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Romeu e Julieta happy end, epílogo

por Naçao Valente, em 11.08.16

Romeu contrata uma profissional do sexo para o iniciar sexualmente. O inspector Shakespeare aproveita para lhe montar uma armadilha. Vai enviar-lhe a agente Julieta no papel de prostituta.

 

Epílogo

 

Shakespeare resume o plano que Julieta tem de executar: às vinte e três horas apresenta-se como a prostituta contratada. Diz a senha combinada. Vou colocar-lhe uma discreta pulseira com um transmissor para nos contactar. Estamos no lado de fora. Reproduzimos a chave do apartamento e entramos de imediato quando nos chamar.

Quem é ? perguntou Romeu . À noite todos os gatos são pardos, respondeu Julieta. Romeu abriu a porta: segue-me. A agente estagiária seguiu-o por uma sala obscurecida. No quarto perguntou: porque estão as luzes apagadas? Contratei-te para me dares umas lições de sexo. Sou um pessoa conhecida e prestigiada e não quero ser reconhecido. Acontece que me apaixonei por uma bela dama que ainda não o sabe. Consultei uma cartomante e um astrólogo que me garantiram que serei correspondido, mas que tenho de mostrar proficiência. Deixa-te de tretas Romeu, eu também faço o meu trabalho com profissionalismo e gosto de ver o que faço. Acende a luz, sei ser discreta. Quem te disse o meu nome? Ninguém me disse. Basta-me ouvir o te discurso. Ok…Vou acender a luz.

Romeu viu então uma figura alta, com a silhueta disfarçada por um casaco comprido. A suposta prostituta virou-lhe as costa e foi-se libertando lentamente da peça de vestuário exterior. Por debaixo vestia uma t-shirt ousada e uns calções curtos. Virou-se sem pressa. Romeu embatucou. Julieta de olhos semicerrados desinibiu-se no seu papel: perdeste o pio? Eu não acredito-balbuciou-és a mulher que me tira o sono …e prostituta. Julieta observou o corpo de Romeu seminu e deu uma sonora gargalhada: mas és o tipo que me costuma comer com o olhar. Sou. Afinal já reparaste em mim? Reparei. E digo-te mais, eu não acredito em cartomantes mas que acertam, acertam. Como assim? Em cada dia que passava junto à loja para o meu trabalho me interrogava: será hoje que este pasmado se declara? Caramba, foi preciso o inspector Shakespeare suspeitar que és um assassino para desencalhares da fase do galanço. Raio! O amor se tem mesmo que acontecer salta todas as barreiras e ironia das ironias, regra geral, os namoros acabam na cama, este é onde começa. Sou Julieta Queiroz da polícia Judiciária em serviço de investigação e que investigação...

Romeu e Julieta cruzaram olhares ternurentos e entrelaçaram as mãos. A intensidade do gesto despoletou o alarme. Quieto ,disse o agente Damião de arma apontada ao peito nu de Romeu. Shakespeare aproximou-se: bom trabalho doutora. Apanhamos o bandido? Bandido? que bandido?, respondeu Julieta. Este é apenas o meu bandido. Mas o alarme, tocou . Foi falso alarme inspector. Isto é uma longa história. Está tudo sobre controle. Pode sair descansado. Deixe-me acabar o meu trabalho.

Happy end

 

Advertência: no cumprimento dos princípios da moral judaico-cristã esta história acaba aqui. Obrigado

 

Pós epílogo

O agente Damião arrastou suavemente o inspector para a rua. Pela primeira vez viu-o perder a compostura e desafivelar a máscara de policial. Lágrimas corriam-lhe pela face. Não se sente bem chefe? Aconteceu uma desgraça Damião. Vou fazer-lhe uma confidência. Na juventude tive uma relação com uma moça de boas famílias. Preconceitos de classe não nos deixaram ser felizes. Desse amor nasceu uma criança. A moça casou com um rico comerciante e sumiu com o filho. Hoje voltei a vê-lo. Reconheci-o por um sinal inconfundível no ombro. É o Romeu. Porra inspector, como o compreendo. Isto até parece uma novela mexicana. Não parece é, Damião, porque o mais trágico é que Julieta também é minha filha! Passou-se dos carretos doutor Shakespeare? Antes me tivesse passado. Para matar o meu desgosto de amor envolvi-me com uma corista do Parque Mayer. Essa relação foi passageira e dela só sobrou Julieta. Nunca assumi a paternidade mas sempre a acompanhei, incógnito. Fiquei feliz quando veio para a polícia. Da mãe herdou a beleza e tem os meus genes de investigadora. Sou mesmo um biltre. Criei as personagens e perdi-lhes o controle. Acalme-se inspector, é a vida. A vida meu amigo Damião é uma ficção escrita pelo destino. Umas vezes escreve tragédias, outras escreve comédias. Não sei qual preferir.

Deixe para lá inspector. O que tem que ser é. São jovens, estão felizes, o que quer fazer? Os tempos mudaram Shakespeare. Os criadores já não controlam as personagens que criam. Olhe, vamos até à casa da Mariquinhas, comer um galo capão de cabidela para matar a dor e beber um alvarinho para afogar as mágoas. A seguir logo se vê...

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Romeu e Julieta happy end 5

por Naçao Valente, em 09.08.16

 


Romeu e Julieta-happy end V

 

No episódio anterior Romeu foi denunciado à polícia por um mirone que o acusou de cometer um crime. Foi visitado pelo inspector Shakespeare no seu apartamento mas não foram encontrados vestígios.

 

 

 

Romeu reconheceu que o plano A tinha falhado. Na manga esperava o plano B. Tinha chegado a hora de o executar. Eram 21 horas quando entrou bar Flórida pela primeira vez. Nunca tinha estado num local de venda de sexo. Na semi-obscuridades da sala reparou nas silhuetas sentadas em volta de mesas de pé de galo. Na pista de dança rodopiavam pares de dançarinos. Dirigiu-se ao balcão e sentou-se num banco de pé alto. Pediu um Wisqui e solicitou a presença do gerente. Bebeu um gole. Sentiu uma mão suave no ombro. Olhou de soslaio. “vamos dançar jeitoso?” Abanou a cabeça procurando sacudir aquela voz atrevida.

“Em que posso servi-lo” disse o individuo que se apresentou como gerente. “Queria contratar uma das suas meninas?” Olhe à sua volta e escolha”. Não está a perceber”, continuou Romeu; “vou directo ao assunto”: por razões que não vêem ao caso necessito de umas lições de sexo. Preciso uma profissional experiente e discreta, pois por razões que não interessa desenvolver não quero ser reconhecido. Não discuto o preço.” Se puder ser, desejo começar hoje”. “Já percebi” , afirmou o gerente,” vou enviar-lhe uma menina de toda a confiança. Pode ser às vinte e três”?.

O inspector Shakespeare disfarçado no sobretudo tweed esperou que Romeu saísse. Saiu da obscuridade e aproximou-se do balcão. Passou o crachá pelos olhos espantados do gerente do bar. “Polícia Judiciária”. “Posso ser útil?”, disse o gerente. “Quero que me diga o que pretendia o sujeito com quem esteve a falar. Estamos a segui-lo como suspeito de eventuais crimes”, informou o inspector. Ok disse o gerente . “Veio contratar uma menina. Combinámos enviá-la ao seu apartamento às vinte e três.” Não vai enviar menina nenhuma. Eu trato do assunto”.Shakespeare dirigiu para o carro e disse ao agente Damião:” ligue-me de imediato à agente estagiária Julieta Queiroz.”

 

Julieta Queiroz entrara para a PJ por vocação e convicção. Filha de uma corista de revista, e gerada durante uma relação ocasional da mãe nunca soube quem era o pai. Activa, determinada e inteligente cursou Direito para seguir a carreira policial. Aliava a estes predicados uma beleza rara e incomum que herdara da mãe. Distinguia-se pelo seu porte no meio das multidões. Era habitual receber piropos de homens atrevidos que não a intimidavam, pois costumava responder sempre à letra e embatucar os provocadores: “sou boa como o milho? Pois sou mas não é para o teu bico, galo capão”.

Depois do jantar adquirira o hábito de tomar um banho relaxante. Estava a sair da banheira quando o telefone tocou:

-Estou.

-Doutora Julieta fala Shakespeare

-A esta hora inspector?

-Temos uma urgência …prepare-se. Apanhamo-la dentro de meia hora.

“Vou directo ao assunto” disse Shakespeare quando Julieta entrou na viatura. “Podemos estar na pista do enguia. Acabou de contratar uma prostituta. Precisamos da sua colaboração para a substituir”. "Alto aí doutor Shakespeare. Sou agente de polícia. Não fui contratada como prostituta nem como actriz”, replicou Julieta. “Desculpe doutora, não a chamei para argumentar , mas para agir. É este o plano.”

 

continua

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Romeu e Julieta Happy end 4

por Naçao Valente, em 07.08.16

 

 

No episódio anterior Romeu com o objectivo de se preparar para conquistar a sua amada, resolveu começar a fazer a sua iniciação sexual com uma boneca insuflável. A experiência não correu bem...

 

O inspector Marco Shakespeare estava a dormitar no seu banho diário com sais relaxantes , prática que herdara da costela inglesa da mãe,quando o telefone tocou

-Estou…

-Desculpe inspector, fala do piquete nocturno…surgiu uma situação urgente. Um indivíduo identificado ligou-nos e diz que está a assistir do seu apartamento ao assassinato de uma mulher nua. Podemos estar perante o “enguia” o procurado raptor de prostitutas…

- Foda-se agente Damião…tira-me da minha sessão zen por causa de um telefonema…acha que o “enguia “ se punha a jeito de ser apanhado…

-Inspector sigo as suas instruções: nunca se menospreza uma pista por mais irrelevante que pareça.

-Ok. Prepare uma equipa para actuar de imediato.

Quando acabou de devolver a peça de latex à sua embalagem, a campainha do T0 de Romeu tocou freneticamente. Enfiou a pequena embalagem no fundo do roupeiro e foi abrir a porta. Um latagão de um metro e noventa apontou-lhe uma arma: “Levanta os braços e mantem-te quieto. Pode entrar inspector, o suspeito está controlado” Romeu emudeceu. Uma fraca figura embrulhada num sobretudo de tweed verde e com um crachá na mão esquerda disse: “onde está o corpo da mulher assassinada?”. “Mulher, qual mulher”, conseguiu balbuciar Romeu em pânico:”deve haver algum engano” . Qual engano, qual carapuça, recebemos uma denúncia de um vizinho…Agente Damião faça uma busca ao apartamento", disse o inspector , acenando o crachá.

O agente Damião, de alcunha o Buldozer revirou tudo. “Não encontrei nenhum corpo, nem qualquer vestígio de crime, inspector”. “Era o que eu pensava. Deve ser fantasia de algum lunático paranóico”, afirmou Shakespeare procurando eclipsar-se dentro do sobretudo , apertando violentamente o crachá. “As nossas desculpas senhor? …Romeu, conseguiu balbuciar o suspeito, recuperando a voz”.

Ao sair do apartamento o inspector dirigiu o foco de uns olhos verdes pequeninos para o Buldozer e sentenciou: “nunca se esqueça Damião uma pista, mesmo absurda é sempre uma pista. Um indício é sempre um indício. O homem está todos esgadanhado. Vamos mantê-lo debaixo de olho.

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Romeu e Julieta, happy end-3

por Naçao Valente, em 03.08.16

Romeu procura encontrar uma companheira. Depois de referenciada sente dificuldades na abordagem. Resolve  consultar cartomantes e astrólogos. Estes dão-lhe a receita para conquistar a sua amada: tem de ser afirmativo e proficiente sobretudo no sexo. Decide começar a sua aprendizagem com uma boneca insuflável... 

 

 

O T0 da periferia possuía uma sala com kitchenete. Uma porta janela sem cortinados dava acesso a uma pequena varanda. Romeu  subiu em passo apressado os dois lances de escadas que o levavam  ao seu apartamento. Atravessou a sala em direcção ao quarto, ansioso por experimentar o equipamento. O vendedor da loja informara-o que à boneca só faltava falar, o que para o efeito podia ser uma vantagem. No resto quase imitava uma tipa de carne e osso. Na sua concepção estivera a beleza de Cleópatra. Mas esclareceu-o que não há bela sem senão..Avisou-o que a ranhura se sofresse excesso de calor poderia bloquear. Dito de outra forma não podia ter uma utilização longa.

 

Depois de insuflar a sua Cleópatra, Romeu achou-a  um pouco anafada para seu gosto. A primeira tentativa de utilização correu mal. Colocou-se em cima da boneca mas esta deslizou fazendo-o dar um trambolhão da cama do que resultou ficar com algumas mazelas superficiais. A sua Cleópatra parecia ser do tipo arisco, pensou Romeu  ainda meio atordoado. Parou para avaliar a situação. Quando começou a ler as instruções percebeu que a engordara. Depois de lhe reduzir a celulite voltou à carga. Conseguiu finalmente ajustar-se  na perfeição. O treino estava a resultar. Sentia que começava a dominar a situação. Senhor de si esqueceu-se do tempo e esqueceu a advertência do vendedor. Quando quis parar estava preso à sua personal trainer. Quanto mais estrebuchava mais aumentava a sua prisão. Num segundo de lucidez descobriu que precisava de esvaziá-la. Mas como, se não tinha acesso à válvula de enchimento?

 

Romeu percebeu que precisava de um instrumento cortante. Não tinha nenhum à mão. Começou a deslocar-se para a kitchenet  com a boneca acoplada. Ao atravessar a sala tropeçou nos pelos da alcatifa e estatelou-se. Com esforço conseguiu arrastar-se até à kitchenet e agarrar uma faca de cozinha. Golpeou-a com  raiva até começar a emagrecê-la. Libertou-se. Só então reparou que não tinha descido os estores da sala. Tarde de mais. No apartamento gémeo situado em frente do seu um olheiro observava-o assustado

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Romeu e Julieta happy end-2

por Naçao Valente, em 01.08.16

II-continuação

 

No episódio anterior Romeu vive o dilema de lhe faltar uma cara metade. Desesperado resolve consultar uma cartomante que lhe traça um destino radioso e lhe dá alguns conselhos. Não fica totalmente esclarecido e resolve consultar um astrólogo.

 

Salte-lhe para cima 

 

Uma menina, mesmo menina, de longas e bem torneadas pernas, descobertas por uma espécie de saia que mal lhe cobria as generosas nádegas abriu-lhe a porta e recebeu-o com um sorriso carnudo de orelha a orelha. A coisa prometia pensou Romeu. "Sou Irene, muito prazer" enquanto estendia, num cumprimento, uma mão suave como seda que o deixou cheio de calafrios. "Espere um minutinho, o meu marido atende-o já." Irene empurrou uma porta, "mor está aqui o senhor Romeu". "Entre, disse o astrólogo". Entrou e viu na sua frente um cavalheiro de meia idade, gorducho, magro de cabelo, com reflexos de neve. "Está bem calçado o magano" foi a primeira ideia que lhe ocupou a mente. Feitas as apresentações, Hórus consultou um mapa astral de onde ia retirando cenários muito genéricos, mas todos promissores. No fim desta breve arenguisse, o discurso descambou para a actividade sexual, o que não estava desenquadrado . No fim Romeu reteve apenas a ideia que parecia faltar: "para conquistar e segurar uma mulher é preciso satisfazê-la sexualmente. Nunca use a técnica do coelho. Prolongue a acção durante bastante tempo...digamos que uma hora é o mínimo...para a deixar bem saciada." Pagou, despediu-se, reviu na saída a escultural menina mulher do cota Horus. Começou a achar sentido ao conselho do astrólogo " para conquistar e satisfazer uma mulher..." 

 

Romeu considerou que terminara a fase de consulta. Estava na hora de passar à acção. Mas sentia que antes de entrar no jogo a sério tinha de fazer alguma preparação. Tarefa que não se apresentava nada fácil. Por acaso lembrou-se de conversas com colegas nas horas mortas. Ouvira falar na Gruta do Amor, um estabelecimento clandestino onde se adquiriam artefactos sexuais. Nessas conversas tomara conhecimento da existência de bonecas insufláveis. Quando entrou na Gruta do Amor Romeu parecia um espião russo dos anos vinte. Ao espesso bigode acrescentara uma barba postiça, uns óculos de lentes grossas e um boné de pescador .Um tipo que parecia chupado das carochas olhou-o de soslaio e perguntou-lhe se podia ser útil. "Venho a pedido de um amigo que vive isolado saber se tem material insuflável." disse procurando disfarçar o tom de voz. Não pretendia pôr em causa a sua reputação de cidadão honesto e respeitador dos bons costumes. "Quer dizer imitação de gajas, feita de latex? Tenho aí material de primeira que até vibra e nunca se cansa.Tem preferência por cor? Tenho-as de todos os continentes e para todos os gostos."Tenho ainda as personalizadas que imitam tipas famosas. Aqui está o catálogo." Levo esta, disse Romeu, o meu amigo é admirador da Antiguidade, faça-me um embrulho discreto."

 

continua...

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Romeu e Julieta Happy End

por Naçao Valente, em 31.07.16

 


I A ocasião faz o ladrão
Romeu da Maia dirigia com eficiência a loja de eletrodomésticos, propriedade da família. Fruto proibido de uma relação contrariada da mãe, Eduarda da Maia, na juventude, nunca conhecera o pai biológico. O seu verdadeiro pai, que o educou e lhe abriu as portas da vida foi o marido da sua mãe, um empresário ligado ao grande comércio. Depois de ter regressado da guerra colonial onde se destacou como oficial miliciano, Romeu foi viver sozinho para um apartamento da periferia. No seu dia-a-dia despreocupado sentia contudo a falta de uma companhia feminina.
Em tempos, andara enrolado com uma colaboradora que o trocara por um comissário de bordo, cinquentão, que trabalhava numa empresa de aviação americana. Numa outra relação fora traído por uma escriturária da sua Companhia de Seguros que fora apanhada a sentar-se no colo do chefe de serviço. A promoção profissional ganhou-lhe aos pontos. Ainda chegou a ser abordado por uma quarentona divorciada, que o amassou num baile de fim de ano no velho Monumental, mas quando foi chamado a entrar ao serviço, acobardou-se, e deu de frosque.
Após várias desilusões amorosas, um dia igual a tantos outros mas tão diferente, embasbacou-se quando viu passar na frente da sua loja uma moça de fazer parar o trânsito. Foi paixão à primeira vista. Estava em pulgas para lhe chegar à fala, mas não arranjava maneira nem coragem. As más experiências pesavam como chumbo e manietavam-lhe a acção. Por mero acaso quando passava os olhos por uma página de um vespertino viu-se a ler anúncios de bruxas, videntes, astrólogos e outros vendedores de felicidade. "Se a sua vida anda enrolada, o professor Hórus dá-lhe a solução" ou " as cartas da menina Lobélia solucionam todos os problemas de amor" entre muitos outros. Romeu encheu-se de coragem e tomou a decisão: “vou consultar a cartomante."

Continua

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A menina das análises

por Naçao Valente, em 25.08.14

Fazer análises de sangue, especialmente o vulgar hemograma, é hoje uma prática generalizada. É uma coisa tão corriqueira que não merece enquanto experiência individual uma linha mal alinhavada. Só mesmo uma mísera falta de assunto ou de engenho para o abordar, associada a uma vã glória de escrever umas loas a qualquer preço as faz assunto de crónica.

 

Entre os fazedores de análises há os normais que as fazem como quem vai tomar uma bica e os cagarolas que tremem só de as imaginar. É o meu caso. Ou melhor era o meu caso, porque tudo na vida é feito de mudança. E o meu horror a agulhas rasgando-me a epiderme, furando-me a veia e vampirizando-me o sangue, mudou de uma forma acidental. Tudo começou quando a minha velha doutora analista, em boa hora,  se reformou. Boa profissional, meticulosa muito trabalhadora sem dúvida. Tão trabalhadora que ganhou artroses a espetar agulhas, estragou os olhos a espreitar para dentro de microscópios, arruinou o sistema respiratório a snifar estranhos reagentes. Se alguém merece um prolongado descanso é a minha velha analista.

 

No laboratório onde me sujeitei há tortura das agulhas está agora uma nova doutora analista. Nova na total acepção da palavra. Mas chamar-lhe doutora, com aquele palminho de cara e aqueles olhos capazes de encantar passarinhos não me parece apropriado. Doutora é um termo ou chavão que fica bem a pessoas com ar soturno. A minha nova analista não merece esse castigo. Por isso vou chamar-lhe simplesmente menina das análises. 

 

Quando me sento naquela cadeira começo de súbito a tremer. Começo não, começava. Agora fixo-me na candura da minha menina analista que me pergunta qual anjo do paraíso:

-Está a sentir-se bem?

-Estou, estou mesmo muito bem, respondo com a máxima sinceridade. Perturba-me é olhar para o sangue. Não se importa que olhe para si...

- Pode olhar, diz com uma sua voz capaz de redimir um pecador, olhar não tira pedaço.

- Tirar não tira digo em silêncio, mas vontade não me falta, falta-me é coragem.

A última sensação que retenho é a dos dedos delicados a percorrer-me o braço para encontrar a veia. Ao fim de algum tempo ouço de novo a sua voz:

-Pronto já está!

-Já está?

Nem agulha a romper-me a veia, nem seringa a sugar-me o sangue. Apenas sensação de que o que é bom acaba depressa.

. É estranho, mas agora não me importo de fazer análises. E digo sem ironia: até as faria todos os dias, de bom grado, como uma penitência.Talvez ainda bole uma estratégia para convencer o meu médico a fazer das análises uma espécie de terapêutica continua. Sim porque a menina das análises é seguramente mais de meia cura pois se  Deus nos brinda com criatura tão angelical é porque só quer o nosso bem. E até deixei de ter pesadelos com profetas do Apocalipse, tipo Medina Carreira, porque agora estou convicto que estes demagogos da desgraça são seguramente enviados do demo. Estes e a corte de aprendizes de mafarrico que nos sugam até ao tutano e ainda nos querem roubar a alma. Mas não hão-de conseguir, porque com a menina das análises no pensamento sou invencível.

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A lição de Mandela

por Naçao Valente, em 18.07.14

 

Hoje, dia 18 de Julho, é o dia Internacional de Nelson Mandela. Se há alguém que merece esta homenagem universal é este cidadão e símbolo do humanismo. Mandela disse um dia:  "Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor da pele, origem ou religião dela". A noção de raça e religião são adquiridos ou melhor impostos pelas superstruturas políticas e culturais. São uma aberração criada pela natureza humana, uma exponenciação da sua faceta egoísta. E são responsáveis pelo desrespeito pelos direitos humanos.

Com esta afirmação, mostra ser uma mente superior, um ser que na cadeia evolutiva está muito à frente de muitos dos seus semelhantes. O exemplo que nos deixou foi ter a capacidade de perceber que o aperfeiçoamento da humanidade se faz pelo amor e não pelo ódio. A sua grande lição é que para além da cor da pele, somos todos humanos. A sua acção comprova que as religiões devem unir e não desunir. A sua luta contra a descriminação foi feita para que ela deixasse de existir. Nessa longa batalha despiu a cor da sua pele. Não renegou a matriz que marca todos os recem nascidos. Permaneceu para sempre criança. Só por este caminho se fará um mundo melhor. 

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Poema de verão

por Naçao Valente, em 01.07.14

 Fosse eu Sol

ou fosse vento,

nos teus braços

me acolhia,

e no calor do

abraço

encantado

adormecia.

 

Se fosse azul

de céu,

fosse mar

ou maresia,

nos teus olhos

me afogava

nos teus olhos

renascia.

 

 

Se fosse duna

e areia,

onda  praia

e calor,

me enroscava

no teu corpo

contigo fazia

amor.

 

Se luz fosse,

escuridão,

fosse noite

fosse

dia,

me deitava

no teu sono

e no teu sonho

vivia.

 

MG

 

 

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Estupidamente apaixonado

por Naçao Valente, em 23.05.14

Porque é que te dei a minha mão

dinheiro talvez

nem eras a minha grande paixão

e bem o vês

foi um casamento de conveniência

mas que deu certo

tiveste comigo enorme paciência

no longo deserto

 

Não acreditas-te que te queria deixar

acarinhaste-me

e quando o homem do norte me quis levar

as mãos me untaste

eu aceitei com alegria tanta generosidade

 e muito agrado

pra compensar as economias que me levou

o banco privado

 

Estupidamente apaixonado

garanto que não é ganância

quero ficar sempre a teu lado

e já esqueci amor de infância

Estupidamente apaixonado

demorei mas dei-te um tri

não quero ir pra outro lado

sinto-me bem ao pé de ti

 

Eu sempre tive a mala feita

 bem recheada

mas não te faço essa desfeita

para nada

acredita no meu amor eterno

SLB

só dou o meu carinho terno

a você

 

Estupidamente apaixonado

consegues ser a minha luz

 reneguei o meu pecado

 e por amor sou Jesus

Estupidamente apaixonado

ai! como é louca esta paixão

nada me leva a outro lado

prendeste-me o meu coração

 

MG

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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