Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]





Comentários recentes

  • Partebilhas

    Gostei deste seu texto.Muito bem observado. Na rea...

  • Naçao Valente

    Que não seja uma roletae que haja muita alegriaum ...

  • poetazarolho

    Vem aí um ano novoVelho já no conteúdoPara ilusão ...

  • Kruzes Kanhoto

    Presidente da Republica é um cargo decorativo. Ser...

  • simplesmente avô

    Talvez seja preferível "cem anos de solidão" a cem...





Crónica de um enxovalho anunciado

por Naçao Valente, em 21.03.16

 

No dia em que o iam enxovalhar Donjoão Estevens levantou-se como sempre às seis da manhã, vestiu a sua farda de caqui de cabo dos cantoneiros e dirigiu-se à cozinha onde a sua fiel mulher Perpétua já lhe preparara um quente café de cevada, a que sempre juntava umas sopas de pão trigo.

Acabada esta frugal refeição matinal, Donjoão verificou o estado da sua bicicleta. Despediu-se da mulher com um até logo sussurrado para não acordar os filhos que ainda dormiam o sono dos inocentes. Perpétua pediu-lhe como sempre que tivesse cuidado e recolheu-se à sua vida doméstica de esposa dedicada e mãe extremosa, capaz de calar e sofrer em silêncio a existência da outra, da puta como dizia de si para si, que com ela partilhava o corpo atlético do pai dos seus filhos.

Enquanto pedalava a sua bicicleta pela sinuosa estrada da serra, num sobe e desce carrocélico que parecia não ter fim, até chegar ao local onde os seus homens arranjavam as bermas ou remendavam o áspero alcatrão, Donjoão pensava em Rosaflor e no seu cheiro a urze brava.

No dia em que iam ser enxovalhados, Rosaflor dedicada e extremosa mãe solteira levantou-se aos primeiros raios de sol para preparar um almoço bem condimentado para o homem que dividia com a outra, a legítima e imaculada esposa. Acordou o filho, sem pai, e aviou-lhe a merenda que havia de levar para a escola da aldeia. Pôs um xaile nos ombros e dirigiu-se à venda do João Cabreiro. Enquanto fazia deslizar o seu corpo roliço pelas poeirentas ruas do monte pensava em Donjoão e um cheiro a forte a eucalipto perturbou-lhe os sentidos. Quando entrou na venda Já alguns madrugadores sugavam de funílicos copos o mata-bicho matinal.

- Senhor João pode aviar-me um litro de vinho - disse entre-dentes

João pegou no garrafão de palhinha que despejou numa medida de lata, devidamente aferida, enquanto Rosaflor tirava, sorrateiramente de debaixo do avental de chita uma garrafa que deu a o senhor João para depositar o tinto da sua ignomínia.

- Ponha na conta, se não se importa

-Sim, ti Rosaflor -respondeu o vendeiro - mas tenha cuidado, não exagere que esse pode trazer-lhe problemas.

Os devoradores de aguardente, olharam de soslaio para Rosaflor, enquanto aspiravam pelas goelas sequiosas o último gole do matinal mata-bicho. Num canto escuso, Gabriel G. Marques, meio irmão de Rosaflor por parte de pai, capador de porcos, vendedor de literatura de cordel e grande contador de histórias , disse para quem teve ouvidos para ouvir.

-Hoje vou xaringar esse filho de cabra mal parida. Vou tirar-lhos da gaiola – rosnava ao mesmo tempo que limpava na perna das calças a sua faca de contracepção por método natural.

-Não podes fazer isso no dia em vamos ser visitados pelo nosso Presidente. É uma desonra para toda a gente honesta e laboriosa da nossa aldeia - retorquiu João Cabreira.

Gabriel G. Marques, meio atarantado e algo titubeante pareceu recuar na sua intenção de vingar a honra da família, mas depressa se recompôs e qual vítima acossada das suas histórias, argumentou com toda a prosápia:

-Vou respeitar a presença de sua Excelência, o mais alto magistrado desta nação nobre e valente, mas quando ele se retirar para o seu palácio, acabo com a futura descendência daquele cão danado.

Rosaflor trabalhava na casa de um lavrador para poder criar o filho. Nunca se soube quem a emprenhou quando era ainda muito jovem. Dizia-se que um forasteiro a tinha seduzido num baile de fim das colheitas. Havia quem os tivesse visto sair afogueados a meio da noite, vendo-os desaparecer por entre as estevas. Havia quem jurasse a pés juntos que fora o filho do lavrador onde ia sempre fazer a monda,  que numa manhã fresca de Primavera este lhe tirara a honra no meio dos trigais. Mas a verdade, ninguém a sabia.

No dia do seu suplício Donjoão reuniu os cantoneiros de diversos cantões para fazer uma limpeza geral da estrada sob sua jurisdição. Sua Excelência o senhor Presidente da República ia utilizá-la para fazer uma visita ao bom povo português das terras esquecidas.

Acabado o trabalho, os cantoneiros pegaram nas suas ferramentas e dirigiram-se para junto da povoação a fim de aclamar sua Excelência. Quando avistaram as primeiras casas já uma pequena multidão se acotovelava para conseguir o melhor lugar. À frente do povo, nas suas melhores vestes domingueiras, estavam o Presidente da Junta e o senhor Regedor: Os cantoneiros sob o comando do seu cabo, perfilaram-se na berma para com as pás e as picaretas, à falta de melhor material, para fazerem a guarda de honra.Com ar carrancudo e um pouco comprometido chegou Gabriel G. Marques . Todos os olhos se viraram e reviraram para o infeliz cabo Estevens. O povo cheirava caso, e esperava mudo, o desenlace da tensão. Mas de repente, surgiram na curva da estrada, os primeiros carros da comitiva Presidencial e todos se perfilaram para receber o senhor Almirante. Os carros abrandaram, mas continuaram serenamente a sua marcha. Na janela de uma viatura, um senhor sem cabelo e vestido de marinheiro, esboçou um sorriso na cara de pau e acenou para os assistentes que o olhavam boquiabertos. Num ápice a comitiva desapareceu noutra curva da estrada. O povo e os seus representantes debandaram desiludidos, cabisbaixos e sem dizer palavra.

Os aldeões regressavam a suas casas, com os chouriços, os presuntos e as gordas frangas que deviam presentear o senhor Presidente. O cabo Estevens despediu-se dos seus cantoneiros, montou a sua bicicleta e pedalou ansiosamente para casa de Rosaflor. Um dos seus homens ainda tentou avisá-lo do que lhe ia acontecer, mas não teve coragem. Gabriel G. Marques seguiu-o, cambaleante de muito bagaço. Alguns populares largaram ali mesmo as aves do Presidente e como uma tropa desordenada foram atrás do capador.

Quando o sol estava quase a esconder-se atrás dos montes mais altos, Donjoão Estevens desmontou a sua bicicleta de metal junto do quintal de Rosaflor e entrou directamente para a cozinha, onde já se sentia o odor a temperos campestres do jantar que iria compartilhar com a sua amante. Pouco depois chegou exausto pela marcha forçada em duas patas Gabriel, o capador, que perdeu o seu primeiro objectivo: esperar a sua vítima à entrada da casa do perjúrio.

Desorientado, dirigiu-se ao poço público de onde retirou um balde de água. Com o balde numa mão e faca na outra caminhou apressado para a a casa da vilipendiada irmã, gritando para que todos o ouvissem:

- O coelho escapou-me, mas vou tirá-lo da toca…

Quando o cabo Bonito (apenas de nome)da Guarda Nacional lhe perguntou porque tinha praticado tal acto, Gabriel G. Marques alegou defesa da honra da família e abuso de uma mulher só e desprotegida. O Bonito olhou-o com um ar perspicaz e pensativo. Depois tirou do dedo a aliança de casamento e colocou-a à frente do Estevens, pedindo-lhe para enfiar nela o seu dedo. O cabo bem tentou fazê-lo embora sem perceber a intenção, mas não conseguiu porque sempre o Bonito lha retirava do seu raio de acção. Então, como se diz, nos autos, o interrogador concluiu que nessas coisas de fornicação a responsabilidade é mútua. Perguntou-lhe ainda se estava arrependido do que tinha feito ao que o acusado respondeu com altivez, dizendo que obviamente (palavra que gostava de utilizar desde a última campanha eleitoral) voltaria a defender a sua honra. O cabo Bonito perdeu a sua compostura militar, desenrolou o cavalo marinho e descarregou-o com toda fúria no lombo de Gabriel Marques, afirmando com ar ameaçador “ se voltas a tocar num pelo de um servidor da nação”, prendo-te como comunista e mando-te para o presídio de Peniche. Gabriel Marques assustou-se e balbuciou “isso não ,isso não”

Rosaflor disse no interrogatório ao cabo Bonito que não confirmava, nem desmentia o sucedido, frase que depois entrou no argumentário nacional sempre que não se quer falar de um assunto incómodo.

Já o Regedor confirmou que fora informado que o Marques queria capar o Estevens, mas que lhe tirara a faca a tempo de isto não se concretizar, como era seu dever de autoridade da nação.

João Cabreira, o vendeiro, afirmou que ouviu Marques fazer a ameaça, mas nunca acreditou que a cumprisse, pois até como capador de porcos “deixava muito a desejar”.

Quando Estevens entrou na casa onde ia ser enxovalhado Rosaflor corrigia os temperos da cabidela, enfiada numa camisa de nylon transparente e ao senti-lo aproximar-se disse:

- A carne está quase cozida….

- …Eu agora prefiro carne crua, retorquiu o Estevens, ao mesmo tempo que a agarrou e atirou para cima da cama de ferro forjado que estava ao lado da chaminé.

Gabriel G. Marques subiu para o muro do quintal com o balde na mão e a seguir alcandorou-se para cima do telhado de caniço.

Estevens e Rosaflor rebolavam na cama, tal e qual como quando saíram da barriga das mães, indiferentes a todo o bulício que vinha do exterior.

O capador, conhecedor da casa, percorreu com patinhas de gato o telhado até ao sítio pretendido, levantou umas telhas e despejou o balde de água fria em cima dos dois acalorados amantes, que primeiro sentiram um arrepio por todo o corpo e depois olharam para o tecto apavorados, enquanto Gabriel Marques .sussurrava entre-dentes:

-Vou-tos tirar grande filho da puta.

Rosaflor empurrou o amante para fora da cama, balbuciando.

-Foge, Donjoão, senão este tarado ainda te capa.

Estevens saiu apressado, montou a sua bicicleta sem a sua farda de funcionário da República e pedalou com toda a força que as suas pernas, só protegidas por frondosos pelos, conseguiam aplicar.Gabriel Marques saltou do telhado com a faca de capador nos dentes e correu atrás do ciclista amancebado, mas as suas pernas não o conseguiram acompanhar. Parou para não deitar os bofes pela boca, de onde já caíra a faca, dizendo com voz arrastada: um dia ainda te limpo o sebo.

O da bicicleta continuou freneticamente a pedalar, escondendo as suas vergonhas do escuro da noite e da faca afiada do capador falhado.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)





Comentários recentes

  • Partebilhas

    Gostei deste seu texto.Muito bem observado. Na rea...

  • Naçao Valente

    Que não seja uma roletae que haja muita alegriaum ...

  • poetazarolho

    Vem aí um ano novoVelho já no conteúdoPara ilusão ...

  • Kruzes Kanhoto

    Presidente da Republica é um cargo decorativo. Ser...

  • simplesmente avô

    Talvez seja preferível "cem anos de solidão" a cem...