribeiro " Ó Melo, diz lá boa-noite aos senhores espectadores" para mostrar que também falava, despedia-se com um "boa noute".

 

No tempo de diversidade e democracia mediática, de redes sociais abertas à vox populi, não há cão nem gato que não bote sentença sobre o que sabe, mas sobretudo sobre o que alguma vez saberá. Neste mundo maravilhoso, fazem-se amizades planetárias, trocam-se beijos e abraços etéreos, com desconhecidos amigos, rompem-se barreiras físicas, trocam-se mensagens de gostos, preferências, ficções pessoais.

Há louváveis excepções num mundo onde impera a ausência de civismo. Mais que opiniões, insultos. Mais que debate, arrogância, mais que esclarecimento, ignorância. Mais que  razão, disparate. Um big brother nivelado pelo primarismo. Que saudades do Museu do Cinema onde falava quem tinha alguma coisa para dizer e musicava quem sabia musicar. Para todos os que com humildade não incham de soberba, e não sobem acima do seu chinelo, uma "boa noute".

MG

 

 

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Tributo a Adelaide João

por Naçao Valente, em 19.04.15

AdelaideJoão uma actriz que enriqueceu com o seu talento o teatro e o cinema em Portugal. Tive o prazer de a conhecer, pessoalmente, nos 70, e conheci-a como profissional na arte de representar que se empenhava na participação da cidadania. Sem vedetismos. Aqui lhe presto o meu tributo.

Fonte Plateia, via Os Dias que Voam

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O senhor cinema

por Naçao Valente, em 02.04.15

humorgrafe.blogspot.com

 

Podemos não gostar dos seus filmes por achar que lhes falta acção. Podemos não nos empolgar com as suas histórias algo intimistas. podemos aborrecer-nos com os seus longos planos. Mas o certo é que Manoel de Oliveira é o senhor cinema.

 

Embora a origem do cinema português se encontre no século XIX com Aurélio Paz dos Reis,  o início da ficção cinematográfica começa com a curta metragem, O rapto da actriz, realizada em 1907. Manuel de Oliveira nasceu em 1908 e completou cento e seis anos, aproximadamente os mesmos que a ficção cinematográfica em Portugal e nesse sentido confunde-se com a sua história.

 

 Quando em 1942 se estreou Aniki Bóbó, um fracasso comercial na época da sua estreia, mas que viria a transformar-se num clássico do cinema, o realizador experimental não passava de um ilustre desconhecido. A sua persistência resistiu a altos e baixos. Paulatinamente e sem vedetismos foi impondo o seu estilo, alheio a preocupações, rejeições e críticas.

 

 A sua longa carreira está recheada de filmes e documentários reconhecidos mundialmente.  Oliveira o mais velho realizador em actividade, fechou a lente da sua câmara, mas a máquina de produzir ilusões continuará com outros protagonistas, e a sua obra é desde já  um marco na cinematográfica mundial. Longa vida à sua obra e à sua Singularidade.

MG

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As 50 sombras da nação

por Naçao Valente, em 20.02.15

Quando o dia se deita e a noite explode em escuridão, as sombras de Grey invadem os virtuosos lares de gente comum, e o sexo rola por detrás de janelas fechadas à curiosidade dos bigbrodistas. De norte a sul do país do sol, milhões de homens querem ser "greys", fazendo ranger as molas dos colchões, mais ou menos ortopédicos,numa sinfonia de gemidos. As mulheres querem aproveitar a vaga de fundo, a maré viva,  para viver acima das suas possibilidades, de país pobre. E sonham com  essa vertigem antes que a troika dos costumes, nos ponha o freio nos dentes, e o cinto de castidade em vez de fio dental. O que faltava era que depois da austeridade viesse a assunção da castidade. E aí tínhamos o sexo restrito a 50 sessões mensais, sorteadas na tv, entre os parceiros, com voto autenticado pela maioria. E ainda se criava um novo espectáculo para ver os vencedores receberem a chave do cinto qa ser aliviado uns furos.

Mas sexo à parte, divagações absurdas em pano de fundo, o país do sal e das conservas está assombrado por nuvens cinzentas, que o cobrem de sombras escuras,  o nosso quotidiano. Cobrem porque nem sempre cobriram. Podia referir o erotismo do passado, com os reis a fazer filharada nas suas deslocações por toda a nação. Duvido até que exista portuga que não tenha sangue real. Nem que seja em valores diminutos. Mas a população não lhe ficou atrás,. indo por esse mundo fora na ânsia de descobrir mulheres de cores variadas. E nunca negou fogo, nem recusou a nobre função, de em corpo e espírito, cumprir a missão de esbatimento de fronteiras sexuais. E não me custa admitir que os genes tugas, vivam muito para além da lingua portuguesa, em todos os quadrantes planetários. Comparado com esta orgia de sexo, as Sombras de Grey são uma história para crianças.

Passaram os tempos gloriosos do Império. A decadência moral invadiu o povo lusitano. Vivemos tempos de grande retrocesso. Na mais alta magistratura temos o homem que, contrariamente aos seus egrégios avós, nunca fez chichi fora do penico. E ainda bem, que estirpe da sua qualidade dispensamos. Já a gente da governação castrou-se para servir a Merkel. São um grupo de eunucos que assistem ao harém da abundância alemã, submissos, indiferentes, sem se lhe levantar um pelo púbico. Amarram-se e chicoteiam-se para agradar ao senhor Schaulbe A vida e o que tem de bom passa-lhes ao lado. A grande riqueza da nação, o capital humano, o poder fálico, murchou no Outono do empobrecimento.

As sombras da nação não são cinquenta. São imensuráveis. É uma única sombra que cobre todo o território. Assim o país do Sol, do Sal e do Sul está cativo de cinzentismo. O sexo envergonhado é procriação na nação do prazer insonso, deslocado para outros azimutes. Para ser mais claro e libertar a palavra do dia sem luz, a nação do sexo viril, vive num limbo onde pode usar com propriedade o título do país fodido. Bem e depressa.

 

MG  

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No escurinho do cinema

por Naçao Valente, em 03.09.14

Imagem NET

 

Lumiére pôs imagens em movimento. Depois, depois veio o cinema, dito sétima arte. Arte democrática por excelência, arte acessível a todas as bolsas e por conseguinte arte popular. A maior indústria de entretenimento, rompe barreiras linguísticas e culturais, despreza fronteiras e globaliza o espectáculo. Instala-se em salas que pululam como igrejas de culto da felicidade em todas as principais povoações. Mas não marginaliza as terras mais recônditas, onde o cinema aparece como vagabundo em movimento. 

 

Quando as luzes se apagam a vida de sombra e luz mostra o seu esplendor. O escuro esbate diferenças sociais, e em uníssono, os espectadores expectantes, viajam do presente ao passado e ao futuro. Ali sofrem as agruras de BEN-HUR nos tempos áureos do império romano, ali se sentem vingados com o castigo dos exploradores por ROBIN HOOD. Descarregam tensões com o humor de CHARLOT. Lavam o rosto com lágrimas com os grandes dramalhões, especialmente os made in India. Cavalgam pelas pradarias com os grandes mestres do WESTERN. Sonham com as espectaculares comédias musicais, como My FAIR LADY. Deliciam-se com ET,assustam-se com ALLIENS e interrogam-se com ENCONTROS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU.  E tantos, tantos outros, que durante a brevidade de um sonho, despoletam as mais variadas emoções. E quando as luzes se acedem TUDO O VENTO LEVOU. Cada qual volta à sua realidade, logo ali representada pelo lugar que ocupa: primeiro, segundo ou terceiro balcão. Mas as emoções despoletadas vão persistir. Parzinhos de mãos dadas entram revêem-se em HAPPY ENDS. Casais de meia idade renascem com as LOVE STORIES. Espectadores solitários apaixonam-se pelas grandes estrelas.

 

O cinema teve o seu apogeu. Hoje arrasta-se decadente e maquilhado por guetos da sociedade de consumo. As fitas rodam nos mesmos projectores e ganha dimensão nos mesmos écrans. É o que, penosamente, sobrevive. No escurinho destas salas, os últimos resistentes do verdadeiro cinema, alimentam tanto o corpo como o espírito. Devoram pacotes de pipocas ao ritmo da velocidade das imagens. Afogam as emoções em qualquer bebida ocasional. São espectadores sem alma de cinéfilos. O cinema, nestes moldes, tem os dias contados. É certo que agora entra em nossa casa agregado às novas tecnologias. Está à mão de um click. Pode ser. Mas já não é a máxima expressão da cultura de massas que foi no século XX. Há quanto tempo não entro no CINEMA PARAÍSO.

 

MG

 

 

 

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Eu estou cismado. Cismo com a cismação que para aí vai. Cismo com Portas fechadas que querem fazer crer que estão abertas. E cismo com a credulidade que toma o ilusionismo por realidade. É como viver num circo. Os espectadores acreditam nos truques do ilusionista, sonambulam a mandado do hipnotizador, riem com as alarvidades do palhaço rico e até ajudam no número do palhaço pobre. E ainda pagam bilhete. Eu cismo.

 

De tanto cismar já estou grisalho. Grisalho de raiva reprimida. Grisalho de impotência contida. Grisalho de tanta falta de vergonha. Os cabelos branqueiam todos os dias com tanto sobressalto. Os cabelos brancos já não são venerados, nem sequer respeitados. Os cabelos brancos já não representam experiência e sabedoria. Os cabelos brancos são um cisma grisalho, um mau cisma, comem e não produzem, são uma praga de cigarras que é preciso exterminar.

 

Eis minhas senhoras e meus senhores, meninos e meninas o CISMA GRISALHO, todos os dias num cinema perto de si. Venham ver a actuação portentosa  de mestres na arte do fingimento. Admirem as piruetas do BOM e o poder de falo (queria dizer fala) do MAU para nos fuck a toda a hora. Vejam o descaramento do VILÃO que  não foi eleito para o papel, mas que o representa-o a preceito e gosta. Venham ver uma  história hardcore onde num Império dos Sentidos todos, mas especialmente os grisalhos, acabam capados. Pornografia e terror nunca vistos! Imperdível!

 

PS: podia ser menos metafórico e mais explícito? Podia, mas não quero. Eu não escrevo para as massas. Nunca Passo uma linha vermelha. Estou demasiado cismado. Quero ver se fujo deste filme e mesmo grisalho, quero passar despercebido entre os pingos da chuva. É que não gosto de ser fuked. Chateia-me!

 

MG

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O triunfo dos porcos

por Naçao Valente, em 08.02.13

George Orwell utilizou os porcos como personagens de uma alegoria sobre a natureza do poder totalitário. Usou-os possivelmente por serem animais aos quais está associada uma imagem de "chafurdagem" na sujidade. O realizador Etore Scola, num magnífico filme onde relata condições degradantes da vida humana, num bairro de lata usa-os, também, pejorativamente, como símbolos dessa degradação, utilizando o título, Feios, Porcos e Maus. 

 

Tenho pelos suínos o mesmo respeito que nutro sem excepção por todos os seres vivos, quer sejam do mundo animal, quer sejam do mundo vegetal. Sinto até pela espécie porcina alguma gratidão, como importante elemento da cadeia alimentar, que permite a sobrevivência de muitos milhões de humanos. Sem pertencer a qualquer associação de defesa de animais, entendo que estes não devem ser sujeitos a maltratos. E posso afirmar, por experiência própria, enquanto observador, que o tradicional e doméstico criador (em extinção) mantinha com o seu porquinho uma relação quase familiar. Mas, para além disso, não consigo levar à paciência o excesso de zelo utilizados por membros dessas associações que hoje têm visibilidade redobrada nas redes sociais.

 

O que se passou com o caso do acidente de um camião que transportava porcos para o matadouro, na auto-estrada, é sintomático da inversão de valores com que às vezes nos confrontamos. É que transformar em carrasco, um agente da autoridade, que no cumprimento do seu dever, procurava afastar um suíno para libertar uma via de comunicação e permitir que os  seus utentes pudessem circular, brada aos céus. De certo, que o referido agente, não andava a pontapear o animal para seu deleite ou para satisfazer qualquer recalcada psicopatia. Como queriam os zelosos defensores que o afastasse?  Usando a persuasão? Qualquer coisa do género: -então senhor porquinho tem de compreender que precisamos de regularizar o trânsito. apelo à sua boa vontade para desimpedir a via. vá lá colabore.

 

Consta que em função das pressões das redes sociais o senhor agente está a ser alvo de um processo e que poderá ser castigado com perda de dois meses de vencimento. Entretanto, o porquinho alcandorado a vítima, já deve ter virado bife e quem sabe, se por ironia do destino, não foi para à mesa de algum dos subscritores do processo. E o mais curioso é que o alimento que não falta aos protestantes poderá faltar ao agente que estava a ajudar a resolver uma situação irregular. Peço desculpa se mal pergunto: não se levanta por aí um movimento para defender uma injustiça sobre um ser humano no exercício do seu dever? É que a acontecer esse castigo estamos perante o triunfo do porco.

 

MG

 

PS- No trânsito como na vida os  porcos só triunfam se tiverem uma corte de idiotas a apoiá-los.

 

 

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Técnicas de engate

por Naçao Valente, em 01.05.12

 

Nasci na galáxia de Gutemberg. Vivo na galáxia Berners-Lee (fundador da Internet)Na minha galáxia de origem a informação e a comunicação faziam-se maioritariamente no papel. Em Gutemberg o engate (técnica para conquistar uma gaja ou vice-versa) ou se fazia por aproximação directa ou através de emocionadas cartas de amor (havia até manuais exemplificativos) ou em contactos colocados em páginas da imprensa.

Nessa época, militava na adolescência e acalentava um daqueles sonhos absurdos que fazem jus à idade das ilusões. Queria ser artista de teatro, rádio e televisão. Nem mais, nem menos. Difícil era concretizá-lo. Felizmente, havia uma generosa porta de oportunidade para os jovens que corriam atrás da fama dourada: uma revista de espectáculos chamada Plateia, criou nas suas páginas o Ficheiro artístico nacional. Qualquer candidato a estrela podia colocar a sua esperança neste ficheiro, desde que pagasse o justo preço. (não existia o conceito de publicidade enganosa) Foi assim que a minha pose artística saiu nas páginas dessa revista. A imagem de galã , devidamente estudada, não impressionou nenhum produtor do mundo artístico, mas impressionou algumas gajas casadoiras que me enviaram cartas nas quais se disfarçavam de fãs. Escreveram-me de desvairados sítios com nomes estranhos, como Vagos, Carrazeda de Anciães ou Vigo (na da internacionalização) entre outros. O artista da galáxia de Gutemberg esfumou-se na volatilidade do tempo e as suas fãs ocasionais sumiram antes de o terem sido. Artista uma ova!Engate zero!

Não sou um filho da galáxia Internet, mas esta adoptou-me com todo o carinho. Já não estou na fase do engate. Mesmo assim, nesta galáxia, qualquer um se sujeita a encontros imediatos de grau elevado. Esta semana recebi um email de uma organização  (omito a sua designação) que me propunha fazer um teste de personalidade gratuito. Devia estar avisado, pois até recusei outras propostas idênticas, como descobrir, por exemplo, as vidas passadas. A carne é fraca, curiosidade cega o gato, e apesar da experiência de vida caí que nem um patinho. Fiz o tal teste e depois de responder a várias perguntas veio o veredicto: perfil científico. O melhor, porém estava para vir, quando se começou a a desenrolar no meu horizonte visual, um naipe de gajas para todos os gostos e paladares, que segundo a informação encaixavam que nem uma luva no meu perfil de ser avançado. Havia muitas cinquentonas o que não me agradou. Para essas faixas já eu cá estou. Felizmente, havia a possibilidade de ir descendo na escala. Assim fui-me aproximando das trintonas. A coisa estava a melhorar. Ainda pensei chegar às de vinte, mas não tive coragem. Lembrei-me do senhor Pinto da Costa e dos sarilhos que passou com a menina Carolina. Bem, agora acho que já está nas teenegers o que é normal, pois os extremos tocam-se. Quando lá chegar quem sabe. Ainda pensei que se com tanta e com tão diversificada oferta não seria de aproveitar e arranjar uma em cada distrito. 

Mas primeiro Resolvi e bem, ler a filosofia do site: Nós sabemos que encontrar a pessoa perfeita é difícil. Foi por isso que criamos o ,,,, para ajudar os solteiros, inteligentes e ambiciosos a encontrar a sua "cara metade". Ler mais para quê? Caramba, quem não gosta que lhe chamem inteligente? E ambicioso? E ter uma cara metade? Mas notei uma contradição: se neste pacote se associa inteligência, ambição e "solteirice" e  em coerência, se perde o último item não se ficará casado, acomodado e burrinho. Não arrisco nem petisco. Fica tudo como está. Engate zero! Ao menos continuo no ficheiro do engate na ponta dos dedos. Ao menos continuo inteligente, mesmo quando não tenho nada para dizer, como hoje. E assim arranjo desculpa por escrever umas calinadas.

 

MG

 

 

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Auto de danças com cadeiras à portuguesa

por Naçao Valente, em 04.03.12

Manhã

Aquele sábado amanheceu escuro e chuvoso. Parecia que o céu, com nuvens prenhes como odres, se ia abater sobre a terra seca e faminta de água. Depois de engolir as sopas de café, deixei a casa dos meus avós onde residia por opção e privilégio, para ir ter com o primo Ricardo. Mas a meio do caminho, a nuvem negra desfez-se em água. Nunca tinha visto ou imaginado coisa assim. Até pensei que fosse o princípio do apocalipse, de que a jovem Célia falava, nas sessões de catequese, entre a missa dominical e o namorico com o João Sapateiro. Mas o esgarrão foi tão depressa quanto veio. Escampou, e um sol brilhante, iluminou as paredes caiadas da aldeia. Tive a estranha sensação que esse iria ser um dia diferente, digno de figurar nos registos da memória. Enquanto brincava com o Ricardo, ouviu-se o ronco dum altifalante, que silenciou o som de um riacho acidental. ”De quem eu gosto, nem às paredes confesso…”: Tinha chegado à aldeia o cinema ambulante! Era uma alegria rara. Deitei fora os bocados de lama que segurava nas mãos, esqueci o quotidiano salazarento, as reguadas diárias na escola, o dique em construção. Sabia que nessa noite iria assistir, na praça central, a uma sessão de imagens animadas com os meus avós, indefectíveis cinéfilos.

Tarde

A tarde passava lenta e aborrecida. As horas arrastavam-se no relógio da torre sineira. Na minha ansiedade, a noite tornara-se preguiçosa e demorava a cobrir de escuridão as ruas. Só o altifalante alimentava a minha esperança e distraía o meu espírito com as modas de singela felicidade decretada pelo regime. De quando em vez anunciava a aventura a projectar. “Venham ver as aventuras do Robim dos Bosques” Ao cair da noite, regressei a casa dos avós para um jantar alargado a toda a família. Comemos arroz com massa condimentado com toucinho de porco preto a que o dedo mágico da avó dava um gostinho incomparável. Depois de regalado o estômago o avô disse: -Está na hora de irmos ao cinema. Já pus as cadeiras no melhor lugar da praça. A avó, a mãe, a tia e as primas vestiram as roupas domingueiras, pois quando o cinema descia à aldeia, era dia de festa

 Noite

 O pequeno gerador que dava luz ao projector fazia-se ouvir entre sussurros da assistência. Lobo Antunes, o projeccionista, remendava a fita que se partira durante a rebobinagem. Robim dos Bosques, o Herói, preparava-se para entrar em acção, com o seu bando de ladrões que só roubava aos ricos. Chegado ao local, o avô verificou que faltava uma cadeira. Descobriu-a longe, encostada a uma parede, debaixo de um altifalante. No seu lugar, outra cadeira igual, suportava o rabo mirrado do Carola, dono de cavalo de cobrição e ferrador da aldeia. O avô, que fervia em pouca água, avançou para o Carola, como besta picada por mosca. - Ó sua grande cavalgadura, porque tirou a minha cadeira desse lugar?! -Não vi cadeira nenhuma. Este lugar estava livre quando cheguei. - Acha-me com cara de parvo, é? A minha cadeira já aí estava, e embora tenha pernas, ainda não anda, retorquiu o avô. Tire daí essa cadeira ou racho-o ao meio! O Robim no seu camarim de celulóide preparava-se para cavalgar pela floresta.”. O Carola continuou colado ao assento, desafiador e confiante na sua razão. Mas por pouco tempo, pois o avô assentou-lhe a mão sapuda no focinho, colando-o ao chão. O Carola mais alto e felino levantou-se tão rápido quanto permite a lei da gravidade, agarrou o avô pelo colarinho da camisa. O João Pequeno, que afinal até é grande e que com o seu bando se prepara para assaltar um solar e levar as economias escondidas no colchão de penas, para matar a fome do povo, está ansioso para sair da pasmaceira da fita. O avô escapou das mãos calejadas do ferrador, e atirou-o contra os espectadores que, envolvidos no reboliço, rebolaram, nas suas cadeiras desengonçadas. Os soldados do xerife continuam serenos à espera que o projeccionista os autorize a atirar Robim para o fosso do castelo. Mariana que assiste à cena de camarote deixará fugir uma lágrima furtiva lubrificando a película. As primas olham espantadas e a sua mãe, mais angustiada que perua na véspera de natal está desolada. Uma prima, perdeu o casaco na confusão e chora baba e ranho, como é próprio da sua idade. A pancadaria pára, finalmente, na plateia e as pessoas procuram acomodar-se nos seus lugares. As lâmpadas fecham as suas íris incandescentes. Lobo Antunes põe a fita em movimento e dá vida às vidas presas. O Carola voltou a acomodar-se no seu lugar, mais amachucado que talega de azeite na prensa. O avô, espumando raiva, assiste à sessão de pé, evaporado numa nuvem de indiferença. As imagens de sombra e luz ganham vida na parede branca. Começam as cavalgadas, espadeiradas, emboscadas, suspiros, castigos, beijos…THE END. A ilusão chegou ao fim. Os espectadores abandonam o local, com as suas cadeiras, sem ilusões perdidas ou renascidas. Entre o burburinho da saída e o barulho do dínamo, o projeccionista rebobina o filme e murmura para o ajudante, fuinha de cigarro apagado ao canto da boca desdentada: -Estes serrenhos são mais selvagens que as personagens das minhas fitas… Usei a cadeira para pôr o altifalante, e olha a confusão que arranjaram! Não volto a esta terra de brigões. O magricela enrolava os últimos fios e estendia no chão duro da calçada a manta onde havia de passar a noite. Robim, confortável no sossego do celulóide,vai finalmente descansar como um irmão ao lado de Mariana. Amanhã é outro dia. FIM

Mateus Gonçalves

(Adaptado para Fábrica de histórias)

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Parêntesis amordaçado

por Naçao Valente, em 25.02.12

Há dias que começam antes de começar. Estranho? Será, mas não impossível. Quem nunca lhe aconteceu acordar dentro de um pesadelo? Isso mesmo. Foi assim que começou o meu sábado. E suponha que está a executar uma daquelas acções que fazem crescer a humanidade, tendo ainda por cima uma partenaire (ou um partenaire, depende da situação) tipo vamp capa de revista e na altura certa a coisa embatuca. E ainda consegue dizer, timidamente, “raio nunca me aconteceu” e a gaja de cima dos seus galões de vamp responde sem contemplações “pois é há sempre uma primeira vez, não é filho. Olha, habitua-te ou então toma viagrarix que é uma coisa que resulta já desde o tempo dos gauleses com as poções do Panoramix. (ou achas que todos são Strauss-Kahn?) Valha-nos o sentido de humor da vamp.

Mas afinal que treta de crónica é esta, avisa pressurosa a consciência moral…Passaste-te?  Fugiu-te a inspiração para as partes baixas, isto é para as unhas dos pés? Ou então, só porque consegues encaixar três ou quatro fases com sentido, que alguns incautos lêem, julgas que tens liberdade para escrever o que te dá na real gana? Pior, consideras-te já um grande escritor, julgas-te até um Lobo Antunes, um Saramago, um Amado, um Garcia Marquez, entre outros, isto para não dizer que te vês a receber um Nobel das mãos de uma sueca escultural (com essa tua mente tortuosa não me admirava). Modera-te, filho, tu não passas de um escriba do virtual.

Esforço-me mas não entendo este pesadelo. Logo no dia em que decidi ir às Caldas da Rainha ver uma simples exposição de artesanato e antiguidades (é sábado e domingo na Expo Oeste), haveria de aparecer esta angústia a acordar-me  a consciência. Não há-de haver consciência piegas que me trave e hei-de ir, custe o que custar.

Ui, coisas das Caldas, não é filho, já estou a ver como isto vai acabar, o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Não ponhas mais na carta: artesanato “práqui”, arte popular “prácolá”, Rafael Bordalo para justificar, louça tradicional, blá, blá, blá. Não adianta, não há respeito pela consciência, é o que é.

O dia começou num pesadelo mas acabou num sonho. Cidade bonita, agradável, acolhedora, com cheiros bucólicos. Gente simpática, tranquila. Calcorreei o tradicional mercado ao ar livre (coisa rara), comprei fruta, legumes, hortaliças, a preço justo. (finalmente) Almocei um opíparo arroz de grelos (pois, pois) com “jaquinzinhos”. No fim comi umas maminhas, mas havia noutras versões (eu não avisei?),um doce regional feito com a massa das cavacas. (não confundir com cavacos, que esses nem cães os podem tragar) Fugi do Shopping como diabo da cruz (sim, para quem aprecia, Caldas da Rainha já tem um) e deleitei-me com a exposição. Entre as muitas velharias expostas, adquiri um cartaz usado pelo extinto cinema ambulante e que me fez reviver os tempos despreocupados da infância, quando com a sua magia nos fazia sonhar sonhos impossíveis, sem as barreiras da consciência. Maldita consciência, deixa-me usufruir o prazer da escrita e deixa-me levar o meu sonho com a vamp até ao fim, ao menos uma vez por semana.

MG

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